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Dênis de Moraes
Entrevista
de Carlos Nelson Coutinho a Dênis de Moraes
O
cientista político Carlos Nelson Coutinho sustenta que a democratização
efetiva da cultura no Brasil tem como ponto de partida uma democratização
dos meios de comunicação, “a partir de um maior controle da sociedade
sobre esses poderosos instrumentos de criação, difusão e ação
cultural”. Ele defende mudanças na legislação para assegurar “uma
gestão mais coletiva” da mídia, sugerindo a formação de “grandes
cooperativas de intelectuais” para interferir nas políticas de difusão.
“É a sociedade, e não os
grupos monopolistas privados, que deve controlar os meios de comunicação.
Os grupos privados podem até levam em conta certas demandas da sociedade,
mas operam sem um efetivo controle social”, opina.
Em
plena era da globalização, Carlos Nelson continua defendendo uma cultura
nacional-popular, comprometida com o exame crítico da realidade sociopolítica.
A seu ver, a década de 1990 não produziu um único grande escritor no
Brasil, nem um movimento comparável ao Centro Popular de Cultura (CPC),
que atuou no começo dos anos 60 sob a liderança de Oduvaldo Vianna
Filho. “Hoje prevalece uma cultura ornamental e intimista, desligada dos
problemas do povo brasileiro”, avalia.
Em
fins de 2000, Carlos Nelson Coutinho publicou dois livros: uma versão
revista e ampliada de um de seus principais trabalhos, Cultura
e sociedade no Brasil (ed. DP&A),
com ensaios sobre os dilemas de nossa formação cultural e estudos sobre
Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Graciliano Ramos e Lima Barreto;
e Contra a corrente (ed.
Cortez), coletânea sobre a conjuntura política nacional. No momento, está
coordenando a edição em português dos primeiros seis volumes dos Cadernos do cárcere (ed. Record), do filósofo italiano Antonio
Gramsci, do qual foi o primeiro tradutor brasileiro e a quem dedicou uma
obra clássica, Gramsci: um estudo
de seu pensamento político (ed. Civilização Brasileira).
Atiçando
controvérsias, o cientista político qualifica de “transformistas”
antigos intelectuais de esquerda (entre os quais inclui o presidente
Fernando Henrique Cardoso e o ministro da Cultura, Francisco Weffort) que
teriam se convertido ao neoliberalismo. Em seu entender, o “ascetismo
cultural” e “posições ideológicas neutras” são marcas negativas
de intelectuais cooptados pelo poder. Mas destaca exceções que
contrariam a regra: “Apesar dos vínculos com a máquina governamental,
Graciliano Ramos, Lima Barreto e Carlos Drummond de Andrade sempre
questionaram as estruturas sociais.”
Para
Carlos Nelson, os novos autores que fazem carreira na televisão “estão
se transformando em intelectuais orgânicos da mídia, com menos autonomia
crítica e menos criatividade.” Por fim, dá um puxão de orelhas nos
marxistas ortodoxos, que relutam em aceitar “a essência do marxismo”.
Ele enfatiza a necessidade de constante renovação das idéias inspiradas
em Marx: “Para ser marxista, é preciso ser um animal em mutação.”
Ciberlegenda
divulga a seguir a entrevista de Carlos Nelson Coutinho a Dênis de
Moraes. Uma versão resumida foi publicada no suplemento cultural do
jornal Valor Econômico, em
24 de novembro de 2000.
P
— Você diz, em Cultura e
sociedade no Brasil, que o problema central da cultura brasileira
reside nos processos de transformação pelo alto que marcaram a vida político-social
no século XX. Que transformações foram essas?
R
– Se nós observarmos a História do Brasil, veremos que o país se
modificou, sofreu importantes transformações ao longo do tempo, mas elas
sempre foram feitas a partir de arranjos entre os setores das classes
dominantes, com o claro objetivo de excluir uma participação popular
mais intensa nesse processo de transformações. Podemos notar isso na
Independência. Ela é resultado de uma manobra das elites, que fez com
que nosso primeiro imperador fosse o herdeiro do trono português. Também
aconteceu na República, quando, como escreveu o jornalista republicano
Aristides Lobo, o povo assistiu bestializado àquela passeata militar, sem
saber do que estava se tratando. Isso ocorreu em 1930, que considero o mais importante ponto de inflexão da história
brasileira moderna, e que é resultante de outro arranjo elitista. É
interessante observar que essas mudanças pelo alto são sempre respostas
a demandas das classes subalternas, embora não apareçam ainda de uma
forma organizada, capaz de tornar essas mesmas classes efetivos
protagonistas do processo. Mas que conseqüências tudo isso tem no mundo
da cultura e da intelectualidade? Eu diria que o meio privilegiado da
cultura, particularmente da cultura moderna, é o que Gramsci chamou de
sociedade civil, ou seja, o conjunto de aparelhos privados de hegemonia
que organizam interesses e valores, e aos quais em geral se ligam os
intelectuais nos países onde não houve um processo de transformação
pelo alto. No Brasil, onde a sociedade civil é débil e, até
recentemente, primitiva e gelatinosa, colocaram-se para os intelectuais
desafios importantes. Como os intelectuais não podiam organicamente se
ligar às camadas populares, porque elas não tinham uma expressão política
adequada, ocorreu uma tendência marcante em nossa história, de cooptação
da intelectualidade pelos mecanismos de poder. Chamo atenção para o fato
de que essa cooptação não implica, necessariamente, que o intelectual
cooptado defenda posições políticas e ideológicas explícitas da
classe dominante, mas implica que eles sejam levados a um certo ascetismo
cultural, adotando posições culturais e ideológicos “neutras”. Algo
que eu, utilizando uma expressão de Thomas Mann, chamei de intimismo à
sombra do poder. O sujeito não contesta o poder, não põe em jogo as
grandes relações de poder e a própria estrutura da sociedade.
P
– Esse “intimismo à sombra do poder” permanece válido no cenário
contemporâneo?
R
– Eu não vejo alterações decisivas ao longo da década que separa a
primeira e a segunda edição do livro. Creio que aumentou a presença da
indústria cultural e da mídia na formação da cultura brasileira. Não
percebo nenhum movimento expressivo, no sentido de uma literatura e de uma
arte mais voltadas para os problemas do povo. Permanece uma relativa
hegemonia da cultura intimista.
P
– As formas de cooptação de intelectuais vêm se alterando com o
passar dos anos?
R
- Eu diria que uma forma perigosa de cooptação dos intelectuais é
exercida hoje pela indústria cultural e pela mídia. Nos anos 70, a mídia
recrutou intelectuais já formados. Eram pessoas conhecidas e respeitadas,
como Dias Gomes, Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa.
Claro que havia limites estéticos e políticos para a criação cultural
nos meios de comunicação. Porém, pressões
da sociedade civil sobre a mídia abriram brechas que ajudaram esses
intelectuais de esquerda a produzir coisas significativas na televisão.
Seria um equívoco imaginar que a mídia manipula sistematicamente contra
a opinião pública. A diferença é que, agora, a mídia está criando o
seu intelectual orgânico — alguém que ela projeta como intelectual,
com menos autonomia e menos criatividade. As pessoas que aí estão
escrevendo telenovelas praticamente só fizeram isto na vida. Não me
lembro de um grande escritor que, recentemente, tenha levado para a
televisão o seu talento. Os novos autores fazem seu aprendizado dentro da
mídia. São organicamente constituídos como intelectuais da mídia, como
produtores culturais da mídia. Isso empobrece o processo de criação. O
potencial crítico diminui na medida em que o intelectual já não é mais
aquele que, mesmo limitado pelo universo estético e político da mídia,
mantinha um certo distanciamento crítico. A qualidade técnica da TV é
alta, os atores e diretores são muito bons. Mas ela se tornou pouco
criativa, pouco contestadora.
P
– Você cita Vianinha e Dias Gomes como intelectuais cooptados pelo
sistema que não renunciaram ao espírito crítico. Continuam sendo exceções
à regra?
R – Como
disse antes, a cooptação dificulta, mas não impossibilita a elaboração
de um pensamento crítico. Um bom exemplo de independência intelectual é
o de Lima Barreto. Funcionário do Ministério da Guerra, escreveu dois
devastadores romances antimilitaristas — Policarpo
Quaresma e Nunem e a Ninfa.
Temos o caso de Graciliano Ramos, que, como inspetor federal de ensino,
esteve ligado à máquina do Estado, inclusive escrevendo artigos na
revista Cultura Política, editada pelo Departamento de Imprensa e
Propaganda (DIP). Não obstante, Graciliano tem uma obra de profundo caráter
crítico. Carlos Drummond de Andrade costumava dizer que existe uma
diferença entre servir a uma ditadura e servir sob uma ditadura. Na mesma
época em que era chefe de gabinete do Ministério da Educação no Estado
Novo, Drummond escreveu A rosa do
povo, libelo antifascista. Portanto, não existe uma relação mecânica
entre cooptação e ausência de pensamento crítico. Nos períodos democráticos,
em que o espaço público é maior e os organismos da sociedade civil
conquistam relativa autonomia, os intelectuais cooptados passam a poder
adotar posições políticas e estéticas de clara oposição. Na
ditadura, isso é muito mais difícil.
P – Você
sempre defendeu uma cultura nacional-popular no Brasil. Em plena era da
globalização, segue acreditando na pertinência dessa linha de
pensamento?
R
– O sociólogo Renato Ortiz, que trabalhou e ainda trabalha com Gramsci,
já decretou o fim da cultura nacional-popular. Segundo ele, estaríamos
na fase internacional-popular. É preciso voltar a Gramsci e ver o que ele
entendeu por cultura nacional-popular. Gramsci disse claramente que são
nacional-populares os clássicos gregos e Shakespeare. Ou seja,
nacional-popular nada tem a ver com nacionalismo, muito menos com
populismo. Para Gramsci, o autor vinculado à problemática do povo e da
nação é capaz de oferecer uma representação mais ampla e concreta do
real. Faz parte da ideologia da globalização reacionária a idéia de
que o Estado nacional acabou, de que a nação deixou de ser um espaço de
tomada de decisão. Para mim, a nação continua sendo uma referência
obrigatória. Com as adequações ao período em que vivemos, a cultura
nacional-popular segue expressando a idéia de que um escritor e um
artista devem ter vínculos com o povo e responder aos problemas de um
ponto de vista que reflita os interesses da nação e do povo. Exatamente
por isso, o escritor nacional-popular não é um populista, alguém que
apenas conta empiricamente o que povo está vivendo. O escritor
nacional-popular se coloca do ângulo dos interesses populares para
responder às grandes questões nacionais, que estão cada vez mais
articuladas com o plano internacional.
P
– Que movimentos e manifestações culturais dos últimos anos situaria
na direção do nacional-popular?
R
– Um movimento não vejo. Não há, no Brasil de hoje, alguma coisa tão
significativa como ocorreu no início dos anos 60, quando tínhamos
realmente um movimento em torno das propostas do Centro Popular de Cultura
(CPC). Em outros setores culturais existia também um movimento para a
construção de uma literatura nacional-popular, que se manifesta ao longo
dos anos 60 em algumas obras de Antonio Callado (sobretudo Quarup), mais para a frente em Incidente
em Antares, de Érico Veríssimo. Hoje vejo coisas tópicas, e não
movimentos nesse sentido. Não tenho lido muitos romances brasileiros, mas
eu diria que a última grande produção artística nacional-popular que
me recordo de ter lido foi Viva o
povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, nos anos 80. É um dos
maiores romances da literatura brasileiro, ao nível de Policarpo
Quaresma, de Lima Barreto, de São
Bernardo, de Graciliano Ramos, de Grande
Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Viva
o povo brasileiro tem nítida inspiração nacional-popular, no
sentido gramsciano da palavra: aquela coisa de ver a história e a construção
do Brasil de um ponto de vista claramente popular.
P –
Alienação e descompromisso político seriam traços constitutivos da
cultura brasileira atual?
R
- Nos anos 90, ocorreu um
refluxo do processo de forte ativação da sociedade civil verificado
entre o final dos anos 70 e a eleição presidencial de 1989. Esse refluxo
foi, em boa parte, motivado pela hegemonia política e ideológico-cultural
do neoliberalismo. O conjunto das propostas neoliberais voltou-se para a
despolitização geral da sociedade e, conseqüentemente, da cultura.
Tivemos a transformação da sociedade civil nessa coisa amorfa e
despolitizada chamada terceiro setor. Gramsci entendia a sociedade civil
como arena da luta de classes, um espaço político por excelência. A
hegemonia neoliberal bloqueou a floração de uma arte nacional-popular,
que se anunciou nos anos 60, manteve-se surda mas latente durante a
ditadura e reapareceu em fins dos anos 70 e parte dos anos 80. Volto a me
perguntar: quem é o grande artista surgido na década de 1990? Temos bons
autores em atividade — João Ubaldo, Moacyr Félix, Moacyr Scliar,
Ferreira Gullar. Apareceram nomes interessantes como José Roberto Torero
e Ana Miranda, além da permanência de Rubem Fonseca. Mas nenhuma grande
figura surgiu nos últimos anos. Prevalece uma cultura ornamental e
intimista, desligada dos problemas e aflições do povo brasileiro.
P — Em Cultura e sociedade no Brasil, há ensaios sobre as obras de
Florestan Fernandes e Caio Prado Júnior. Que peculiaridades identifica
nas visões dos dois pensadores sobre a nossa formação social e política?
R
— Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes criaram importantes
categorias de análise dos processos elitistas e antipopulares que
caracterizaram as transformações sociais no Brasil. As mudanças sempre
foram feitas a partir de arranjos entre os setores das classes dominantes,
com o objetivo de excluir uma participação popular mais intensa. Caio
Prado e Florestan demonstram que o Brasil conservou traços coloniais e não
conseguiu se configurar efetivamente como nação. O nosso déficit de
cidadania é por demais conhecido; o problema agrário nunca foi
resolvido. Com a política neoliberal da última década, o país perdeu
instrumentos de fixação de uma política nacional, autônoma e soberana;
regrediu, de certo modo, à situação colonial denunciada por Caio Prado
e Florestan.
P
– Como analisa a política cultural do ministro Francisco Weffort?
R
– Existe política cultural neste governo? A gestão de Weffort é
absolutamente apagada. Nenhuma manifestação expressiva dependeu do
Ministério. Talvez a única política cultural do neoliberalismo seja a
atitude deletéria de dizer que cultura e política não têm nada a ver.
Não me parece casual termos um Ministério da Cultura apagado. O conjunto
das propostas neoliberais volta-se para a despolitização geral da
sociedade e, conseqüentemente, da cultura.
P
– Em seu livro O estruturalismo e
a miséria da razão, você atacou intelectuais de esquerda que, na década
de 1970, aderiram acriticamente ao estruturalismo. Faria crítica
semelhante a intelectuais de tradição marxista que, nos anos 90,
aderiram ao chamado tucanato?
R
– Embora continue concordando com a minha velha posição de que,
filosoficamente, o estruturalismo é reacionácio, na medida em que
esvaziava o pensamento social das grandes questões do historicismo e do
humanismo, acho que fui injusto ao atacar tão duramente alguns
estruturalistas que eram de esquerda e contra a ditadura. Georg Lukács
dizia uma frase muito expressiva: “Existem intelectuais que têm uma
epistemologia de direita e uma ética de esquerda.” A maioria dos
estruturalistas talvez tivesse essa posição, e eu ignorei o lado ético
e bati forte no lado teórico. Acho que com mais justiça se deve combater
os intelectuais do tucanato. Eles têm uma epistemologia de direita e uma
ética de direita. São casos de transformismo intelectual. Você lê a
produção teórica de Fernando Henrique Cardoso dos anos 60 e 70.
Malgrado os vários pontos discutíveis de seu pensamento — no meu livro
A democracia como valor universal,
de 1979, eu já criticava algumas posições de Fernando Henrique que me
pareciam liberais —, ninguém
poderia imaginar que aquele intelectual de esquerda e marxistizante, que
pregava uma alternativa socialista ao caráter dependente da burguesia
brasileira, viesse a ser o político que faz, hoje, a associação da
burguesia brasileira com o capital internacional. Não posso entender também
o movimento de um Francisco Weffort, aliás, meu amigo pessoal, que até
me levou para o PT. Subitamente, ele, que era uma pessoa de esquerda e que
usava muito Gramsci, adere a esse governo de uma maneira acrítica e se
torna um ministro pífio. Eu gostaria de chamar a atenção para o fato de
que não se trata de um fenômeno de traição individual. Um conjunto
substantivo da intelectualidade brasileira, que resistiu durante a
ditadura, assumiu, depois, posições mais à direita.
P
– Você é filiado ao PT. As administrações do PT, de modo geral, têm
apresentado políticas culturais alternativas e conseqüentes?
R
– Não. Uma lacuna, entre outras, do PT é a nunca ter tentado
efetivamente elaborar uma política cultural. Mas veja bem: sou um pouco cético
quanto a se elaborar uma política cultural implementada a partir do
Estado. As políticas culturais se criam a partir da sociedade civil. A
tarefa fundamental do Estado é assegurar as condições materiais para
que as políticas culturais oriundas da sociedade civil possam ser
realizadas. Ele deve financiar aquelas atividades que não tenham uma
lucratividade imediata e, por isso, não são interessantes para o
mercado, como é o caso do teatro, em certo sentido do cinema e de
determinada produção editorial. Cabe ao Estado colocar ao alcance das
massas a grande cultura (uma sinfonia de Beethoven, uma representação
teatral de Shakespeare), e não apenas admitir que a cultura consumida
seja puramente a televisiva. Sem falar no fundamental, que é assegurar a
todos uma educação de bom nível, permitindo que a massa da população
tenha acesso a produtos culturais de cunho mais sofisticado. Nesse
sentido, considero um fracasso a política educacional do governo Fernando
Henrique Cardoso, que sucateou a escola pública e a universidade pública.
O governo tudo tem feito para que o ensino de qualidade se restrinja à
iniciativa privada e, como tal, reservado às elites.
P
– Ainda é possível se imaginar uma democratização cultural no
Brasil?
R
– Sim. A democratização da cultura acompanhará, não mecanicamente, a
democratização da sociedade brasileira. Quanto mais espaços democráticos
a sociedade civil conquistar, mais rápido avançaremos no terreno da
cultura. Entendo que a democratização efetiva da cultura no Brasil tem
como ponto de partida uma democratização dos meios de comunicação de
massa, a partir de um maior controle da sociedade sobre esses poderosos
instrumentos de criação, difusão e ação cultural. Precisamos fazer
com que os meios de comunicação sejam controlados pela sociedade, e não
por grupos monopolistas privados. Estes grupos podem até levar em conta
certas demandas da sociedade, mas operam sem um efetivo controle social. O
desafio é chegarmos a uma legislação adequada. Veja bem: não estou
pregando e sou contra a estatização dos meios de produção cultural. Não
será por aí que a democratização se dará. Eu diria que é possível
uma gestão mais coletiva dos meios de produção cultural. Quem sabe uma
autogestão: os próprios produtores culturais definiriam as políticas de
difusão. Por que não imaginar grandes cooperativas de intelectuais para
controlar os meios de comunicação?
P
– Você tem dito que, mesmo correndo o risco de ser considerado um
“animal em extinção”, reafirma a sua convicção no marxismo. É difícil
ser um marxista assumido?
R
– Talvez seja mais difícil agora do que nos anos 60. Naquela época,
ser marxista era uma coisa normal. Pelo menos metade dos intelectuais ou
era marxista, ou simpatizava com o marxismo. De qualquer modo, em
contraste com outros países, o marxismo resistiu melhor aqui nas últimas
décadas. E resistiu por um fenômeno peculiar: o crescimento de um
partido de esquerda, o PT, nesse período da história brasileira.
Enquanto na Europa você observa um refluxo dos partidos comunistas e
social-democratas nos anos 80 e 90, no Brasil, ao contrário, tivemos o
surgimento e a expansão de um partido de esquerda que, embora não se
declare marxista, é certamente influenciado pelo marxismo e contém em
seu interior vários marxistas. Se nos anos 60 a predominância do
marxismo em nossa intelectualidade era bem mais forte, hoje as posições
marxistas ocupam um espaço razoável na cultura brasileira. De qualquer
modo, é importante notar que ser marxista não é repetir o que Marx diz.
Ele disse muita coisa que, evidentemente, está superada e outras que eram
erradas no tempo dele. Ser marxista é ser fiel ao método de Marx, a
capacidade que ele revelou de entender a dinâmica contraditória do real
e as linhas de tendência da realidade moderna. Portanto, para ser
marxista é preciso ser um animal em mutação. Tenho insistido —
chocando inclusive alguns marxistas mais ortodoxos — que a essência do
método de Marx é o revisionismo. Durante anos, o revisionismo foi
considera uma besta fera. O revisionista era julgado um traidor. Penso que
faz parte da essência do marxismo se renovar e se revisar sempre. Uma das
características do método marxista consiste em imaginar que a realidade
é histórica, está sempre em mutação.
P
– Por que Gramsci tem sobrevivido às crises do pensamento marxista?
R - Gramsci
é o grande autor que é e tem a influência que tem porque compreendeu
que era preciso renovar o marxismo, criando uma nova teoria do Estado e
uma nova teoria da revolução. Foi capaz de tornar o marxismo contemporâneo
do século XX. Espero que haja outros pensadores da magnitude de Gramsci
que contribuam para que essa linha de pensamento — e não o conjunto das
afirmações de Marx, que naturalmente são datadas — se torne contemporânea
do século XXI. O capitalismo demonstrou que tem uma enorme capacidade de
durabilidade, mas que é incapaz de resolver efetivamente as contradições
que dilaceram a humanidade. Cada vez mais aumentam as contradições, a
exclusão social e as desigualdades. Cada vez mais me parece uma
necessidade recolocar o socialismo na agenda política, como nova
alternativa de humanização e como uma nova forma de globalização.
P
– O preconceito contra o marxismo diminuiu nos últimos anos?
R – O
preconceito contra o marxismo nunca foi excessivamente forte entre os
intelectuais. Na sociedade, sim, sem dúvida. Mas, na medida em que o
anticomunismo perdeu o sentido como ideologia que atravessa a sociedade,
creio que a abertura ao marxismo se tornou maior. É verdade que existem
alguns intelectuais que ainda se comportam como na guerra fria. Surgiu,
com enorme respaldo dos meios de comunicação, um intelectual de
extrema-direita, de uma agressividade completa contra o marxismo. Tenho um
amigo que o considera um intelectual orgânico da Idade Média. Refiro-me
ao senhor Olavo de Carvalho. Curiosamente, ele se deu conta de que Gramsci
é o inimigo principal. Metade de um livro dele é sobre Gramsci, aliás
um besteirol, que revela uma leitura absolutamente superficial de Gramsci.
Ele lê o conceito de hegemonia como lavagem cerebral! Sintomaticamente,
Olavo de Carvalho é uma figura isolada. Você não pode dizer que ele é
expressivo de nada, a não ser da Idade Média, que felizmente não existe
mais.
Carlos
Nelson Coutinho, livre-docente em Teoria Política
pela UFRJ, é professor titular da Escola de Serviço Social da mesma
universidade.
Dênis
de Moraes, doutor em Comunicação e Cultura
pela UFRJ e pós-doutor em Letras pela UFMG, é professor do Mestrado em
Comunicação, Imagem e Informação da UFF.
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