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Alberto Efendy Maldonado Gómez
de la Torre
alefma@icaro.unisinos.br
RESUMO
A problemática teórica em comunicação é
um setor da produção de conhecimento, na área, que historicamente teve
pouca atenção e aprofundamento. Neste artigo, trabalham-se fragmentos
teóricos das propostas de Eliseo Verón que pretendem servir como um
cenário de reflexão e produção de pensamentos, numa perspectiva
epistemológica histórica. Cibernética comunicacional; análises de
discurso; o sentido da ação; interações simbólicas; estruturalismo são
questões abordadas mediante um procedimento dialógico-crítico, que
procura desenvolver elementos para o pensamento comunicacional.
Palavras-chave: epistemologia histórica; comunicação;
produção de sentido.
Um pouco de história
Eliseo Verón é na América Latina um dos
autores mais importantes na constituição do campo de pensamento em
comunicação social. Existem duas fases fundamentais no seu processo teórico-metodológico:
uma primeira caracterizada por uma linha de preocupações psicossociais -
nas quais a lingüística e a semiologia já estavam presentes - e uma
segunda centrada na problemática semiótica.
Neste artigo, examino alguns elementos teóricos
relevantes trabalhados por Verón durante mais de três décadas,
respeitando o tempo histórico e as marcas que o autor foi
deixando na comunidade de ciências sociais e de comunicação na região.
Analiso a dimensão teórica do autor como uma problemática e não
como uma lista de conceitos acabados, fechados em si mesmo ou desvinculados
da realidade cultural. Nesse sentido, considero importante estudar os
problemas teóricos estabelecendo relações com as conjunturas históricas
e com as propostas de outros autores-referência na problemática.
A cibernética simbólica
Em Comunicación y neurosis, Verón
define a comunicação humana como uma máquina de informações binárias
(computador). Energia, informação e controle são elementos do
processo cibernético esquematizado por Verón. Informação e controle
seriam os elementos-chave para conceptualizar a comunicação humana, dado
que "os princípios básicos são os memos", segundo o
autor, tanto nos processos de informática eletromagnética quanto nos
processos sociais. Essa afinidade com a informática continua na atualidade,
como demonstra a entrevista que realizei em 26 de agosto de 1998, em Buenos
Aires, na qual Verón reafirmou sua concepção cibernética sobre a
comunicação social. Inserindo-se nesse modelo e seguindo uma linha formalista
compreende que o estudo científico das comunicações e dos sistemas
de controle, tanto nos organismos vivos quanto nas máquinas, é parte
da mesma problemática substancial de comunicação.
Cabe anotar que na mesma época da publicação
de Comunicación y neurosis, Verón publicou El proceso ideológico,
uma coletânea na qual escreveu "Condiciones de producción, modelos
generativos y manifestación ideológica". Nesse texto debate as
proposições de Chomsky, mistura Marx com Greimas e propõe uma definição
informática para ideologia:
Se proponía
entonces localizar la ideología en un nivel lógico más complejo, y con
este fin introduje la analogia con una computadora: las proposiciones
"ideológicas" son el "output" de la máquina; lo que
podemos llamar un sistema ideológico es su programa.
Interessa-me nessa passagem a referência ao modelo
informático que durante os últimos trinta anos gerou concepções
fortes acerca da vida e da sociedade. Observamos no autor a presença de
pensamentos hegemônicos, que alcançaram essa abrangência devido ao
desenvolvimento acelerado dos modelos biológicos e sua descoberta da
organização dos códigos genéticos de maneira profundamente similar aos
modelos lingüísticos formais.
Na perspectiva de Chomsky, assumida por Verón
logo por ocasião de um primeiro confronto nos anos 70, o objeto de estudo
da lingüística seria biológico-cognitivo e não social. O objeto lingüístico
estaria conformado por frases-modelo comparáveis a um quantum;
vistas como expressões abstratas que não devem ser confundidas com as
formas sociais-coloquiais da linguagem cotidiana - discursos sociais
na terminologia de Verón, modos e formas de comunicação na minha
compreensão.
É importante considerar essa distinção,
definida por Verón, porque explica importantes confusões que ocorreram nas
proposições teórico-metodológicas dos lingüistas, semiólogos, semânticos
formais e teóricos dos atos da linguagem. Uma coisa é estudar a
linguagem como sistema e estrutura formal, de caráter cognitivo-biológico,
e outra muito diferente estudar os modos sociais de comunicação,
definidos por Verón como discursos sociais seguindo sua linha semiótica-lingüística.
O importante para a problemática da comunicação,
segundo essa primeira concepção cibernética de Verón, seria conhecer o
conjunto de regras organizadas que permitiriam codificar uma informação.
As informações seriam impulsos controlados que produzem efeitos
mediante a transmissão de ordens codificadas. Abre/fecha,
liga/desliga, armazena/apaga, seleciona/exclui, transfere/mantém etc. são
exemplos de funcionamento binário que segundo Verón aconteceria, também,
na comunicação humana.
Para o autor a informação estaria
definida por uma capacidade de organizar elementos - impulsos, fonemas etc.
- mediante regras de construção/desconstrução que permitiriam a
transmissão de ordens controladas entre o emissor e o receptor:
Si imaginamos
que A y B son personas, y si suponemos que la información se transmite en ambos
sentidos, es decir, que cada comunicador emite y recibe mensajes, estamos ya
muy cerca de un modelo útil para comprender la comunicación humana. La
dimensión de control se referirá al hecho de que un mensaje de A hacia B
produce en B un efecto: modifica su conducta; y como la conducta
consiste, desde este punto de vista, en mensajes (auditivos o visuales), ese
efecto se traducirá en mensajes emitidos por B, que A recibirá. A será
afectado a su vez por los mensajes de B, y así sucesivamente, en un proceso
a la vez circular y acumulativo que llamaremos la "espiral de la
interacción". Estamos en el campo de la teoria de la comunicación en
la medida en que el elemento crucial es para nosotros la organización
de la energía, vale decir, porque suponemos que los efectos resultan de la
configuración de los estímulos mensajes y no de las características intrínsecas
de la energía. [Destaques em negrito são meus]
A espiral de interação será
essa capacidade de produzir efeitos controlados entre duas pessoas;
esses efeitos são produto da organização da energia e não do tipo
de energia. São os estímulos ordenados mediante códigos (regras)
que permitiriam um fluxo biunívoco de "informações".
Impressionante como um pensador que
trabalhava, já naquela época, modelos sociológicos críticos; que adotava
posturas da semiologia de Barthes; concebia, simultaneamente, em outros
textos e lugares, a comunicação como um processo social complexo que
precisava de psicanálise, de antropologia, de sociologia, de estudos
culturais e de economia-política podia propor esquemas tão
reduzidos e mecanicistas como o exposto na citação anterior.
Produzir impulsos organizados que provocam
efeitos determinados pela capacidade de controle, de fluxo em
dois sentidos e de domínio dos códigos. Conceber o controle com a
simples mudança de conduta provocada por uma mensagem, efeito que hoje nem
os funcionalistas defenderiam; porém em Verón a marca formalista é forte
e o esquema proposto pelos engenheiros de computação era atraente e
fundamentado num campo científico "hard".
Num olhar crítico, me preocupam muito esses
contrastes de posicionamento porque não foram produto de uma busca primária.
Em 1970 o autor já passou pelo laboratório de Lévi-Strauss, pelo Seminário
de Barthes, pela experiência de pesquisa sociológica na UBA, pelos
contatos com o Colégio Invisível; era um autor muito bem informado
sobre as mais importantes tendências teórico-metodológicas em ciências
sociais. Aos 35 anos Verón era um "privilegiado" pela riquíssima
experiência de conhecimentos que acumulou; a despeito de todas essas
virtudes, propôs uma definição redutora, cibernética-mecanicista de
comunicação, como a apresentada nos parágrafos anteriores.
No estudo sistemático da sua obra,
constatamos a seriedade de Verón nas suas exposições sobre os modelos teóricos
com que trabalha. Sua rigorosidade é acrescentada pelo postulado central de
sua postura teórica: não aceitar a produção de conhecimentos sem
pesquisa. Lembremos que para escrever Comunicación y neurosis
investigou quase cinco anos sobre as relações entre psiquiatria social e
comunicação; aplicou esquemas da semiologia estruturalista francesa (componentes
semânticos; relações semânticas) e da psiquiatria (testes,
entrevistas, categorias de perturbação lingüística) com dedicação.
Suas tentativas classificatórias eram incansáveis, entretanto os
resultados não correspondiam às suas expectativas gnosiológicas de
construção de uma "teoria da comunicação".
Nos mesmos anos Verón escreveu As
ideologias estão entre nós, que data de 1968, em que criticava o
consumo de teorias dos países hegemônicos sem um conhecimento aprofundado
e crítico desses modelos conceptuais pelas comunidades de pesquisadores da
América Latina. Denunciava a ideologia dos difusores da "sociologia
científica" (funcionalista); definia aspectos do modo de produção
de conhecimentos; reconhecia que: "...a atividade científica
constitui uma modalidade da práxis social", seguindo uma
perspectiva marxista. Em síntese, Verón conhecia vários modelos complexos
de interpretação dos processos históricos e, simultaneamente, produzia
materiais redutores como o citado que constituem um sintoma importante de
seus deslocamentos teóricos futuros.
Independentemente da postura paradigmática,
essa definição de comunicação demonstra as limitações do autor
naquele momento; e, a meu modo de ver, comprova uma questão que, depois da
crise dos anos 80, foi evidente no conjunto das comunidades de cientistas
sociais: o domínio formal, da lógica de um modelo teórico-metodológico,
e o conhecimento vasto de uma teoria não garantem a maturidade científica,
a coerência ética e o compromisso político-social.
Um intelectual pode estudar por um longo período
as propostas de um paradigma ou de vários paradigmas, consegue expor
argumentos que expressam a abrangência e domínio dessas proposições,
pode ensinar por anos a validade desses postulados e, contudo, mudar
radicalmente de postura de um momento para outro como conseqüência de uma
variante de percurso ou de mudanças históricas conjunturais. São por
demais oportunas para o marketing acadêmico essas "rupturas" de
moda, escandalosas e favorecedoras da lógica hegemônica.
Para nossa reflexão é importante constatar
como, num mesmo autor - sério e paradigmático - , subsistem
posicionamentos teóricos contraditórios que convivem sem o confronto
necessário de esclarecimento científico. Não como simples presença ou
influência, mas como assimilação das propostas teórico-metodológicas
fundamentais.
Em Verón o aspecto lingüístico, semiótico
e informático é dominante. Pergunto-me o que teria sucedido com o autor,
no ambiente crítico dos anos 60, se não adotava formalmente um discurso
"estruturo-marxista". Por que ele mesmo, atualmente (1998),
classifica algumas de suas produções sociológicas, da época, como "marxóides"?
Será que seu teorismo, combinado com pesquisas empíricas com forte
organização e controle de códigos semiológicos, não aumentou esse
desconforto filosófico? Até que ponto seu ceticismo e sua tendência
detalhista condicionaram sua futura rejeição ao mundo acadêmico? Por que
o lado funcional, operativo, de efeitos pertinentes, foi hegemônico a
partir de meados dos anos 80, porventura pela saturação teorética? O fato
fundamental, que interessa para nosso tipo de pesquisa, é como as marcas
presentes nas suas proposições, seleções, exclusões e decisões históricas
– como sua saída da América Latina– são possíveis de analisar e
interpretar numa perspectiva teórica crítica e reflexiva geradora de
argumentos para a produção de conhecimentos em comunicação.
Outra proposição que é possível formular
a partir da análise do processo de Verón: Não obstante um autor ou
uma equipe conheçer e dominar modelos teóricos de maneira detalhada, isso
não significa que consiga produzir conhecimentos afinados, abrangentes e
aprofundados acerca do caráter geral de um objeto.
O formalismo semiótico e a teoria
dos atos da linguagem demonstram como a utilização de inúmeras funções,
variáveis, tipos de relações, classificações, operações etc. não
constróem explicações ricas e essenciais acerca da problemática que
abordam. Em geral observa-se um alto investimento teórico formal e uma
fraca descrição empírica acompanhada de uma interpretação reduzidíssima.
O processo de recepção em Comunicación
y neurosis era concebido como uma "desconstrução" da
lógica da mensagem; o modelo de Roman Jakobson dos eixos substitutivo
e combinatório da linguagem é aplicado supondo que o indivíduo-receptor
interpreta as mensagens buscando compreender a lógica interna do emissor.
Nessa época, as diferenças entre as gramáticas
do emissor e do receptor eram descuidadas por Verón.
Supostamente o receptor estaria constantemente tentando interpretar
as mensagens do emissor e essa ingenuidade esteve presente numa
considerável parte dos formalistas da linguagem. Em relação a isso
Chomsky delimitou a problemática gramatical, sistêmica, da codificação
e das normas que é pertinente e existe formalmente só nos teóricos,
lingüistas e pesquisadores da linguagem.
Sabemos hoje, em razão do debate aprofundado
e de pesquisas sistemáticas por mais de trinta anos em comunicação
social, que os grupos sociais adotam partes dessas estratégias sistêmicas
- reformulam e mudam as regras na sua prática social - ; desenvolvem modos
de comunicação que têm a forma comum de táticas cotidianas
fortemente condicionadas pelas mediações. O extralingüístico hoje
é pensado como determinante dos modos de comunicação; a dimensão
lingüística, que era considerada o universo e o núcleo duro
da comunicação até os anos 70, passa a ter um lugar importante,
porém específico, como uma práxis social de especialistas que deveriam
considerar seu objeto como um sistema formal e não como um conjunto
cultural, social e histórico da comunicação. Nesse sentido, Verón
contribuiu de maneira importante para esclarecer a posição da lingüística
no nosso campo; simultaneamente concentrou-se aos pocos numa concepção que
reduz, na prática de pesquisa, o sociológico à semiose, outorgando
a essa dimensão do histórico social o caráter universal e essencial da
organização social que anteriormente era atribuída à lingüística.
O percurso estruturalista
A concepção de comunicação em Verón,
nos anos 60, trazia, contudo, elementos muito mais interessantes para sua
compreensão. No texto A antropologia estrutural, publicado no Brasil
como primeiro capítulo de Ideologia, estrutura e comunicação, o
autor expõe algumas questões importantes para aprofundar sua concepção
acerca da teoria da comunicação.
Em primeiro lugar, a problemática das "culturas
primitivas" desenvolvida por Lévi-Strauss que rompe com a visão
clássica da antropologia ocidental, segundo a qual as culturas diferentes são
concebidas como a "infância" da cultura do Ocidente. O mérito da
antropologia estrutural, apontado também por Verón, foi reconhecer
que os homens de outras culturas estruturam processos de organização
social, de pensamento lógico, de criação artística, de valores éticos e
de cosmovisão de caráter complexo, ético e lógico, independentemente dos
valores e formatos da civilização ocidental:
O estudo dos
fenômenos de parentesco indicava a existência, em um dos níveis
fundamentais da organização social, de um sistema de regras lógicas de
intercâmbio, (...). A partir desse momento, tornava-se possível efetuar
uma análise detalhada dos sistemas de organização social, cujos princípios
internos não diferem qualitativamente do pensamento lógico da sociedade
moderna, com o que se acelerava a destruição da imagem tradicional do
primitivo submerso nos labirintos da afetividade e da irracionalidade.
Simultaneamente, Lévi-Strauss elaborava os primeiros lineamentos de
uma teoria geral dos fenômenos sociais como processos de comunicação
definidos por sistemas de regras, com o que seu pensamento convergia com
alguns dos mais importantes desenvolvimentos das ciências humanas contemporâneas:
a lingüística a partir de Saussure, e posteriormente a teoria da comunicação,
a cibernética e a teoria dos jogos. [Destaques em negrito são meus]
As culturas autóctones, como demonstraram as
pesquisas de Lévi-Strauss, tinham regras lógicas que se expressavam em
organização social e em formas estruturadas de intercâmbio. A cultura,
nessa teoria, passa a ser uma forma superior de ordenamento que se
diferencia dos sistemas biológicos; para Lévi-Strauss os fenômenos
sociais devem ser entendidos como processos de comunicação delimitados por
sistemas de regras. Seguindo esse raciocínio Verón apontava:
As regras
matrimoniais, entendidas como sintaxe de um sistema de intercâmbio de
pessoas, conferem a estas o caráter de unidades de significação. (...)
Lévi-Strauss distingue três níveis de comunicação social: comunicação
de mensagens, que corresponde aproximadamente ao que o marxismo chama
de superestrutura, isto é, todos os produtos simbólicos que operam sobre a
base da linguagem ou de algum sistema codificado de signos; comunicação de
mulheres, isto é, as formas de organização do parentesco e o intercâmbio
matrimonial; e a comunicação de bens, vale dizer, a economia.
Nestes dois últimos níveis, as formas de organização não se reduzem à
função comunicativa: cumprem uma função primária extralingüística, e
secundariamente significam. [Destaques em negrito são
meus]
A comunicação vista como instituição
social, como conjunto de regras que estruturam as significações, na
mesma linha de Saussure. A antropologia de Lévi-Strauss rompeu com a concepção
funcionalista etnocêntrica, no entanto serviu como um alicerce para as tendências
formalistas em ciências sociais. Foi assim, que a possibilidade de
tratamento formal, com auxílio de instrumentos matemáticos, para as ciências
humanas constituiu um fator estimulante para aqueles que
"reverenciavam" os números; essa alternativa, no caso de Verón,
deve ter sido muito provocativa, considerando-se sua preferência pelos
computadores e pelos formalismos lógicos naquela época.
É importante, por outro lado, verificar como
a pesquisa antropológica estruturalista situou a problemática da
comunicação no centro da organização social; questão que, depois de várias
décadas (anos 70 e 80 do século XX), tornar-se-ia o ponto crucial dos
debates sobre o período pós-moderno, pós-industrial e tecnotrônico.
A globalização capitalista precisou
para sua implantação e desenvolvimento do estabelecimento de um sistema técnico-científico
informacional único; as aplicações de tecnologias cibernéticas nos
processos de produção são parte fundamental da formação de mais-valia
relativa.
Quando Verón escreveu essas proposições, década
de 60, estava no auge o pensamento racionalista, cientificista,
evolucionista que tinha levado o homem para o espaço e que abria toda uma série
de mitologias sobre as possibilidades de transformar o mundo pelo caminho da
evolução científica.
Aspectos instigantes
As tendências formalistas não eram
exclusivas no pensamento de Verón; pelo menos no nível teórico,
reconhecia a primazia da práxis social, da história, do trabalho sobre a
esfera da significação.
Eram muito interessantes suas observações
sobre como as regras sociais de comunicação são inconscientes.
Nessa dimensão, Verón situava uma convergência entre estruturalismo,
psicanálise e marxismo que, de uma ou outra forma, presumia
que: a "verdadeira significação inconsciente pode ser reconstruída
a partir da conduta".
Esse suposto gerou uma série de proposições
a respeito da possibilidade teórica de interpretar sistemas latentes
mediante uma observação científica e sistemática que poderia
reconstituir os sistemas conscientes de representação.
A comunicação, nessa nova formulação,
deixa de ser o esquema mecânico-técnico demonstrado na primeira versão, e
apresenta complexidade e abrangência inquestionáveis. No nível teórico
é importante a definição dos vínculos da comunicação com a práxis
social, com a cultura, com a história. No nível metódico é fundamental o
reconhecimento de "outras lógicas silvestres" que
pensariam o mundo como um sistema de elementos descontínuos (signos,
componentes de mensagens, mitos, cosmovisões etc.).
No campo dos estudos em comunicação social
na América Latina, esses elementos teóricos são muito importantes, porque
permitem enfrentar o pensamento funcionalista na área sustentador do
primado da razão positivista para compreender a problemática da comunicação
social. Uma hipótese possível, a partir do modelo que reconhece uma razão
analítica universal, é a que afirma a importância do desenvolvimento
dos conhecimentos sobre as lógicas autóctones como fonte para
compreender os modelos lógicos gerais e as lógicas comunicacionais. Essa
proposição teórica, fundamenta a articulação desses pensamentos com a
problemática das identidades, confrontos, fluxos e imaginários
dos diferentes povos da região.
Em 1964 Verón já refletia sobre a
necessidade do mediador em comunicação, aproveitando uma
passagem do Pensamento Selvagem de Lévi-Strauss afirmava: "(...)
cremos que entre práxis e práticas se intercala sempre um mediador,
que é o esquema conceitual...".
Argumentava a favor da importância da teoria
na ação social, mas restringia o mediador ao esquema conceitual
coerente com seu teorismo. No futuro a noção de mediador terá
uma importância singular, que teve sua realização mais transcendente nas
propostas de deslocamento da problemática da comunicação social dos meios
às mediações feita por Jesús Martín Barbero.
Desse modo, na mesma época, nos mesmos anos,
no mesmo autor - Eliseo Verón - observamos critérios profundamente
diferenciados do que seria a problemática e a concepção sobre os
processos de comunicação social. Às vezes parece que o autor, na sua relação
com vários paradigmas teóricos, entrava na lógica interna de cada um
deles, construindo seus argumentos sem considerar, minuciosamente, as
contribuições de cada um para o raciocínio de conjunto. A percepção de
sintonias teórico-metodológicas entre vários sistemas de hipóteses
contrapostos era trabalhada nas suas coincidências, em vários momentos,
sem importar muito os pontos de confronto entre esses argumentos. O trabalho
de Verón é um exemplo importante de construções pluridisciplinares que não
conseguiram um avanço transdisciplinar e se deslocaram para o "campo
seguro" da semiótica de Peirce.
Como sublinhávamos anteriormente, nos anos
80 o autor tem um rompimento não só com o marxismo, mas também com
o estruturalismo e com a semiologia de Saussure. É
interessante como, nesse processo, ele abre sua perspectiva semiótica,
passando dos esquemas semiológicos tipo Greimas para uma visão mais sociológica
e histórica da produção de sentido (discursos sociais), e
valorizando esses conjuntos de sentido na sua realidade empírica, nos meios
ou nas falas das pessoas. O formalismo das variáveis, componentes
e relações estruturais preestabelecidas e o autoritarismo lingüístico
dão passo a uma visão mais centrada e concreta dos processos sociais de
produção de sentido. O paradoxo dialético, contudo, apresenta-se no
estabelecimento do lugar que ocuparia a teoria dos discursos
sociais na pesquisa em ciências humanas: o centro, o núcleo, o eixo
principal de interpretação dos processos políticos, sociológicos,
antropológicos, mediáticos e históricos, na ótica de Verón, é sua teoria
dos discursos sociais.
Numa mesma operação rompeu com as formas
binárias de Saussure, com o estruturalismo, com o posicionamento que
tentava combinar modelos teóricos diferenciados de maneira criativa e dotou
à chamada teoria dos discursos sociais de uma essencialidade
logocêntrica, redutora, que perde o conjunto teórico necessário para
problematizar os processos de comunicação social.
O ceticismo que constatamos no Verón de
1959-1973 estava orientado contra os argumentos funcionalistas que afirmavam
ter uma construção teórica global científica do social; estava
orientado, também, contra as formas esquemáticas e superficiais em ciências
sociais e a respeito de sua própria condição como teórico e da condição
dos outros pensadores latino-americanos.
Não obstante, sua práxis era dinâmica;
estudou e pesquisou com o Colégio Invisível, no laboratório de Lévi-Strauss,
no seminário de Barthes, aproximou-se das teses estruturalistas marxistas;
enfim procurou entender o social, o cultural, o simbólico
e o comportamental inserindo nas suas reflexões redes conceituais de
modelos fortes com um importante reconhecimento social.
A partir de 1974 vai ficando cada vez mais cético
sobre os paradigmas teóricos gerais, concentra-se na análise dos
discursos e transforma estes na teoria e o método unívoco para estudar
os processos histórico-sociais de produção de sentido. Nesse percurso, é
importante observar como sua concepção sobre a problemática da comunicação
apresenta, nas duas fases, visões redutores e insustentáveis; a meu ver é
demonstrativa a seguinte proposição:
El lector ya
habrá comprendido que la diferencia entre una teoría de la comunicación y
una teoría del discurso es que la primera es una teoría formulada desde el
punto de vista subjetivo del actor, y la segunda una teoría del
observador. En efecto: desde el punto de vista de un actor social que
"comunica", no existe ninguna clase de indeterminación: él sabe
(o cree saber) lo que "quiere decir", y en función de esta
representación produce su discurso. Dicho de otra manera: la indeterminación
relativa de la circulación del sentido sólo es visible para un
observador, el cual, colocándose "fuera", analiza el
intercambio discursivo. El predominio de las "teorías de la comunicación"
ha ocultado, durante largo tiempo, esta propiedad fundamental del
funcionamiento de los discursos sociales que es el carácter no lineal de la
circulación.
As teorias da comunicação reduzidas a uma
teoria do ponto de vista subjetivo do ator social; aí está uma
amostra de como pode deslocar-se um pensador para inferências esquemáticas.
Verón pode argumentar sobre a concentração teórica na subjetividade da
teoria de Saussure, da psicanálise e de outras teorias psicológicas em
comunicação; entretanto, não podia ampliar essa caracterização para a
compreensão da problemática da comunicação social. A economia-política
dos modos e das formas de comunicação; a história do campo; os
estudos culturais; as políticas de comunicação; a teoria
das mediações; a teoria dos meios e das tecnologias etc. são
uma amostra representativa de que essa redução não corresponde à
realidade. Como explicar esse deslize em 1988? Penso que pode ter sido
provocado pelo logocentrismo semiótico, que na segunda fase do seu
processo intelectual reduziu sua produção a uma prática operacional.
O sentido da ação
Retornemos à concepção de comunicação.
Uma questão teórica insistentemente trabalhada por Verón, que expressa
seu aprofundamento e seu dom sistematizador, é a problemática do sentido
da ação, em que as sociologias estruturo-funcionalistas se
empenharam construindo uma série de interpretações subjetivistas.
O autor questiona profundamente essa concepção, desenvolvendo uma
capacidade crítica apurada para demonstrar as divergências dessas
correntes de pensamento:
O
"sentido" é uma propriedade associada a certos elementos observáveis,
as mensagens. O sentido não é um "conteúdo de consciência":
remete a certas operações realizadas por emissores e receptores, que podem
ser reconstruídas a partir das próprias mensagens, e expressas num modelo.
Um dos passos decisivos para constituir essa ciência da comunicação
social é, pois, o que nos leva da noção de representação à nocão de
mensagem. A primeira supõe fatalmente a consciência intencional de um
ator, e é um conceito estático; a segunda supõe um sistema de operações,
e é um conceito dinâmico. [Destaques em
negrito são meus].
A materialidade do sentido é
fundamental em Verón, que supera a tendência ao psicologismo da sociologia
e a lingüística de Saussure. Define, assim, uma espaço-temporalização
do sentido na mensagem; ela é passível de desconstrução, análise,
crítica, reprodução de suas operações de montagem, reformulação etc.
A mensagem supõe uma estrutura, uma lógica interna, um valor
contextual que podem ser analisados independentemente da vontade do
construtor.
Hoje compreendemos muito melhor a autonomia
relativa da obra com respeito ao autor, este como um mediador magmático -
no sentido proposto por Eco - ; o processo de leitura ou recepção como um
conjunto cultural complexo; as marcas do texto no leitor como outro processo
complexo que depende de múltiplas variáveis sociais e subjetivas. O
importante é notar que Verón criticava o pensamento sociológico pela sua
atividade redutora do problema do sentido; ele não é, simplesmente, um "conteúdo
da consciência", tampouco é uma "propriedade intrínseca
do curso da ação". As noções de "meios",
"fins", "motivos", "condições" não
explicam o processo de produção de sentido, porque nessa perspectiva:
"(...) a ação
é uma mensagem e, como toda mensagem, carece de significado intrínseco:
o "sentido" que transmite está determinado por suas regras de
codificação. Essas regras não se manifestam nunca na própria ação; é
necessário reconstruí-las a partir da ação. E como qualquer fragmento de
comportamento social está submetido a muitos sistemas de codificação ao
mesmo tempo, nunca possui um sentido, mas muitos. É necessário,
pois, introduzir a idéia de uma pluralidade de níveis de sentido da
ação social.
Para pensar o sentido da ação
devemos situá-la, segundo Verón, numa problemática semiótica, na qual o
sentido é múltiplo e depende dos diferentes níveis; esses
níveis são os diferentes processos de codificação presentes nos
processos sociais de produção de sentido. Vários sistemas de codificação,
simultâneos, determinariam o sentido. A noção de codificação
continua sendo fundamental nessa proposta; as regras de construção
cumpririam, assim, um papel determinante. Lembremos que essas proposições
datam do período 1965-67, nelas o papel do contexto, da interação,
o poder, a dimensão ideológica, a distância
interdiscursiva, a terceiridade, os jogos de linguagem
ainda não estão presentes na concepção de Verón. De todo modo, suas
formulações apresentavam uma opção mais elaborada para interpretar o
sentido da ação social que as hegemônicas na sociologia da época. As
formulações do autor estabeleciam, já, que não existe um sentido único
e mecânico determinado pelo ator social de acordo com seus motivos e
fins; que os sentidos concretos, produzidos, podem ser até contrários à
vontade do autor - esta foi uma das questões colocadas de forma muito
pertinente nesses anos.
Existe uma "linguagem da ação"?
Eis aí uma pergunta-chave, que Verón colocava como crucial para entender o
ponto de vista da comunicação em ciências sociais. No texto "Os códigos
da ação" o autor aprofunda essa reflexão, retomando a noção
saussuriana de relações associativas e os aprofundamentos
posteriores de Roman Jakobson sobre as operações de seleção
e combinação que, superando os estreitos limites da sintaxe
e da semântica, buscavam caracterizar os processos de comunicação,
não construção concreta da linguagem.
Seguindo o raciocínio de Jakobson, Verón
reflete sobre a importância dos eixos da substituição (metáfora)
e contigüidade (metonímia), que permitiriam explicar dois
tipos fundamentais de codificação: codificação analógica - série
de símbolos por similaridade - e codificação digital - intervalos
discretos escalonados: alfabeto fonético, sistema numérico, códigos binários.
Verón combina as propostas lingüísticas de Jakobson com as proposições
da George Bateson, P. Watzlawick, J. Beavin e D. D. Jackson do Colégio
Invisível sobre produção de mensagens por máquinas calculadoras
(digitais) e fotográficas (analógicas) procurando estabelecer elementos
importantes para a interpretação comunicológica.
Nessa análise define o princípio de distância
(temporal-espacial) como um elemento decisivo para constituir um signo:
Tudo
indica, portanto, que deve existir alguma descontinuidade para que se tenha
um signo: algum tipo de distância espacial ou temporal entre os elementos
que compõem o signo. Uma manifestação da realidade não é um signo de si
própria, mas pode ser um signo de alguma outra coisa.
Seguindo esse raciocínio considero
importante a crítica à noção saussuriana de signo arbitrário,
realizada mediante a inserção das proposições de Bateson, Ekman e
Jackson, que foram produto de pesquisas antropológicas sobre comportamentos
não-verbais utilizados em processos de comunicação. De fato, os
signos analógicos (similaridade) e metonímicos (parte/todo;
conteúdo/recipiente; antes/depois; atrás/avante; fora/dentro; componente
funcional/todo funcional; acima/abaixo etc.) não são arbitrários e têm
um relação direta com o referente.
Na época, Verón ainda pensava essas relações
no modelo saussuriano do signo: significante/significado, mas sua
reflexão transcendia essa limitação conceptual. Sua argumentação sobre
as relações de substituição / contigüidade; continuidade /
descontinuidade (elementos discretos entre os quais não há transição:
mensagens digitais); arbitrariedade / não-arbitrariedade;
similaridade / não-similaridade oferecem raciocínios muito
interessantes a respeito de matrizes de codificação que tentavam explicar
fenômenos de comunicação verbais e não-verbais. É importante apontar
que nesse texto não existia uma pretensão de saber acabado (efeito
ideológico), nem tampouco uma negação das contribuições de autores,
modelos e escolas diferenciados. Era uma época de procura transdisciplinar,
de pesquisa sistemática e produção criativa no autor; nesse sentido,
reflitamos acerca da seguinte hipótese:
"Meu
argumento é que a passagem da similaridade a não-similaridade é gradual,
quantitativa e relativa a processos perceptivos".
Para explicar esse argumento, Verón insere o
exemplo da fotografia, uma mensagem analógica típica, portanto similar ao
referente de sua simbolização. O autor realiza um deslocamento crucial: a
mudança do nível perceptual para esclarecer a transição da similaridade
para a não-similaridade, ele amplia a fotografia até uma dimensão
que permita ao olho humano detectar a "multidão de pontos discretos
de intensidades diferentes" que formam a imagem; teremos, assim,
uma perspectiva de não-similaridade com o objeto fotografado. Esse
exemplo lembra o descobrimento do caráter simultâneo corpuscular e ondular
da matéria, formulado na física moderna, e a importância da perspectiva
e do observador na práxis científica.
Os signos historicamente, também,
realizariam esse percurso: um primeiro momento de similaridade com o objeto;
uma segunda fase em que iriam se tornando mais complexos e abstratos até romper
com a similaridade original.
Ao analisar a relação continuidade /
descontinuidade, Verón concebe-a como uma dimensão formada por
elementos que seriam pólos, nos quais se estabelecem nexos "quantitativos,
graduais e relativos". Desse modo, o caráter quantitativo e
gradual se repete definindo um processo de transformação entre essas duas
formas de configuração dos códigos. Para ilustrar essa proposição, Verón
utiliza o exemplo das mensagens visuais, analógicas e, portanto, contínuas,
que podem ser transferidas para formas digitais estruturadas por elementos
discretos, sem transição nenhuma. Esses procedimentos atualmente são
comuns até na informática doméstica; pouco a pouco, inclusive nos países
do Terceiro Mundo, as famílias usam "scanners" e
transcodificadores para passar informações analógicas para digitais. O
curioso é como, prematuramente, Verón incorporou essas reflexões ao
pensamento sociológico em comunicação na América Latina. Foi por seu
intermédio que as formulações e pesquisas de ponta, que os cientistas da Escola
de Palo Alto realizavam, passaram a ser parte dos estudos de comunicação
na região.
Lembremos que as proposições teórico-metodológicas
dessa escola cobraram transcendência internacional e o
reconhecimento acadêmico que mereciam só a partir dos anos 80, com a crise
dos paradigmas consagrados, como foi o caso do funcionalismo
norte-americano. Esse importante projeto pluridisciplinar e as riquíssimas
experiências que oferecia às ciências sociais no mundo, nos anos 40, 50 e
60, não foram aproveitadas dada a força do funcionalismo e do
pensamento crítico apocalíptico naquela época.
Ao cruzar as dicotomias substituição/contigüidade,
continuidade/descontinuidade, arbitrariedade/não-arbitrariedade e similaridade/não
similaridade com as formas de codificação digital, analógica,
metonímica das máquinas do tempo (relógios) e simbólicas (logotipos de
empresas), o autor estabelece relações importantes entre os diferentes
tipos de códigos e as suas regras de organização e configuração em
mensagens sociais. As misturas das dicotomias estruturalistas com as
formulações comunicacionais de Palo Alto permitiriam ao autor a análise
de problemas de produção de sentido social variados e de múltiplas
perspectivas, tanto na publicidade quanto no discurso político.
Seguindo essa linha de raciocínio, formulou o seguinte postulado: "(...)
a possibilidade, dada a um sistema não-digital, de veicular mensagens mais
ou menos abstratas somente existe sob a regra de substituição."
Isso significaria que as mensagens não-digitais
codificadas sob a regra da contigüidade não têm possibilidade de
abstração; se considerarmos que Verón compreende contigüidade
como um relacionamento parte/todo ou parte/parte subjacente
(relações simbólicas entre elementos que comparte uma espaço-temporalidade)
compreenderemos melhor por que é necessário esse distanciamento
substitutivo para caracterizar uma abstração.
Sabemos que as mensagens abstratas não são
os mecanismos empíricos básicos de ação social. A ação
social, segundo Verón, está caracterizada por mecanismos semiológicos
básicos de contigüidade. De fato, o pensamento e a produção de
conhecimentos, em geral, não são atribuições elementares da ação
social; como podemos comprovar em qualquer tipo de sociedade, as
mensagens abstratas precisaram de condições sociohistóricas, de
produtores qualificados, de desenvolvimento específico das linguagens
complexas para configurar-se como uma dimensão superestrutural.
O postulado de Verón é pertinente e reforça
a especificidade de um eixo lógico da linguagem, aplicável a todo
tipo de modos de comunicação. Se pensarmos, por exemplo, numa mensagem
complexa constituída por elementos visuais, verbais e sonoros, sua
capacidade de abstração estará dada pela presença de fatores metafóricos
que configuram a mensagem mediante uma resolução poética, que insere,
densamente, qualidades essenciais e flexíveis; desse modo, expressa um
sem-número de questões de forma abrangente e aberta.
A produção de sentido em 1969, data
de produção de "Os códigos da ação", já era concebida
por Verón como uma problemática centrada no observador e não no ator
social. A diferença dessa concepção com a dos "discursos
sociais" - na qual a interdiscursividade, o contexto e a interação
são fundamentais - é que nos "códigos da ação":
"(...)
a contigüidade constitui a regra básica pela qual um fragmento de ação
transmite informação para um observador, mesmo se o seu desempenho não
estiver associado a qualquer ‘intenção’ de comunicar. Qualquer ato
corporal tem um elo de contigüidade espacial e temporal com a seqüência
mais longa da qual forma parte, e, por força disso, el se torna
inevitavelmente "contaminado" por sentido...". [Destaques
em negrito são meus]
As ações sociais desenvolvidas por meio de
movimentos corporais múltiplos têm, na proposta de Verón, um caráter seqüencial
e uma existência relacional espacial fundamentais. É a natureza metonímica
das ações que permitiria, mediante a contigüidade ou a pertença a
uma cadeia (presente ou imaginada), obter informação das ações sociais.
Existiria, desse modo, uma equivalência simbólica entre o todo e as
partes, entre uma ação e a série. Não obstante, um
mesmo ato poderia ser interpretado por vários observadores, dependendo da
sua perspectiva, como agressão, burla, carinho etc.. A
significação depende, assim, da série significante na qual o
observador inseriu o ato.
Segundo Verón, o caráter ambíguo, atribuído
por Bateson e Jackson às transações analógicas, corresponderia às relações
metonímicas. As ações, ao estarem marcadas pela regra da contigüidade,
possibilitam várias interpretações. Um mesmo conjunto de posturas
corporais pode significar uma provocação erótica ou movimentos estéticos
refinados de uma companhia de dança.
O problema central, nessas análises e
postulados de Verón, é a ausência do contexto cultural como
elemento que intervém fortemente na produção de sentido. As regras
de elaboração das linguagens, de fato, são importantes para compreender
as informações transmitidas. Mas um mesmo fragmento de ação, codificado
numa mesma linguagem, cumprindo as mesmas normas e relações metonímicas
pode produzir interpretações, leituras e informações diferenciadas
dependendo das circunstâncias, do momento subjetivo, das diferenças
culturais, da história desses eventos e de outros fatores
multidimensionais.
Considero que a contigüidade é um
fator da lógica interna da linguagem que deve ser examinado em toda análise
de mensagens, entretanto não podemos afirmar que seja a regra básica. Além
da oferta intertextual, intervêm várias questões importantes que definem
o sentido das ações.
Podemos concordar com Verón em que: "Um
fragmento de uma seqüência de conducta tende, contudo, a simbolizar por
contigüidade o todo do qual forma uma parte."
Porém essa tendência não necessariamente
será realizada. Os comportamentos humanos têm formas de realização
diferenciadas (uma mesma seqüência tem vários todos); constatamos
que nem os modos formais da codificação verbal ou da codificação matemática
podem ser reduzidos a um esquema codificador digital ou analógico.
Não obstante Verón compreender a
impossibilidade de inserir a ação humana nessas duas alternativas, pensava
possível classificar os comportamentos em códigos complexos. Centrando,
daquele modo, a problemática da comunicação referente às ações humanas
à compreensão das regras de sua realização.
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-------------------
Notas:
A pesquisa empírica que serviu de base a
este trabalho realizou-se entre 1964 e 1968 em Buenos Aires; portanto, os
conceitos expostos refletem o pensamento do autor durante esse período.
2 É importante lembrar a definição
de informação de Norbert Wiener: "A soma de informação
num sistema é a medida do seu grau de organização, escreve Wiener; a entropia
é a medida do seu grau de desorganização; sendo uma o negativo da
outra" [destaques em negrito são meus] Citado por Armand Mattelart,
História das teorias da comunicação, Porto, Campo das Letras,
1997, p. 55, com base no texto Cybernetics or control and communication
in the animal and the machine, Paris, Hermann, 1948.
3 Eliseo Verón, Comunicaçión
y neurosis, Buenos Aires, Editorial del Instituto, 1970, p. 89-91.
4 Essa concepção cibernética de Verón
corresponde mais à concepção mecânica, linear de Shannon que à concepção
de Wiener ou da Escola de Palo Alto; para esta última, cibernética
fala de uma visão circular de comunicação na qual o receptor
tem a mesma importância que o emissor, nela a comunicação é
pensada como um processo global de interação permanente, no qual toda
atividade humana tem um valor de comunicação. Para a cibernética Palo
Alto-Wiener, a comunicação deve ser compreendida em vários níveis de
complexidade; sendo que o comportamento humano expressaria questões
essenciais do meio ambiente social. Seguindo essa linha de pensamento, o
contexto é muito mais importante que os conteúdos na análise
comunicológica. Como comprova nos textos citados a definição de comunicação
de Verón estava longe dessa visão.
5 Eliseo Verón, "Condiciones
de producción, modelos generativos y manifestación ideológica",
in E. Verón (org.), El proceso ideológico, 2a. ed., Buenos Aires,
Ed. Tiempo Contemporáneo, 1973, pp. 251-292.
6 Idem, ibIdem, p. 253.
7 Idem, Comunicación y
neurosis, op. cit., p. 93: (...) codificación es una transformación
realizada mediante un conjunto de reglas no ambíguas, por la cual los
mensajes son convertidos de un sistema de representación a otro. (C.
Cherry, On human communication, New York, MIT and Wiley, 1957, p.
303).
8 Idem, ibidem, p. 93.
9 Eliseo Verón, Ideologia,
estrutura, comunicação, 2a.ed. São Paulo, Edusp-Cultrix, 1977, p.
207-208:
A práxis social está articulada numa
pluralidade de complexos de atividade. A teoria marxista afirma que as
características da organização de certo complexo (a saber, o da atividade
econômica) tem maior peso que as de outros complexos para a determinação
dos traços gerais de um determinado sistema social. Pois bem, a distinção
infra-estrutura/superestrutura pode ser aplicada a cada um desses
complexos de atividade social. A ciência é um deles. [Destaques em
negrito são meus].
10 Como exemplos: "Ideología
y comunicación de masas: La semantización de la violencia política",
in Eliseo Verón, Lenguaje y comunicación social, Buenos Aires,
Nueva Visión, 1971, cap. 5; "Análisis de componentes semánticos"
e "Análisis de relaciones semánticas" (cap. 6 e 7 de Comunicación
y neurosis); Construir el acontecimiento, Buenos Aires, Gedisa,
1983.
11 Eliseo Verón, Comunicación
y neurosis, op. cit. p. 100: Como puede verse, se trata muy
claramente de un caso de lo que en el capitulo I hemos llamado el
"problema de la caja negra". El observador analiza las entradas y
salidas del emisor, que es una caja negra. Las entradas son las propias
conductas del observador, si es un observador participante que interactúa
con el sujeto estudiado, o las conductas de otras personas, en el caso en
que observe, desde afuera, una situación interactiva. Las salidas son los
mensajes emitidos por el sujeto. A partir de estos observables, deberá
descubrir algo acerca de las reglas selectivas y combinatorias que el emisor
aplica para construir sus mensajes, y asimismo acerca de las reglas que
emplea para "interpretar"o decodificar los mensajes que recibe de
los demás. Debe tenerse en cuenta que, para ambos tipos de reglas, los
observables son los mismos: las salidas, es decir, los mensajes
emitidos por el sujeto.
12 Eliseo Verón, "A
antropologia estrutural", in Ideologia, estrutura e comunicação,
op. cit., p. 26.
13 Idem, ibidem, p. 28.
14 São paradigmáticas nesse
sentido suas classificações sobre componentes, funções, relações,
tipos, variáveis em Lenguaje e comunicación social, op. cit., p.
151-191 e em Comunicación y neurosis, op. cit., p. 135-206.
15 Isso não significa que não
reconhecesse a importância do pensamento crítico marxista que apresentava
um confronto radical tanto nos argumentos quanto nas ações de rebeldia com
as lógicas hegemônicas. Contudo, Verón era muito mais sensível, nesse
período, à pesquisa formal que à ação militante. Numa época tão
conturbada ele foi alheio à participação política. Foi um crítico sério,
em teoria, das proposições radicais formais das esquerdas na
Argentina: não obstante não teve a mínima preocupação por implementar
esses postulados numa prática política.
16 Eliseo Verón, Ideologia,
estrutura e comunicação, op. cit., p. 30.
17 Claude Lévi-Strauss, La
pensée sauvage, Paris, Plon, 1962, p. 173.
18 Jesús Martín Barbero, Dos
meios às mediações, Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 1997.
19 Eliseo Verón e Silvia Sigal, Perón
o muerte, Buenos Aires, Ediciones Hyspamérica, 1988, p. 13: Como
todo comportamiento social, la acción política no es comprensible fuera
del orden simbólico que la genera, y del universo imaginario que ella misma
engendra dentro de un campo determinado de relaciones sociales. Ahora
bien, el único camino para acceder a los mecanismos imaginarios y simbólicos
asociados al sentido de la acción es el análisis de los discursos
sociales. [Destaques em negrito são meus, sublinhado do autor]
20 Idem, ibidem, p. 16.
21 Eliseo Verón, Ideologia,
estrutura e comunicação, op. cit., p. 12.
22 Umberto Eco, Interpretação
e superinterpretação, São Paulo, Martins Fontes, 1993, p. 100: Entender
o processo criativo é entender também como certas soluções textuais
surgem por acaso, ou em decorrência de mecanismos inconscientes. Ë
importante entender a diferença entre a estrategia textual -enquanto objeto
lingüístico que os leitores-modelo têm sob os olhos (de modo a poder
existir independentemente das intenções do autor empírico)- e a história
do desenvolvimento daquela estratégia textual.
(...) mostrar como um texto, que é um
mecanismo concebido com a finalidade de fazer com que surjam interpretações,
às vezes brota de um território magmático que nada tem -ou ainda não
tem- a ver com a literatura.
23 Idem, ibIdem, p. 13.
24 Eliseo Verón, "Os códigos
da ação", in Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit.,
pp. 114-137. (Publicado simultaneamente na revista Communications,
Paris, Éditions du Seuil, n. 15).
25 Idem, ibidem, p. 121.
26 Umberto Eco, Interpretação
e superinterpretação, op. cit., p. 56-57: É inegável que os seres
humanos pensam (também) em termos de identidade e similaridade. Mas, na
vida cotidiana, o fato é que geralmente sabemos distinguir similaridades
relevantes e significativas, por um lado, de similaridades fortuitas e ilusórias,
por outro. Podemos ver alguém a distância cujos traços nos lembram a
pessoa A, que conhecemos, tomá-la erroneamente por A e depois perceber que
na verdade é B, um estranho; depois disso, em geral, abandonamos nossa hipótese
quanto à identidade da pessoa e não damos mais crédito à similaridade,
que registramos como fortuita. Fazemos isso porque cada um de nós
introjetou um fato inegável, ou seja, que, de um certo ponto de vista,
todas as coisas têm relações de analogia, contigüidade e similaridade
com todas as outras. [Destaques em negrito são meus].
Idem, ibidem, op. cit., p. 61: (...)
Penso, ..., que podemos aceitar uma espécie de princípio popperiano,
segundo o qual, se não há regras que ajudem a definir quais são as
"melhores" interpretações, existe ao menos uma regra para
definir quais são as "más". [Destaques em negrito são
meus].
27 Eliseo Verón, "Os códigos
da ação", in Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit.,
p. 123.
28 Umberto Eco, Interpretação
e superinterpretação, op. cit, p. 55: Como podemos ver, às vezes
as duas coisas são semelhantes por seu comportamento, às vezes por sua
forma, às vezes pelo fato de terem aparecido juntas num certo contexto.
Desde que se consiga estabelecer algum tipo de relação, o critério não
importa. Depois que o mecanismo de analogia se põe em movimento, não há
garantias de que vá a parar. (...) Isso esclarece outro princípio
subjacente da semiótica hermética. Se duas coisas são semelhantes, uma
delas pode tornar-se signo da outra, e vice-versa.
29 Eliseo Verón, "Os códigos
da ação", in Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit.,
p. 123.
30 Roman Jakobson:
"(...) Os constituintes de um
contexto estão numa situação de contigüidade, ao passo que, num conjunto
de substituição, os signos estão vinculados por vários graus de
similaridade, que flutuam entre a equivalência de sinônimos e o núcleo
comum de antônimos": in R. Jakobson e M. Halle, Fundamentals of
language, Mouton & Co., S.-Gravenhage, 1956, p. 61, citado por E.
Verón, Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit., pp. 115-116.
31 Eliseo Verón, "Os códigos
da ação", in Ideologia, estrutura e comunicação, op. cit
, p. 134.
32 Idem, La semiosis social...,
op. cit., p. 141: Peirce hablaba a este propósito de lazo existencial
entre el signo y su objeto. El nivel de funcionamiento indicial es una red
compleja de reenvíos sometida a la regla metonímica de la contigüidad:
parte/todo; aproximação/alejamiento; dentro/fuera; delante/detrás;
centro/periferia; etcétera. El pivote de este funcionamiento, que llamaré la
capa metonímica de producción de sentido, es el cuerpo significante.(...)
El cuerpo es el operador fundamental de esta tipología del contacto, cuya
primera estructuración corresponde a las fases iniciales de lo que Piaget
llamaba el período sensomotriz, anterior el lenguaje.
33 Idem, ibidem, p. 136.
***
Alberto Efendy Maldonado Gómez de la Torre é
doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, professor
do Programa de Pós-Graduação: Doutorado e Mestrado em Ciências da
Comunicação/ UNISINOS, RS e pesquisador FAPERGS, CNPq, FAPESP, CAPES,
UNISINOS.
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