Revista Contracampo - n.2 ISSN:1414-7483 |
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Comunicação, história, filosofia |
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Luis
Costa Lima – PUC/RJ A maneira mais direta de abordar o tema desta
palestra consistiria em um exame das inter-relações entre comunicação,
história e filosofia. Este exame observaria qual a especificidade de cada
uma, assinalando suas divergências e convergências. Assim, se para a
comunicação o específico consistiria na ênfase no relacionamento entre
os meios emissor e receptor, daí no aparato técnico e socioeconômico
que cerca cada um desses meios, suas possibilidades e condicionamentos,
visando-se, por fim, estabelecer o sistema peculiar dos media, em certo lugar e tempo, se para a história o específico estaria nas
manutenções e mudanças ocorridas, na escala do tempo, em um objeto histórico
de tamanho variável - uma vida, uma instituição, uma nação, uma época
ou mesmo uma longue
durée, já para a filosofia o empenho específico estaria na reflexão
compreensiva do Ser e do Estar, do sentido, não-sentido ou da
possibilidade de fazer-se sentido com o mundo e a criatura humana. Ao escrever esta primeira formulação, percebi que o que
me parecera a maneira mais direta de abordagem na verdade
imporia ou um desfile de
generalidades ou tamanha abstração que, no primeiro caso, o tédio logo
se instalaria e, no segundo, a interação desejada com o público quase
de imediato seria rompida. Fui então forçado a optar por outro caminho.
Tratarei de apresentar a descrição esquemática de um quadro, La Tempestà, do
renascentista veneziano Giorgione (ca. 1477 - 1510), para que, a partir de
um solo concreto, possa vir a meu tema. Em nossa descrição, estará
evidente a influência da leitura de um ensaio de Louis Marin, Les
fins de l’interprétation, ou les traversées du regard dans le sublime
d’une tempête, originalmente publicado em 1981 e há pouco
reeditado (in De la représentation,
1994). Duas cenas integram o quadro. A primeira, no plano de
fundo, apresenta a vista de uma cidade, que se estenderia para aquém do
quadro, coberta pelo clarão de um relâmpago. Todas as portas estão
cerradas, assim como o parapeito da construção à direita, próxima à
ponte, não mostra vivalma. O único ser vivo na cidade é o pássaro,
que, sobre a construção referida, indiferente, aguarda a tempestade.
Menos distante do plano de fundo, uma ponte atravessa o rio, cujas águas
se escurecem com a sombra projetada pelo plano e pelas pilastras da ponte.
Pelo ângulo com que são vistas, na extremidade direita, as pilastras se
desdobram em duas. As sombras aí concentradas inquietam a espera. Mas há
uma espera? O que equivale a perguntar: há bem uma tempestade que se
precipita, no bojo da qual a ausência de criaturas humanas indicaria seu
receio e busca de proteção ou, como se pergunta Marin, não seriam os
sinais da tempestade “a armadilha do quadro, a armadilha que defende seu
segredo?” (Marin, L: 1981, 195). Adiante da ponte, sobre as margens, troncos e folhagens
preparam o primeiro plano. Mas as margens não são idênticas. À
esquerda, a construção mediana ao quadro figura uma cabeça colossal e
petrificada, assinalada por dois olhos, sobrancelha e nariz descomunais.
Um pouco à frente, quase no centro, duas colunas cilíndricas e quebradas
se apóiam
em um pedestal em ruínas.
Na emblemática renascentista, dizia o crítico de arte Edgar Wind em seu
livro dedicado ao quadro, “uma coluna quebrada era um emblema corrente
da Fortezza”.
Mais não seria importante considerar que aqui se trata de dupla coluna,
em sua duplicidade relacionada com a dupla pilastra próxima à maior
concentração das sombras no rio e com os olhos pétreos da construção
à esquerda? Essa figuração do duplo sentido de fortaleza, construção
militar e capacidade humana de resistência? E não seria essa ambigüidade
a base constitutiva do próprio quadro? Antes de indagá-lo, cabe
perguntar: de que duplo se trata? Que sentido poderia ter ele? Antes de enfrentar as interrogações e como maneira de
prepará-las notemos que a inquietação provocada pela tempestade e
aumentada pelas sombras projetadas pela ponte ainda crescerá ao virmos ao
primeiro plano. Duas figuras a constituem. À esquerda, um soldado monta
guarda. Ele olha para o promontório da outra margem, onde uma mulher
semidesnuda amamenta seu filho. Ele a olha mas não é por ela visto. Da
mesma maneira, a mulher olha para diante do quadro e assinala o lugar em
que se situa a mirada do espectador. Como escrevia Marin: “[...] Eu que
não sou representado por e no quadro, eis-me visto por uma de suas
figuras, enquanto que o homem, na extrema esquerda, na interminável
presença do quadro, é invisível à mulher à direita [...]. Neste jogo
de olhares a três, há assim sempre um terceiro invisível aos dois
outros” (Marin, L.: idem, 188). O soldado que vê e não é visto (pelo
espectador) é o “representante da representação” (Marin), ao passo
que a mulher é a “figura de reflexão que é o próprio quadro”
(Marin, L.: idem, ibidem). É essa troca de olhares que não se encontram, nesse
desencontro em que há sempre um terceiro invisível, que devemos
enfatizar. Encontro e simultâneo desencontro, o visível (o representado)
que encaminha para o invisível (o espectador) e o invisível que é
assinalado pelo visível. Eis o duplo
que se tematiza. Será então justo dizer-se que a pintura é “este
dispositivo de inscrição da pulsão de ver” (Marin, L.: ib., 190),
desde que se tenha o cuidado de acrescentar o que ainda deriva da descrição
do quadro: pulsão de ver que, não se vendo a si própria, implica a
interminabilidade da interpretação, ou seja, o seu constante fracasso.
Pois que é a interpretação senão o ver pelo intérprete da representação-apresentação
de um texto, pictórico, verbal ou musical, que o prevê e não determina
o intérprete, que o inclui e exclui? Derivam daí três conseqüências: (a) a interpretação
é uma necessidade que, entretanto, não se esgota. Conhecer este seu
estatuto é indispensável para que ela não seja tida como parte de
alguma ciência particular, pois é próprio de uma ciência, ao menos das
chamadas ciências “duras”, pretender esgotar seu objeto, apreender
sua estrutura. Isso, de sua parte, nos leva à primeira caracterização
do objeto de arte: (b) seu fascínio é dependente da pluralidade inexaurível
de seu texto. Dessa segunda conseqüência é extraível uma terceira: (c)
a inexauribilidade de sentidos que caracteriza o objeto de arte vivo o
diferencia do mistério, situação em que ele seria o correspondente
leigo do segredo religioso. E isso porque, enquanto o mistério supõe a
indecifrabilidade de desígnios de uma divindade, a inexauribilidade do
sentido da arte viva significa apenas que a arte configura um discurso não dotado de uma dimensão semântica última, definida e
estabilizadora. Quando esta existe, a interpretação não é uma
necessidade que inevitavelmente fracassa;
ao contrário, ela se torna algo que tem êxito
à medida que atinge o núcleo final de seu objeto. As conseqüências há pouco extraídas nos permitem
agora dizer que a arte caminha no sentido oposto ao da ciência, cuja eficácia
deriva da redução da complexidade do objeto ou fenômeno e na apreensão
do código ou da lei que o subsume em uma generalidade. O exemplo da arte parece então digno de ser considerado
no momento em que nos
encontramos. Não se trata de tomá-la com esteio contra a ciência, de
então converter a arte no meio de resistência contra a tecnologização
do planeta. Fazê-lo seria uma ingenuidade atroz e inconseqüente.
Trata-se sim de mostrar que, na indagação do homem e do mundo,
precisamos saber contar com o
modelo de discurso que indica os limites da ciência. Que dele precisamos seja porque o mundo é mais complexo do que as técnicas
de lidar com ele, seja porque, como no começo de nosso século já
mostrava Weber, a ciência não dá
sentido aos objetos que manipula. O desencanto do mundo que ela opera
afetou de início o próprio sentido religioso das cosmovisões pré-modernas.
A liberdade que tal desencanto implica significa o esvaziamento da proibição
que cerca os mistérios, em cujas fronteiras se lê a interdição:
“sobre isso não indagarás”. Mas essa liberdade se converte em
banalidade e ignorância quando supomos que ela é em todos os campos passível
de instrumentalidade, i.e., de descoberta dos códigos, leis e normas a
que todos os objetos estariam subordinados. A ciência tem um limite
vertical - ela não constitui sentido, no máximo já supõe um sentido
que privilegia certos objetos ou estados. Assim, por exemplo, a medicina já
supõe que a vida tem sentido e que, portanto, é precioso preservá-la, não
lhe cabendo indagar-se quando este sentido não tem sentido. E tem ainda
um limite horizontal: ainda que haja ciências estabelecidas sobre a arte,
não há uma ciência da arte.
Se houvesse, a interpretação da arte se
submeteria a normas e não seria inexaurível. Isso posto, que podemos agora dizer sobre o que deveria ter sido o tema de nossa palestra? A identificação da história e, mais recentemente, da comunicação social como disciplinas tem dependido de serem elas entendidas com práticas científicas. (Afirmar o contrário pareceria, ao menos do ponto de vista das instituições de fomento à pesquisa, desqualificá-las). Não dizemos que o afã de cientifizá-las seja errado, senão que não dá conta de seus objetos. Pois, para que fossem disciplinas científicas, seria preciso que seus objetos tivessem uma homogeneidade semelhante ao das ciências “duras”. Portanto que esses objetos fossem passíveis de um puro tratamento quantitativo. Pois, voltando uma última vez ao exemplo da arte, o fracasso a que toda interpretação do objeto de arte está votado não significa outra coisa senão a constatação da resistência da qualidade desse objeto às propostas de quantificação. Ou seja, no caso das ciências humanas, às propostas de explicá-lo pelo exame de seus condicionamentos histórico-sociais, julgados determinantes, i.e., suficientes para explicá-lo. Isso, conforme se dizia acima, não significa confundi-la com o culto do mistério. Essa resistência da qualidade, própria ao objeto da arte, não só a singulariza como é passível de dar outro sentido à própria atividade científica: ao mostrar para o cientista o limite de sua indagação, não só rompe com a ingenuidade dos que se contentam com a quantificação, como o estimula a procurar novas formas de tratamento de seus objetos. Assim o inevitável fracasso da interpretação deixa de se confundir com uma marca negativa. |