Ciberlegenda Número 5, 2001

 

Formulações teóricas instigantes:  alguns aspectos configuradores das propostas de Verón

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Alberto Efendy Maldonado Gómez de la Torre

alefma@icaro.unisinos.br

 

RESUMO

A problemática teórica em comunicação é um setor da produção de conhecimento, na área, que historicamente teve pouca atenção e aprofundamento. Neste artigo, trabalham-se fragmentos teóricos das propostas de Eliseo Verón que pretendem servir como um cenário de reflexão e produção de pensamentos, numa perspectiva epistemológica histórica. Cibernética comunicacional; análises de discurso; o sentido da ação; interações simbólicas; estruturalismo são questões abordadas mediante um procedimento dialógico-crítico, que procura desenvolver elementos para o pensamento comunicacional.

Palavras-chave: epistemologia histórica; comunicação; produção de sentido.

 

 

Um pouco de história

Eliseo Verón é na América Latina um dos autores mais importantes na constituição do campo de pensamento em comunicação social. Existem duas fases fundamentais no seu processo teórico-metodológico: uma primeira caracterizada por uma linha de preocupações psicossociais - nas quais a lingüística e a semiologia já estavam presentes - e uma segunda centrada na problemática semiótica.

Neste artigo, examino alguns elementos teóricos relevantes trabalhados por Verón durante mais de três décadas, respeitando o tempo histórico e as marcas que o autor foi deixando na comunidade de ciências sociais e de comunicação na região. Analiso a dimensão teórica do autor como uma problemática e não como uma lista de conceitos acabados, fechados em si mesmo ou desvinculados da realidade cultural. Nesse sentido, considero importante estudar os problemas teóricos estabelecendo relações com as conjunturas históricas e com as propostas de outros autores-referência na problemática.

A cibernética simbólica

Em Comunicación y neurosis, Verón define a comunicação humana como uma máquina de informações binárias (computador). Energia, informação e controle são elementos do processo cibernético esquematizado por Verón. Informação e controle seriam os elementos-chave para conceptualizar a comunicação humana, dado que "os princípios básicos são os memos", segundo o autor, tanto nos processos de informática eletromagnética quanto nos processos sociais. Essa afinidade com a informática continua na atualidade, como demonstra a entrevista que realizei em 26 de agosto de 1998, em Buenos Aires, na qual Verón reafirmou sua concepção cibernética sobre a comunicação social. Inserindo-se nesse modelo e seguindo uma linha formalista compreende que o estudo científico das comunicações e dos sistemas de controle, tanto nos organismos vivos quanto nas máquinas, é parte da mesma problemática substancial de comunicação.

Cabe anotar que na mesma época da publicação de Comunicación y neurosis, Verón publicou El proceso ideológico, uma coletânea na qual escreveu "Condiciones de producción, modelos generativos y manifestación ideológica". Nesse texto debate as proposições de Chomsky, mistura Marx com Greimas e propõe uma definição informática para ideologia:

Se proponía entonces localizar la ideología en un nivel lógico más complejo, y con este fin introduje la analogia con una computadora: las proposiciones "ideológicas" son el "output" de la máquina; lo que podemos llamar un sistema ideológico es su programa.

Interessa-me nessa passagem a referência ao modelo informático que durante os últimos trinta anos gerou concepções fortes acerca da vida e da sociedade. Observamos no autor a presença de pensamentos hegemônicos, que alcançaram essa abrangência devido ao desenvolvimento acelerado dos modelos biológicos e sua descoberta da organização dos códigos genéticos de maneira profundamente similar aos modelos lingüísticos formais.

Na perspectiva de Chomsky, assumida por Verón logo por ocasião de um primeiro confronto nos anos 70, o objeto de estudo da lingüística seria biológico-cognitivo e não social. O objeto lingüístico estaria conformado por frases-modelo comparáveis a um quantum; vistas como expressões abstratas que não devem ser confundidas com as formas sociais-coloquiais da linguagem cotidiana - discursos sociais na terminologia de Verón, modos e formas de comunicação na minha compreensão.

É importante considerar essa distinção, definida por Verón, porque explica importantes confusões que ocorreram nas proposições teórico-metodológicas dos lingüistas, semiólogos, semânticos formais e teóricos dos atos da linguagem. Uma coisa é estudar a linguagem como sistema e estrutura formal, de caráter cognitivo-biológico, e outra muito diferente estudar os modos sociais de comunicação, definidos por Verón como discursos sociais seguindo sua linha semiótica-lingüística.

O importante para a problemática da comunicação, segundo essa primeira concepção cibernética de Verón, seria conhecer o conjunto de regras organizadas que permitiriam codificar uma informação. As informações seriam impulsos controlados que produzem efeitos mediante a transmissão de ordens codificadas. Abre/fecha, liga/desliga, armazena/apaga, seleciona/exclui, transfere/mantém etc. são exemplos de funcionamento binário que segundo Verón aconteceria, também, na comunicação humana.

Para o autor a informação estaria definida por uma capacidade de organizar elementos - impulsos, fonemas etc. - mediante regras de construção/desconstrução que permitiriam a transmissão de ordens controladas entre o emissor e o receptor:

Si imaginamos que A y B son personas, y si suponemos que la información se transmite en ambos sentidos, es decir, que cada comunicador emite y recibe mensajes, estamos ya muy cerca de un modelo útil para comprender la comunicación humana. La dimensión de control se referirá al hecho de que un mensaje de A hacia B produce en B un efecto: modifica su conducta; y como la conducta consiste, desde este punto de vista, en mensajes (auditivos o visuales), ese efecto se traducirá en mensajes emitidos por B, que A recibirá. A será afectado a su vez por los mensajes de B, y así sucesivamente, en un proceso a la vez circular y acumulativo que llamaremos la "espiral de la interacción". Estamos en el campo de la teoria de la comunicación en la medida en que el elemento crucial es para nosotros la organización de la energía, vale decir, porque suponemos que los efectos resultan de la configuración de los estímulos mensajes y no de las características intrínsecas de la energía. [Destaques em negrito são meus]

A espiral de interação será essa capacidade de produzir efeitos controlados entre duas pessoas; esses efeitos são produto da organização da energia e não do tipo de energia. São os estímulos ordenados mediante códigos (regras) que permitiriam um fluxo biunívoco de "informações".

Impressionante como um pensador que trabalhava, já naquela época, modelos sociológicos críticos; que adotava posturas da semiologia de Barthes; concebia, simultaneamente, em outros textos e lugares, a comunicação como um processo social complexo que precisava de psicanálise, de antropologia, de sociologia, de estudos culturais e de economia-política podia propor esquemas tão reduzidos e mecanicistas como o exposto na citação anterior.

Produzir impulsos organizados que provocam efeitos determinados pela capacidade de controle, de fluxo em dois sentidos e de domínio dos códigos. Conceber o controle com a simples mudança de conduta provocada por uma mensagem, efeito que hoje nem os funcionalistas defenderiam; porém em Verón a marca formalista é forte e o esquema proposto pelos engenheiros de computação era atraente e fundamentado num campo científico "hard".

Num olhar crítico, me preocupam muito esses contrastes de posicionamento porque não foram produto de uma busca primária. Em 1970 o autor já passou pelo laboratório de Lévi-Strauss, pelo Seminário de Barthes, pela experiência de pesquisa sociológica na UBA, pelos contatos com o Colégio Invisível; era um autor muito bem informado sobre as mais importantes tendências teórico-metodológicas em ciências sociais. Aos 35 anos Verón era um "privilegiado" pela riquíssima experiência de conhecimentos que acumulou; a despeito de todas essas virtudes, propôs uma definição redutora, cibernética-mecanicista de comunicação, como a apresentada nos parágrafos anteriores.

No estudo sistemático da sua obra, constatamos a seriedade de Verón nas suas exposições sobre os modelos teóricos com que trabalha. Sua rigorosidade é acrescentada pelo postulado central de sua postura teórica: não aceitar a produção de conhecimentos sem pesquisa. Lembremos que para escrever Comunicación y neurosis investigou quase cinco anos sobre as relações entre psiquiatria social e comunicação; aplicou esquemas da semiologia estruturalista francesa (componentes semânticos; relações semânticas) e da psiquiatria (testes, entrevistas, categorias de perturbação lingüística) com dedicação. Suas tentativas classificatórias eram incansáveis, entretanto os resultados não correspondiam às suas expectativas gnosiológicas de construção de uma "teoria da comunicação".

Nos mesmos anos Verón escreveu As ideologias estão entre nós, que data de 1968, em que criticava o consumo de teorias dos países hegemônicos sem um conhecimento aprofundado e crítico desses modelos conceptuais pelas comunidades de pesquisadores da América Latina. Denunciava a ideologia dos difusores da "sociologia científica" (funcionalista); definia aspectos do modo de produção de conhecimentos; reconhecia que: "...a atividade científica constitui uma modalidade da práxis social", seguindo uma perspectiva marxista. Em síntese, Verón conhecia vários modelos complexos de interpretação dos processos históricos e, simultaneamente, produzia materiais redutores como o citado que constituem um sintoma importante de seus deslocamentos teóricos futuros.

Independentemente da postura paradigmática, essa definição de comunicação demonstra as limitações do autor naquele momento; e, a meu modo de ver, comprova uma questão que, depois da crise dos anos 80, foi evidente no conjunto das comunidades de cientistas sociais: o domínio formal, da lógica de um modelo teórico-metodológico, e o conhecimento vasto de uma teoria não garantem a maturidade científica, a coerência ética e o compromisso político-social.

Um intelectual pode estudar por um longo período as propostas de um paradigma ou de vários paradigmas, consegue expor argumentos que expressam a abrangência e domínio dessas proposições, pode ensinar por anos a validade desses postulados e, contudo, mudar radicalmente de postura de um momento para outro como conseqüência de uma variante de percurso ou de mudanças históricas conjunturais. São por demais oportunas para o marketing acadêmico essas "rupturas" de moda, escandalosas e favorecedoras da lógica hegemônica.

Para nossa reflexão é importante constatar como, num mesmo autor - sério e paradigmático - , subsistem posicionamentos teóricos contraditórios que convivem sem o confronto necessário de esclarecimento científico. Não como simples presença ou influência, mas como assimilação das propostas teórico-metodológicas fundamentais.

Em Verón o aspecto lingüístico, semiótico e informático é dominante. Pergunto-me o que teria sucedido com o autor, no ambiente crítico dos anos 60, se não adotava formalmente um discurso "estruturo-marxista". Por que ele mesmo, atualmente (1998), classifica algumas de suas produções sociológicas, da época, como "marxóides"? Será que seu teorismo, combinado com pesquisas empíricas com forte organização e controle de códigos semiológicos, não aumentou esse desconforto filosófico? Até que ponto seu ceticismo e sua tendência detalhista condicionaram sua futura rejeição ao mundo acadêmico? Por que o lado funcional, operativo, de efeitos pertinentes, foi hegemônico a partir de meados dos anos 80, porventura pela saturação teorética? O fato fundamental, que interessa para nosso tipo de pesquisa, é como as marcas presentes nas suas proposições, seleções, exclusões e decisões históricas – como sua saída da América Latina– são possíveis de analisar e interpretar numa perspectiva teórica crítica e reflexiva geradora de argumentos para a produção de conhecimentos em comunicação.

Outra proposição que é possível formular a partir da análise do processo de Verón: Não obstante um autor ou uma equipe conheçer e dominar modelos teóricos de maneira detalhada, isso não significa que consiga produzir conhecimentos afinados, abrangentes e aprofundados acerca do caráter geral de um objeto.

O formalismo semiótico e a teoria dos atos da linguagem demonstram como a utilização de inúmeras funções, variáveis, tipos de relações, classificações, operações etc. não constróem explicações ricas e essenciais acerca da problemática que abordam. Em geral observa-se um alto investimento teórico formal e uma fraca descrição empírica acompanhada de uma interpretação reduzidíssima.

O processo de recepção em Comunicación y neurosis era concebido como uma "desconstrução" da lógica da mensagem; o modelo de Roman Jakobson dos eixos substitutivo e combinatório da linguagem é aplicado supondo que o indivíduo-receptor interpreta as mensagens buscando compreender a lógica interna do emissor.

Nessa época, as diferenças entre as gramáticas do emissor e do receptor eram descuidadas por Verón. Supostamente o receptor estaria constantemente tentando interpretar as mensagens do emissor e essa ingenuidade esteve presente numa considerável parte dos formalistas da linguagem. Em relação a isso Chomsky delimitou a problemática gramatical, sistêmica, da codificação e das normas que é pertinente e existe formalmente só nos teóricos, lingüistas e pesquisadores da linguagem.

Sabemos hoje, em razão do debate aprofundado e de pesquisas sistemáticas por mais de trinta anos em comunicação social, que os grupos sociais adotam partes dessas estratégias sistêmicas - reformulam e mudam as regras na sua prática social - ; desenvolvem modos de comunicação que têm a forma comum de táticas cotidianas fortemente condicionadas pelas mediações. O extralingüístico hoje é pensado como determinante dos modos de comunicação; a dimensão lingüística, que era considerada o universo e o núcleo duro da comunicação até os anos 70, passa a ter um lugar importante, porém específico, como uma práxis social de especialistas que deveriam considerar seu objeto como um sistema formal e não como um conjunto cultural, social e histórico da comunicação. Nesse sentido, Verón contribuiu de maneira importante para esclarecer a posição da lingüística no nosso campo; simultaneamente concentrou-se aos pocos numa concepção que reduz, na prática de pesquisa, o sociológico à semiose, outorgando a essa dimensão do histórico social o caráter universal e essencial da organização social que anteriormente era atribuída à lingüística.

O percurso estruturalista

A concepção de comunicação em Verón, nos anos 60, trazia, contudo, elementos muito mais interessantes para sua compreensão. No texto A antropologia estrutural, publicado no Brasil como primeiro capítulo de Ideologia, estrutura e comunicação, o autor expõe algumas questões importantes para aprofundar sua concepção acerca da teoria da comunicação.

Em primeiro lugar, a problemática das "culturas primitivas" desenvolvida por Lévi-Strauss que rompe com a visão clássica da antropologia ocidental, segundo a qual as culturas diferentes são concebidas como a "infância" da cultura do Ocidente. O mérito da antropologia estrutural, apontado também por Verón, foi reconhecer que os homens de outras culturas estruturam processos de organização social, de pensamento lógico, de criação artística, de valores éticos e de cosmovisão de caráter complexo, ético e lógico, independentemente dos valores e formatos da civilização ocidental:

O estudo dos fenômenos de parentesco indicava a existência, em um dos níveis fundamentais da organização social, de um sistema de regras lógicas de intercâmbio, (...). A partir desse momento, tornava-se possível efetuar uma análise detalhada dos sistemas de organização social, cujos princípios internos não diferem qualitativamente do pensamento lógico da sociedade moderna, com o que se acelerava a destruição da imagem tradicional do primitivo submerso nos labirintos da afetividade e da irracionalidade. Simultaneamente, Lévi-Strauss elaborava os primeiros lineamentos de uma teoria geral dos fenômenos sociais como processos de comunicação definidos por sistemas de regras, com o que seu pensamento convergia com alguns dos mais importantes desenvolvimentos das ciências humanas contemporâneas: a lingüística a partir de Saussure, e posteriormente a teoria da comunicação, a cibernética e a teoria dos jogos. [Destaques em negrito são meus]

As culturas autóctones, como demonstraram as pesquisas de Lévi-Strauss, tinham regras lógicas que se expressavam em organização social e em formas estruturadas de intercâmbio. A cultura, nessa teoria, passa a ser uma forma superior de ordenamento que se diferencia dos sistemas biológicos; para Lévi-Strauss os fenômenos sociais devem ser entendidos como processos de comunicação delimitados por sistemas de regras. Seguindo esse raciocínio Verón apontava:

As regras matrimoniais, entendidas como sintaxe de um sistema de intercâmbio de pessoas, conferem a estas o caráter de unidades de significação. (...) Lévi-Strauss distingue três níveis de comunicação social: comunicação de mensagens, que corresponde aproximadamente ao que o marxismo chama de superestrutura, isto é, todos os produtos simbólicos que operam sobre a base da linguagem ou de algum sistema codificado de signos; comunicação de mulheres, isto é, as formas de organização do parentesco e o intercâmbio matrimonial; e a comunicação de bens, vale dizer, a economia. Nestes dois últimos níveis, as formas de organização não se reduzem à função comunicativa: cumprem uma função primária extralingüística, e secundariamente significam. [Destaques em negrito são meus]

A comunicação vista como instituição social, como conjunto de regras que estruturam as significações, na mesma linha de Saussure. A antropologia de Lévi-Strauss rompeu com a concepção funcionalista etnocêntrica, no entanto serviu como um alicerce para as tendências formalistas em ciências sociais. Foi assim, que a possibilidade de tratamento formal, com auxílio de instrumentos matemáticos, para as ciências humanas constituiu um fator estimulante para aqueles que "reverenciavam" os números; essa alternativa, no caso de Verón, deve ter sido muito provocativa, considerando-se sua preferência pelos computadores e pelos formalismos lógicos naquela época.

É importante, por outro lado, verificar como a pesquisa antropológica estruturalista situou a problemática da comunicação no centro da organização social; questão que, depois de várias décadas (anos 70 e 80 do século XX), tornar-se-ia o ponto crucial dos debates sobre o período pós-moderno, pós-industrial e tecnotrônico.

A globalização capitalista precisou para sua implantação e desenvolvimento do estabelecimento de um sistema técnico-científico informacional único; as aplicações de tecnologias cibernéticas nos processos de produção são parte fundamental da formação de mais-valia relativa.

Quando Verón escreveu essas proposições, década de 60, estava no auge o pensamento racionalista, cientificista, evolucionista que tinha levado o homem para o espaço e que abria toda uma série de mitologias sobre as possibilidades de transformar o mundo pelo caminho da evolução científica.

Aspectos instigantes

As tendências formalistas não eram exclusivas no pensamento de Verón; pelo menos no nível teórico, reconhecia a primazia da práxis social, da história, do trabalho sobre a esfera da significação.

Eram muito interessantes suas observações sobre como as regras sociais de comunicação são inconscientes. Nessa dimensão, Verón situava uma convergência entre estruturalismo, psicanálise e marxismo que, de uma ou outra forma, presumia que: a "verdadeira significação inconsciente pode ser reconstruída a partir da conduta".

Esse suposto gerou uma série de proposições a respeito da possibilidade teórica de interpretar sistemas latentes mediante uma observação científica e sistemática que poderia reconstituir os sistemas conscientes de representação.

A comunicação, nessa nova formulação, deixa de ser o esquema mecânico-técnico demonstrado na primeira versão, e apresenta complexidade e abrangência inquestionáveis. No nível teórico é importante a definição dos vínculos da comunicação com a práxis social, com a cultura, com a história. No nível metódico é fundamental o reconhecimento de "outras lógicas silvestres" que pensariam o mundo como um sistema de elementos descontínuos (signos, componentes de mensagens, mitos, cosmovisões etc.).

No campo dos estudos em comunicação social na América Latina, esses elementos teóricos são muito importantes, porque permitem enfrentar o pensamento funcionalista na área sustentador do primado da razão positivista para compreender a problemática da comunicação social. Uma hipótese possível, a partir do modelo que reconhece uma razão analítica universal, é a que afirma a importância do desenvolvimento dos conhecimentos sobre as lógicas autóctones como fonte para compreender os modelos lógicos gerais e as lógicas comunicacionais. Essa proposição teórica, fundamenta a articulação desses pensamentos com a problemática das identidades, confrontos, fluxos e imaginários dos diferentes povos da região.

Em 1964 Verón já refletia sobre a necessidade do mediador em comunicação, aproveitando uma passagem do Pensamento Selvagem de Lévi-Strauss afirmava: "(...) cremos que entre práxis e práticas se intercala sempre um mediador, que é o esquema conceitual...".

Argumentava a favor da importância da teoria na ação social, mas restringia o mediador ao esquema conceitual coerente com seu teorismo. No futuro a noção de mediador terá uma importância singular, que teve sua realização mais transcendente nas propostas de deslocamento da problemática da comunicação social dos meios às mediações feita por Jesús Martín Barbero.

Desse modo, na mesma época, nos mesmos anos, no mesmo autor - Eliseo Verón - observamos critérios profundamente diferenciados do que seria a problemática e a concepção sobre os processos de comunicação social. Às vezes parece que o autor, na sua relação com vários paradigmas teóricos, entrava na lógica interna de cada um deles, construindo seus argumentos sem considerar, minuciosamente, as contribuições de cada um para o raciocínio de conjunto. A percepção de sintonias teórico-metodológicas entre vários sistemas de hipóteses contrapostos era trabalhada nas suas coincidências, em vários momentos, sem importar muito os pontos de confronto entre esses argumentos. O trabalho de Verón é um exemplo importante de construções pluridisciplinares que não conseguiram um avanço transdisciplinar e se deslocaram para o "campo seguro" da semiótica de Peirce.

Como sublinhávamos anteriormente, nos anos 80 o autor tem um rompimento não só com o marxismo, mas também com o estruturalismo e com a semiologia de Saussure. É interessante como, nesse processo, ele abre sua perspectiva semiótica, passando dos esquemas semiológicos tipo Greimas para uma visão mais sociológica e histórica da produção de sentido (discursos sociais), e valorizando esses conjuntos de sentido na sua realidade empírica, nos meios ou nas falas das pessoas. O formalismo das variáveis, componentes e relações estruturais preestabelecidas e o autoritarismo lingüístico dão passo a uma visão mais centrada e concreta dos processos sociais de produção de sentido. O paradoxo dialético, contudo, apresenta-se no estabelecimento do lugar que ocuparia a teoria dos discursos sociais na pesquisa em ciências humanas: o centro, o núcleo, o eixo principal de interpretação dos processos políticos, sociológicos, antropológicos, mediáticos e históricos, na ótica de Verón, é sua teoria dos discursos sociais.

Numa mesma operação rompeu com as formas binárias de Saussure, com o estruturalismo, com o posicionamento que tentava combinar modelos teóricos diferenciados de maneira criativa e dotou à chamada teoria dos discursos sociais de uma essencialidade logocêntrica, redutora, que perde o conjunto teórico necessário para problematizar os processos de comunicação social.

O ceticismo que constatamos no Verón de 1959-1973 estava orientado contra os argumentos funcionalistas que afirmavam ter uma construção teórica global científica do social; estava orientado, também, contra as formas esquemáticas e superficiais em ciências sociais e a respeito de sua própria condição como teórico e da condição dos outros pensadores latino-americanos.

Não obstante, sua práxis era dinâmica; estudou e pesquisou com o Colégio Invisível, no laboratório de Lévi-Strauss, no seminário de Barthes, aproximou-se das teses estruturalistas marxistas; enfim procurou entender o social, o cultural, o simbólico e o comportamental inserindo nas suas reflexões redes conceituais de modelos fortes com um importante reconhecimento social.

A partir de 1974 vai ficando cada vez mais cético sobre os paradigmas teóricos gerais, concentra-se na análise dos discursos e transforma estes na teoria e o método unívoco para estudar os processos histórico-sociais de produção de sentido. Nesse percurso, é importante observar como sua concepção sobre a problemática da comunicação apresenta, nas duas fases, visões redutores e insustentáveis; a meu ver é demonstrativa a seguinte proposição:

El lector ya habrá comprendido que la diferencia entre una teoría de la comunicación y una teoría del discurso es que la primera es una teoría formulada desde el punto de vista subjetivo del actor, y la segunda una teoría del observador. En efecto: desde el punto de vista de un actor social que "comunica", no existe ninguna clase de indeterminación: él sabe (o cree saber) lo que "quiere decir", y en función de esta representación produce su discurso. Dicho de otra manera: la indeterminación relativa de la circulación del sentido sólo es visible para un observador, el cual, colocándose "fuera", analiza el intercambio discursivo. El predominio de las "teorías de la comunicación" ha ocultado, durante largo tiempo, esta propiedad fundamental del funcionamiento de los discursos sociales que es el carácter no lineal de la circulación.

As teorias da comunicação reduzidas a uma teoria do ponto de vista subjetivo do ator social; aí está uma amostra de como pode deslocar-se um pensador para inferências esquemáticas. Verón pode argumentar sobre a concentração teórica na subjetividade da teoria de Saussure, da psicanálise e de outras teorias psicológicas em comunicação; entretanto, não podia ampliar essa caracterização para a compreensão da problemática da comunicação social. A economia-política dos modos e das formas de comunicação; a história do campo; os estudos culturais; as políticas de comunicação; a teoria das mediações; a teoria dos meios e das tecnologias etc. são uma amostra representativa de que essa redução não corresponde à realidade. Como explicar esse deslize em 1988? Penso que pode ter sido provocado pelo logocentrismo semiótico, que na segunda fase do seu processo intelectual reduziu sua produção a uma prática operacional.

O sentido da ação

Retornemos à concepção de comunicação. Uma questão teórica insistentemente trabalhada por Verón, que expressa seu aprofundamento e seu dom sistematizador, é a problemática do sentido da ação, em que as sociologias estruturo-funcionalistas se empenharam construindo uma série de interpretações subjetivistas. O autor questiona profundamente essa concepção, desenvolvendo uma capacidade crítica apurada para demonstrar as divergências dessas correntes de pensamento:

O "sentido" é uma propriedade associada a certos elementos observáveis, as mensagens. O sentido não é um "conteúdo de consciência": remete a certas operações realizadas por emissores e receptores, que podem ser reconstruídas a partir das próprias mensagens, e expressas num modelo. Um dos passos decisivos para constituir essa ciência da comunicação social é, pois, o que nos leva da noção de representação à nocão de mensagem. A primeira supõe fatalmente a consciência intencional de um ator, e é um conceito estático; a segunda supõe um sistema de operações, e é um conceito dinâmico. [Destaques em negrito são meus].

A materialidade do sentido é fundamental em Verón, que supera a tendência ao psicologismo da sociologia e a lingüística de Saussure. Define, assim, uma espaço-temporalização do sentido na mensagem; ela é passível de desconstrução, análise, crítica, reprodução de suas operações de montagem, reformulação etc. A mensagem supõe uma estrutura, uma lógica interna, um valor contextual que podem ser analisados independentemente da vontade do construtor.

Hoje compreendemos muito melhor a autonomia relativa da obra com respeito ao autor, este como um mediador magmático - no sentido proposto por Eco - ; o processo de leitura ou recepção como um conjunto cultural complexo; as marcas do texto no leitor como outro processo complexo que depende de múltiplas variáveis sociais e subjetivas. O importante é notar que Verón criticava o pensamento sociológico pela sua atividade redutora do problema do sentido; ele não é, simplesmente, um "conteúdo da consciência", tampouco é uma "propriedade intrínseca do curso da ação". As noções de "meios", "fins", "motivos", "condições" não explicam o processo de produção de sentido, porque nessa perspectiva:

"(...) a ação é uma mensagem e, como toda mensagem, carece de significado intrínseco: o "sentido" que transmite está determinado por suas regras de codificação. Essas regras não se manifestam nunca na própria ação; é necessário reconstruí-las a partir da ação. E como qualquer fragmento de comportamento social está submetido a muitos sistemas de codificação ao mesmo tempo, nunca possui um sentido, mas muitos. É necessário, pois, introduzir a idéia de uma pluralidade de níveis de sentido da ação social.

Para pensar o sentido da ação devemos situá-la, segundo Verón, numa problemática semiótica, na qual o sentido é múltiplo e depende dos diferentes níveis; esses níveis são os diferentes processos de codificação presentes nos processos sociais de produção de sentido. Vários sistemas de codificação, simultâneos, determinariam o sentido. A noção de codificação continua sendo fundamental nessa proposta; as regras de construção cumpririam, assim, um papel determinante. Lembremos que essas proposições datam do período 1965-67, nelas o papel do contexto, da interação, o poder, a dimensão ideológica, a distância interdiscursiva, a terceiridade, os jogos de linguagem ainda não estão presentes na concepção de Verón. De todo modo, suas formulações apresentavam uma opção mais elaborada para interpretar o sentido da ação social que as hegemônicas na sociologia da época. As formulações do autor estabeleciam, já, que não existe um sentido único e mecânico determinado pelo ator social de acordo com seus motivos e fins; que os sentidos concretos, produzidos, podem ser até contrários à vontade do autor - esta foi uma das questões colocadas de forma muito pertinente nesses anos.

Existe uma "linguagem da ação"? Eis aí uma pergunta-chave, que Verón colocava como crucial para entender o ponto de vista da comunicação em ciências sociais. No texto "Os códigos da ação" o autor aprofunda essa reflexão, retomando a noção saussuriana de relações associativas e os aprofundamentos posteriores de Roman Jakobson sobre as operações de seleção e combinação que, superando os estreitos limites da sintaxe e da semântica, buscavam caracterizar os processos de comunicação, não construção concreta da linguagem.

Seguindo o raciocínio de Jakobson, Verón reflete sobre a importância dos eixos da substituição (metáfora) e contigüidade (metonímia), que permitiriam explicar dois tipos fundamentais de codificação: codificação analógica - série de símbolos por similaridade - e codificação digital - intervalos discretos escalonados: alfabeto fonético, sistema numérico, códigos binários. Verón combina as propostas lingüísticas de Jakobson com as proposições da George Bateson, P. Watzlawick, J. Beavin e D. D. Jackson do Colégio Invisível sobre produção de mensagens por máquinas calculadoras (digitais) e fotográficas (analógicas) procurando estabelecer elementos importantes para a interpretação comunicológica.

Nessa análise define o princípio de distância (temporal-espacial) como um elemento decisivo para constituir um signo:

Tudo indica, portanto, que deve existir alguma descontinuidade para que se tenha um signo: algum tipo de distância espacial ou temporal entre os elementos que compõem o signo. Uma manifestação da realidade não é um signo de si própria, mas pode ser um signo de alguma outra coisa.

Seguindo esse raciocínio considero importante a crítica à noção saussuriana de signo arbitrário, realizada mediante a inserção das proposições de Bateson, Ekman e Jackson, que foram produto de pesquisas antropológicas sobre comportamentos não-verbais utilizados em processos de comunicação. De fato, os signos analógicos (similaridade) e metonímicos (parte/todo; conteúdo/recipiente; antes/depois; atrás/avante; fora/dentro; componente funcional/todo funcional; acima/abaixo etc.) não são arbitrários e têm um relação direta com o referente.

Na época, Verón ainda pensava essas relações no modelo saussuriano do signo: significante/significado, mas sua reflexão transcendia essa limitação conceptual. Sua argumentação sobre as relações de substituição / contigüidade; continuidade / descontinuidade (elementos discretos entre os quais não há transição: mensagens digitais); arbitrariedade / não-arbitrariedade; similaridade / não-similaridade oferecem raciocínios muito interessantes a respeito de matrizes de codificação que tentavam explicar fenômenos de comunicação verbais e não-verbais. É importante apontar que nesse texto não existia uma pretensão de saber acabado (efeito ideológico), nem tampouco uma negação das contribuições de autores, modelos e escolas diferenciados. Era uma época de procura transdisciplinar, de pesquisa sistemática e produção criativa no autor; nesse sentido, reflitamos acerca da seguinte hipótese:

"Meu argumento é que a passagem da similaridade a não-similaridade é gradual, quantitativa e relativa a processos perceptivos".

Para explicar esse argumento, Verón insere o exemplo da fotografia, uma mensagem analógica típica, portanto similar ao referente de sua simbolização. O autor realiza um deslocamento crucial: a mudança do nível perceptual para esclarecer a transição da similaridade para a não-similaridade, ele amplia a fotografia até uma dimensão que permita ao olho humano detectar a "multidão de pontos discretos de intensidades diferentes" que formam a imagem; teremos, assim, uma perspectiva de não-similaridade com o objeto fotografado. Esse exemplo lembra o descobrimento do caráter simultâneo corpuscular e ondular da matéria, formulado na física moderna, e a importância da perspectiva e do observador na práxis científica.

Os signos historicamente, também, realizariam esse percurso: um primeiro momento de similaridade com o objeto; uma segunda fase em que iriam se tornando mais complexos e abstratos até romper com a similaridade original.

Ao analisar a relação continuidade / descontinuidade, Verón concebe-a como uma dimensão formada por elementos que seriam pólos, nos quais se estabelecem nexos "quantitativos, graduais e relativos". Desse modo, o caráter quantitativo e gradual se repete definindo um processo de transformação entre essas duas formas de configuração dos códigos. Para ilustrar essa proposição, Verón utiliza o exemplo das mensagens visuais, analógicas e, portanto, contínuas, que podem ser transferidas para formas digitais estruturadas por elementos discretos, sem transição nenhuma. Esses procedimentos atualmente são comuns até na informática doméstica; pouco a pouco, inclusive nos países do Terceiro Mundo, as famílias usam "scanners" e transcodificadores para passar informações analógicas para digitais. O curioso é como, prematuramente, Verón incorporou essas reflexões ao pensamento sociológico em comunicação na América Latina. Foi por seu intermédio que as formulações e pesquisas de ponta, que os cientistas da Escola de Palo Alto realizavam, passaram a ser parte dos estudos de comunicação na região.

Lembremos que as proposições teórico-metodológicas dessa escola cobraram transcendência internacional e o reconhecimento acadêmico que mereciam só a partir dos anos 80, com a crise dos paradigmas consagrados, como foi o caso do funcionalismo norte-americano. Esse importante projeto pluridisciplinar e as riquíssimas experiências que oferecia às ciências sociais no mundo, nos anos 40, 50 e 60, não foram aproveitadas dada a força do funcionalismo e do pensamento crítico apocalíptico naquela época.

Ao cruzar as dicotomias substituição/contigüidade, continuidade/descontinuidade, arbitrariedade/não-arbitrariedade e similaridade/não similaridade com as formas de codificação digital, analógica, metonímica das máquinas do tempo (relógios) e simbólicas (logotipos de empresas), o autor estabelece relações importantes entre os diferentes tipos de códigos e as suas regras de organização e configuração em mensagens sociais. As misturas das dicotomias estruturalistas com as formulações comunicacionais de Palo Alto permitiriam ao autor a análise de problemas de produção de sentido social variados e de múltiplas perspectivas, tanto na publicidade quanto no discurso político. Seguindo essa linha de raciocínio, formulou o seguinte postulado: "(...) a possibilidade, dada a um sistema não-digital, de veicular mensagens mais ou menos abstratas somente existe sob a regra de substituição."

Isso significaria que as mensagens não-digitais codificadas sob a regra da contigüidade não têm possibilidade de abstração; se considerarmos que Verón compreende contigüidade como um relacionamento parte/todo ou parte/parte subjacente (relações simbólicas entre elementos que comparte uma espaço-temporalidade) compreenderemos melhor por que é necessário esse distanciamento substitutivo para caracterizar uma abstração.

Sabemos que as mensagens abstratas não são os mecanismos empíricos básicos de ação social. A ação social, segundo Verón, está caracterizada por mecanismos semiológicos básicos de contigüidade. De fato, o pensamento e a produção de conhecimentos, em geral, não são atribuições elementares da ação social; como podemos comprovar em qualquer tipo de sociedade, as mensagens abstratas precisaram de condições sociohistóricas, de produtores qualificados, de desenvolvimento específico das linguagens complexas para configurar-se como uma dimensão superestrutural.

O postulado de Verón é pertinente e reforça a especificidade de um eixo lógico da linguagem, aplicável a todo tipo de modos de comunicação. Se pensarmos, por exemplo, numa mensagem complexa constituída por elementos visuais, verbais e sonoros, sua capacidade de abstração estará dada pela presença de fatores metafóricos que configuram a mensagem mediante uma resolução poética, que insere, densamente, qualidades essenciais e flexíveis; desse modo, expressa um sem-número de questões de forma abrangente e aberta.

A produção de sentido em 1969, data de produção de "Os códigos da ação", já era concebida por Verón como uma problemática centrada no observador e não no ator social. A diferença dessa concepção com a dos "discursos sociais" - na qual a interdiscursividade, o contexto e a interação são fundamentais - é que nos "códigos da ação":

"(...) a contigüidade constitui a regra básica pela qual um fragmento de ação transmite informação para um observador, mesmo se o seu desempenho não estiver associado a qualquer ‘intenção’ de comunicar. Qualquer ato corporal tem um elo de contigüidade espacial e temporal com a seqüência mais longa da qual forma parte, e, por força disso, el se torna inevitavelmente "contaminado" por sentido...". [Destaques em negrito são meus]

As ações sociais desenvolvidas por meio de movimentos corporais múltiplos têm, na proposta de Verón, um caráter seqüencial e uma existência relacional espacial fundamentais. É a natureza metonímica das ações que permitiria, mediante a contigüidade ou a pertença a uma cadeia (presente ou imaginada), obter informação das ações sociais. Existiria, desse modo, uma equivalência simbólica entre o todo e as partes, entre uma ação e a série. Não obstante, um mesmo ato poderia ser interpretado por vários observadores, dependendo da sua perspectiva, como agressão, burla, carinho etc.. A significação depende, assim, da série significante na qual o observador inseriu o ato.

Segundo Verón, o caráter ambíguo, atribuído por Bateson e Jackson às transações analógicas, corresponderia às relações metonímicas. As ações, ao estarem marcadas pela regra da contigüidade, possibilitam várias interpretações. Um mesmo conjunto de posturas corporais pode significar uma provocação erótica ou movimentos estéticos refinados de uma companhia de dança.

O problema central, nessas análises e postulados de Verón, é a ausência do contexto cultural como elemento que intervém fortemente na produção de sentido. As regras de elaboração das linguagens, de fato, são importantes para compreender as informações transmitidas. Mas um mesmo fragmento de ação, codificado numa mesma linguagem, cumprindo as mesmas normas e relações metonímicas pode produzir interpretações, leituras e informações diferenciadas dependendo das circunstâncias, do momento subjetivo, das diferenças culturais, da história desses eventos e de outros fatores multidimensionais.

Considero que a contigüidade é um fator da lógica interna da linguagem que deve ser examinado em toda análise de mensagens, entretanto não podemos afirmar que seja a regra básica. Além da oferta intertextual, intervêm várias questões importantes que definem o sentido das ações.

Podemos concordar com Verón em que: "Um fragmento de uma seqüência de conducta tende, contudo, a simbolizar por contigüidade o todo do qual forma uma parte."

Porém essa tendência não necessariamente será realizada. Os comportamentos humanos têm formas de realização diferenciadas (uma mesma seqüência tem vários todos); constatamos que nem os modos formais da codificação verbal ou da codificação matemática podem ser reduzidos a um esquema codificador digital ou analógico.

Não obstante Verón compreender a impossibilidade de inserir a ação humana nessas duas alternativas, pensava possível classificar os comportamentos em códigos complexos. Centrando, daquele modo, a problemática da comunicação referente às ações humanas à compreensão das regras de sua realização.

 

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Notas:

A pesquisa empírica que serviu de base a este trabalho realizou-se entre 1964 e 1968 em Buenos Aires; portanto, os conceitos expostos refletem o pensamento do autor durante esse período.

2 É importante lembrar a definição de informação de Norbert Wiener: "A soma de informação num sistema é a medida do seu grau de organização, escreve Wiener; a entropia é a medida do seu grau de desorganização; sendo uma o negativo da outra" [destaques em negrito são meus] Citado por Armand Mattelart, História das teorias da comunicação, Porto, Campo das Letras, 1997, p. 55, com base no texto Cybernetics or control and communication in the animal and the machine, Paris, Hermann, 1948.

3 Eliseo Verón, Comunicaçión y neurosis, Buenos Aires, Editorial del Instituto, 1970, p. 89-91.

4 Essa concepção cibernética de Verón corresponde mais à concepção mecânica, linear de Shannon que à concepção de Wiener ou da Escola de Palo Alto; para esta última, cibernética fala de uma visão circular de comunicação na qual o receptor tem a mesma importância que o emissor, nela a comunicação é pensada como um processo global de interação permanente, no qual toda atividade humana tem um valor de comunicação. Para a cibernética Palo Alto-Wiener, a comunicação deve ser compreendida em vários níveis de complexidade; sendo que o comportamento humano expressaria questões essenciais do meio ambiente social. Seguindo essa linha de pensamento, o contexto é muito mais importante que os conteúdos na análise comunicológica. Como comprova nos textos citados a definição de comunicação de Verón estava longe dessa visão.

5 Eliseo Verón, "Condiciones de producción, modelos generativos y manifestación ideológica", in E. Verón (org.), El proceso ideológico, 2a. ed., Buenos Aires, Ed. Tiempo Contemporáneo, 1973, pp. 251-292.

6 Idem, ibIdem, p. 253.

7 Idem, Comunicación y neurosis, op. cit., p. 93: (...) codificación es una transformación realizada mediante un conjunto de reglas no ambíguas, por la cual los mensajes son convertidos de un sistema de representación a otro. (C. Cherry, On human communication, New York, MIT and Wiley, 1957, p. 303).

8 Idem, ibidem, p. 93.

9 Eliseo Verón, Ideologia, estrutura, comunicação, 2a.ed. São Paulo, Edusp-Cultrix, 1977, p. 207-208:

A práxis social está articulada numa pluralidade de complexos de atividade. A teoria marxista afirma que as características da organização de certo complexo (a saber, o da atividade econômica) tem maior peso que as de outros complexos para a determinação dos traços gerais de um determinado sistema social. Pois bem, a distinção infra-estrutura/superestrutura pode ser aplicada a cada um desses complexos de atividade social. A ciência é um deles. [Destaques em negrito são meus].

10 Como exemplos: "Ideología y comunicación de masas: La semantización de la violencia política", in Eliseo Verón, Lenguaje y comunicación social, Buenos Aires, Nueva Visión, 1971, cap. 5; "Análisis de componentes semánticos" e "Análisis de relaciones semánticas" (cap. 6 e 7 de Comunicación y neurosis); Construir el acontecimiento, Buenos Aires, Gedisa, 1983.

11 Eliseo Verón, Comunicación y neurosis, op. cit. p. 100: Como puede verse, se trata muy claramente de un caso de lo que en el capitulo I hemos llamado el "problema de la caja negra". El observador analiza las entradas y salidas del emisor, que es una caja negra. Las entradas son las propias conductas del observador, si es un observador participante que interactúa con el sujeto estudiado, o las conductas de otras personas, en el caso en que observe, desde afuera, una situación interactiva. Las salidas son los mensajes emitidos por el sujeto. A partir de estos observables, deberá descubrir algo acerca de las reglas selectivas y combinatorias que el emisor aplica para construir sus mensajes, y asimismo acerca de las reglas que emplea para "interpretar"o decodificar los mensajes que recibe de los demás. Debe tenerse en cuenta que, para ambos tipos de reglas, los observables son los mismos: las salidas, es decir, los mensajes emitidos por el sujeto.

12 Eliseo Verón, "A antropologia estrutural", in Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit., p. 26.

13 Idem, ibidem, p. 28.

14 São paradigmáticas nesse sentido suas classificações sobre componentes, funções, relações, tipos, variáveis em Lenguaje e comunicación social, op. cit., p. 151-191 e em Comunicación y neurosis, op. cit., p. 135-206.

15 Isso não significa que não reconhecesse a importância do pensamento crítico marxista que apresentava um confronto radical tanto nos argumentos quanto nas ações de rebeldia com as lógicas hegemônicas. Contudo, Verón era muito mais sensível, nesse período, à pesquisa formal que à ação militante. Numa época tão conturbada ele foi alheio à participação política. Foi um crítico sério, em teoria, das proposições radicais formais das esquerdas na Argentina: não obstante não teve a mínima preocupação por implementar esses postulados numa prática política.

16 Eliseo Verón, Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit., p. 30.

17 Claude Lévi-Strauss, La pensée sauvage, Paris, Plon, 1962, p. 173.

18 Jesús Martín Barbero, Dos meios às mediações, Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 1997.

19 Eliseo Verón e Silvia Sigal, Perón o muerte, Buenos Aires, Ediciones Hyspamérica, 1988, p. 13: Como todo comportamiento social, la acción política no es comprensible fuera del orden simbólico que la genera, y del universo imaginario que ella misma engendra dentro de un campo determinado de relaciones sociales. Ahora bien, el único camino para acceder a los mecanismos imaginarios y simbólicos asociados al sentido de la acción es el análisis de los discursos sociales. [Destaques em negrito são meus, sublinhado do autor]

20 Idem, ibidem, p. 16.

21 Eliseo Verón, Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit., p. 12.

22 Umberto Eco, Interpretação e superinterpretação, São Paulo, Martins Fontes, 1993, p. 100: Entender o processo criativo é entender também como certas soluções textuais surgem por acaso, ou em decorrência de mecanismos inconscientes. Ë importante entender a diferença entre a estrategia textual -enquanto objeto lingüístico que os leitores-modelo têm sob os olhos (de modo a poder existir independentemente das intenções do autor empírico)- e a história do desenvolvimento daquela estratégia textual.

(...) mostrar como um texto, que é um mecanismo concebido com a finalidade de fazer com que surjam interpretações, às vezes brota de um território magmático que nada tem -ou ainda não tem- a ver com a literatura.

23 Idem, ibIdem, p. 13.

24 Eliseo Verón, "Os códigos da ação", in Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit., pp. 114-137. (Publicado simultaneamente na revista Communications, Paris, Éditions du Seuil, n. 15).

25 Idem, ibidem, p. 121.

26 Umberto Eco, Interpretação e superinterpretação, op. cit., p. 56-57: É inegável que os seres humanos pensam (também) em termos de identidade e similaridade. Mas, na vida cotidiana, o fato é que geralmente sabemos distinguir similaridades relevantes e significativas, por um lado, de similaridades fortuitas e ilusórias, por outro. Podemos ver alguém a distância cujos traços nos lembram a pessoa A, que conhecemos, tomá-la erroneamente por A e depois perceber que na verdade é B, um estranho; depois disso, em geral, abandonamos nossa hipótese quanto à identidade da pessoa e não damos mais crédito à similaridade, que registramos como fortuita. Fazemos isso porque cada um de nós introjetou um fato inegável, ou seja, que, de um certo ponto de vista, todas as coisas têm relações de analogia, contigüidade e similaridade com todas as outras. [Destaques em negrito são meus].

Idem, ibidem, op. cit., p. 61: (...) Penso, ..., que podemos aceitar uma espécie de princípio popperiano, segundo o qual, se não há regras que ajudem a definir quais são as "melhores" interpretações, existe ao menos uma regra para definir quais são as "más". [Destaques em negrito são meus].

27 Eliseo Verón, "Os códigos da ação", in Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit., p. 123.

28 Umberto Eco, Interpretação e superinterpretação, op. cit, p. 55: Como podemos ver, às vezes as duas coisas são semelhantes por seu comportamento, às vezes por sua forma, às vezes pelo fato de terem aparecido juntas num certo contexto. Desde que se consiga estabelecer algum tipo de relação, o critério não importa. Depois que o mecanismo de analogia se põe em movimento, não há garantias de que vá a parar. (...) Isso esclarece outro princípio subjacente da semiótica hermética. Se duas coisas são semelhantes, uma delas pode tornar-se signo da outra, e vice-versa.

29 Eliseo Verón, "Os códigos da ação", in Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit., p. 123.

30 Roman Jakobson:

"(...) Os constituintes de um contexto estão numa situação de contigüidade, ao passo que, num conjunto de substituição, os signos estão vinculados por vários graus de similaridade, que flutuam entre a equivalência de sinônimos e o núcleo comum de antônimos": in R. Jakobson e M. Halle, Fundamentals of language, Mouton & Co., S.-Gravenhage, 1956, p. 61, citado por E. Verón, Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit., pp. 115-116.

31 Eliseo Verón, "Os códigos da ação", in Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit , p. 134.

32 Idem, La semiosis social..., op. cit., p. 141: Peirce hablaba a este propósito de lazo existencial entre el signo y su objeto. El nivel de funcionamiento indicial es una red compleja de reenvíos sometida a la regla metonímica de la contigüidad: parte/todo; aproximação/alejamiento; dentro/fuera; delante/detrás; centro/periferia; etcétera. El pivote de este funcionamiento, que llamaré la capa metonímica de producción de sentido, es el cuerpo significante.(...) El cuerpo es el operador fundamental de esta tipología del contacto, cuya primera estructuración corresponde a las fases iniciales de lo que Piaget llamaba el período sensomotriz, anterior el lenguaje.

33 Idem, ibidem, p. 136.  

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Alberto Efendy Maldonado Gómez de la Torre é doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, professor do Programa de Pós-Graduação: Doutorado e Mestrado em Ciências da Comunicação/ UNISINOS, RS e pesquisador FAPERGS, CNPq, FAPESP, CAPES, UNISINOS.  

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