Ciberlegenda Número 10, 2002

 

ALGUMA PROPEDÊUTICA SEMIOLÓGICA(1)

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                                                            Latuf Isaias Mucci

                                                            proflatuf@saquarema.com.br

                                                                        proflatuf@uol.com.br

 

                                           

 

Resumo: Dentro de uma perspectiva epistemológica, este texto propõe uma reflexão liminar sobre a semiologia, a partir da própria nomenclatura: falar “semiologia” ou “semiótica” implica significações, fincadas em pressupostos e fundamentos diferenciados.

 

Palavras-chave: Epistemologia; Semiologia; Semiótica.

 

Abstract: In a epistemological perspective, this essay aims a preliminary reflection on semiology, from the nomenclature: to say “semiology” or “semiotics” means diferent significations, based on different foundations.

 

Key-words: Epistemology; Semiology; Semiotics.

 

“Hoje, só os métodos podem chamar a atenção, e estes estão  surgindo em tamanha quantidade que o próximo passo seguramente será descobrir um método. E isso só pode surgir de uma teoria do método da descoberta”.

                                        C.S. Peirce, Collected papers, 2108.

 

            De acordo com a clássica definição filosófica, a epistemologia ou, ainda, teoria do conhecimento, ou gnoseologia – investiga a natureza e os graus do conhecimento, respondendo a questões, tais como:  o que podemos nós conhecer? como conhecemos? Portanto, o conhecimento constitui o tópico principal da epistemologia. Embora justapostos, quatro grupos principais de questões circunscrevem o corpus da teoria do conhecimento: sua origem, sua natureza, seus tipos, o que é conhecido. Dentro da perspectiva epistemológica, visa este texto a uma reflexão liminar sobre a semiologia, considerada em seus fundamentos.

            O que funda uma ciência? Se, como ensina a Bíblia, designar é criar (“fiat lux!”), ou, como postula Drummond, o Poeta, “nomear é possuir”, há que se buscar, na designação da ciência semiológica, a sua fundamentação.

            Como falar: semiologia ou semiótica? Essa nomenclatura designa, grosso modo (mas há, também,  uma delicadeza dos signos), a ciência dos signos e dos sistemas significantes (lingüísticos ou não-lingüísticos, como o teatro, o cinema, os ritos etc.); podemos, também, de maneira geral, enunciar que uma mesma diligência dissimula-se por detrás das diferentes denominações de “semiologia” e “semiótica”, oposição fundada, primeiramente, em razões históricas: o filósofo americano Charles Sanders Peirce (1839-1914) e o lingüista suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913) conceberam, simultânea e independentemente (em sincronicidade, diria Jung – 1875-1961), um estudo dos sistemas de signos, e, de um modo mais geral, um estudo dos sistemas de significação, nomeado “semiotics”, pelo fundador do pragmatismo estadunidense, e “semiologie” pelo mestre genebrino. Por outro lado, alguns estudiosos, como A  Greimas,  lituano, e J. Courtés, francês, propõem designar-se por “semiótica” a ciência dos signos concernente a um domínio particular (cinema, literatura, por exemplo) e de fazer da “semiologia” a “teoria geral de todas as semióticas particulares” (GREIMAS e COURTÉS, 1999, 405-408). Já outros teóricos reservariam o termo “semiologia” aos objetos lingüísticos e o vocábulo “semiótica” aos objetos não-lingüísticos; para uma outra corrente de pensadores, a semiologia corresponderia às ciências  humanas, ao passo que a semiótica teria como objeto as ciências do natureza. Se é incerta, talvez competitiva, a distinção entre semiologia e semiótica, pode-se observar que a designação “semiologia” diz respeito, sobretudo, aos trabalhos de Saussure e por ele inspirados, enquanto que o significante “semiótica” é mais utilizado pela tradição anglo-saxã, veiculando-se, amplamente, na cultura pós-moderna por força mesmo da hegemonia norte-americana. Ponderam Greimas e Courtés:

 

Essas sutilezas terminológicas, aparentemente fúteis, parecem-nos, entretanto, necessárias para servir de ponto de referência, porque permitem situar as opções fundamentais que presidiram à  diferenciação progressiva entre a semiologia e a semiótica (GREIMAS e COURTÉS, 1999, 406).

 

            Derivando do grego semion, traduzido, em vernáculo, por “signo”, a semiologia estuda os signos em sua produção, transmissão, interpretação. Embora se constitua um fenômeno dos inícios do século passado, esse estudo dos signos traça uma “pré-história”, na medida em que suas origens remontam muito longe, aos primórdios da filosofia ocidental, em sua gênese grega. Basta  referir o Órganon aristotélico, a distinção estóica entre significante e significado, a pedagogia e a teologia de Santo Agostinho (354-430), os tratados dos modistas (gramáticos especulativos, expoentes de um endereço da filosofia da linguagem: Martino di Dacia, Boécio di Dacia, Sigieri de Courtrai, Tomás de Erfurt), nos séculos XIII e XIV, a filosofia da linguagem de Port-Royal (1662) – A. Arnauld, P. Nicole. No albor da idade moderna filosófica, conhece a teoria dos signos um longo período de gestação: John Locke (1632-1704) dedica a última parte de seu Ensaio sobre o intelecto humano (1690) à “semiótica”, entendida como doutrina dos signos e, sobretudo, dos signos mais comuns: as palavras. Seguindo o exemplo desse filósofo inglês, Jean-Henri Lambert (1728-1777), filósofo franco-alemão preocupado com a teoria do conhecimento, dedica parte de seu Novo órganon (1764) à semiótica, entendida como doutrina do conhecimento simbólico, em geral, e da linguagem, em particular. Estreitamente ligada à gnoseologia, esta semiótica tem seus seguidores no Oitocentos, como o Padre Bernhard Bolzano (1781-1848), matemático e filósofo austríaco, com sua Doutrina da ciência (1837), em quatro volumes, e o filósofo Edmund Husserl (1859-1938), cuja obra A lógica dos signos, de 1890, só veio a lume em 1970.

            Ligando-se à tradição da semiótica filosófica dos dois séculos que o precederam, Peirce lança as bases da semiótica como disciplina autônoma. O estado fragmentário de seus escritos, publicados postumamente (Escritos recolhidos – 8 volumes, 1931-1958), tornou e torna ainda difícil uma plena recepção de sua obra de pioneiro. Entre os  aspectos mais importantes de sua teoria, vale lembrar: a noção de “interpretante”, como um signo que interpreta um outro signo, e a tripartição dos signos: índice, ícone e símbolo (segundo se opere uma relação de contigüidade, de similitude ou de pura convencionalidade entre o signo e o referente). A Peirce liga-se Charles Morris (1901-1979), filósofo americano, autor, entre outros livros, de Fundamentos de uma teoria dos signos (1938) e de Signos, linguagem comportamento (1946). A originalidade de Morris reside, principalmente, em ter ele tentado uma síntese entre a instância pragmatista e os aspectos da análise lingüística elaborada pelo neopositivismo. Conforme Morris, podem os signos ser estudados sob três diversos pontos de vista: o semântico, isto é, em relação com o referente; o sintático, em sua relação de combinação recíproca; o pragmático, em sua relação com o uso.

 

            Independentemente dessa semiótica de viés lógico-filosófico, Saussure projeta, no seu Cours de linguistique générale, postumamente editado em 1916 (outra sincronicidade une Peirce e Saussure: trabalhos publicados post mortem; note-se que outros pensadores-fundadores jamais escreveram livros: Buda, Sócrates, Jesus Cristo, Maomé. Será o destino da letra  cristalizar ou “matar”? Serão as leituras e escrituras posteriores traições ao pensamento-fundador?), uma ciência de que faz parte a lingüística: a semiologia, que tem a tarefa de estudar “a vida dos signos no quadro da vida social”. Muitos conceitos e teorias da lingüística sincrônica de Saussure (a noção de língua como “sistema de diferenças”; a teoria do signo como entidade bifacial, composta de significante e significado; a dicotomia “paradigma/sintagma”) assumem um relevo semiológico geral. Assim, grande parte  do trabalho dos estruturalistas, que, de um modo ou de outro,. pagam tributo a Saussure, pode ser lida, também, na relação do problema da possibilidade de estender os conceitos e as teorias do mestre de Genebra à semiologia geral. Contributos de tal sentido elencam-se: a teoria da conotação do lingüista dinamarquês Louis Trolle Hjesmslev (1899-1965), promotor do círculo lingüístico de Copenhagen (parece que a pesquisa da língua gosta de círculos: Círculo lingüístico de Praga, Círculo lingüístico de Moscou: serão círculos viciosos ou círculos virtuosos ou círculos de virtuoses?); a teoria dos fatores da comunicação do lingüista russo Roman Jakobson (1896-1982) e a teoria da dupla articulação (sincronia/diacronia, forma/conteúdo) do lingüista francês André Martinet. Mais tarde, a semiologia, de inspiração saussuriana dividiu-se em duas grandes correntes:  a primeira, que tem como chefe de fila E. Buyssens e de que são representantes de primeiro plano G. Mounin e, sobretudo, o argentino Luis Prieto, autodefine-se “semiologia da comunicação” e dedica-se às análises daqueles sistemas de signos fortmente codificados, em que a intenção primária é comunicativa (além das línguas “naturais”, os sinais de trânsito, os sinais marítimos, os alfabetos Morse e Braille, vários tipos de enumeração, por exemplo):

 

             Do lado do que se poderia chamar a semiologia dos lingüistas, todos os pós-saussurianos, Troubetzkov, Buysses, Martinet, Prieto, insistiram  fortemente no caráter da língua como sistema de comunicação, que não estava implícito no Curso. Constituiram sobretudo Buyssens e Prieto  as bases sólidas de uma semiologia que seria principalmente a descrição do funcionamento de todos os sistemas de comunicação não-lingüística, desde o cartaz até o código da estrada, desde os números dos ônibus ou dos quartos de hotel até o código marítimo internacional dos sinais por bandeiras (MOUNIN, 1971, 11-12).

 

A segunda corrente, ou “semiologia da significação”, cujo representante mais ilustre é Roland Barthes (1915-1980), toma, ao contrário, em exame, sob um ponto de vista sociológico,  todos os fenômenos significativos: os sistemas de objetos de uso (por exemplo, a moda, o automóvel etc.), as comunicações de massa, as artes etc. Umberto Eco desenvolveu o projeto de um rigor filosófico da semiótica, no quadro de um projeto enciclopédico de filosofia das formas simbólicas (Apocalittici e integrati, 1964; Le forme del contenuto, 1971; Trattato di semiotica generale, 1975;  Semiotica e filosofia del linguagio, 1984...). A partir da década de 60, a semiologia, com R. Barthes, aplica-se particularmente à literatura, ocupando-se das grandes unidades significantes do discurso. Buscando fundar suas pesquisas em uma metodologia rigorosa e científica, que pode inspirar-se, entre outras, na lingüística (Saussure), em estudos folclóricos (W. Propp) e na psicanálise (Freud), ou semiólogos abriram novas perspectivas, susceptíveis de trazer proveito a abordagens interdisciplinares.

 

Semiologia ou semiótica? A escolha não é apenas terminológica, mas teórica, Gênios antitéticos, Saussure e Peirce conceberam, ignorando-se um ao outro, e, praticamente, ao mesmo tempo, a possibilidade de uma ciência dos signos, que procuraram instaurar.  Se, apoiando-se em Locke, adotou  Peirce o termo “semiótica “ (semiotics) para designar a investigação do universo dos signos, Saussure, por seu turno, através da “semiologia geral” (sémiologie générale), cujo objeto são os códigos e, sem exclusividade, todos os sistemas de signos -, procurou construir a semiologia da língua como sistema. Para Peirce,

 

l’homme entier est un signe, sa pensée est un signe, son émotion   est un signe. Mais finalement ces signes, étant tous signes les uns  des autres, de quoi pourront-ils être signes qui ne soit pas signe?

Pour trouver le point d’ancrage du signe il faut que tout signe  soit pris e compris dans le système de signe. Là est la condition  de la signifiance... (Apud BENVENISTE, 1974) 

(O homem inteiro é um signo, seu pensamento é um signo, sua emoção é um signo. Mas finalmente esses signos, sendo todos signos uns dos outros,de que poderão ser signos que não seja signo? Para encontrar-se o ponto de ancoragem do signo, é preciso que todo signo seja tomado e compreendido no sistema de signos. Eis a condição da significância) (tradução nossa).

 

  No cerne de tudo – semiologia ou semiótica –, o signo, tema central para também um outro discurso: o signo, produtor complexo da semiose. Ora, como faz notar Umberto Eco:

 

A semiose é o fenômeno, típico dos seres humanos (e, segundo  alguns, também dos anjos e dos animais), pelo qual – como diz Peirce – entram em jogo um signo, seu objeto (ou conteúdo) e sua interpretação. A semiótica é a reflexão teórica sobre o que seja a semiose. Em conseqüência o semiótico é aquele que nunca sabe o que seja semiose, mas está disposto a apostar a   própria vida no fato de que ela exista (ECO, 1989, p. 11, nota).

 

No labirinto, atraente e ameaçador, da ciência dos signos – uma aventura semiológica (Barthes) -, só temos a trêmula certeza, enunciada , no final esteticista de mais um século, do alto de sua epistemologia poética, por Mallarmé (1842-1842) – aquele poeta mesmo da poesia como “jogo de dados”: “le monde est fait pour aboutir à un beau livre” (“O mundo foi feito para acabar num belo livro”). Não será esse “belo livro” uma infinita tessitura de signos, que a semiologia, ou semiótica, lê e recria?

 

Nota: 

(1) Para Marialva Barbosa, com signos da Amizade.   Para os meus mestrandos do 1o./2002 ( que me acompanham o 2o./2001), com signos amoráveis.

 

Referências bibliográficas

 

 

BARTHES, Roland. Le dégré zéro de l’ écriture. Paris: Méditations, 1968.

-         BENVENISTE, E. Problèmes de linguistique générale. Paris:Minuit, 1974.

-         BUYSSENS, Eric. Semiologia e comunicação lingüística. São Paulo:Cultrix,1972.

-         ECO, Umberto. Obra aberta. São Paulo: Perspectiva, 1976.

-         ECO, Umberto. Sobre os espelhos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

-         GREIMAS, A.J. e COURTÉS, J. Dicionário de semiótica. São Paulo: Cultrix, 1999.

-         JAKOBSON, Roman. Essais de linguistique générale. Paris: Minuit, 1963.

-         MARTINET, André. Eléments de linguistique générale. Paris: Colin, 1966.

-         MOUNIN, Georges. Introduction à la sémiologie. Paris: Minuit, 1971.

-         PEIRCE, Charles. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 1977.

-         PRIETO, Luis. Messages et signaux. Paris: PUF, 1972.

-         PRIETO, Luis. Pertinence et pratique. Paris: Minuit, 1975.

-         SAUSSURE, Ferdinand. Cours de linguistique générale. Paris: Payot, 1965.


Latuf Isaias Mucci: Pós-doutor em Letras Clássicas e Vernáculas (USP). Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Arte (UFF).

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