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Dênis
de Moraes
Coexistimos
sob o signo da ultravelocidade, em um emaranhado de redes infoeletrônicas,
satélites e fibras óticas. Diante de nossas retinas, sucede-se um
turbilhão de imagens, sons e dados que ora nos convence de que somos
privilegiados pela abundância, ora nos atordoa com a impressão de que
jamais conseguiremos reter uma ínfima parte desse aluvião
informacional. Porque tudo é perturbadoramente veloz e imediato. O
tempo real se dilui e se restaura sem direito a intervalos. As informações,
mal chegaram, já estão de partida. A separação entre próximo e
distante desaparece no que Paul Virilio classifica de “varredura eletrônica”.
(1) As tecnologias
sedimentam um regime de temporalidade única, assentado na veiculação
instantânea e transversal de informações que se generalizam sem
correspondências cronológicas ou cartográficas.
Os
aparatos de difusão envolvem-nos em um modo de existência que se
alimenta continuamente de fluxos imagéticos e trilhas sonoras. A profusão
de fluxos ajusta-se ao foco preferencial da mídia e das indústrias
culturais: aguçar a ansiedade por experiências e sensações,
sintonizando-as com seus produtos e programações. Impossível ignorar
a torrente de apelos consumistas que brota de telas e monitores. Sequer
estamos livres de ações invasivas no descanso ou na diversão —
basta lembrar que as transmissões por satélites da CNN, 24 horas por
dia, penetram em 2,5 milhões de quartos de hotéis e resorts
conveniados ao redor do globo.
Conveniência, prazer, conforto, riqueza, aventura, emoção:
eis alguns dos valores e sentimentos disseminados com insistência. Nem
percebemos o grau de imersão no oceano de estímulos sedutores.
Navegamos, como nômades insaciáveis, por canais de televisão e
ambientes virtuais que se renovam sem cessar. A tecnologia wireless cortou a distância que nos separava, ainda que
temporariamente, dos acontecimentos. A veiculação informativa agora se
virtualiza nas microtelas de celulares e palmtops.
Até os Rolling Stones, filhos diletos dos anos 60, se renderam. A banda
adota soluções
wireless para distribuir e
atualizar informações sobre suas apresentações, antes, durante e
depois dos shows. Utiliza uma rede de 140 laptops e um link de satélite
que assegura transmissão em banda larga. Nos momentos de maior tráfego,
o sistema dos Stones processa um volume de dados equivalente a um escritório
de médio porte, enviando e recebendo e-mails, editando textos e transferindo imagens detalhadas do palco
e da platéia. (2)
E
o que dizer dos anúncios em 3D que se revezam nos painéis digitais
espetados nas fachadas dos arranha-céus ou em áreas antes reservadas a
velhos outdoors de madeira? A neurose do tempo real espera-nos no canal all
news Bloomberg. Para não se deixar suplantar pela velocidade, o
apresentador ocupa apenas um quarto da tela. O restante converte-se em
mosaico partido: cotações seqüenciais dos mercados financeiros, das
bolsas de valores, da Nasdaq e dos mercados futuros, além de chamadas
econômicas ininterruptas. Os controles remotos, por sua vez, são
acionados freneticamente. Em Mídias sem limite, cuja edição
brasileira tive a satisfação de apresentar, Todd Gitlin cita pesquisa
segundo a qual os controles são acionados até 107 vezes por hora pelos
três quartos dos norte-americanos com menos de 30 anos que assistem
diariamente aos noticiários televisivos. (3)
Para
desvelar o que se oculta por trás da inundação do campo da recepção,
precisamos considerar o quadro de aceleradas mutações comunicacionais.
A revolução multimídia chegou mais cedo do que imaginávamos, deixou
de ser uma imagem futurista. Ela se concretiza a partir de uma linguagem
digital única, habilitada a integrar processos, redes e plataformas,
gerando uma variedade de produtos e serviços com amplo espectro de
difusão. Segundo pesquisa da Universidade da Califórnia em Berkeley,
se a quantidade de dados digitalizados produzidos a cada ano no mundo
fosse armazenada em disquetes, seriam necessários 3,2 milhões de quilômetros
de comprimento para colocá-los lado a lado — o que equivale a
percorrer 320 vezes a extensa costa brasileira. (4)
A
digitalização serve de lastro à convergência tecnológica entre as
indústrias de informática, telecomunicações e mídia. Essa convergência,
que batizo de infotelecomunicacional para realçar as interrelações
entre os três setores, multiplica o volume de conteúdos em proporções
imensuráveis. As megaempresas de mídia e entretenimento ambicionam
industrializar bens materiais e imateriais que tenham acesso global e
possam ser vendidos, no formato digital, a um público de massa. (5)
Para
dominar o mercado e rentabilizar os investimentos, as mídias
empanturram-nos de doses cavalares de mensagens, graças ao
aprimoramento tecnoprodutivo e à mais-valia obtida com a exportação
em série. Temos aí um paradoxo desconcertante. Cresce
ininterruptamente a oferta de mercadorias, mas não pára de se
concentrar a propriedade dos meios de comunicação nas mãos de
gigantes empresariais — a maioria dos quais sediada nos Estados Unidos
— que dispõem de poderio financeiro, visão estratégica, capacidade
industrial e esquemas de distribuição pelos continentes.
À
pressão de natureza econômica, soma-se a proeminência da informação,
convertida em recurso básico de gestão e produção. A própria noção
de informação não se cinge mais à idéia de notícia e embute concepções
distintas: informação de base (bancos de dados, acervos digitais,
arquivos multimídias), informação cultural (filmes, vídeos, jornais,
programas televisivos, livros) e know-how (invenções, patentes,
protótipos etc.). Exatamente por se infiltrar em diversos ramos, a
informação projeta-se como lubrificante das engrenagens que reproduzem
hegemonias constituídas. Destaca-se como insumo essencial à
transmissão de conhecimentos que podem ser compartilhados e aplicados
nas organizações e, às vezes, entre empresas que atuam em parcerias.
Os sistemas avançados incluem bases de dados, planilhas, documentos,
normas e procedimentos, além de registros de técnicas e experiências
passíveis de serem difundidas, discutidas, assimiladas e reprocessadas
pelo conjunto da empresa. A gestão do conhecimento baseia-se em um
fluxo eletrônico que proporciona análises, interpretações e pontos
de vista sobre situações, relações, bens e serviços. A informação
torna-se, assim, pedra-de-toque na constituição de dividendos
competitivos. (6)
Como
resultado concreto da articulação existente entre o modo de produção
capitalista, a economia da informação e as tecnologias de comunicação,
temos uma sinergia que favorece a
acumulação de capital financeiro num cenário de interconexões
digitais. O sistema tecnológico, com efeito, incorpora ao capitalismo a
sua lógica, caracterizada, segundo Manuel Castells, “pela capacidade
de traduzir todos os aportes de informação em um sistema comum e de
processá-los a velocidades crescentes, com uma potência em progresso,
a um custo decrescente, através de uma rede de distribuição
virtualmente ubíqua.” (7) Com isso, assegura ao capital total fluidez
para estar em constante deslocamento pelos continentes atrás de
rentabilidade.
Cabe
sublinhar que nunca houve uma fragmentação tão acentuada dos conteúdos
midiáticos. Na poluição visual do que chamamos, anacronicamente, de
bancas de jornais, estão expostos jornais, revistas, CD-ROMs, DVDs,
CDs, fitas cassetes, softwares, livros, pôsteres, álbuns, adesivos,
etc. Se examinarmos aquela coleção de mídias, veremos que muitas
delas têm na alça de mira segmentos bem delineados de leitores. A
massificação continua arduamente perseguida pelos estrategistas de
marketing, só que as indústrias agregam valor às cadeias produtivas
filtrando identificações culturais, gostos semelhantes e aspirações
de agrupamentos de consumidores com apetite aquisitivo.
Com
a hiper-segmentação para clientelas específicas, aumenta de forma
exponencial a produção para nichos de consumo. Crianças e
adolescentes não escapam à regra. Diariamente, 150 horas de desenhos
animados, seriados e filmes infanto-juvenis são veiculadas no Brasil
por canais de televisão por assinatura. Somando as opções da televisão
aberta, são 180 horas, entremeadas por campanhas publicitárias que
procuram direcionar hábitos e costumes para marcas e produtos voltados
ao público infanto-juvenil, pródigo em consumir e em influir nas
preferências familiares. O que menos importa são os efeitos
psicossociais do contato prolongado com desenhos e seriados concebidos
em estúdios norte-americanos e dublados para o português em Miami.
Na
órbita da cultura da velocidade, o imaginário social está atravessado
por avassaladores estoques audiovisuais e impressos. Estudo da World
Future Society concluiu que a massa de conhecimentos da humanidade
cresce 100% a cada cinco anos, com tendência a dobrar a cada 90
dias em 10 a 15 anos. (8) Como não se enredar na sobrecarga quando se
sabe que o tráfego na Internet duplica a cada 100 dias?
E não percamos de
vista que cerca de 3% das fibras óticas produzidas são hoje utilizadas
na Terra, sendo que, na área de telecomunicações, menos de 2% das
redes de fibra ótica estão efetivamente ocupados com o transporte
veloz de dados. (9) O abismo entre a superprodução digital e a
capacidade humana de processamento é de tal ordem que, para tentar
chamar a atenção do consumidor médio, fabricantes de bens não-duráveis
nos Estados Unidos gastam U$ 25 milhões por ano em publicidade e promoções
comerciais. (10)
A
febre midiática com que nos deparamos nada tem circunstancial ou
fortuita. Ela transforma os grupos sociais em componentes intrínsecos
de um processo de permanente ativação do consumo — mesmo que as
respostas ao consumismo possam ser diferenciadas em função dos perfis
socioeconômicos e culturais. Se, de um lado, aumentam as
alternativas quando se dispõe, por exemplo, de 200 canais de TV paga (a
maioria deles segmentada por gêneros ou faixas de público), de outro
as políticas de programação almejam a maximização de lucros, sem
maior preocupação com as linhas de formação educacional e cultural
das platéias. Trata-se de associar os vestígios de variedade às
repercussões mercadológicas (mais assinantes, mais audiências, mais
anunciantes, mais consumidores, mais receitas). O que significa
embaralhar, no itinerário sufocante dos canais, empatias cognitivas e
eventuais dissonâncias em relação a relatos, imagens e sonoridades
que provêm do caudal midiático.
Em
tal moldura, a saturação audiovisual não se esgota na busca de
realização de desejos e prazeres; constitui um atalho seguro para a
mercantilização. Na obsessão incontida por lucros, o que vale é
capturar a atenção das audiências e fidelizá-las, sem verificação
consistente dos padrões de assimilação dos conteúdos. David Harvey
ressalta que, no âmago da exploração comercial da superprodução
simbólica, o problema do capital "é encontrar maneiras de
cooptar, englobar, comercializar e rentabilizar diferenças culturais
apenas o bastante para poder apropriar-se, a partir delas, dos
rendimentos monopólicos". (11)
Os
mais indulgentes ponderariam que, apesar dos pesares, a disponibilização
frenética de materiais informativos evidencia uma fusão nada desprezível
de avanços tecnológicos e demandas sociais. Seria o caso de
contra-argumentar que há uma inquietante disparidade entre a economia
das trocas simbólicas e a economia da atenção de leitores e
espectadores, com conseqüências sérias em termos de enfraquecimento
da consciência crítica e de manipulação das modalidades de
contextualização dos acontecimentos.
A
crise da economia da atenção caracteriza-se pela crescente
impossibilidade de se absorver a descomunal carga de dados. Isso não
decorre apenas da falta de tempo ou de fatores técnicos, como a
inadequação de formatos, linguagens e políticas editoriais. Há também
entraves provocados pelo caráter excludente do neoliberalismo, que
alija grandes contingentes populacionais dos benefícios do progresso e
de acessos ao conhecimento. Sem falar no forte desgaste de atenção na
procura massacrante de trabalho, tendo em vista a precarização do
emprego e o desemprego estrutural.
Quando
afirmamos que o excesso de oferta interfere no horizonte de percepção,
não estamos defendendo a idéia tola de que o mundo high tech
produz apenas turbulências e alienações. Seria desconhecer que as
tecnologias facultam novos modos de percepção, memória, expressão e
difusão, além de alargar espaços de sociabilidade e de intervenção
sociopolítica, como ocorre na malha descentralizada da Internet. Por
outro lado, persistem desníveis graves
nas hierarquias planetárias, sendo uma evidência disso a exclusão
digital. Não podemos subestimar o fato de que a recepção dos conteúdos
tende a se estratificar cada vez mais por potencialidades culturais, em
face dos artifícios de leitura exigidos para discernirmos as intenções
que trafegam no universo sinuoso da mídia.
Até
que ponto não se enfraquecem laços comunitários e afinidades
culturais quando as encenações da realidade apagam referências
fundamentais à concatenação dos juízos? Difícil não admitir abalos
nas identidades latino-americanas em meio à vertigem provocada por 150
mil horas de filmes, seriados e programas esportivos exportados pelos
Estados Unidos, equivalentes a 77% das programações das emissoras de
televisão da região? (12)
Não
me parece exagero apontar o risco de o vírus da saturação afetar a
sensibilidade crítica, induzindo, sutilmente, ao individualismo, à
dispersão e à complacência diante de injustiças e iniqüidades. Uma
fatia expressiva do que se transmite em excesso, em lugar de esclarecer,
muitas vezes confunde, tantas são as mediações que cruzam os
percursos e trocas comunicacionais.
Tudo
isso reforça a urgência da crítica ao ecossistema da exaustão e aos
modos pelos quais emergem e se cristalizam experiências fabricadas
pelos gestores da cultura tecnológica. A evolução técnica deveria
ampliar o conhecimento das sociedades e dos homens que o habitam. Mas o
que observamos é uma perversa inversão: as técnicas avançadas tendem
a ser apropriadas pelas elites e por atores influentes em função de
objetivos particulares, quase sempre voltados a interesses empresariais.
(13)
Para
vislumbramos uma práxis comunicacional sem o crivo asfixiante de
idiossincrasias e desvios, precisamos nos afastar da lógica dos
encantamentos espetaculares, sempre propícios a incutir magnetismos
fugazes nos espectadores. Em vez de assumir a bandeira, hoje
infelizmente ingênua, da leitura certa no tempo ideal, como se não
houvesse a pressa do presente e as atualizações por segundo,
reivindiquemos uma diversidade informativa e uma difusão
descentralizada que não se confundam com a reificação da vida humana.
Não há dúvida de que o pluralismo cultural é condição
decisiva para o fortalecimento da cidadania. Da mesma forma, o exercício
ético do jornalismo não pode prescindir das manifestações do
contraditório, por mais que o culto à velocidade queira diluir ou
restringir os sentidos múltiplos de compreensão dos fatos sociais. Se
contestamos a velocidade como necessidade e a pressa como virtude,
devemos recusar a idolatria do mercado como síntese de organização
societária. O desafio de médio e longo prazos consiste em construir
alternativas políticas que incentivem dinâmicas de comunicação não
contaminadas pelo pensamento midiático como dogma supremo. O que vai
depender da nossa competência ideológico-cultural para, em um processo
inevitavelmente pontuado por avanços, recuos, perplexidades e resistências,
tentar conciliar as responsabilidades humanas, os anseios emancipadores
e as marcas visíveis de um desenvolvimento socioeconômico
profundamente desigual.
Notas
(1)
Paul Virilio. O espaço crítico. Rio: Editora 34, 1993, p. 9-11.
(2)
BBC News, 14 de maio de 2003.
(3)
Todd Gitlin. Mídias sem limite. Rio de Janeiro: Record, 2003, p.
102.
(4)
Mirella Domenich, "A era da obesidade da informação", Valor
Econômico, 7 de maio de 2001, p. 8.
(5)
Consultar Dênis de Moraes. “O capital da mídia na lógica da
globalização”, em Dênis de Moraes (org.). Por
uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder.
Rio de Janeiro: Record, 2003.
(6)
Ver Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi. The
knowledge creating company.
Nova York: Oxford University Press, 1995.
(7)
Manuel Castells. La
sociedad red (La era de la información:
economía, sociedad y cultura,
vol. 1). Madri: Alianza Editorial, 1998, p.
59 e
506-510.
(8)
Dados disponíveis no site da World Future Society: http://www.wfs.org.
(9)
Mário Soma. “De olho no caos digital”. Ícaro, nº 228,
agosto de 2003, p. 22.
(10)
Ver Christian Marazzi. “A crise da new
economy e o trabalho das multidões”, em Giuseppe Cocco e Graciela
Hopstein (orgs.). As multidões e o império: entre globalização da guerra e
universalização dos direitos. Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p.
36.
(11)
David Harvey. “A arte de lucrar: globalização, monopólio e exploração
da cultura”, em Dênis de Moraes (org.). Por
uma outra comunicação, ob. cit., p. 167.
(12)
Dênis de Moraes. O Planeta Mídia:
tendências da comunicação na era global. 2ª ed. Rio de Janeiro:
Letra Livre, 1998, p. 65.
(13)
Ler Milton Santos. “Elogio da lentidão”, em Milton Santos. O
país distorcido: o Brasil, a globalização e a cidadania. Organização,
apresentação e notas de Wagner Costa Ribeiro. São Paulo: Publifolha,
2002, p. 162-166.
****
Dênis
de Moraes, doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, é professor
do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF e pesquisador do
CNPq.
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