Ciberlegenda Número 10, 2002

 

O Outro migrante: das estratégias de midiatização  das migrações contemporâneas na mídia impressa brasileira

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Denise Cogo

denisecogo@uol.com.br

                                                        

   

Resumo: 

O artigo analisa os processos de produção de sentido sobre os fenômenos migratórios contemporâneos na mídia impressa brasileira. A partir das inter-relações entre processos de midiatização, experiência migratória e interculturalidade, é desenvolvido um mapeamento inicial e uma análise discursiva sobre as estratégias de midiatização das migrações e das falas imigrantes em uma amostra de jornais representativos das cinco regiões brasileiras e uma das principais revistas de circulação nacional. 

Palavras-chaves: mídia, imigração, interculturalidade

 

Abstract: 

The article analyses the processes of meaning production, concerning the experience of immigration by Brazilian printed media, as marked by the specific characteristics adopted by contemporary immigration phenomena. Working from the inter-relationships between mediation processes, the immigratory experience and interculturality, this article develops an initial mapping and a discourse analysis of the stated strategies of immigration and of the immigrant expression through a study of a sample of newspapers in five Brazilian regions, and one of the main national magazine. 

Key Words: media, immigration, interculturality

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1.  Das migrações como fenômeno sociocultural contemporâneo

 

Delinqüência urbana, violência, distúrbios e manifestações são as perspectivas mais recorrentes no tratamento midiático sobre as minorias étnicas constituídas por imigrantes em países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos durante os anos 80 e 90. Em contrapartida, temáticas como as experiências da vida cotidiana, os papéis não estereotipados, os êxitos e as contribuições desses imigrantes no campo das culturas,  das artes, da política e da economia, sofrem censura sistemática, são ignoradas ou então subvaloradas pelos meios de comunicação.

Com reflexões como essas, o pesquisador da Universidade de Amsterdã, Teun Van Djik constrói um percurso de investigação através do qual se empenha em desvendar os dispositivos de midiatização dos processos migratórios contemporâneos nos contextos europeu e norte-americano. A partir do que designa de análise crítica do discurso dos meios, Van Djik (1) oferece as primeiras referências sistemáticas para a compreensão da presença das migrações no campo midiático, cuja crescente oferta de sentido se justifica pela própria intensificação, fragmentação e dispersão que assume, no contexto da globalização, uma experiência sociocultural que o teórico do multiculturalismo David Goldberg denomina de “condição natural da experiência humana” para vislumbrar, na heterogeneidade dela resultante, um argumento estrategicamente útil no confronto com os adversários no campo teórico do multiculturalismo. “A não homogeneidade está na origem de tudo. Faz pouco sentido interpretar a homogeneidade como natural em termos de condição social ou ideais e valores. Homogeneidade é um artifício. Não reivindico que a migração é natural, mas, de algum modo, é parte de nossa condição natural. Ou seja, predominante historicamente.”, enfatiza o autor. (2)

            Cunhado pelo cientista brasileiro Octavio Ianni,  o termo transmigração traduz, em grande medida,  a complexidade que assume no cenário da globalização uma das principais experiências socioculturais que move hoje o campo acadêmico a nomear de multicultural as sociedades contemporâneas e  a  situar na dinamicidade, conflitividade e potencial de intervenção que encerra a categoria interculturalidade as possibilidades de compreensão das inter-relações e tensões entre economia e cultura, entre mercados e identidades culturais, dinamizada fundamentalmente nos dois cenários apontados por Garcia Canclini: a indústria cultural e a cidade.  Aos que migram pela primeira vez, se somam, segundo Ianni, os migrantes descendentes de migrantes, intensificando tensões, crises e conflitos e ao mesmo tempo significados, vivências e horizontes. que vão impondo, ampliando e multiplicando as experiências de transculturação, pluralidade e relatividade nos países ocidentais. (3)

            Essa complexa teia de relações sociais repercute na conformação dos processos identitários a partir da vivência, pelos migrantes, de múltiplas e fluídas identidades fundamentadas ao mesmo tempo nas sociedades de origem e nas "adotivas". Enquanto alguns identificam-se mais com uma sociedade do que com a outra, a maioria dos migrantes parece desenvolver várias identidades, relacionando-se simultaneamente com mais de uma nação. Ao manter muitas e diferentes identidades raciais, nacionais e étnicas, "os transmigrantes tornam-se aptos para expressar as suas resistências às situações econômicas e políticas globais que os envolvem, bem como para se ajustarem às condições de vida marcadas pela vulnerabilidade e a insegurança".(4)

            Impulsionados pela facilidade de contato favorecido pela globalização, os atuais fluxos migratórios assumem, portanto, novas configurações, iniciadas sobretudo a partir da segunda metade do século XX, quando a inversão da  direção das viagens concorre para recompor as relações entre os chamados países centrais e periféricos.  Entre os anos de 1846 e 1930,  dos 52 milhões de emigrantes que deixaram a Europa, 72%  se deslocaram  aos Estados Unidos; 21%, à América Latina; e 1%, à Austrália. Dos 200 milhões de pessoas que compunham a população européia no início do século XX, uma quarta parte emigrou, fazendo com que, durante o período 1840-1940, se incrementassem em cerca de 40% a população da Argentina, em 30% a dos Estados Unidos e em 15% as do Canadá e Brasil  (5).

            Nas décadas de 60 e 70, quando o fluxo migratório começa a mudar de direção, aproximadamente um milhão de espanhóis prefere se deslocar para outros países europeus e não mais para Argentina, Venezuela, Brasil e Uruguai, destinos prioritários dos 105.783 emigrantes que deixaram a Espanha entre 1960 e 1965. Paralelamente, tem início um novo ciclo de migração da América Latina para a Espanha, Itália, Alemanha e, em menor intensidade, para outros países europeus. Ciclo constituído por perseguidos políticos e desempregados, ou, simplesmente, como se refere Néstor García Canclini, “por gente cansada  do estreito horizonte que ofereciam as nações do cone sul e da América Central.",  que imagina a possibilidade de participar no auge econômico da Europa. (6)

            Se, portanto, no século passado, o próprio continente europeu foi um produtor abundante de emigrantes econômicos, refugiados políticos ou de pessoas que simplesmente decidiam viver em outros países, esse quadro se inverte sobretudo com o final da Segunda Guerra Mundial (7).  Especialmente nos anos 50 e 60, várias nações européias recorrem à imigração, tanto intra-comunitária - sobretudo de cidadãos da Europa "mais pobre" do Sul - quanto extra-comunitária -, a fim de suprirem as deficiências de mão-de-obra geradas, em um primeiro momento, pela reconstrução pós-guerra e, posteriormente, pela própria expansão econômica do continente. A partir dos anos 50, entre 20 e 30 milhões de estrangeiros entram na Europa Ocidental , dos quais cerca de 20 milhões acabam se instalando, de forma permanente, nos países europeus industrialmente mais desenvolvidos. Esse grupos de imigrantes estão integrados por refugiados, habitantes das ex-colônias (pieds-noirs), trabalhadores do sul da Europa e do Terceiro Mundo, e por indígenas dos países anteriormente colonizados. Terceiro Mundo, e por indígenas dos países anteriormente colonizados. O caráter temporal e a duração limitada da presença desses estrangeiros exclui, nesse momento, qualquer preocupação com  a  necessidade  de  discutir  modelos  de  integração  das populações imigrantes, principalmente em países como Suíça ou Alemanha, cuja imigração dependeu essencialmente de processos econômicos.    

            O processo de interdependência entre as nações geradas pela internacionalização da economia e pelas novas tecnologias da comunicação concorre, posteriormente, para intensificar os processos migratórios. Da imensa facilidade de exportação de modelos econômicos, mas, principalmente, culturais,  resultam,  por exemplo,  os  efeitos propagandísticos sobre a acolhida obtida, em países da Europa ocidental. por nacionalidades oriundas da Europa oriental e central e de antigos países comunistas após o fim da guerra fria e a queda de regimes socialistas.  

            A  preocupação com a diversidade cultural representada pelas migrações segue, contudo, ausente da pauta das nações européias, principalmente a partir da crise econômica de 1973 e do aumento do desemprego, quando, ao contrário, são implementadas medidas de maior controle dos fluxos migratórios, visando a conter a entrada de trabalhadores não qualificados, inclusive através da repatriação dos excedentes, com o objetivo de reduzir a população imigrante.

            As determinações legais não são suficientes, no entanto, para suplantar a complexidade das dinâmicas socioculturais. Ao contrário do que esperavam os países receptores, os imigrantes econômicos e temporais aproveitam, nesse período, para intensificar o reagrupamento familiar como condição necessária para se converterem em residentes estáveis. A conquista de estabilidade acaba provocando uma alteração profunda na estrutura dos grupos migratórios, a partir, sobretudo, de uma maior presença feminina e jovem nas comunidades de imigrantes.            A imigração econômica -  ideal-tipo da condição dos imigrantes que os concebe como trabalhadores, estrangeiros e provisórios  - se converte em imigração de assentamento, extrapolando a relação puramente instrumental com a vida econômica do período imigratório inicial. (8)

            À medida em que as possibilidades de retornarem a seus países de origem se tornam cada vez mais remotas, essa imigração de residentes estáveis se torna potencial reivindicadora de cidadania nos países receptores, colocando em xeque as estruturas monoculturais que sustentam as nações européias e norte-americana. Soma-se a isso a heterogeneidade cada vez maior dos fluxos migratórios, determinante para a inversão do antigo quadro de homogeneidade e de proximidade com a cultura ocidental observada entre os imigrados oriundos majoritariamente dos países mediterrâneos da própria Europa após a Segunda Guerra Mundial.

     

    2.  Migrações, diversidade sociocultural e cenários midiáticos

 

         No caso da Europa, embora a quantidade de imigrantes não chegue a ultrapassar 5% do total da população no ano de 97, segundo dados oferecidos por Javier Cano, (9) impõe-se a exigência crescente de lidar com a diversidade cada vez maior daqueles que chegam e de negociar sua integração com base no estabelecimento de políticas comuns entre as nações européias compatíveis com a flexibilização das fronteiras e ao mesmo tempo com a demanda migratória.

Não é apenas a amplitude do fenômeno das imigrações, mas a diversidade cultural crescente dos migrados que se converte, atualmente, na perspectiva central de  debate sobre o fenômeno migratório no contexto das nações ocidentais. A diversidade cultural permite falar senão da "coexistência no mesmo espaço social e geográfico de indivíduos pertencentes a culturas diversas que as praticam nesses espaços.", conforme sintetiza o pesquisador espanhol Lamo Espinosa. (10)

O aprofundamento da diversidade imposta pela migração em nações como a norte-americana reflete-se na crescente resistência ao assimilacionismo ou a uma integração por parte dos imigrantes e dos cidadãos provenientes de diferentes culturas, cujas repercussões podem ser percebidas na ocupação e negociação de espaços midiáticos por essas culturas.  O caso da presença hispânica nos Estados Unidos tem sido o mais desafiador e gerador de controvérsias. O século XXI será hispânico?  indaga o pesquisador Claude Lévy, ao refletir sobre o processo de latinização dos Estados Unidos que vai exigindo (re) significações da histórica polarização entre assimilacionistas e pluralistas no cenário norte-americano. (11) Frente a antigos critérios de assimilação que abrem o caminho à classe média americana , cujos três pilares são o domínio do inglês, a conquista nos estudos e o sucesso econômico, a resposta de muitos hispânicos à assimilação proposta tem sido a  reafirmação da presença de sua cultura na vida cotidiana americana e sua visibilização no cenário midiático.

Por um lado, os imigrantes mais recentes não estão dispostos a romper com os laços culturais que os ligam a seu país de origem, através, por exemplo, da utilização do espanhol nos lugares públicos e anúncios publicitários, da afirmação de uma linguagem híbrida - o spanglish ou, enfim, da construção de estratégias para negociação com a indústria cultural, especialmente com as redes de televisão, na perspectiva de uma oferta de produtos culturais orientado a uma audiência não redutível a uma identidade comum de hispano ou latinos, mas que atenda às especificidades das distintas culturas latinas – mexicanos, porto-riquenhos, cubanos e outras culturas e nacionalidades - presentes no espaço social.  Por outro lado, esses imigrantes não hesitam em  apelar à democracia americana, ou seja, recorrer ao modelo WASP (White, Anglo-Saxan and Protestant) que justamente contestam, quando se trata de preservar seus direitos fundamentais.

  Se, no caso dos Estados Unidos, o crescimento e diversidade das culturas latino-americanas não possibilitam prognosticar, de forma reducionista, uma inversão do lugar periférico ocupado por essas culturas na sociedade norte-americana, não deixam de alertar, contudo, sobre a complexidade que assume cada vez mais a multiculturalidade no Ocidente, conforme chama atenção Néstor Garcia Canclini.

             Prova disso são as reatualizações de antigas posturas assimilacionistas, discriminatórias e excludentes em relação ao Outro, configurando-se, por exemplo, em medidas restritivas como a nova lei estadunidense de imigrações de 30 de setembro de 1996 que limita a concessão de vistos para a reunificação das famílias e ao mesmo tempo reforça os dispositivos de luta contra a imigração, não apenas através da ampliação do policiamento da fronteira mexicana como também por intermédio da exclusão dos chamados imigrantes "ilegais" de praticamente toda a ajuda social. O fim da experiência  bilingüe na educação, aprovada, em junho de 1998, pelo eleitorado da Califórnia, o estado mais povoado da União Americana, é outra medida representativa de tais reatualizações. (12)

            Para além das chamadas imigrações extra-comunitárias, o quadro contemporâneo de intensificação das migrações complementa-se, ainda, com os fluxos migratórios rurais-urbano decorrentes, sobretudo, da expulsão de mão-de-obra como resultado da modernização da agricultura.  Responsáveis, segundo Borja e Castels, pelo incremento de cerca de 40% da população das grandes cidades nos países em desenvolvimento, no período entre 1975 e 1990, esse fluxos provocam, ainda,  o crescimento da economia informal nas grandes metrópoles. "Em quase todos os países, a incorporação às cidades de imigrantes de zonas rurais acentua notavelmente a diversidade cultural e, nos países etnicamente diversos, como os Estados Unidos ou o Brasil, a diversidade étnica." (13). No caso brasileiro, os anos 60 e 70 são singular na história das migrações. O êxodo rural envolveu, na década de 60, cerca de 12,5 milhões e, nos anos 70, mais 15,5 milhões, número correspondente a toda a população da Argentina. Quase 50% dos migrantes escolheu como destino os estados de São Paulo e Rio de Janeiro.(14)

          É mais simples fazer investimentos em um país estranho do que se tornar cidadão.", acrescenta García Canclini para alertar sobre o tipo de protagonismo  reservado às migrações contemporâneas na constituição dos mercados regionais e ao mesmo tempo registrar que, em ritmo similar ao das alianças econômicas e, articuladas a elas, as barreiras às imigrações têm se transformado em um dos principais temas da pauta dos acordos de livre comércio e integração regional no cenário da globalização.

           Para o autor,  os intercâmbios econômicos pouco ou nada têm contribuído para alterar antigas polarizações que, construídas durante os períodos da  Conquista e da colonização, perpetuam os estereótipos em relação aos Outros migrantes. Exemplo é a reprodução de discriminações dos europeus em relação aos latino-americanos e a admiração inversa que nutrem os latinos frente aos europeus. Ao tratamento desigual de diversos países da Europa em relação a imigrantes e turistas oriundos da América Latina, corresponde, do lado latino-americano, a opção por um modelo de modernização que freqüentemente priorizou os alemães aos portugueses assim como os ingleses e os franceses em detrimento dos espanhóis

No marco de uma economia política das comunicações, a "redescoberta" européia da América, potencializada pela comemoração do Quinto Centenário (1992), se traduz nos esforços dos países latinos da Europa, especialmente da Espanha, em disputar com  os norte-americanos uma parte da América Latina como mercado, na constituição de uma estratégia de afirmação frente às demais nações européias.  A multiplicação recente dos investimentos europeus no campo da televisão e da imprensa, na aquisição de editoriais argentinos e mexicanos e na compra de várias empresas telefônicas latino-americanas determinam uma recomposição  da multimídia no mapa latino-americano, configurando o quadro das alianças globais em que o econômico aparece privilegiado em detrimento do cultural.

          As vantagens de globalizar-se mediante a integração dos mercados, e as divergências multiculturais como obstáculo à integração, são os dois tipos de relatos que compõem simultaneamente a narrativa da globalização e que se traduz na conflitiva experiência migratória da contemporaneidade. A  economia e o mercado, de um lado, e as identidades culturais e comunitárias, de outro,  passam a pautar, quase que de forma exclusiva, a dinâmica de inter-relações entre Europa, Estados Unidos e América Latina, contribuindo para que os olhares sobre as diferenças entre regiões e culturas se mantenham irredutíveis.

           É assim que, mesmo quando hoje as novas tecnologias eletrônicas expõem a diversidade, através de construção de imagens como a das migrações, não deixam freqüentemente de propor olhares acerca da relação com outras culturas via velhos esquemas  estruturais das diferenças propostas pelos países do Norte. Seja, como refere Martín-Barbero, via o esquema da aproximação, que reduz outras culturas ao que têm de semelhante com a nossa, "silenciando ou estreitando para isso os traços mais conflitivamente heterogêneos e desafiantes, estilizando e banalizando o que nos choca até tornar o Outro compreensível sem nos transformarmos" (15) Ou seja, ao contrário, recorrendo a um esquema de distanciamento, que exotiza ou folcloriza o Outro em um movimento de afirmação da alteridade que "ao mesmo tempo que o torna interessante, o exclui de nosso universo, negando-lhe a capacidade de nos interpelarmos e questionarmos." (16)

Tal perspectiva é tributária, ainda, daquilo que distingue fundamentalmente os atuais  fluxos  migratórios ou movimentos de população no contexto da sociedade global e de desenvolvimento das novas  tecnologias  da  comunicação:   a possibilidade de comunicação permanente e fluída com os lugares de origem seja por parte dos imigrantes temporais, definitivos ou mesmo  por parte daqueles que simplesmente viajam a turismo ou a trabalho, como assinala Garcia Canclini           

 

Um espanhol pode comprar os diários de seu país no Rio de Janeiro ou Madrid, o New York Times e o Le Monde chegam diariamente a muitas grandes cidades, e a televisão a cabo dá acesso, em hotéis e lares, a canais dos Estados Unidos e de vários países europeus. O correio eletrônico e as redes familiares ou de amigos tornaram incessantes os contatos intercontinentais que, no passado, levavam semanas ou meses. Não é semelhante o desembarque à aterrissagem, nem a viagem física à navegação eletrônica.(17)           

               

            3.  As estratégias de midiatização das migrações no contexto brasileiro 

No marco das especificidades e tensões que marcam as experiências socioculturais das migrações contemporâneas no espaço público, buscamos construir um mapeamento inicial das estratégias de midiatização dos fenômenos migratórios contemporâneos na mídia impressa brasileira com a finalidade de  compreender, por um lado, as lógicas e operações discursivas de enunciação midiática acerca da presença da interculturalidade representada pelas dinâmicas identitárias dos migrantes e, por outro lado, o papel que desempenham as estratégias cotidianas de distintos grupos migratórios e de organizações e instituições voltadas ao universo das migrações (poder público, igrejas, ongs, etc.)  como tensionadoras do campo midiático na disputa de sentidos para visibilização pública de uma agenda orientada às questões migratórias, incluindo a própria presença de mídias especializadas e/ou alternativas produzidas para e/ou pelas populações migrantes. (18)

Para o entendimento das relações migração-mídia impressa, adotamos  os procedimentos de análise de textos/discursos entendidos como práticas sociais inseridas em realidades contextuais determinadas, assumindo, como preconiza Milton Pinto, que os participantes nessas práticas assumem o papel de sujeitos, “no duplo sentido de assujeitados às determinações do contexto e de agentes das ações de produção, circulação e consumo dos textos.” (19)  Acolhemos, ainda, a perspectiva também postulada por Pinto de que, para a análise dos discursos, todo o texto é híbrido ou heterogêneo no que se refere à sua enunciação, “no sentido de que ele é sempre um tecido de ‘vozes’ ou citações cuja autoria fica marcada ou não, vindas de outros textos preexistentes, contemporâneos ou do passado.” (20)

         Uma aproximação empírica inicial com as “ofertas de sentido” sobre a imigração em uma amostra de mídias impressas brasileiras, desde agosto de 1991, nos permite, construir uma tipologia inicial da “midiatização” das migrações, constituída, sobretudo, pelas configurações que resultam dos fluxos migratórios ou das “direções” que tomam os movimentos migratórios na sociedade contemporânea: (21)

1.      as migrações de nações “menos desenvolvidas” orientadas aos países pertencentes à Comunidade Econômica Européia;

2.      os Estados Unidos como a “grande” nação receptora de imigrantes de  distintas origens, especialmente as latino-americanas, incluindo as brasileiras;

3.       as especificidades e tensões das imigrações na fronteira entre Estados Unidos e México;

4.       os fluxos migratórios internos ao Mercosul, representados, por exemplo, pelos chamados “brasiguaios” ou de uruguaios e argentinos para o Brasil, e reveladores de uma oscilação conjuntural de lógicas e representações de “crise” e de “prosperidade” entre as nações e culturas integrantes do bloco econômico;

5.      a imigração “ilegal” no contexto brasileiro, especialmente de sul-americanos, como bolivianos e peruanos; e de asiáticos, como chineses e coreanos, reafimadora de uma visão o Brasil como “nação hospitaleira” e destino privilegiado de imigrantes no contexto da América do Sul;

6.      a experiência imigratória asiática no contexto brasileiro,  traduzida no êxito socioeconômico de descendentes de imigrantes japoneses e coreanos e (re) atualizadora de estereótipos sobre a presença das culturas asiáticas na constituição histórica do país;

7.      as migrações internacionais de atletas no campo esportivo em que as lógicas do “mercado” aparecem associada a da “contravenção”;

8.      as migrações “sofisticadas” motivadas sobretudo pelo trabalho intelectual (a chamada “drenagem ou de evasão de cérebros”], tensionadoras das relações entre os chamados países “ricos” e “pobres” e reorientadas, mais recentemente, pela dinâmica de constituição dos mercados regionais (a migração recente, por exemplo, de pesquisadores da Argentina para o Brasil);

9.      as migrações inter-regionais no contexto brasileiro (re) semantizadas em matérias midiáticas que focalizam protagonistas de dramas cotidianos envolvendo a exclusão social e demandas por cidadania, convertendo-se em ativadoras das distintas tensões e temporalidades regionais que marcam historicamente nossa constituição identitária; 

       Embora não constituam foco de interesse do projeto de pesquisa do qual deriva esse artigo,  as chamadas migrações históricas constituem uma outra experiência que assume ênfase na cobertura das mídias que vêm sendo analisadas quando se observa um certo caráter de enaltecimento e exaltação que assume a cobertura sobre a trajetória de italianos e alemães no Sul do Brasil nos  jornais gaúchos Zero Hora e Correio do Povo em contraponto ao tom de “criminalização” que assume a cobertura das imigrações contemporâneas nas mesmas mídias. Tal polarização contribui para o entendimento das lógicas de fascínio e/ou rejeição que, conforme resgatamos anteriormente de Garcia Canclini, seguem pautando os vínculos entre nações e culturas no contexto da globalização. (22)

Um dos traço dessa produção de sentido da mídia brasileira em torno dos processos migratórios contemporâneos diz respeito a uma imigração se espalha ou “migra” pela geografia dos jornais, ocupando os espaços reservados às editorias internacionais e mundo; nacional; cotidiano ou local; o esporte; a educação; os suplementos de cultura, lazer de turismo; os cadernos de economia, os espaços de opinião dos jornais e mesmo as colunas reservadas aos chamados “obituários”, tornando-se indicativo da dispersão e fragmentação que pauta a construção da temática das migrações no corpo das mídias analisadas, sugerindo, ainda, o protagonismo de distintos campos institucionais nas questões e no debate público sobre  a migração legitimados pelas mídias no contexto da globalização.  Embora essa pluralização de atores e posicionamentos institucionais não corresponda necessariamente a uma pluralização de fontes, mas, ao contrário, a um predomínio das chamadas fontes oficiais no tratamento dado ás migrações pelos jornais analisados.  em detrimento do resgate das vozes e das experiências protagonizadas pelos atores sociais no “mundo vivido” das migrações..

 A visibilidade das subjetividades envolvidas na experiência da imigração,  dos imigrantes de “carne e osso” dá lugar às falas de porta-vozes oficiais representados por policiais,  autoridades de imigração, diplomatas, ministros, políticos e acadêmicos. Dinâmica que  guarda relação com os próprios modos de cobertura da pauta sobre a migração privilegiados pelas mídias  estudadas. A multiplicidade desses modos de cobertura converge para a tendência a uma burocratização do tratamento de um fenômeno de cunho sociocultural como o das migrações,  em que a aproximação do profissional jornalista com o cotidiano dos migrantes no contexto urbano é substituída pelos materiais das agências de notícias, por matérias traduzidos de jornais europeus e norte-americanos e elaboradas na redação.

 

“Em entrevista coletiva, o superintendente da polícia de Manchester, Eric Hewitt, rebateu críticas e disse que seus homens vão continuar com a política de ‘tolerância zero’ [...] Os incidentes em Oldham colocaram a imigração e a tolerância racial no centro do debate eleitoral. O prêmie trabalhista Tony Blair, candidato à reeleição, disse que os confrontos não são típicos das relações inter-raciais na sociedade britânica. ‘A ampla maioria das pessoas quer viver em paz e harmonia com o outro’, disse Blair, em evento de campanha.” (Folha de São Paulo, 29/05/2001, p. A9)

 

“A Polícia Federal prendeu em flagrante um casal que pretendia embarcar seis chineses para os Estados Unidos utilizando passaportes falsificados, na noite da última quinta-feira, no Aeroporto Internacional Tom Jobim (zona oeste do Rio). O chinês naturalizado argentino Jia Yong, 28, e a brasileira Elisângela Proença dos Passos, 26, de acordo com a Polícia Federal, podem ser integrantes de uma quadrilha especializada de imigração ilegal. Há também a suspeita de eles tenham ligação com a máfia chinesa. Segundo a PF, uma semana antes do dia da viagem, o casal entrou em contato com um fiscal da Polícia Federal e ofereceu US$ 1,5 mil pela facilitação do embarque de cada chinês.” (Folha de São Paulo, 14/04/2001, p. C6)

 

“A ministra francesa de Esportes, Marie-George Buffet, pediu uma solução ‘rápida e forte’ sobre os casos de passaportes falsos registrados no futebol do país, informa o jornal. ‘É de interesse do futebol que esse assunto seja resolvido. O uso de passaportes falsos é indesculpável’ afirmou Marie. Os passaportes de 78 jogadores que disputam as primeiras e segundas divisões estão sendo investigados pelo departamento de ‘imigração’ da França. O atacante brasileiro Alex é um dos atletas pagos com passaporte português falso.” (Folha de São Paulo, 11/01/2001, p. D2)

 

Nas editorias de opinião e suplementos de cultura, onde a imigração emerge com maior ênfase como dinâmica e problemática sociocultural, também registra-se, no que se refere às fontes, um apagamento das marcas identitárias de imigrante em prol das identidades do especialista. No Caderno Mais da Folha de São Paulo, o pensador francês Jacques Derrida tem unicamente sua condição de filósofo evocada para falar de ética e solidariedade, enfatizando a presença de imigrantes no âmbito dos estados-nação. “Pensador francês de origem argelina”, é a única referência da matéria à experiência de Derrida com a imigração, embora a entrevista seja permeada por uma abordagem mais “humanizada” do fenômeno, conforme sugere o trecho a seguir.

 

“Como o sr. observou, compartilho com outros a preocupação da hospitalidade e as notícias sobre o drama dos estrangeiros, dos imigrados, dos exilados. Tento pensar uma hospitalidade incondicional que não esteja ligada à cidadania. Existem leis da hospitalidade ligadas à cidadania; Kant, por exemplo, quando fala do tratado universal, pensa numa hospitalidade de cidadão para cidadão”. (Folha de São Paulo 27/05/2001, p. 34)

 

Ariel Dorfmann, argentino de nascimento, naturalizado chileno e morador dos Estados Unidos, é igualmente “desvestido” de sua condição de imigrante e convocado como escritor, em entrevista à editoria Mundo da Folha de São Paulo, para se referir ao problema da imigração ilegal nos Estados Unidos em uma abordagem sobre a criatividade e humor do povo latino-americano como chave para o desenvolvimento  da região no século 21.

Embora referido como descendentes de japoneses em matéria na Editoria Cotidiano da Folha de São Paulo sobre o êxito alcançado no vestibular da Fuvest por  estudantes descendentes de asiáticos, o psicólogo Francisco Hashimoto, da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Assis, é autorizado pelo jornal a “falar sobre a imigração” do lugar de pesquisador que defendeu dissertação de mestrado e tese de doutorado sobre o tema.

 “Hashimoto afirma que a valorização da educação nas famílias e a conseqüente dedicação aos estudos é o que faz a diferença na hora da disputa por uma vaga. ‘O que diferencia os asiáticos dos demais grupos é a dedicação aos estudos. Não concordo com a tese de que haja diferença entre as etnias, de que uma seja mais capaz do que a outra’, diz” (Folha de São Paulo. (Folha de São Paulo, 15/04/2001, p. C7)

 

Fruto, em grande medida, dessa hierarquização das fontes é o caráter de criminalização que assume a experiência migratória no universo das mídias estudadas. Em matérias distribuídas, sobretudo, nas  editorias nomeadas como Internacionais ou Mundo, uma postura de consentimento da mídia nacional sobre representações “policialescas” dos Outros, estrangeiros e distantes,  que parecem não nos dizer respeito, resulta, principalmente, de um olhar “emprestado” das agências de notícias ou de matérias reproduzidas de jornais estrangeiros de grande circulação como o El País ou o New York Times.

             Nomeados como ilegais, clandestinos, irregulares, refugiados, deportados, os imigrantes são alvos de uma semantização negativa e “policialesca” que inclui intolerância, violência, desemprego, isolamento, preconceito, pobreza, condenação, fiscalização, deportação, expulsão, fuga, tráfico, punição ou detenção. Os títulos de algumas das matérias mapeadas sugerem a ênfase em uma  “criminalização” em que os imigrantes, embora cheguem a  ocupar a posição de sujeito, aparecem, na maioria das vezes, como “pacientes” ou “experimentadores” das ações de “outros”, geralmente as autoridades ou de aparatos policiais.

 

“Onda de imigrantes ilegais faz EU rever asilo.” (Folha de São Paulo, 20/02/2001, p. A15) 

“EUA vão suspender a deportação de salvadorenhos ilegais devido ao terremoto.” (Folha de São Paulo, 19/01/2001 – p. A9) 

“Imigrante ilegal cria problemas para Bush. (Zero Hora, 09/01/2001, p. 28) 

“Itália quer uma polícia européia de fronteira.” (Folha de São Paulo, 28/02/2000, p. A8) 

“França caça tripulação de navio com imigrantes”  (Zero Hora, 19/02/2001, p. 27) 

“Conservadores querem deter imigrantes.” (Folha de São Paulo, 19/05/2001, p. A17)

“Lei espanhola ameaça 30 mil imigrantes de expulsão” (Folha de São Paulo, 24/01/2001, p. A9)

“Portugal regulariza caso de imigrantes.” (A Crítica, 02/02/2001)

“Casal é detido no Rio ao tentar embarcar ilegalmente chineses.” (A Crítica, 14/04/2001)

Brasiguaios submetidos a extorsão (Zero Hora, 18/03/2001, p. 39) 

“20% dos médicos do Acre são clandestinos – peruanos e bolivianos são contratados sem obter equivalência do diploma” (Folha de São Paulo, 08/01/2001 – p. C6)

 

A observação do caráter  “policialesco” que marca a cobertura midiática da imigração, evidencia-se, ainda, por um confronto enunciativo da experiência imigratória contemporânea no corpo das mídias a partir da polarização entre uma imigração simples (dos indesejados), representada pelos  ilegais, indocumentados, clandestinos e refugiados, contrapõem-se  uma imigração sofisticada (dos desejados e disputados), que, designada como “evasão ou drenagem de cérebros”, é significada pela mobilidade de acadêmicos e profissionais especializados em busca de melhor status profissional e ascensão sócio-ecônomica.

Em uma mesma edição, do dia 15 de julho de 2001, o jornal  Folha de São Paulo publica, na editoria Cotidiano, reportagem intitulada “Praça de SP vira ‘embaixada da Bolívia’”, retratando o cotidiano de imigrantes bolivianos que “procuram emprego e orientação de conterrâneos em feira aos domingos no Pari.” Enquanto que, no Caderno de Empregos, outra matéria intitulada “Visto é arma para atrair talento estrangeiro”,  alude a um tipo de condição imigratória que privilegia os “profissionais tipo exportação”

 

 “Há um tipo de pessoa que não corre o risco de ser deportada nem precisa ralar clandestinamente em subempregos fora do Brasil: o profissional qualificado. Até pelo contrário, ele é quase um convidado. Isso porque governos de alguns países lançam mão de programas de incentivo à imigração para facilitar a entrada de trabalhadores especializados [...].” (Folha de São Paulo, 15/07/2001)

 

Na mesma semana,  outra reportagem do mesmo jornal motivada pela reunião da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em Salvador, sob o título “Brasil absorve cérebros (pesquisadores) de países vizinhos.”, evoca a reorientação que assumem os fluxos migratórios definidos pela mão-de-obra qualificada no contexto do Mercosul.

“O Brasil está causando ‘evasão de cérebros’ em países latino-americanos. Cientistas vindos de países vizinhos – com a Argentina no topo da lista – formam o maior contingente de estrangeiros trabalhando com vínculos permanentes em instituições brasileiras. Os números foram mencionados ontem na Reunião da SBPC em Salvador, em palestra sobre cooperação internacional e regional do CNPq, o principal órgão federal de fomento à pesquisa. Ao mesmo tempo, para evitar uma migração mais típica – a ida de brasileiros para instituições de pesquisa dos países ricos -, o MCT está criando o Programa de Fixação de Doutores (Profix)” {Folha de São Paulo, 18/07/2000)

 

Enunciada majoritariamente nas editorias ou cadernos de economia, a sofisticação é construída quando a terminologia imigrante dá lugar a estrangeiro para demarcar uma diferenciação de competências e capital cultural que acaba sugerindo ao leitor uma presença menos conflitiva da “diferença” no contexto das sociedades receptoras de imigração. Ainda que ocupando espaços diferenciados na geografia dos jornais, estrangeiros e imigrantes se encontram quando se prestam a leituras economicistas que os convertem em pautas de normatividades e regulações ou em estimativas e quadros estatístiscos prioritariamente nos cadernos ou suplementos de economia em detrimento de ofertas de leitura que digam respeito à imigração como experiência sociocultural. “Brasil dobra importação de mão-de-obra”,  “Visto para estrangeiro trabalhar fica difícil”, duas matérias publicadas na editoria Dinheiro da Folha de São Paulo são dois desses exemplos extraidos da amostra de jornais analisados

“O Ministério do Trabalho e Emprego decidiu tornar mais difícil a concessão de vistos para estrangeiros virem trabalhar no país, especialmente no caso de técnicos de alta qualificação. Para isso, as empresas têm que cumprir algumas condições. A primeira delas, embora não seja nova, determina o período temporário de trabalho – dois anos, prorrogáveis uma vez por mais dois anos.[...]” {Folha de São Paulo, 18/11/2002, p. B-9)

 

“Além de carro, vinho, petróleo e componentes, o Brasil está se transformando em grande importador de mão-de-obra. De janeiro a agosto, 9.579 estrangeiros entraram no país para trabalhar,  mais do que o dobro quando se compara com igual período de 99 (4.695). Levando-se em conta também a entrada de artistas e esportistas acrescentam-se ao número desse ano mais 2.178 pessoas, e ao do ano passado, mais 2.090. [...] Além da abertura do mercado de petróleo e das privatizações, o Ministério do Trabalho atribui o crescimento da entrada de estrangeiros no país à falta de mão-de-obra para tarefas técnicas.” (Folha de São Paulo, 18/10/2000, p. B11).

 

Trecho de matéria da Revista Veja publicada em 12/01/2001 com o título “Dêem-me seus pobres...- estudo da ONU diz que países pobres vão empobrecer se não receberem imigrantes” é igualmente exemplar dessa visão “economicista” que pauta os olhares midiáticos sobre o fenômeno imigratório contemporâneo.

“Segundo um estudo da Organização das Nações Unidas, ONU, só a imigração em massa pode garantir a prosperidade futura das porções mais ricas do planeta e que os imigrantes, mesmo pobre e esgotados, precisam ser atraídos pelos países desenvolvidos, da mesma forma como hoje os países em desenvolvimento atraem capitais” (Veja, 12.01.2000, p. 118)

 

As cifras são, aliás, um dos dispositivos retóricos recorrentes na cobertura sobre as migrações no campo midiático, servindo menos para aportar compreensão sobre um fenômeno de caráter sociocultural e mais para a produção de um ambiente que, como refere Fausto Neto em seu estudo sobre a AIDs “repousa sobre a instalação do pânico” (23) em perspectiva similar ao que Teun van Djik define como a “semântica do pânico” instaurada na cobertura dada à imigração pela imprensa dos Países Baixos. (24)

Pelo “baile das cifras”, muito conhecido quando se trata de informações relativas a imigrantes (25), a vivência da imigração, suas conseqüências e repercussões sociais são aferidas, pelas mídia brasileira, via registros estatísticos, índices comparativos, taxas de mercado, variações anuais, etc., contribuindo para a construção de um enquadramento objetivo e conclusivo da experiência imigratória, constituído de avaliações e prognósticos sobre o fenômeno.

 

“Não há cálculos confiáveis sobre quantos estrangeiros vivem em situação ilegal no Brasil. Apenas como ordem de grandeza, pode-se trabalhar com a estimativa de 80.000 pessoas.” (Veja, 25/08/1999, p. 108) 

“Há um cálculo recorrente entre eles sobre o total de bolivianos em São Paulo: pelo menos, 70 mil. Os mais exagerados falam em 100 mil pessoas.” (Folha de São Paulo, 15/07/2001). 

“A ONU calcula que a União Européia será obrigada a trazer 35 milhões de trabalhadores de fora de suas fronteiras.” (Revista Veja, 12/1/2000, p. 118) 

“Existe um cálculo de que há 350 mil brasileiro no território paraguaio e que pelo menos 190 mil têm problemas com documentação.“ (Zero Hora, 18/03/2001, p. 39) 

“Os Estados Unidos estão passando pela segunda onda de imigração em sua história [...] Hoje mais de 28 milhões de imigrantes legais e ilegais vivem nos Estados Unidos, três vezes mais do que há 30 anos” (Folha de São Paulo, 06/01/2001, p. A7) 

“Oito dias depois do início do processo de legalização de imigrantes em Portugal, somente 276 dos 20 mil brasileiros que vivem no país regularizaram sua situação [...] As associações de imigrantes calculam que o número de clandestinos no país chegue a 100 mil, entre eles 20  mil brasileiros” (A Crítica, 02/02/2001}           

“Dos 37 médicos que hoje trabalham em Cruzeiro do Sul (648km de Rio Branco), 24 são peruanos ou bolivianos. Desses estrangeiros contratados, 14 (11 pela prefeitura e 3 pelo Estado) ainda não possuem registro no CRM (Conselho Regional de Medicina).” (Folha de São Paulo, 08/01/2001, p. C6)

 

A fusão entre as figuras do imigrante e do estrangeiro parece inscrever-se na chamada “imigração esportiva”, expressa naqueles caso em que atletas com “alta cotação” no mercado internacional, especialmente do futebol, aparecem envolvidos em episódios de transações ilegais para obtenção de passaportes falsos que dão direito a vistos de trabalho  Exemplo é a polêmica de transferência do jogador Ronaldinho para o futebol francês que merece a cobertura do jornal Zero Hora de 22/01/2001 ou a investigação, noticiado pela edição de 04/02/2001 da Folha de São Paulo, de 50 atletas estrangeiros pelo departamento de imigração e pela polícia italiana, incluindo o ex-capitão da seleção brasileira, Cafu, suspeito de utilizar passaporte falso.

      A universalização da categoria de “imigrante” ou das categorias étnicas implicadas nos processos migratórios é outra marca encontrada nas operações discursivas das mídias. Quando não são designados de forma genérica como “imigrantes” ou “estrangeiros”,  a despeito da imensa variedade de origens  e experiências culturais que representam, são as nações, as regiões, os continentes ou mesmo a cor da pele, que servem de referência para atribuição de nomeações étnicas igualmente genéricas, como latino-americanos, caribenhos, asiáticos, paquistaneses, coreanos, bolivianos, brasileiros, brancos, negros, etc.

Essa “etnização” ou “racialização” das dinâmicas migratórias  pressupõe não apenas uma certa homogeneidade, por parte das mídias, nas representações da migração, mas sugere um esvaziamento do pluralismo cultural que marca as trajetórias dos migrantes do mesmo modo que favorece o apagamento ou diluição de outras posições identitárias como as de classe, gênero, idade, religiosidade, etc., que compõem e dinamizam essas trajetórias. Ou ainda, um silenciamento sobre as confrontações no interior das próprias culturas migrantes como uma das características do atual cenário da multiculturalidade gerado pelos processos migratórios. Na Inglaterra, segundo o exemplo referido por Enzensberger, os fundamentalistas paquistaneses criaram um "parlamento  muçulmano" sob o argumento de que a população islâmica do país conforma um sistema político próprio.  Fala-se de uma nação islâmica assim como de uma nação negra. "Nos Estados Unidos, os afro-americanos confrontam-se com os judeus, os hispanos com os coreanos, os haitianos  com os negros, etc. Está se procedendo a uma nacionalização dos conflitos sociais."  (26)

“Um levantamento realizado pelo CRM (Conselho Regional de Medicina) mostra que pelo menos 25 estrangeiros trabalham em postos de saúde de prefeituras ou nos hospitais do estado sem o registro obrigatório da entidade. Esses médicos – na maioria peruanos e bolivianos  são considerados clandestinos pelo CRM pois foram contratados sem revalidar seus diplomas em uma universidade brasileira.” (Folha de São Paulo, 08/01/2001, p. C6)

 “Desde o último mês de maio, Oldham, Burney e Bradford têm sido palco de intensos conflitos raciais, que envolvem rapazes de raízes asiáticas  - filhos de imigrantes indianos, paquistaneses e bengaleses – e brancos. (Folha de São Paulo, 15/07/2001]

 

A referência a nacionalidades ou grupos étnicos torna-se um mecanismo diluidor da própria dispersão – inclusive interna aos chamados grupos étnicos - que configura a experiência sociocultural construída no cotidiano dos imigrantes no contexto das cidades, evocando ao leitor uma espécie de diáspora traduzida por uma (des ) territorialização massiva resultante de distintos deslocamentos de grupos étnicos como bolivianos, africanos, mexicanos, brasileiros,  latinos. (27)

É através desses mesmos dispositivos de nomeação que as mídias, a partir de uma essencialização do étnico e da nacionalidade, operam a reafirmação e (re) atualização de estereótipos culturais como o do “Brasil hospitaleiro”, o “dos imigrantes brasileiros que se dão bem no exterior”, ou o “do êxito dos descendentes de asiáticos no Brasil em relação aos de outras etnias”.

“Muitos bolivianos vão tentar a vida na Argentina ou no Chile, países de economia sólida, mas boa parte prefere o Brasil. Segundo estudos feitos com imigrantes, o Brasil acaba sendo um destino atraente porque alia dois fatores principais: oferece oportunidades para quem quer ganhar dinheiro e não é xenófobo. Identifica-se no país mais preconceito regional, de brasileiros do Norte ou Nordeste contra brasileiros do Sul ou Sudeste, e vice-versa do que propriamente contra o estrangeiro. O Brasil é tido como uma nação hospitaleira. O imigrante pode ter dificuldade de deixar-se absorver-se, mas seus filhos e netos tornam-se brasileiros com certa facilidade.” (Revista Veja, 25/08/1999, p. 108)

 

Os sul-americanos, entre eles os brasileiros, que vivem nos Estados Unidos têm um nível de vida mais próximo do dos norte-americanos nativos do que do de outros estrangeiros e mesmo do que do nível geral dos imigrantes no país. A conclusão é do estudo parcial divulgado nesta semana pelo Escritório do Censo dos EUA, conforme dados coletados em março de 2000 no país inteiro. Dos 28,4 milhões de estrangeiros estimados nos EUA, cerca de 6,6% (ou 1,87 milhão) vêm da América do Sul. Ainda não há dados sobre quantos são os imigrantes brasileiros. Mas o Consulado do Brasil em Nova York, responsável pelos estados de Nova York, Nova Jersey, Connecticut, Delaware e Pensilvânia, estima em 300 mil os brasileiros vivendo nessa circunscrição.” (Folha de São Paulo, 06/01/2001, p. A7)

 

“No último vestibular da Fuvest, que organiza o vestibular da USP, Unifesp e da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, a taxa de aprovação de quem definiu sua cor como amarela nos questionários socioeconômicos foi de 11%. Esse índice é quase o dobro do dos brancos, que tiveram uma taxa de 6,6% dos candidatos inscritos. O desempenho dos estudantes de origem asiática também é bem superior ao dos negros e pardos, que aprovaram, respectivamente, 2,6% e 4% dos inscritos [...] Para especialistas consultados pela Folha, a explicação para o bom rendimento dos asiáticos no vestibular está na cultura dos imigrantes vindos de países como Japão, China e Coréia e nas características da imigração.” (Folha de São Paulo, 15/04/2001, p. C7)

 

 

     A despeito da “oficialidade” vigente como critério de  seleção das fontes  enunciadoras da imigração, a dispersão ou fragmentação observada na ampla distribuição da imigração na espacialidade dos jornais, vai possibilitando um tensionamento da essencialidade das leituras  economicistas em prol de interpretações sociais e  culturais que tendem a complexificar o entendimento da experiência imigratória contemporânea, sobretudo por intermédio das vozes dos especialistas nos espaços de opinião. Do mesmo modo, que a testemunhalidade da reportagem, mesmo que quantitativamente pouco significativa nas mídias analisadas, vai propondo o resgate das “falas” migrantes em seu contexto cotidiano para  instaurar, no próprio campo midiático, um espaço de negociação e mesmo de tensão em torno das representações sobre a imigração contemporânea. 

 

 “[...] Tal como se faria em Porto Alegre, Sinha afirmou que ‘o meio ambiente está em perigo pelo modo de vida das pessoas que vivem no Norte.” E reclamou das políticas de ‘imigração’ dos países ricos, desenhadas, segundo ele, para aspirar cérebros do Sul subdesenvolvido. Citou, a próposito, o fato de que 38% de todos os portadores de títulos de doutor nos Estados Unidos são indianos, para uma explosão de aplausos da platéia. ‘O Sul está pedindo ao Norte um acordo justo, não caridade’, fechou o ministro indiano’“. (Clóvis Rossi, enviado especial a Davos, em matéria na editoria Brasil intitulada “Davos abra ataques contra a globalização. Folha de São Paulo, 26/01/2001, p. A9)

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“Mas dos Estados Unidos também vêm bons exemplos de flexibilidade prática na questão da língua, como o uso do espanhol na propaganda e na educação em áreas de grande imigração ‘hispânica’, contra os protestos da direita, que quer proteger o inglês. O problema é diferente, mas a xenofobia lingüística é parecida” (Luis Fernando Veríssimo em coluna intitulada Resistência. Zero Hora, 02/07/2001, p. 3).

 

“No capitalismo que vigorou até a década de 80, havia mercados nacionais de trabalho, ainda que segmentados. O trabalho hoje é um recurso global, mas não há um mercado global de trabalho. Há liberdade de movimento para produtos e serviços, mas não para os trabalhadores. Sou adepto das fronteiras abertas para a imigração. A posição é radical, mas penso que na Europa é necessário defendê-la. Não temos direito a privilégios quando o resto do mundo morre de fome.” (Sociólogo português Boaventura de Sousa Santos em entrevista na Editoria Brasil da Folha de São Paulo, 21/05/2001, p. A7).

 

Outro exemplo de embate produzido pelas vozes especialistas, é a controvérsia sobre os efeitos da latinização dos Estados Unidos provocada pela imigração publicada em matéria do Caderno Mais da Folha de São Paulo, sob o título de “A nova antropofagia”. A polêmica travada entre o lingüista mexicano Ilan Stavans, professor  da Universidade Amherst, em Massachusetts,  e o professor de história da Universidade do Estado de Nova York, Mike Davis é representativa do quanto o campo midiático vai refletindo as disputas de sentido sobre o significado sociocultural das imigrações disseminadas em diferentes campos sociais.

 

“Por tudo isso, defende Stavans, o impacto do spanglish ‘é inevitável’ e, com a hispanização, irá ‘nos forçar a reconsiderar a história dos EUA de maneiras ainda não imaginadas’ [...] Para Stavans, ao tomar de empréstimo elementos do espanhol e do inglês para criar uma nova forma de expressão, o sapanglish acaba interferindo diretamente na morfologia e na sintaxe de ambas as línguas, como na oração ‘voy a shopear soquetas a la marketa’”

“Marxista de formação, Davis tem uma visão orgânica da chamada ‘latinização dos EUA’ que o opõe em vários aspectos ao culturalismo de Ilan Stavans. Para Davis, há questões de fundo econômico e social que simplesmente banem a maior parte dos hispânicos dos benefícios da sociedade americana. Ele cita o elevado índice de imigrantes latinos que abandonam os estudos ‘um escândalo nacional’, a resistência cada vez maior ao ensino bilíngüe nas escolas, oficializado na polêmica Proposição 227 e defendido pelo movimento ‘English Only’, e à chamada ação afirmativa que prevê, por exemplo, reserva de vaga para minorias nas universidades. Davis também relativiza, com estatísticas, a entusiasmada defesa da miscigenação feita por Stavans: metade dos casamentos inter-raciais nos Estados Unidos se realiza entre os próprios hispânicos

 

Dinâmica similar de “humanização” da experiência vivenciada pelos imigrantes institui-se via o caráter de “testemunhalidade” que assumem as reportagens locais ou de enviados especiais que recolhem as vozes imigrantes em seus contextos, mesmo que ainda não sejam numericamente tão  significativas e que, além disso, muitas delas recorram à dramatização como modo de ressemantização, por exemplo, das imigrações internas vigentes no contexto brasileiro. O próprio potencial de intervenção de representantes de organizações de imigrantes, cujas vozes, ainda que timidamente, desembocam no espaço midiático, instauram negociações em torno das representações sobre a imigração construídas pelas mídias.

“De acordo com os colonos, os problemas surgem porque os guardas querem propinas. Para resolver a situação, Werber lota um ônibus de agricultores e vai até Assunção uma vez por semana.

-Os resultados são tímidos. Mas há esperança em uma melhora – aposta.

Brasiguaios mais abastados são os mais prejudicados. Porque deles é exigida uma parte da safra como pagamento da propina par não serem expulsos do país. Um deles disse o seguinte:

-         Aqui é assim: nós ganhamos dois guaranis (moeda nacional paraguaia), e os corruptos nos tiram quatro. Este é o Paraguai., um país ingrato com quem trabalha.” (“Brasiguaios submetidos á extorsão – Zero Hora, 18/03/2001, p. 39”).

 

“Onze horas da manhã de domingo e eles já começam a montar suas barracas ao redor da praça Padre Bento, no centro do bairro do Pai, região central de São Paulo. O cheiro do tempero picante da comida típica conta do ar, assim como o som do grupo Kjarkes, o sucesso do momento nas emissoras de rádio em La paz, a capital da Bolívia. Os bolivianos, com ou sem documento legal, estão chegando para o seu sagrado encontro dominical [...] Eles contam que há sempre um novo boliviano chegando a São Paulo com a mudança, com a mesma esperança de melhorar de vida. se for pobre, seu primeiro passeio será a feira da Padre Bento, uma espécie de embaixada. Depois vem a mulher, a criança, a sogra, a mãe ... e o número nunca pára de crescer. ‘Houve épocas em que fazíamos aqui um campeonato de futebol com 20 times bolivianos’, conta um deles.” (Praça de SP vira ‘embaixada da Bolívia’, Folha de São Paulo, 15/07/2001)

Por meio desse embate de sentidos, a esfera midiática acaba possibilitando reflexões sobre uma imigração que, como postula Enzensberger ao analisar o caso da Alemanha, não mobiliza apenas a xenofobia, mas também e, paradoxalmente, posturas contrárias. A perspectiva moralizadora que envolve a defesa dos imigrantes em torno de lemas como Estrangeiros: não nos deixem sós com os alemães! ou Nunca mais Alemanha!, conduzem à idealização da população imigrante e a uma inversão da tradicional polarização que envolve a presença estrangeira naquele país. "Levada a seus extremos, a inversão do preconceito pode desembocar na discriminação da maioria", destaca o autor (28). Conduzido ao campo midiático, a dualidade vítima-vilão que atravessa o debate público sobre a imigração ganha visibilidade quando as falas dos imigrantes emergem, ainda que ocasional e perifericamente, para disputar espaço no corpo das mídias com as falas sobre a imigração de autoridades e  especialistas.

 

“Esses imigrantes chegaram à cidade nos anos 60, estimulados pelo governo britânico, que queria suprir a falta de mão-de-obra no norte da Inglaterra, cuja indústria têxtil passava por seu apogeu. Hoje, seus filhos enfrentam a pobreza e a falta de empregos geradas pela decadência dessa indústria no meio dos anos 80. Entre os jovens asiáticos, o índice de desemprego é de 40%. “Não há nenhuma perspectiva nem esperança. Essas pessoas não se sentem mais integrantes da sociedade”, avalia Barry Malik, filho de paquistaneses que coordena um grupo de integração racial em Bradford. Malik aponta uma crise de identidade nessa segunda geração, que quer se afastar do tradicionalismo de seus pais, mas se sente socialmente segregada.” (Intolerância cresce no norte da Inglaterra, Folha de São Paulo, 15/07/2001)

 

 NOTAS 

(1)  VAN DIJK, Teun A. Racismo y análisis crítico de los medios. Buenos Aires: Paidós 1997. 

(2) GOLDBERG, David Theo. Introduction: Multicultural conditions. In: GOLDBERG, David Theo. Multiculturalism - a critical reader. Oxford: Blacwell,1997. p. 21. 

(3) IANNI, Octavio. A racialização do mundo. Tempo Social - Revista de Sociologia da USP. vol. 8, no. 1, p.1-23, maio, 1996. 

(4) IANNI, Octavio. A racialização do mundo. Tempo Social - Revista de Sociologia da USP. vol. 8, no. 1, p.1-23, maio, 1996. p. 3 

(5) Dados extraídos de GARCIA CANCLINI, Néstor. América Latina entre Europa y Estados Unidos: mercado e interculturalidad. Halle (Alemanha), 1998. (Conferência apresentada no II Congresso Europeu de Latino-Americanistas), 23p. 

(6) GARCIA CANCLINI, Néstor. América Latina entre Europa y Estados Unidos: mercado e interculturalidad. Halle (Alemanha), 1998. (Conferência apresentada no II Congresso Europeu de Latino-Americanistas), p. 6 

(7) Essa é a tendência de alguns países como a Espanha, cujos episódios da guerra civil e da ditadura franquista conduziram a uma intensa emigração de espanhóis principalmente em direção a países sul-americanos como a Argentina. 

(8) Vale resgatar a classificação de Dominique Schnapper sobre os três pontos de vistas presentes na literatura sociológica sobre os trabalhadores estrangeiros: o do economista, que trata sobre a lógica da distribuição dos recursos, do capital, do trabalho e das transferências financeiras em escala internacional; o do sociólogo da ação social ou do politólogo, que se interroga  especialmente sobre o imigrante como agente histórico ou político; o do sociólogo de inspiração culturalista, que trata de apresentar as formas de aculturação induzidas pela imigração e o assentamento em um país moderno. Ver SCHNAPPER, Dominique. Modernidad e aculturaciones - a propósito de los trabajadores emigrantes. In: TODOROV, Tzvetan et al. Cruce de culturas y mestizage cultural, Madrid: Júcar Universidad, 1988. p. 173-205. 

(9) CANO, Javier Sánchez. Migracions, racisme i polítiques comunitàries. Any Europeu contra el Racisme. Una visió progressista. Barcelona: Grup Parlamentari del Partit dels Socialistes Europeus, 1997. p. 13. 

(10) LAMO ESPINOSA, Emilio. (ed.) Culturas, estados, ciudadanos. Una aproximación al multiculturalismo en Europa. Madri, Alianza Editorial, 1995. p. 54. 

(11) LÉVY, Claude. Les minorités ethniques aux États-Unis. Paris: Ellipses, 1997. 

(12)  GARCIA CANCLINI, Néstor. América Latina entre Europa y Estados Unidos: mercado e interculturalidad. Halle (Alemanha), 1998. (Conferência apresentada no II Congresso Europeu de Latino-Americanistas), 23p 

(13) BORJA, Jordi; CASTELLS, Manuel. Local y global - la gestión de las ciudades en la era de la información. Madrid: Taurus, 1997. p. 112. 

(14) Após a Independência do Brasil (1822), eram dois os objetivos do Império em relação aos imigrantes: a substituição da mão-de-obra escrava e o branqueamento da população. Ver Jornal Mundo Jovem. Porto Alegre,  jun. 1999, n. 297, p. 21. 

(15) MARTIN-BARBERO, Jesus. Globalización y multiculturalidad: notas para una agenda de investigación. Santos, 1997 (Conferência apresentada no 4º Encontro Ibero-Americano de Ciências da Comunicação). p. 5. 

(16)  MARTIN-BARBERO, Jesus. Globalización y multiculturalidad: notas para una agenda de investigación. Santos, 1997 (Conferência apresentada no 4º Encontro Ibero-Americano de Ciências da Comunicação).p. 5. 

(17) GARCIA CANCLINI, Néstor. América Latina entre Europa y Estados Unidos: mercado e interculturalidad. Halle (Alemanha), 1998. (Conferência apresentada no II Congresso Europeu de Latino-Americanistas), p. 35. 

(18) Nesse artigo, privilegiamos a discussão dos resultados parciais de um dos quatro eixos metodológicos do projeto de pesquisa “Mídia imigração e interculturalidade: estudo das estratégias de midiatização e das falas imigrantes no contexto brasileiro”, que abrange o mapeamento e análise discursiva de textos midiáticos e das falas imigrantes em um em uma amostra de mídias impressas de distintas regiões brasileiras. O percurso metodológico, de caráter qualitativo, constrói-se em torno de outros três eixos em torno das  relações entre mídia, imigração e interculturalidade entrevistas em profundidade com produtores midiáticos envolvidos na cobertura da migração no contexto da mídia impressa nacional;   realização de histórias de vida com imigrantes representativos de experiências migratórias agendadas pela mídia (sobretudo a imigração de latino-americanos para o Rio Grande do Sul e as imigrações inter-regionais e intra-regionais no contexto gaúcho) e entrevistas semi-estruturadas com representantes de campos organizacionais e institucionais dedicadas ao trabalho com as questões migratórias no cenário brasileiro, especialmente as que atuam no Rio Grande do Sul. 

(19) PINTO, Milton José. Comunicação e discurso. São Paulo: Hackers, 1999. p.8 

(20)  PINTO, Milton José. Comunicação e discurso. São Paulo: Hackers, 1999p.8 

(21) A amostra de mídias impressas inclui os jornais Folha de São Paulo (SP),  O Globo (RJ), Zero Hora e Correio do Povo (RS), Diário Catarinense (SC), Correio Braziliense (DF), Jornal da Tarde (BA),   A Crítica (AM)  e a Revista Veja. 

(22) GARCIA CANCLINI, Néstor. América Latina entre Europa y Estados Unidos: mercado e interculturalidad. Halle (Alemanha), 1998. (Conferência apresentada no II Congresso Europeu de Latino-Americanistas), 

(23) FAUSTO NETO, Antonio. Comunicação e mídia impressa – estudos sobre a AIDs. São Paulo: Hacker, 1999. p. 52. 

(24) VAN DIJK, Teun A. Racismo y análisis crítico de los medios. Buenos Aires: Paidós 1997.p. 101-123.  

(25) Constatação feita por Van Djik em um de seus estudos. 

(26)  ENZENSBERGER, Hans Magnus. La gran migración. Barcelona:  Anagrama, 1992. p. 58.

(27) No que se refere ao campo midiático, a homogeneização tem sido uma estratégia que vem contribuindo para a conversão das culturas, etnias ou identidades culturais em mercado, como se observa em relação aos latinos ou hispânicos nos Estados Unidos. Ver SINCLAIR, John. From latin americans to latinos: spanish-language television in the United States and its audiences. Panamerican Colloquium Cultural Industries and Dialogue Between Civilizations in the Americas.  Montreal: Gricis/Université de Montreal au Québec, 22-24 abril de 2002. p. 1-11 (Anais do Congresso em versão on-line).

(28) ENZENSBERGER, Hans Magnus. La gran migración. Barcelona:  Anagrama, 1992. p 28. 


Denise Cogo é doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Professora e coordenadora adjunta do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) em São Leopoldo – RS. Também é consultora da Capes e CNPq, coordena, atualmente, o projeto de pesquisa “Mídia, imigração e interculturalidade: estudo das estratégias de midiatização e das falas imigrantes no contexto brasileiro”, desenvolvida no âmbito do grupo de pesquisa Produção e Recepção Midiáticas da perspectiva do Multiculturalismo, com o apoio do CNPq e Fapergs. É igualmente coordenadora do Núcleo de Comunicação para a Cidadania da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). 

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