Ciberlegenda Número 8, 2002
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A dinâmica dos atos de linguagem em listas de discussão (1)
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Jairo Ferreiraferreira@netu.unisinos.br
RESUMO: Aparentemente, a questão chave da cooperação é o reconhecimento mútuo dos interlocutores. Essa hipótese é parcialmente válida, desde que este reconhecimento não seja visto como uma decorrência direta de um contrato. A questão do reconhecimento ultrapassa o contrato formal de lugares institucionais, para se sustentar em outras instâncias da vida social, além do compartilhamento, reciprocidade e conservação das proposições através de atos de linguagem, das representações concretas e da prática. Nesse sentido, as interações discursivas constituem-se numa sucessão de estruturas instáveis e estáveis encadeadas entre si, o que implica em formas de equilíbrio (e, portanto, de cooperação) específicas em redes digitais. RÉSUMÉ: Il
semble que la question que est la clé de la coopération est la
reconnaissance mutuelle des interlocuteurs. Cette hypothèse est
partiellement valide, depuis que cette reconnaissance n'est pas vue en
ttant qu’un résultat direct d'un contrat. La question de la
reconnaissance excède le contrat formel des places institutionnelles,
pour se soutenir au support lui-même dans d'autres exemples de la vie
sociale, au delà du partage, de la réciprocité et de la conservation
des propositions par des actes de langage, des représentations concrètes
et la pratique. En cette direction, les interactions discursives se
constituent dans une succession des structures instables et régulières
enchaînées entre elles-mêmes, ce qu'il implique sous les formes
specifiques de l'équilibre (e, donc, de coopération) dans les réseaux
digitaux. O ato de linguagem como proposições, cooperação e reconhecimentoEm
termos de interações discursivas, uma proposição se evidencia através
de atos de linguagens. Por isso, analisá-los como proposições é um
caminho para compreender como se constitui o processo de trocas,
principalmente nas listas de discussão, na perspectiva da cooperação.
Propomos um conceito de cooperação (um princípio superior das trocas,
diz Maingueneau, 2001, referindo-se a Grice, 1979) em suas diversas
dimensões (simbólica, referencial, lógica e funcional), mais como
processo do que enquanto resultados
entre os interlocutores. Essa
interpretação, portanto, compreende a cooperação como um processo
multideterminado, aberto aos vários vértices de significação e
interação entre eles, inclusive os níveis diversos - ou seja, a
significação prática e representativa concreta. Essa proposição
preserva o aspecto lógico e normativo da cooperação, mas amplia o
conceitos às outras forma de significação e conhecimento. Quando
afirmamos que os atos de linguagem são proposições, nos inspiramos no
modelo das trocas sociais de Piaget (1973: p. 184 e seguintes). Esse
modelo, como sabemos, inspirou Habermas em sua teoria da ação
comunicativa. Realizamos, entretanto,
uma modificação visando deixar este modelo compatível com a nossa
formulação: trata-se então de proposições simbólicas,
referenciais, funcionais e não somente lógicas. Temos então um modelo
de proposições pensado no interior dos quatro vértices de significação
e conhecimento. Nosso
modelo, portanto, se utiliza das idéias piagetianas para as trocas de
pensamento, fazendo algumas modificações decorrentes da tese que
desenvolvemos sobre as interações discursivas: a) o indivíduo ‘a’ enuncia uma proposição ‘pa’ (reconhecida ou não em diversos graus em termos de campo de significação e conhecimento em torno deste enunciado); b) o interlocutor ‘b’ reconhece ou não o enunciado de ‘a’, considerando os núcleos de sentido socialmente sedimentados ou como criação de um sentido novo, emergente na própria interação. Este acordo, em diversos graus, chamaremos de ‘r’; c) o acordo ‘r’ é condição à continuidade das trocas (‘t’) entre ‘a’ e ‘b’. Os atos de linguagem, materializando ‘t’, expressam o engajamento no encadeamento de proposições; d) o
engajamento de ‘b’ confere à proposição inicial de ‘a’ o
reconhecimento que pode ser simbólico, referencial, funcional e lógico,
em diversos graus. Na
medida em que cada ato gera uma nova proposição, o engajamento de
‘b’, através da materialização de seus processos de significação
em novos atos de linguagem, resulta num novo ciclo proposicional. Numa
lista de discussão, em que vários interlocutores participam
simultaneamente, existe a possibilidade de se formar uma rede de proposições,
configurando, assim, um campo de significação e conhecimento. Estas
redes podem ter várias configurações, e nem sempre serão
cooperativas. A cooperação, na perspectiva que desenvolvemos,
atravessa a enunciação, a narrativa e os processos de argumentação.
Podemos, portanto, acentuar estas relações, abstraindo as ordens
discursivas, falando em atos de discursos como proposições de
pensamento, considerando elementos como contratos, circunstâncias de
discurso e ato interenunciativo, incluindo a relação dos
interlocutores com objetos das trocas (incluindo as próprias ações
dos interlocutores quando estas se transformam em objetos do discurso). No
conceito de contrato de fala, em nossa perspectiva, acentuamos o acordo
entre os lugares elegidos (o que é compatível com o modelo de
Charaudeau, do qual partimos para nossa análise de interações
discursivas). Isto é, se considerarmos uma dada seqüência, podemos
afirmar que um ponto importante do contrato de fala é o reconhecimento
mútuo dos interlocutores (o que vai aparecer no ato de linguagem como
inter-enunciação). Ou seja, os interlocutores devem aceitar a proposição
que cada um faz de si e do outro. O desconhecimento é o ponto de
partida da ausência de cooperação. Neste caso, coloca-se a
necessidade de uma alternativa: em decorrência de não ocorrer o
reconhecimento dos lugares elegidos pela fala, o foco da interação
poderia passar a ser a negociação destes lugares, num processo
atravessado pela significação simbólica (a falta, a busca e o objeto:
ser o representante do bem ou do mal, do belo ou do feio, da paz ou da
guerra, etc.), referencial (necessidade evidente no caso do discurso
anormal em que um sujeito diz ser Napoleão I, num contrato fora do
contexto teatral...), funcional (que remete à ação social mais ampla,
estratégica e procedural, implicada no ato de nomear a si e ao outro) e
lógica (aqui, entram tipos de lógica: a inclusão e exclusão; as
quatro operações matemáticas; a formal, ou és escravo ou és senhor;
a dialética, podes ser escravo ou senhor; etc.). Uma
segunda possibilidade é de que o processo seja cooperativo, em
particular quando ocorre reconhecimento dos lugares elegidos entre os
interlocutores, resultando em produtos pontuais típicos da cooperação.
O processo cooperativo
(conjuntivo), por conseguinte, não decorre apenas de um reconhecimento
dos lugares elegidos entre os interlocutores, mas da reparação mútua
quando o desconhecimento é acentuado. Nos processos cooperativos, as
proposições são hipóteses, ao invés de verdades constituídas em
sua enunciação (do tipo “verdade do imperador”), inclusive porque
a enunciação verbal (Piaget, 1973) não é a percepção, cuja
constituição requer a significação prática. Nesse sentido, a
proposição através de um ato de linguagem é uma hipótese que deve
ser verificada. Para verificar uma hipótese, os indivíduos em interação
devem recorrer a procedimentos que permitam uma construção operatória,
ou seja, deve recorrer ao conjunto da ação e não somente à
linguagem. Ou, a enunciação discursiva deve ser verificada na esfera
da significação concreta e prática dos interlocutores. Essa verificação,
em nossa perspectiva, será feita através de procedimentos que o
sujeito utiliza - concretos e práticos -, que poderão confirmar ou
negar as hipóteses enunciadas. Em tese, a cooperação - enquanto
processo de equilíbrio - ocorre quando os interlocutores reconhecem os
enunciados como hipóteses a serem verificadas, confirmadas ou não, a
partir de correspondência entre as operações individuais que
realizam. Aparentemente, a questão chave da cooperação é o reconhecimento mútuo dos interlocutores. Essa hipótese é parcialmente válida, desde que este reconhecimento não seja visto como uma decorrência direta de um contrato. A questão do reconhecimento ultrapassa o contrato formal de lugares institucionais, para se sustentar em outras instâncias da vida social, além do compartilhamento, reciprocidade e conservação das proposições através de atos de linguagem, das representações concretas e da prática. Nesse sentido, propomos que as interações discursivas constituem-se numa sucessão de estruturas instáveis e estáveis encadeadas entre si, o que implica em formas de equilíbrio (e, portanto, de cooperação) específicas em redes digitais. Os demônios de Laplace e Maxwell na comunicaçãoA
perspectiva que estamos construindo decorre da discussão teórica e de
nossas análises empíricas, que nos aproximaram das teorias não
deterministas sobre a questão do equilíbrio. Nos basearemos, visando
uma restrição neste debate que é amplo e abrange vários autores, em
Ilya Prigogine (1996). Conforme esse autor, as teorias físicas de
Newton, da relatividade e quântica são deterministas e reversíveis.
Nelas, a inversão dos tempos (passado e futuro) não alteram as leis e
relações entre os eventos da natureza. Elas são contemporâneas do
Demônio de Laplace: a previsão sobre os eventos depende tão somente
do conhecimento de todas as variáveis em jogo e suas transformações
no tempo (mesmo que relativo, conforme a teoria de Einstein). Sobre
isto, afirma Prigogine: “As leis da natureza enunciadas pela física são
da esfera, portanto, de um conhecimento ideal que alcança a certeza.
Uma vez que as condições iniciais são dadas, tudo é determinado”
(1996: 19). Ao mesmo tempo, partimos da aceitação da proposta de Piaget de que o desequilíbrio é dominante no pensamento natural, o que é compatível com a análise onde afirmamos que as formas canônicas de auto-regulação das estruturas nas sociedades de mercado são as regulações, o que significa um pensamento caracterizado pelo intuitivo, egocêntrico ou sociocêntrico. Considerando que no “pensamento do cotidiano” o equilíbrio nunca é atingido, e de que no pensamento científico, o equilíbrio é instável, e que os processos de interação coletivos são homólogos aos processos individuais, a formulação do próprio equilíbrio perde-se, ou esvazia-se, numa redundante negação do próprio conceito de equilíbrio - o que afeta diretamente as condições de reciprocidade e reversibilidade nas trocas. Entretanto, nosso esforço teórico será feito no sentido de articular esse conceito recuperando a idéia de uma dialética entre sistemas fechados e abertos, conservação e instabilidade, ordem e transformação das estruturas dinâmicas para compreender o pensamento natural que é produzido e interpretado nas interações discursivas. Porém, tentaremos demonstrar que essas regulações resultam não só em instabilidade, mas simultaneamente em estruturas estáveis. A
perspectiva alternativa sobre o equilíbrio (em relação à concepção
determinista) foi fundada pelas descrições evolutivas da natureza
associadas à entropia (conceito relativo à desordem num determinado
sistema), processo em que as mudanças são irreversíveis no tempo. O
próprio tempo, portanto, é irreversível. A distinção corresponde ao
segundo princípio da termodinâmica, publicado por Clausius em 1865.
Nessa formulação, a energia do universo é constante, mas a entropia
cresce. Os processos reversíveis são aqueles em que a entropia
permanece constante (sistemas fechados). Nos sistemas abertos, a
entropia acompanha a tendência do universo. Maxwell, na esteira do
“segundo princípio da termodinâmica”, sugeriu uma nova situação
também para os sistemas fechados. Este sistema possui dois
compartimentos separados por um furo, e a mesma temperatura no conjunto
(o que significa entropia inicial idêntica no conjunto dos dois espaços),
. Em sua proposição, é possível alterar o equilíbrio em cada um dos
compartimentos pelo controle da passagem de partículas mais rápidas e
lentas para cada um dos compartimentos específicos. Este ente que
realiza o controle é o Demônio de Maxwell. Este, entretanto, não
opera a partir da certeza, e sim da probabilidade (no caso, de
velocidades). Agindo dessa forma, se estrutura uma nova ordem a partir
da desordem (entropia) inicial. Isto
afeta a discussão dos processos comunicacionais. Sua influência ocorre
através da Teoria da
Informação, do matemático
Claude Shannon (1949), que sintetiza as concepções de informação e
de comunicação não só para os informaticistas. Essa teoria terá
influência na teoria da comunicação gerando várias interpretações
críticas (Eco, 1991; Rüdiger, 1995; Wolf, 1987). Não nos interessa ,
aqui, discuti-la em conjunto, mas especificamente a transposição que
faz do conceito de entropia para a compreensão dos processos de
comunicação. A idéia
é de que o conjunto das possibilidades combinatórias dos sinais
binários em si, quando
desorganizado, gera degradação da capacidade informacional dos mesmos,
isto é, gera um estado de equilíbrio entrópico. O fenômeno se
manifesta, na conceituação da TI, como ruído (a desordem). Ao contrário
desta tendência dos sistemas informacionais, a codificação (a ordem)
retém o potencial informativo dos sistemas.
Mas,
sabemos, a Teoria da Informação vai privilegiar o sentido técnico da
informação como uma dimensão formal em oposição aos aspectos
subjetivos dos sinais e dos símbolos. Nesse sentido, os críticos da
Teoria da Informação afirmam que esta não possui os elementos necessários
e suficientes para analisar o processo comunicacional, na medida em que
esse é constituído no processo de significação, irredutível a uma
concepção matemática de código. Podemos situar a crítica a essa
formulação em várias dimensões. Não é esse o objetivo desse
artigo. Consideramos que Prigonini capta com perfeição, no que se refere à física, esta aproximação entre o Demônio de Laplace e de Maxwell. Essa aproximação tem como chave o conceito que faz da irreversibilidade uma decorrência da ignorância. O mundo volta a ser simétrico se os sujeitos, como o Demônio de Maxwell, observarem as diversas propabilidades de eventos (ou os microestados), passando a controlar as trocas. Essa aproximação, em nossa perspectiva, esclarece o vínculo e as dissonâncias entre a Teoria da Informação e os projetos deterministas de controle da natureza e da vida social. Essa Teoria, ao colocar que a irreversibilidade e do caos observados nos macro-processos são resultantes da ignorância dos eventos possíveis, controláveis através da ação humana, renova a proposta de conhecimento exaustivo do real visando o controle e reversão da entropia. Há, aqui, uma descontinuidade que demarca o próprio trânsito verificado no último século na ciência: se o Demônio de Laplace observa, prevê e não interfere na realidade (a ciência moderna enquanto compreensão do real), o de Maxwell observa, registra e controla as trocas. Isso vai aparecer no projeto cibernético. Nesse sentido, é só parcialmente verdadeiro que a ciência moderna visava desde o seu início o controle da natureza, como iria formular a Escola de Frankfurt, em especial com Habermas. Confunde-se, nessa análise, previsibilidade pretendida do Demônio de Laplace com controle proposto através do Demônio de Maxwell. Ordem e temporalidadeA tese
de Prigogini, portanto, não se confunde com a entropia da Teoria da
Informação. É nesse sentido que pretendemos retomar a questão da
entropia para a análise dos processos de comunicação, em particular
das interações discursivas. Nessa perspectiva, a questão chave é a
irreversibilidade. Em sua proposta, a irreversibilidade pode resultar em
ordem e desordem, e não apenas na desordem aparente (pois resultante da
ignorância) como sugerem as formulações anteriores. Neste sentido, a
flecha do tempo pode ser uma fonte da ordem (e não só de degeneração,
como a oxidação de um metal). É , aqui, que surge uma diferença em
relação à formulação de Piaget. A temporalidade em relação aos
processos sociais nos impede de falarmos em fechamentos lógicos (que
devem ser reversíveis). Na teoria de Piaget, o conceito de regulação
procura dar conta destes processos. Mas há, neste caso, uma contradição.
Se a regulação é caminho do desenvolvimento (dos ritmos às operações),
como caracterizar enquanto regulação um processo que, temporal, não
resulta em operações? E, ao mesmo tempo, como compreender a ordem em
processo temporais? É nesse ponto que situamos a necessidade de
formular com precisão a questão da estruturas instáveis. As
teses de Prigonini (referenciado em Poincaré) , aqui, são três: a) os
processos irreversíveis são tão reais quanto os processos reversíveis
descritos pelas leis tradicionais da física; não podem ser
interpretados como aproximações das leis fundamentais. Ou seja, a
irreversibilidade não é um resultado da ignorância do observador
sobre os eventos microestruturais; b) os processos irreversíveis
desempenham um papel construtivo na natureza; c) a irreversibilidade
exige uma extensão da dinâmica. O físico propõe dois limites em
termos de sistemas: os estáveis e instáveis. Os estáveis são aqueles
em que modificações nas condições de interação produzem efeitos
reduzidos (o autor ilustra com o caso do movimento de um pêndulo). Num
sistema estável, podemos calcular posições a partir de trajetórias.
Esse é o caso das equações de velocidade. Nesses, é
válido pensar em correspondência entre trajetórias individuais
e coletivas (estatísticas). Os instáveis
são aqueles em que as modificações das circunstâncias produzem
efeitos ampliados que aproxima o sistema do caos.
No caso dos sistemas instáveis, considera que rompe-se a
correspondência entre trajetória individual e comportamento coletivo:
esses são aleatórios, probabilísticos, irredutíveis a trajetórias
individuais previsíveis. E não se trata , aqui, de ignorância,
desconhecimento, falta de informação das variáveis, mas de um
processo inerente ao sistema. Nessa perspectiva, a análise deve se
concentrar sobre distribuição de eventos num determinado espaço.
Isto é pertinente com nossa formulação, na medida em que nos
interessa particularmente verificar a distribuição das trocas e
proposições em termos de atos de linguagem. Nos estáveis,
a energia potencial é mínima, isto é, tende
a um processo mínimo de interação. Essas formulações são feitas
tendo em vista a física e a química. Para Prigogini, ainda
referenciado em Poincaré, os sistemas dinâmicos em geral, onde ocorrem
maior possibilidades de interações, não são integráveis. Isto quer
dizer que é impossível definir o comportamento coletivo através do
conhecimento de variáveis. A possibilidade de que o movimento se
oriente para “a direita ou para a esquerda” é de 0,5, ou seja, é
incerto. A
importância dessa formulação é de que ela corresponde à parte das
críticas de Morin à ciência moderna. As interações geram ressonâncias
(Prigogini, 1996: 43), e variam conforme as condições de energia. As
ressonâncias informam que ocorrem acoplamentos entre eventos (pensamos
, aqui, no acoplamento entre as interações em listas com as interações
que ocorrem em outros espaços de interação, dentro e fora do
dispositivo digital, ou acoplamento entre uma discussão entre temáticas
diversas etc.). Porém, é impossível observá-las estatisticamente, ou
integrá-las em funções analíticas. Nesse caso, a distribuição
dentro de um determinado espaço de possíveis indica interações
variadas e dinâmicas, resultante de ressonâncias (Prigogini, 1996:
46). A análise determinista, pelo contrário, procura abstrair essas
ressonâncias, e analisar o comportamento coletivo como uma inferência
das trajetórias individuais. Nesse
sentido, a análise das interações deve se remeter ao coletivo em
movimento. Caso contrário, perde-se o comportamento coletivo na análise
do individual. Numa explicação que consideramos genial, Prigogine
afirma que a análise das partículas individuais não registra que
estas possam ser sólidas ou líquidas. As fases só são reconhecidas
como propriedades do conjunto das partículas. “A existência das
transições de fase traduz, portanto, uma propriedade emergente,
irredutível a uma descrição em termos de comportamentos
individuais”, afirma o físico (1996: 47). Nos
sistemas fechados (ou de dispositivos fechados) o equilíbrio está
relacionado à diferença
entre a entropia (que é máxima, mas estacionária) e a energia (que é
mínima). No estado estacionário, a entropia permanece constante ao
longo do tempo, ou seja, a produção de entropia é nula (a variação
é mínima no espaço de tempo). O sistema é estável. Qualquer
modificação é logo compensada e o sistema volta ao seu ponto de equilíbrio. Entretanto,
em estados de não equilíbrio, os sistemas apresentam uma complexidade
mais rica e diversa em relação ao equilíbrio, afirma Prigogini. “No
exemplo da difusão térmica, essa maior complexidade corresponde a uma
separação parcial, a uma triagem... dos constituintes”, afirma o físico
(1996: 67). Nessas situações, não há extremos tal como energia livre
mínima, ou entropia estacionária. As flutuações deixam de ser
compensadas. Longe do equilíbrio, os processos ganham contornos específicos,
não universais em termos de regras e leis. A instabilidade desempenha
“um papel essencial”. A
formulação, apresentada em linguagem matemática, informa que a partir
de uma distância crítica do estado de equilíbrio, os sistemas
tornam-se instáveis, abertos às flutuações e bifurcações.
Produzem-se um conjunto de novos processos, que o autor chama de
estruturas dissipativas, que são associadas à produção de entropia e
de energia livre, ao contrário das estruturas estáveis associadas à
variação mínima da entropia. As estruturas dissipativas implicam em
processos catalíticos, que permitem combinações e conversões
inesperadas a partir dos estados intermediários, anteriores a equilíbrio
entrópico. Essas estruturas geram processos em bifurcações, as quais
retornam às características dos sistemas dinâmicos até que a
instabilidade gera novas flutuações e bifurcações etc. “O
comportamento do sistema torna-se então errático”, diz o autor
(1996: 71). Em torno de uma síntese: inferências para análise das interações discursivasA
partir das formulações desenvolvidas acima,
consideramos possível definir elementos característicos dos
momentos de instabilidade e estabilidade da dinâmica das interações.
Primeiramente, vamos pensar essas duas possibilidades em torno das várias
proposições de Piaget. Falaremos em características e não em
sistemas. Com este conceito, reiteramos uma abordagem que pretendemos
dialética sobre a estruturas. Elas terão momentos mais ou menos estáveis
conforme o peso relativo dessas características nas interações.
Consideramos que é possível quantificar esse processo. Essa quantificação
foge, entretanto, aos objetivos desse artigo. Como
discutimos acima, a primeira modificação associada aos sistemas instáveis
é que a análise não ocorre mais no plano das trajetórias individuais
e se transfere para as probabilidades. Isso terá uma importância
fundamental na física. É impossível predizer onde se encontra uma
partícula, mas apenas indicar lugares possíveis de sua trajetória. Nesse caso, a trajetória é uma idealização não calculável.
Veremos que essa proposição pode ser útil na análise das interações.
Ela nos permite pensar descrições em torno de quadro de possibilidades
imerso nas condutas coletivas, dinâmico, incluindo fases sucessivas
conforme as transformações das trocas. A descrição das trajetórias
individuais perde sentido nessa análise, inclusive porque tem aspectos
e elementos não integráveis. Ganha valor a “evolução do
conjunto”, marcada por tempos diversos e irreversíveis. Mesmo as
configurações coletivas, na medida em que submersas em outras dimensões
e ressonâncias, devem ser entendidas como uma probabilidade singular. Observamos
em nossas análises dos processos de interações em dispositivos
digitais, que há um acoplamento (o termo é de Prigogini) entre
sistemas estáveis e instáveis, considerando as várias dimensões que
compõem um processo de comunicação.
No que se refere aos processos de significação através das
interações discursivas, a ocorrência de processos irreversíveis não
impede a emergência da ordem, em paralelo com os processos de entropia
(ou seja, redução da energia de troca em torno de determinada temática,
tendendo a zero). Mas, ao mesmo tempo, há processos reversíveis,
constituídos a partir das regulações e operações. A adaptação
operatória vai aparecer nas coordenações necessárias em relação a
muitos aspectos técnicos do dispositivo digital. Os indícios de regulações
aparecem nas estratégias dos atos de linguagem, revelando uma ação
individual que se adapta à realidade. As
formas de acoplamento que observamos são diversas. Entre os
predominantemente instáveis há dois limites. Enunciados que morrem
(isto é, tem energia limitada e não produzem entropia) num curto espaço
de tempo e com raros reconhecimentos enquanto enunciado. Outros são
desconhecidos, pura e simplesmente. Isto é, sequer nascem como
reconhecidos explicitamente. Entre os mais estáveis,
verificaremos que um ato de linguagem pode ser uma estrutura estável
e instável, capaz de gerar bifurcações diversas (instabilidade),
conforme o seu potencial de reconhecimento (estabilidade) enquanto
enunciação. O que vai caraterizar as trocas discursivas como gestos de
cooperação é seu potencial energético, entrópico e, se quisermos,
capacidade de estabilização e instabilização do pensamento coletivo.
A emergência do pensamento coletivo é uma singularidade, relativa a vários
processos de interação, em que o conjunto de bifurcações esgotam (até
o ponto em que energia e variação entrópica são mínimos) processos
de significação simbólicos, lógicos, funcionais e referenciais
conforme os interlocutores que participam do jogo de reconhecimento mútuo. Há, no
conceito de estados emergentes, aqui, uma quebra da homologia entre o
indivíduo e o social? Não necessariamente, se considerarmos cada indivíduo
uma totalidade composta de outras partes. Mas a questão mais complexa não
se resume na homologia entre o individual e social, e sim como, no plano
do comportamento individual, ocorre o aleatório, a incerteza e a própria
ressonância, ou como o indivíduo se coloca nas interações. Se essa
questão nos remete de volta à psicologia, a primeira - a do
comportamento coletivo - nos aproxima de uma sociologia ou antropologia
das interações, o que nos permita compreender as circunstâncias de
discurso em torno de uma concepção em que o agrupamento da práxis (em
classes, estamentos, tipos etc.) será feito considerando o modelo de
sistemas não estáveis. Como já indicamos, a instabilidade das interações discursivas em listas de discussão está associada não aos processos tecnológicos que dão suportes às trocas. Esse, pelo contrário, tende a impor restrições e se constituir num sistema estável. Porém, ao mesmo tempo, a lista, ao multiplicar as possibilidades de interações simultâneas, gera um sistema de trocas instável, que se organiza na medida em que essa potencialidade se realiza nas próprias interações. As ressonâncias atuam de forma clandestina, isto é os vários atos de linguagem anteriores certamente coabitam os atos de linguagem posteriores, num processo marcado pelo irreversível (veremos este processo irreversível em particular na distinção dos incluídos e excluídos da comunidade em formação), isso sem falar nas ressonâncias de discursos produzidos em outros dispositivos e espaços de interação.
BibliografiaCHARAUDEAU, Patrick. Langage et discours. élémentes de sémiolinguistique (théorie et pratique). Paris: Classiques Hachette, 1983. ECO, Humberto. Tratado Geral de Semiótica. São Paulo. Perspectiva. 1991. EPSTEIN, Isaac. Teoria da Informação . São Paulo, Ática, 1988. FERREIRA, Jairo. Razão, regulação e ritmos nas interações discursivas. Rio de Janeiro: UFF. Ciberlegenda, 2001c. MAIGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez. 2001. PIAGET, J. Estudos Sociológicos. Rio de Janeiro: Companhia Editora Forense, 1973. PIAGET, J. Le structuralisme. 11. Ed. Paris : Presses Universitaires de France, 11 edição, 1996. PIAGET, J. O desenvolvimento do pensamento. Equilibração das Estruturas Cognitivas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1977a. PRIGOGINI, Ilya. O fim das certezas. Tempo, Caos e as Leis da Natureza. São Paulo. Unesp, 1996. RÜDIGER, Francisco. Comunicação e Teoria Social Moderna. Porto Alegre, Fênix, 1995. WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa, Editorial Presença, 1987.
Nota: (1) Este artigo recupera, atualiza e avança a discussão que desenvolvemos em Razão, regulação e ritmos nas interações discursivas nesta mesma revista, em 2001. Jairo Ferreira é doutorando e professor no curso de Comunicação Social da UNISINOS (RS).
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