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Erick Felinto
erickfo@ajato.com.br
Resumo:
O artigo tem como objetivo apresentar os principais conceitos da “teoria
das materialidades da comunicação”, desenvolvida por pesquisadores do
departamento de Literatura Comparada da Stanford University.
Sugere-se que sua utilização no setor da teoria da comunicação
pode colaborar para o enfrentamento das dificuldades geradas pela abrangência,
complexidade e inespecificidade do campo da comunicação, bem como abrir
novos horizontes ao estudo da interação entre as tecnologias
comunicacionais e seus usuários.
Abstract:
This article is devoted to the presentation of the main concepts developed
by a group of researchers from the Department of Comparative Literature at
Stanford University, the theory of “materialities of communication”.
This theory is presented as a means to grapple with the difficulties
engendered by the complexity and intrinsic lack of precise definitions in
the field of communications theory. It
is also suggested that “materialities of communication” can open new
horizons in the study of the interaction between new technologies of
communication and its users.
Palavras-Chave:
Materialidade, Comunicação, Recepção, Hermenêutica, Teoria
“
‘Materialities of Communication’ represents the desire
for
a theory that integrates these three tendencies – towards less
anthropocentric (less spiritual), less antitechnological and less
transcendental forms of human self-reference” (Hans Ulrich Gumbrecht)
Em tempos pós-modernos,
apresentar conceitos e metodologias “novos” envolve riscos não desprezíveis. Dado que o objetivo deste trabalho é precisamente descrever
e sugerir a utilização de uma metodologia original – ou que pelo menos
nos transmite a impressão de novidade –, parece sensato começar com
algumas palavras de advertência.
É possível que
uma das mais intrigantes conseqüências da pós-modernidade seja a
intromissão do conceito de “moda” no universo do pensamento conceitual.
É nesse sentido que o título da tradução inglesa do célebre
livro de Alan Sokal me parece revelador: Fashionable
Nonsense (1998) - o absurdo tornado padrão de gosto, importante nuance
que o Impostures Intellectuelles do original não apresenta.
A moda, como adverte Beatriz Sarlo, deve “captar as
mudanças mais insignificantes do ar dos tempos” (1997: 41).
Mais que isso, deve ser maleável o suficiente para nos permitir
jogar com seus mandamentos sempre efêmeros.
Erro grave seria tomá-la realmente a sério. É da ordem do leve, do divertido, do lúdico.
Talvez seja essa a razão pela qual termos como complexidade,
transdisciplinaridade, caos,
paradigma ou entropia,
ainda que carregados de uma certa aura de reverência, possam ser utilizados
com tanta leveza. Pouca gente
sabe exatamente o que eles significam, mas ninguém parece se preocupar
muito com isso. Afinal,
insegurança e imprecisão também se tornaram “in”
nestes tempos de fragmentação do pensamento.
A
teoria da comunicação foi definitivamente invadida por esse sedutor jargão
pós-moderno. Pela imprecisão
e complexidade de seu objeto – seja ele qual for -, o campo da comunicação
acabou tornando-se vítima perfeita da moda novidadeira. O problema não é tanto a rentabilidade
epistemológica efetiva dos novos conceitos quanto sua conversão ao status
de modismos teóricos. Ao se
caracterizarem como traços estilísticos indicadores de significados como
“elegante” ou “atual”, os conceitos foram pelo menos parcialmente
esvaziados de seu rigor científico.
Fora do espaço de uma bibliografia altamente seleta e especializada,
eles freqüentemente circulam pelo mundo acadêmico com excessiva fluidez e
permissividade.
Para
evitar o risco dessa apropriação do conceitual pelo reino da moda,
pretendo tomar algumas medidas cautelares em relação às idéias que
apresentarei: 1) descrever cuidadosamente a história da teoria, sua
genealogia intelectual (e assim provar que os novos conceitos não surgiram ex-nihilo);
2) delimitar seu campo de aplicabilidade e 3) defender sua rentabilidade teórica
para o estudo dos fenômenos comunicacionais.
Começo
apontando uma qualidade do sintagma até agora utilizado para denominar a
nova teoria: “Materialidades da comunicação”.
O termo tem a vantagem, hoje talvez pouco valorizada, de procurar
traduzir uma idéia potencialmente complexa em um princípio rapidamente
apreensível em suas linhas fundamentais.
Mais que isso, ele permite perceber que não se trata de sugerir uma
epistemologia absolutamente nova, mas antes de encarar de maneira renovada
uma noção bastante tradicional. Em
primeira instância, falar em “materialidades da comunicação”
significa ter em mente que todo ato de comunicação exige a presença de um
suporte material para efetivar-se. Que
os atos comunicaionais envolvam necessariamente a intervenção de materialidades,
significantes ou meios pode parecer-nos uma idéia já tão assentada e natural que
indigna de menção. Mas
é precisamente essa naturalidade que acaba por ocultar
diversos aspectos e conseqüências importantes das materialidades na
comunicação – tais como a idéia de que a materialidade do meio de
transmissão influencia e até certo ponto determina a estruturação da
mensagem comunicacional.
Uma
abordagem filosófica da ocultação da materialidade pode ser encontrada,
por exemplo, na obra de Jacques Derrida.
O autor da Gramatologia traduz
toda a história do pensamento filosófico do Ocidente em um processo de precedência indevida do inteligível sobre o sensível, do
significado sobre o significante. Por meio de uma “metafísica da presença”,
o espiritual é valorizado em detrimento da corporalidade, o material é
desqualificado como obstáculo ao sentido.
A materialidade aparece ali sob a denominação de escritura (écriture),
e Derrida adverte que “não há signo lingüístico antes da escritura”
(1973: 17), ou seja, o significante (material) é anterior – não
temporal, mas ontologicamente – ao significado (espiritual).
Derrida
constitui, de fato, uma das referências iniciais da chamada teoria
das materialidades da comunicação, estruturada programaticamente a
partir de fins dos anos 80, no departamento de literatura comparada da
universidade de Stanford. Referência própria do campo dos estudos filosóficos e
literários, mas que aparece ao lado de outras mais imediatamente próximas
do domínio da comunicação, como Marshall Mc Luhan e Walter Benjamin.
Não deve surpreender, contudo, o fato de uma teoria eminentemente
literária revelar-se de interesse para a comunicação.
Há pelo menos um precedente importante no exemplo da estética da
recepção, iniciada na Alemanha por Hans Robert Jauss na década de 60.
E vale mencionar ainda os cultural
studies, hoje desfrutando de crescente prestígio no setor da pesquisa em
comunicação, mas que se firmaram antes nos departamentos de literatura
comparada das universidades norte-americanas que nas faculdades de comunicação1.
O
principal articulador da teoria das materialidades da comunicação é o
alemão Hans Ulrich Gumbrecht, radicado nos EUA desde 1989.
Em Stanford, ao lado de um grupo de pensadores europeus e
norte-americanos – Jeffrey Schnapp, Niklas Luhman, Friedrich Kittler e
David Wellbery, entre outros -, Gumbrecht delineou o esboço de um programa
de pesquisas que já havia adquirido forma inicial em uma coletânea de
artigos publicada na Alemanha em 1988: Materialität
der Kommunikation. A trajetória
intelectual de Gumbrecht pode ser tomada paradigmaticamente como núcleo
para uma genealogia da teoria das materialidades da comunicação, ainda que
diversos outros pensadores tenham colaborado, de forma isolada ou
coletivamente, para a constituição desse campo de estudos.
A
trajetória de Gumbrecht se inicia precisamente no ponto onde os estudos da
estética da recepção atingem seu apogeu.
Aluno mais brilhante de Jauss, Gumbrecht conquistou a façanha de
tornar-se professor na universidade de Bochum com apenas 26 anos.
Na época, a principal conquista dos estudos literários, segundo os
advogados da estética da recepção, foi a inclusão de todo um universo de
preocupações extra-literárias no arsenal teórico da crítica. Tratava-se de extrapolar o texto como instância última de
determinação do sentido para buscar a consideração de fatores histórico-culturais
capazes de permitir a reconstrução das experiências de leitura
particulares (Cf. Jauss, 1990: 46). Em
outras palavras, não era possível estudar o texto literário limitando-se
à sua esfera lingüística. Era
necessário tomar em consideração a maneira como o texto fora
“recebido” por seus leitores em diferentes situações históricas.
Contudo, o que deveria ser uma conseqüência importante da estética
da recepção – a negação definitiva da idéia de uma verdade, de uma
interpretação “autêntica” e unívoca do texto – acaba por
desaparecer do horizonte central das preocupações de Jauss.
Gumbrecht ressente-se desse desaparecimento e preocupa-se, portanto,
em rejeitar “qualquer modelo normativo em favor da escrita de uma ‘história
descritiva’” (Castro Rocha, 1998: 12).
A
história descritiva deveria abandonar qualquer pretensão de busca pelo
sentido dos textos, contentando-se simplesmente em descrever
as condições históricas e materiais dentro das quais os textos se
originaram. Isso implicava também
pôr de lado qualquer noção meta-histórica de literatura,
termo que sempre havia sido utilizado de maneira absolutamente imprecisa ao
aproximar fenômenos tão histórica, social e materialmente diversos quanto
a Ilíada de Homero e o Quixote
de Cervantes. Entre os anos de
1981 e 1989, Gumbrecht organiza uma série de colóquios em Dubrovnik,
baseados fundamentalmente nas noções de transdisciplinaridade
(importante devido à necessidade de consideração dos fatores
extra-textuais) e das materialidades dos meios de transmissão da mensagem
literária. Nesse momento, a
teoria sistêmica de Niklas Luhmann surge com uma contribuição
fundamental. Como explica João Cezar de Castro Rocha, ela estimula a
investigação das condições de possibilidade de constituição do sentido
ao invés de privilegiar a decodificação de um sentido já dado (...) a
teoria sistêmica forneceu a Gumbrecht o instrumental necessário para levar
adiante a pergunta acerca da importância da materialidade dos meios de
comunicação, uma vez que a emergência do sentido somente ocorre através
do concurso de formas materiais (1998: 17-18)
Gumbrecht
percebera que o campo dos estudos literários só poderia renovar-se no
momento em que a obra fosse considerada a partir de um contexto mais amplo. Contexto que envolvesse as relações da obra com seus
receptores, as condições históricas e materiais desses receptores e a própria
“materialidade” do objeto. Nesse
sentido, a formação original de Gumbrecht como medievalista vinha a
calhar. As peculiaridades da
“literatura” medieval já demandavam uma consideração redobrada dos
fatores extra-literários e comunicacionais.
No medievo, não existia a figura do leitor, mas sim de ouvintes,
envolvidos em uma experiência que abarcava a consideração dos tipos de
“palcos” em que a narração se dava, da gestualidade corporal do
narrador e da formação cultural do público receptor.
O
corpo vai, portanto, tornar-se um importante elemento de “materialidade”
na reflexão sobre os atos comunicacionais.
É nesse sentido que Karl Ludwig Pfeiffer define um dos mais
importantes princípios da nova teoria: “a comunicação é encarada menos
como uma troca de significados, de idéias sobre [algo], e mais como uma
performance posta em movimento por meio de vários significantes
materializados” (1994: 6).
Trata-se, assim, de uma empresa epistemológica essencialmente
preocupada com “as potencialidades e pressões da estilização que reside
em técnicas, tecnologias, materiais, procedimentos e ‘meios’ (media)”
(ibid.).
Aqui
é impossível não perceber a marca do pensamento de McLuhan, bem como de
toda uma antropologia voltada ao estudo da interação entre os sujeitos
humanos e as tecnologias que desenvolvem.
Mas em Mc Luhan, a brilhante intuição sobre os meios de comunicação
como “extensões do homem”, próteses destinadas a expandir as
capacidades de seus vários membros, não chega a ser elevada ao status
de um paradigma de pesquisa normalizado – pretensão alimentada
precisamente pelos estudiosos das materialidades da comunicação.
É curioso – e
provavelmente não casual - o recente retorno das menções a Mc Luhan na área
da teoria da comunicação, após um prolongado período de quase completo
esquecimento. Associado freqüentemente à figura de Baudrillard, o teórico
canadense tem sido relido a partir da perspectiva de uma reflexão sobre as
chamadas ‘novas tecnologias da informação e da comunicação’2.
Adiante, procurarei explicar algumas das motivações por trás dessa renovação
do interesse pela obra de Mc Luhan. Por
hora, retorno a Gumbrecht para oferecer um breve panorama do estado mais
acabado de suas idéias.
Os
dois textos centrais para a apresentação dos postulados teóricos da
materialidade da comunicação foram traduzidos em edições dos Cadernos do Mestrado, publicados pela pós-graduação em literatura
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
O primeiro dos textos, aliás, foi fruto de uma conferência
realizada por Gumbrecht na UERJ em 1992.
O “O Campo não Hermenêutico ou a Materialidade da Comunicação”
foi posteriormente incluído também na coletânea Corpo
e Forma, lançada pela editora da UERJ em 1998.
Esta é a versão que tomarei como fonte de citações.
O outro texto apareceu originariamente como posfácio à obra
conjunta Materialities of
Communication, editada pela Stanford University Press em 1994.
Faço uso aqui desse original inglês, intitulado “A Farewell to
Interpretation”.
Antes
de tudo, é importante prevenir contra uma falsa impressão que pode surgir
da leitura inicial desse artigo. Ao
começar por descrever algumas características do que considera como “a
situação pós-moderna”, Gumbrecht pode não intencionalmente levar o
leitor a categorizar a materialidade da comunicação como mais uma teoria
representativa do ‘pensamento pós-moderno’.
É precisamente esse o perigo contra o qual propus acautelar-me desde
as linhas iniciais deste artigo. Para
afastá-lo, apresento um paradoxo: a materialidade da comunicação é uma teoria pós-moderna, no sentido em que surge como resposta à
crise histórica da modernidade e tenta solucionar questões que podiam
aparecer em plenitude apenas diante de um novo ambiente cultural e material.
Contudo, não é pós-moderna no sentido precisamente em que ainda crê
na possibilidade de uma teorização rigorosa dos fenômenos sociais e
culturais da dita pós-modernidade.
Próprio
do pensamento pós-moderno é o que Eva Knodt denominou como “retórica da
impossibilidade” (1995: x): esse pensamento tem decretado a desintegração
progressiva dos diversos campos de saber e teorias, agora tidos como
incapazes de dar conta da complexidade da situação pós-moderna. Toda forma de teorização rigorosa aparece, assim, como
condenada desde o princípio ao fracasso, ou então se revela no fim das
contas como simples instrumento de controle e repressão da fluidez e
“liberdade” caracteristicamente pós-modernas. Contudo, o que Knodt
afirma sobre a obra de Niklas Luhmann pode igualmente ser afirmado do
pensamento de Gumbrecht:
(...)
diferentemente de muitos dos teóricos de hoje, Luhmann está convencido de
que ‘algo pode ser dito sobre isso’; de que, com efeito, existem
‘materiais teóricos disponíveis’ que podem ajudar-nos a conceptualizar
o fim das metanarrativas como o
‘princípio’ de algo novo. Do
ponto de vista dessa perspectiva, a semântica pós-moderna da
impossibilidade é uma reação atrasada (belated),
de parte da modernidade, ao choque de sua própria contingência: “não há
metanarrativas porque não existe um observador externo” (...) Para
Luhmann, o fim das metanarrativas não significa o fim da teoria, mas um
desafio à teoria, um convite à sua abertura para desenvolvimentos teóricos
em uma série de disciplinas que, já desde algum tempo, têm trabalhado com
êxito com modelos cibernéticos que não requerem a ficção do observador
exterior (1995: x – xi).
Outro
aspecto do pensamento de Gumbrecht que merece esclarecimento é a idéia de
“campo não-hermenêutico”. Sugerir
a constituição de um campo não-hermenêutico – ou seja, um campo de
conhecimento onde o sentido não é mais uma instância absolutamente
determinável e nem sequer a preocupação fundamental – não é o mesmo
que “pós-modernamente” declarar o fim da interpretação e propor sua
substituição por um novo paradigma onde o sentido desaparece de todo.
Na realidade, isso representaria simplesmente trocar um sistema
totalizante por outro. A teoria
das materialidades da comunicação não se impõe como um substitutivo ao
paradigma hermenêutico, mas como uma perspectiva alternativa, que questiona
a primazia conferida ao sentido e ao espírito na tradição intelectual do
Ocidente. É o próprio
Gumbrecht quem esclarece a posição da teoria das materialidades em relação
a outros possíveis construtos teóricos:
Nosso
esforço para circunscrever as “materialidades da comunicação” como um
campo de pesquisa e reflexão não questiona necessariamente a legitimidade
epistemológica de outras posições teóricas contemporâneas, nem implica
qualquer pretensão de cobrir a totalidade do espaço que as ciências
humanas tradicionalmente têm ocupado (1994: 396)
Mas de que maneira peculiar as materialidades da comunicação respondem ao
quadro da situação histórica pós-moderna? Gumbrecht sugere a utilização
de três conceitos-chave para definir tal situação: destemporalização,
destotalização e desreferencialização. O
primeiro torna-se fácil de entender a partir do momento em que pensamos no
modelo de temporalidade que dominou a modernidade: o tempo como fluxo
constante que caminha do passado em direção a um futuro sempre aberto.
O futuro aparece, desse modo, como resultado previsível do passado e
do presente. A situação pós-moderna
parece indicar um bloqueio do futuro. O
futuro agora surge não mais como possibilidade aberta e animadora, mas como
algo a ser temido. O presente
torna-se onipresente e, mais que isso, as possibilidades técnicas de reprodução
de cenários e ambientes do passado mobiliaram a atualidade de diversos
passados artificiais. Desse
modo, cessa a progressão inflexível do tempo, e a cultura pós-moderna
passa a se caracterizar pela permanência de um presente infindável.
A
noção de destotalização acarreta a desistência das pretensões de
universalidade dos conceitos e sistemas de pensamento.
Toda empresa teórica passa a desvelar com clareza seu caráter
necessariamente regional e limitado. Não
é mais viável construir abstrações absolutas ou determinar critérios de
validade não contingentes. Por
fim, a idéia de desreferencialização
ou desnaturalização consiste
na perda progressiva das certezas oferecidas pela nossa representação de
um mundo externo e objetivo. As
tecnologias do virtual muito contribuíram para esse processo de
desnaturalização.
O
sentimento ocasionado por essas três noções é o de “um mundo sempre
menos estruturado e sempre mais viscoso e flutuante.
Dizendo de outro modo: o sentimento de um mundo não mais fundado na
figura central do sujeito” (1998: 138).
O sujeito estava precisamente na base daquilo que Gumbrecht denomina
como “campo hermenêutico” – uma situação histórica desenvolvida
desde o século XV, com a institucionalização da imprensa, e que pode ser
sumarizada em quatro premissas fundamentais:
1.
O sentido consiste numa atividade do sujeito e não dos objetos.
É o primeiro quem, por meio de atos intencionais, atribui sentidos
às coisas;
2.
A possibilidade de uma distinção radical entre corpo e espírito,
onde o espírito era o que de fato importava à comunicação e à
auto-referência humana;
3.
O espírito conduz o sentido;
4.
Em tal contexto, o corpo serve apenas como instrumento secundário,
para a articulação ou mesmo ocultação do sentido, cuja criação cabe
sempre ao espírito.
Essas
quatro premissas podem por sua vez ser traduzidas na relação que, nos atos
interpretativos, articula a dicotomia superfície
e profundidade. O gesto hermenêutico se baseia na idéia de que uma superfície
(corpo, texto, materialidades) atua como simples instrumento de expressão
de um sentido que deve ser encontrado na profundidade (espírito,
significado, imaterialidade) de um ente espiritual.
Dado que a expressão revela-se sempre como insuficiente em relação
ao espírito, surge a necessidade da interpretação.
Se tivermos em mente
que a doação (e produção) do sentido é um ato nascido na interioridade
espiritual do sujeito, a situação pós-moderna coloca-nos face a uma
dificuldade aparentemente intransponível.
Como continuar a operar exclusivamente no interior do paradigma
hermenêutico face a um contexto em que o sujeito assiste à destemporalização,
destotalização e desnaturalização de seu mundo cultural?
É com o intuito de responder a essa pergunta que Gumbrecht lança mão
do conceito de “campo não-hermenêutico”.
No interior desse novo campo – que pode ser vislumbrado a partir da
divisão proposta por Hjelmslev entre forma e susbtância da expressão e
forma e substância do conteúdo –, opera-se um deslocamento do foco de
interesse teórico, que passa da “interpretação como identificação de
estruturas de sentido dadas para a reconstrução dos processos através dos
quais estruturas de sentido articulado podem emergir” (1994: 398).
Em outras palavras, o que se sugere é concentrar a atenção não na
busca pelo sentido como algo pré-dado e apenas à espera do ato
interpretativo, mas antes procurar entender como o sentido pode
constituir-se a partir do não-sentido.
No esquema de
Hjelmslev, tanto a substância do conteúdo como a substância da expressão
necessitam adotar uma forma para que possam funcionar como operadores
potenciais de significado e significante.
E mais que isso, devem em seguida acoplar-se para converterem-se em
sentido articulado. Não
obstante a premissa de que nenhum dos quatro campos pode constituir sentido
de forma independente, todos eles individualmente satisfazem uma definição
que descreve as materialidades da comunicação como “a totalidade dos fenômenos
que contribuem para a constituição do sentido sem serem, eles próprios,
sentido” (ibid.).
O conceito de
acoplagem, acima mencionado, é de fundamental importância.
Inspirado nas idéias de Humberto Maturana e Francisco Varela, ele
pressupõe um processo de interação entre dois sistemas.
Por exemplo, a interação do meu corpo com o computador no qual
datilografo este texto. Mais
ainda, a interação de meus sistemas mentais com o programa de computador
que utilizo. Essa interação
engendra um ritmo que é peculiar
à coordenação entre os dois
sistemas. Não entrarei em
detalhes sobre os tipos de acoplagem e suas conseqüências sobre a produção
de sentido, pois o tempo é curto, e o assunto, bastante complexo.
Em lugar disso, passarei a um exemplo mencionado por Gumbrecht que,
além de curioso, parece-me muito esclarecedor.
Em um livro intrigante,
intitulado Aufschreibesysteme 1800/1900 (“sistemas de notação” ou
“sistemas de escrita”), Friedrich Kittler sugere que certas idéias de
Nietzsche possam ter sido influenciadas pela forma (arredondada) da máquina
de escrever com a qual trabalhava. Foi
o próprio Nietzsche, aliás, quem escreveu em uma de suas cartas
datilografadas que “nossos materiais de escrita contribuem com sua parte
para nosso pensamento” (1990: 196).
Dedicado a investigar a ascensão e queda de determinadas redes
discursivas, o trabalho de Kittler pode, segundo David Wellbery, ser
definido com base em três princípios básicos: exterioridade, medialidade
e corporalidade. Tais princípios
constituem também preceitos epistemológicos próprios da teoria das
materialidades da comunicação.
O primeiro princípio
significa simplesmente que, no método de investigação de Kittler, “o
objeto de estudo não é o que é dito ou escrito, mas o fato – o fato
bruto e freqüentemente brutal – de
que é dito, de que isto e não algo diferente tenha sido inscrito”
(Wellbery, 1990: xii). Isso
significa que as tecnologias de inscrição,
de comunicação, não são meros instrumentos com os quais os sujeitos
produzem sentido. Elas antes
representam o horizonte a partir do qual algo como o próprio sentido em
geral pode surgir.
Esse primeiro princípio
nos conduz ao segundo. A noção
de medialidade é estendida por Kittler a todos os domínios do intercâmbio
cultural. A medidalidade constitui, assim, um dado não apenas da
comunicação, mas da vida cultural enquanto tal. Umberto Eco já lembrava que todo ato de cultura é
essencialmente um ato de comunicação.
Desse modo, a história literária desenhada por Kittler – e pelos
demais adeptos da teoria das materialidades –
torna-se um sub-ramo dos media
studies. Como explica Wellbery, “todos os meios (media) de transmissão requerem um canal material, e a característica
de cada canal material é que além, e como que em confronto com, a informação que carrega, ele produz ruído
e não-sentido (nonsense)”
(1990: xiv). Desse modo, a
literatura, assim como diversos outros fenômenos comunicacionais, passa a
ser definida não por aquilo que significa,
mas pela relação entre significado e tudo aquilo que é excluído do campo
da significação como ruído. A
diferença entre esses dois elementos representa o campo de estudos
fundamental da teoria das materialidades.
O último princípio, o
da corporalidade, acarreta duas conseqüências importantes: a primeira é a
desvalorização da noção de agência.
O corpo não é mais essencialmente um agente ou ator, e para que
possa tornar-se tal deve sofrer uma restrição de suas possibilidades.
Deve encontrar outros corpos e resistências.
Desse modo, a cultura pode ser resumida na idéia do “regime [não
o do sentido dietético, claro, mas do controle e vigilância] pelo qual os
corpos têm de passar” (1990: xv). A
Segunda conseqüência é que esse local de “sofrimento do corpo”
manifesta-se como um locus privilegiado de análise para a teoria das
materialidades, dado que é exatamente nas patologias produzidas pelos
sistemas de inscrição que estes mais claramente revelam sua impressão
específica. Essa noção
recorda a idéia kafkiana da colônia penal, onde uma máquina
de inscrição registra nos corpos dos condenados as patologias que os
levaram à sua punição.
A grande conclusão que
se pode tirar de todos esses conceitos é bem sintetizada por Karl Ludwig
Pfeiffer: “o instrumental tecnológico (technological hardware) – em produção, gravação e
armazenamento e reprodução – ‘exerce influência’ ou de fato
‘determina’ o que se apresenta como mundos semânticos, simbólicos,
espirituais ou mundos” (1994: 11). Mas
é preciso também se acautelar contra a idéia de que o termo
“materialidades” significa sempre uma matéria física e concreta.
Pfeiffer esclarece que as materialidades podem “funcionar como uma
metáfora geral para o impacto conjunto das instituições (igreja, sistemas
educacionais) e dos meios que elas predominantemente empregam (rituais,
livros de tipos especiais, etc.)” (1994: 7).
***
Essa
descrição sumária da origem e dos princípios epistemológicos da teoria
das materialidades já nos permite entrever que o segundo propósito deste
artigo torna-se uma tarefa bastante difícil.
Descrever o campo de aplicabilidade da nova teoria é problemático,
pois não existe um “objeto” definido e recortado a ser esquadrinhado
pelos métodos dos pesquisadores. Na
verdade, todo objeto cultural aparece como passível de investigação do
ponto de vista de sua materialidade expressiva. Em lugar de buscar a definição de um objeto de estudos
específico – problema que, aliás, parece estar atormentando os teóricos
da comunicação em tempos recentes –, a teoria das materialidades aplica
os mesmos princípios a diferentes objetos.
O que importa aqui não é essencialmente a natureza, o estatuto
ontológico, do objeto, mas sim a busca de um novo modo de encarar os
objetos culturais. Trata-se de
uma disciplina legitimamente transdisciplinar, dado que qualquer campo do
conhecimento – filosofia, literatura, comunicação – pode ser pensado a
partir do horizonte das materialidades.
E, na realidade, nenhum desses campos pode aparecer como isolado,
como um espaço epistemológico puro que não seja atravessado por forças e
materiais advindos de diversos outros campos.
A diversidade de
perspectivas oferecida por essa abertura pode assustar.
Uma consulta ao índice do volume Materialities
of Communication talvez provoque embaraço no leitor que se defronta com
artigos sobre a materialidade do signo no antigo Egito (Jan Assman), a história
das primeiras etapas de desenvolvimento da televisão alemã (Monika Elsner),
a influência da “presença cinemática” no cotidiano pós-moderno
(Vivian Sobchack), a transição de manuscritos para livros impressos na
Idade Média (Jan-Dirk Müller) ou o processo somático de individuação
(Francisco Varela e Mark Anspach). Mas
essa variedade, que lembra um mercado persa bem ao gosto pós-moderno,
constitui também um real desafio de integração interdisciplinar.
Diferentemente do que tem ocorrido com freqüência no campo da
teoria da comunicação hoje – a utilização, algo excessivamente liberal
e frouxa, de conceitos da física ou biologia para pensar fenômenos da
cultura -, a teoria das materialidades tem buscado utilizar os mais recentes
desenvolvimentos da cibernética e da teoria dos sistemas para conjugar
diferentes estruturas em uma perspectiva autenticamente conceptual.
Nesse contexto, a teoria sistêmica de Niklas Luhmann, ao integrar,
por exemplo, sistemas sociais e psíquicos adquire importância fundamental.
Não se trata de procurar entender um determinado sistema com base em
analogias extraídas de outros sistemas, mas antes de investigar os
processos de acoplagem que
conectam um sistema a outro em um mundo, vale a pena lembrar, onde a noção
de complexidade torna-se cada vez mais evidente.
A frustração parcial
do segundo propósito deste artigo pode, porém, ajudar a validar seu
terceiro objetivo: de que maneira a teoria das materialidades pode
contribuir para o campo da teoria da comunicação na situação em que esta
hoje se encontra? Parece-me que
a desintegração da pergunta pelo “objeto” já aparece como uma
possibilidade inicial de conquistas teóricas. O campo da comunicação enfrenta o paradoxo de continuamente
ter sua complexidade, abrangência e transdisciplinaridade afirmadas, ao
mesmo tempo em que os pesquisadores manifestam o desejo de recortar com
precisão seus horizontes e objeto. No contexto brasileiro, a preocupação
do momento parece ser precisamente a delimitação de tais horizontes. Uma preocupação defendida com todo vigor pelos órgãos de
fomento à pesquisa, e que, submetida a uma investigação à la Bourdieu, poderia revelar dados interessantes sobre os anseios
e temores dos pesquisadores do campo. Esse
desejo do objeto, em parte louvável, colabora, porém, para incrementar a
desconfiança em relação ao pensamento teórico.
Quanto mais ‘teóricos’, mais suspeitos de abstração ou abrangência
excessivas tornam-se os argumentos. A
teoria das materialidades pode fornecer alguns instrumentos úteis para
ajudar-nos a lidar, sem receios, com a imprecisão e complexidade
intrinsecamente constitutivas de nosso campo de estudos.
Mas para aqueles que não
compartilham desse sentimento, ofereço outras possibilidades mais pragmáticas. Um pensamento como o das materialidades da comunicação
aparece como extremamente útil para a reflexão em torno das chamadas novas
tecnologias da comunicação e informação.
A interação entre corpo e máquina, entre sistemas de pensamento
humanos e sistemas binários, entre o real e o virtual constitui um problema
particularmente interessante para os instrumentos da teoria das
materialidades. O artigo de
Vivian Sobchack incluído na coletânea Materialities
of Communication é representativo dessa rentabilidade.
Ao lançar mão da nova teoria para pensar o que define como a
passagem do cinemático para o eletrônico na cultura contemporânea,
Sobchack oferece argumentos e noções reforçadores das principais teses de
estudos recentes sobre a interação do humano com o maquínico, como How
we became posthuman, de N. Katherine Hayles (1992) e The
Pearly Gates of Cyberspace, de Margaret Wertheim (1999).
Advertindo que nenhuma
tecnologia é neutra, mas antes “informada historicamente não apenas por
sua materialidade como também por seu contexto político econômico e
social”, Sobchack sugere que as novas tecnologias já estão promovendo o
desaparecimento da cultura da imagem, assim como do corpo.
Surge uma curiosa inversão, onde a materialidade das novas
tecnologias determina um imaginário de imaterialidade para os sujeitos
humanos. As fantasias sobre a
transferência (donwload) de
consciências humanas para computadores confirmam essa idéia.
Sobchack estuda também as características dos movimentos, da
cinesia determinada pela materialidade das novas tecnologias – o ritmo da
utilização de teclados e mouses
– para buscar entender suas conseqüências sobre os usuários.
Estas breves notas não
dão mais que uma breve idéia das possibilidades oferecidas pela teoria das
materialidades. Contudo, é
preciso lembrar que se trata de um campo de estudos recente e ainda em
processo de estruturação, um work in progress.
O próprio Gumbrecht reconhece essa imaturidade e aponta ainda
algumas das deficiências da nova teoria.
Ela não foi ainda capaz de superar a dicotomia espírito-matéria,
que pode sempre reaparecer por trás da idéia da acoplagem entre sistemas
“espirituais” e “materiais”. Além disso, adverte, é preciso sempre tomar o cuidado de não
substituir um pensamento totalizante por outro. Em lugar de sonhar com uma estabilidade máxima própria das
teorias tradicionais, Gumbrecht sugere que procuremos alcançar “uma perspectiva
radical de contingência – como uma esfera de fenômenos com vida
extremamente curta e sem qualquer conceitos gerais ou estáveis para sua
descrição” (1994: 402). Contudo,
quaisquer que sejam os problemas a serem enfrentados pela teoria das
materialidades, nada pode roubar-lhe pelo menos o mérito de restituir à
matéria sua dignidade, tão longamente roubada por nossa pedagogia quase
exclusivamente voltada para a imaterialidade do espírito.
NOTAS
1.
Os estudos culturais surgiram no Birmigham
Center for Contemporary Cultural Studies, na Inglaterra, em fins dos
anos 50. Suas principais fontes
de inspiração foram Gramsci e a escola de Frankfurt. A versão norte-americana, hoje predominante no mundo acadêmico,
teve como base o desconstrucionismo derivado do pensamento de Derrida e,
especialmente, das idéias do crítico Paul de Man, principal divulgador de
Derrida nos EUA. Ela parece
despontar com força como uma das principais tendências para os estudos de
comunicação nos próximos anos. O
recente programa de pós-doutorado da escola de comunicação da
Universidade Federal do Rio de Janeiro dá testemunho disso.
2.
O seminário “The Medium is the Message”, realizado em fevereiro
de 2000 na Windsor University, no Canadá, constitui bom exemplo desse
processo de recuperação do pensamento de Mc Luhan.
Ver a respeito “À Sombra de Mc Luhan – a Teoria da Simulação
de Baudrillard”, in Huyssen, Andréas. Memórias do Modernismo. Rio
de Janeiro: editora da UFRJ, 1997.
BIBLIOGRAFIA
Gumbrecht,
Hans Ulrich. Corpo e Forma.
Rio de janeiro: Eduerj,1998.
_______________.
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de Janeiro: UERJ, Cardenos do Mestrado, n. 5, 1993.
________&
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João Cezar de Castro. “Introdução: a Materialidade da Teoria”, in
Gumbrecht, Hans Ulrich. Corpo e Forma. Rio de janeiro: Eduerj, 1998.
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of Science. New York: Picador, 1998.
Derrida,
Jacques. Da Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1973.
Sarlo,
Beatriz. Cenas da Vida Pós-Moderna. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ,
1997.
***
Erick Felinto
é doutor em Literatura Comparada pela UERJ e PhD candidate em Romance
Linguistics and Literatures pela UCLA, professor adjunto na Universidade do
Estado do Rio de Janeiro e Coordenador do Núcleo de Pesquisa em Comunicação
da Universidade Estácio de Sá.
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