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Cynthia Harumy Watanabe Corrêa
cynthia.correa@pop.com.br
Resumo
A
revolução
tecnológica
concentrada nas
Tecnologias da
Informação e da
Comunicação (TICs),
que possibilita a
conexão mundial
via
redes de
computadores, promove alterações
significativas na
base
material da
sociedade, ao
estabelecer uma
interdependência
global
entre os
países e
modificar as
relações
entre
economia, Estado-nação e
sociedade. O
uso
crescente de
redes
como a
Internet resultou na
criação de
um
novo
tipo de
organização
social, a
sociedade
em
rede,
que permite a
formação de
comunidades
virtuais,
grupos
humanos constituídos
pela
identificação de
interesses
comuns. Neste
artigo, elaborado a
partir de
revisão
teórica, abordaremos a
formação dessas
comunidades
como uma
estratégia do
indivíduo
para
adquirir uma
nova
identidade, uma
vez
que as
identidades culturais estão se fragmentando
em
conseqüência do
processo de
globalização,
que é
inerente à modernidade.
Palavras-chave:
comunidades
virtuais,
identidades,
sociedade
em
rede.
Abstract
The technological revolution based on Information and
Communication Technologies (ICTs), which allows
global
interconnection by computer networks, not only promotes meaningful
changes in the
material
structure of society, but also establishes
global
interdependence among countries, modifying the relationship between
economy, Nation State and society. The increasing use of networks such
as the
Internet
resulted in the creation of a new kind of
social
organization, the network society, that allows the formation of
virtual
communities. Those can be defined as human groups arranged by the
identification of common interests. In this article, elaborated from
theoretic revision, it is argued that the constitution of these
communities is a way of questing a new identity, because cultural
identities
are
being fragmented as a consequence of globalization, an inherent part of
modernity.
Key words:
virtual
communities, identities, network society.
Introdução
Uma
série de
acontecimentos marcados
pelo
desenvolvimento das
Tecnologias da
Informação e da
Comunicação (TICs),
pelo aperfeiçoamento da
Comunicação Mediada
por
Computador (CMC),
surgimento da
rede
Internet e do
ambiente
virtual
ou
ciberespaço, tem alterado
significativamente a
organização dos
sistemas
sociais,
políticos e
econômicos
em
âmbito mundial. No
campo cultural, o
impacto
tecnológico refletiu na
constituição de uma
nova
cultura, a cibercultura, e de uma
nova
forma de
estabelecimento de
relações
sociais
por
meio da
rede, a sociabilidade (CASTELLS, 1999a).
Assim, vivemos o
que Castells (1999a) denominou de
era da
informação
ou
era do
conhecimento, caracterizada
pela
mudança na
maneira de
comunicar da
sociedade e
pela valorização
crescente da
informação nessa
nova
configuração da
estrutura vigente, à
medida
que a
circulação de
informações flui a
velocidades e
em
quantidades
até
então
inimagináveis. Nesse
contexto
que possibilita a
comunicação
mais
ágil
entre os
indivíduos
independentemente da
localização
geográfica e
em
meio a
um
quadro de mudanças confusas e
incontroláveis, manifesta-se uma
tendência nas
pessoas de se reunirem
em
grupos
sociais visando
compartilhar
interesses
em
comum.
A
busca
em
torno da
aquisição de
novas
identidades é
necessária
para o
indivíduo
poder
delimitar
seu
lugar no
mundo e se
fazer
reconhecer
como
diferente
entre
tantos
outros. A possibilidade de
ser reconhecido
por
meio de uma
ou várias
identidades transforma-se na
fonte
básica de significação
social num
cenário de
ampla desestruturação das
organizações, deslegitimação das
instituições e
enfraquecimento de
importantes
movimentos
sociais,
que se delineia ao
longo da modernidade.
Todas essas alterações atingem
profundamente o
indivíduo no
final do
século XX,
quando se instaura a
chamada “crise
de
identidade”, inserida numa
conjuntura
mais
ampla de
mudança,
que desloca as
estruturas e
processos
centrais das
sociedades modernas e
abala os
quadros de
referência
que davam aos
indivíduos uma ancoragem
estável no
mundo
social (HALL,
2001).
Assim, passa-se a
viver uma
realidade
diferente, na
qual as
barreiras
espaciais,
temporais e geográficas
já
não
são
tão significativas,
quando as
redes
globais de
intercâmbios conectam e desconectam
indivíduos,
grupos,
regiões e
até
países
sob os
efeitos globalizantes provenientes da
pós-modernidade e/ou modernidade
tardia (HALL,
2001),
ou
alta modernidade (GIDDENS, 2002b).
Diante desse
cenário, o
indivíduo
desprovido de
referências tradicionais sai à
procura de
pessoas
com as
quais possa
compartilhar
interesses
em
comum,
ação
que se repete, uma
vez
que é da
natureza
humana se
relacionar
socialmente.
Nos
últimos
tempos,
porém,
tal
prática parece
ter sido intensificada
com a
presença das
redes mundiais de
computadores,
que aproximam os
indivíduos e possibilitam o
surgimento de
novas
formas de
relações
sociais,
entre as
quais destacam-se as
comunidades
virtuais,
espécie de
agrupamentos
humanos constituídos no
ciberespaço
ou no
ambiente
virtual (RHEINGOLD, 1998).
Neste
artigo, vamos
abordar a
formação de
comunidades
virtuais
como uma
estratégia do
indivíduo inserido numa
sociedade
em
rede de se
fazer
reconhecer
por
meio de uma
ou várias
identidades. Sendo o
modo de
atribuição dessas
novas
identidades,
baseado numa
escolha
pessoal,
eletiva, a
principal
diferença do
modelo tradicional de
atribuição de
características identitárias,
como o
caso das
identidades culturais,
resultado de
um
processo de
imposição.
Paralelo a
isso se tem
como
pano de
fundo a
própria
fragmentação das
identidades culturais,
como a
identidade
nacional, há
tempos enfraquecida pelas
características da modernidade,
que tem
como
foco
central uma
nova
dimensão espaço-temporal,
graças ao aperfeiçoamento dos
meios de
transporte. Neste
contexto
geral de
fragmentação das
identidades
nacionais e da
própria
noção de
fronteira, complementamos o
debate adotando a
concepção de
nação e de
comunidade
vistas
como
instituições imaginadas e
que,
portanto,
não refletem as
práticas
sociais de
determinado
povo (ANDERSON, 1989).
Assim, defendemos a
existência de
comunidades
virtuais
como uma
maneira de
gerar
identidades aos
indivíduos participantes,
com
base
em uma das
conseqüências
possíveis dos
aspectos da
globalização
sobre as
identidades culturais, a
qual afirma
que as
identidades
nacionais estão
em
declínio,
mas
novas
identidades - híbridas - tomam
seu
lugar (HALL,
2001).
Ainda
sobre o
aspecto da hibridização, mostraremos
que a
própria
constituição de
comunidades
virtuais segue essa
tendência,
pois é
comum a
pessoa
participar de
mais de uma
comunidade
virtual, de
acordo
com
seu
leque de
interesse.
Idéia reforçada
pela
noção de
desencaixe (GIDDENS, 1991a,
2002b),
quando
indivíduos
sem
referência
buscam se
aproximar de
pessoas
que
tenham
interesses
comuns,
independentemente
do
tempo,
do
espaço
e da
localização
geográfica.
Desse
ponto de
vista,
vamos
abordar o
desencaixe
como
mais
um
fator
que
impulsiona a
formação
de
comunidades
virtuais.
Relacionamentos
sociais no
ciberespaço
A
sociedade
em
rede é a
sociedade
cuja
estrutura
social foi construída
em
torno de
redes de
informação, a
partir do
desenvolvimento de
tecnologias
microeletrônicas
que resultaram no aperfeiçoamento de
sistemas computacionais
que,
por
sua
vez, estruturaram
redes
que conectam o
mundo,
com
destaque
para a
Internet. Nesse
sentido, Castells (2003b)
argumenta
que a
Internet é
muito
mais
que uma
simples
tecnologia, é o
meio de
comunicação
que constitui a
forma organizativa de nossas
sociedades.
A
Internet é o
coração de
um
novo
paradigma sociotécnico,
que constitui na
realidade a
base
material de nossas
vidas e de nossas
formas de
relação, de
trabalho e de
comunicação. O
que a
Internet faz é
processar a
virtualidade e transformá-la
em
nossa
realidade, constituindo a
sociedade
em
rede,
que é a
sociedade
em
que vivemos. (CASTELLS, 2003b, p. 287).
Seguindo essa
mesma
linha de
pensamento, Lemos (2002b) enfatiza
que o
ponto de
partida
para compreendermos o
comportamento
social
que
marca uma
determinada
época é
ter
consciência
que existe
sempre uma
relação simbiótica
entre o
homem, a
natureza e a
sociedade, sendo
que
em
cada
período da
história da
humanidade prevalece uma
cultura
técnica
particular.
Nesse
caso, a
cultura
contemporânea
passa a
ser caracterizada
pelo
uso
crescente de
tecnologias
digitais, cria-se uma
nova
relação
entre a
técnica e a
vida
social e, ao
mesmo
tempo, proporciona o
surgimento de
novas
formas de agregação
social de
maneira
espontânea no
ambiente
virtual,
com
práticas culturais específicas
que constitui a
chamada cibercultura.
O
fato
curioso e
até
paradoxal desse
período é
que,
embora a
sociedade esteja conectada mundialmente
via
redes de
computador e o
próprio
contato
ou
interação
social possa
acontecer
em
intervalo de
segundos, o
homem
cada
vez
mais sente a
necessidade de se
integrar a
grupos
sociais, de se
envolver
com
pessoas
que compartilhem
algo
em
comum,
com as
quais tenha uma
certa
identificação,
enfim, há
um
retorno à
busca de
características
que
lhe forneçam uma
identidade, uma
forma de se
fazer
reconhecer
diante dos
outros.
Fenômeno
que,
segundo Castells (1999a), é uma
conseqüência
direta do
nosso
tipo de
sociedade,
que perdeu a
ilusão de
poder
viver num
mundo
mais
justo e
com
melhores
condições de
vida
para
todos e
que teve
sua
base estrutural
completamente deslocada.
Entretanto, compreendemos
que
tal
necessidade vem sendo suprida de
modo
satisfatório
por
meio da
formação de
comunidades
virtuais, potencializadas
pela
existência de
redes de
computadores, surgidas
nos
Estados Unidos
antes
mesmo da
consolidação da
Internet,
por
volta dos
anos 70. É o
caso da
rede Usenet, considerada uma das
formas
eletrônicas
mais
populares de
organização
social nas
redes. A Usenet é
hoje
um
sistema telemático
que permite o
contato
entre as
pessoas e à
promoção de
fóruns de
conversação, organizados a
partir de
grupos
temáticos, os newsgroups.
Outra
ferramenta
que se destaca é o Bulletin Board System
(BBS),
redes de
computadores comunitárias e
independentes de uma
grande
rede
telemática (LEMOS, 2002b).
Os relacionamentos
sociais originados
em
redes de
computação desenvolvem-se no
ciberespaço,
que pode
ser compreendido
como
um
lugar
de
circulação
de
informação,
um
espaço
de
comunicação,
espaço
virtual,
que
não
existe
em
oposição
ao
real.
Para Lemos
(2002b), o
ciberespaço
pode
ser
tanto
o
lugar
onde
estamos
quando
entramos num
ambiente
simulado,
de
realidade
virtual,
como
o
conjunto
de
redes
de
computadores,
interligadas
ou
não,
em
todo
o
planeta.
O
ciberespaço
é o
ambiente
simbólico
onde
as
comunidades
virtuais
se constituem.
As
comunidades
virtuais foram definidas
inicialmente
por Rheingold (S.l., 1998)
como “[...] agregações
sociais
que emergem na
Internet
quando uma
quantidade
significativa de
pessoas promove
discussões públicas num
período de
tempo
suficiente,
com
emoções
suficientes,
para
formar
teias de
relações
pessoais no
ciberespaço.”1
Lemos (2002a),
por
sua
vez, contribui
para o
debate ao
afirmar
que
nem
toda
forma agregadora da
Internet pode
receber o
rótulo de
comunitária,
pois existem
certos
agrupamentos
sociais
em
que os participantes
não guardam
qualquer
vínculo
afetivo e/ou
temporal,
são
apenas
formas de agregação
eletrônica.
De
qualquer
modo, o
ciberespaço potencializa o
surgimento de
comunidades
virtuais e de agregações
eletrônicas
em
geral
que estão delineadas
em
torno de
interesses
comuns, de
traços de
identificação,
pois
ele é
capaz de
aproximar, de
conectar
indivíduos
que
talvez
nunca tivessem
oportunidade de se
encontrar
pessoalmente.
Ambiente
que ignora
definitivamente a
noção de
tempo e
espaço
como
barreiras.
Como há
muitos
mitos
em
torno da
Internet, é
necessário
esclarecer
que a
Internet
não modifica o
comportamento dos
internautas, na
verdade, as
pessoas se apropriam da
Internet e das
suas potencialidades e,
assim, amplificam a
capacidade de se
comunicar e de
criar. Os
comportamentos
são amplificados
pelos
meios
tecnológicos, fazendo
com
que
indivíduos localizados
em
diferentes
partes do
globo e munidos de
equipamentos adequados possam
conectar
idéias,
crenças,
valores, e
emoções.
Neste
aspecto, a
tecnologia
empregada funciona
como
força impulsionadora da
criatividade
humana, da
imaginação,
devido à
visibilidade e à
disponibilidade de
material
que circula na
rede, permitindo
que a
comunicação se intensifique,
ou seja, as
ferramentas promovem o
convívio, o
contato,
enfim, uma
maior
aproximação
entre as
pessoas.
O
estabelecimento de
comunidades
virtuais
O
autor Oldenburg (apud
RHEINGOLD, 1998),
em
sua
obra “The great good places”, afirma
que as
comunidades tradicionais, baseadas na
localização
geográfica, estariam desaparecendo da
vida
moderna
devido à
ausência de
lugares
onde as
pessoas pudessem se
encontrar e
ter
um
momento de
lazer, denominados
por
ele “third places”.
Para
este
autor, existiriam
três
lugares
essenciais na
nossa
vida
cotidiana: o
lar, o
trabalho e os “terceiros
lugares”,
locais
em
que se estabeleceriam os
laços
sociais
fomentadores de
comunidades,
como
bares,
praças e
cafés,
espaços
em
que as
pessoas se encontram
para
conversar
sobre
assuntos
triviais.
Assim, a
agitação da
vida
moderna e a
intensificação de
problemas
sociais
como
violência provocam mudanças de
hábitos nas
pessoas,
que passam a
evitar
sair às
ruas, diminuindo o
contato
social
físico. Devemos
observar
ainda
que a
principal
distinção
entre as
sociedades “tradicionais” e as “modernas”,
nas
palavras de
Hall (2001), é
que as
sociedades modernas
são,
por
definição,
sociedades de
mudança
constante,
rápida e
permanente.
Para Rheingold (1998),
esse
estilo de
vida proporciona o
surgimento de
comunidades
virtuais,
quando se
torna
possível
conhecer
pessoas
diferentes e interessantes estando
conectado à
rede de
alcance mundial
ou World Wide Web (Web)2
de
casa
ou do
ambiente de
trabalho.
Na
visão de Castells (2003b), há
um
outro
fator implicando na redução do
contato
social de
base
comunitária
física tradicional e na
conseqüente
diminuição da
relação
social estabelecida no
bairro,
que é
reflexo da sociabilidade
atual.
A sociabilidade está se transformando
através daquilo
que
alguns chamam de privatização da
sociabilidade,
que é a sociabilidade
entre
pessoas
que constroem
laços
eletivos,
que
não
são os
que trabalham
ou vivem
em
um
mesmo
lugar,
que coincidem fisicamente. [ ... ] Esta
formação de
redes
pessoais é o
que a
Internet permite
desenvolver
mais
fortemente. (CASTELLS, 2003b, p. 274).
Como
conseqüência dessa
situação,
ganha
impulso a
constituição de
comunidades
virtuais,
cuja
principal
peculiaridade é o
fato de
surgir de
forma
espontânea,
quando se estabelecem
agrupamentos
sociais
com
base
em
afinidades. O
indivíduo
não é
obrigado a
integrar
determinada
comunidade, a motivação é
individual, é
eletiva,
subjetiva. Essa possibilidade de
optar
por
traços de
identificação é o
que a diferencia do
modelo tradicional de
atribuição de
identidades culturais,
como o
caso da
identidade
nacional,
em
que
todo
um
povo
era
obrigado a
aderir a
determinados
símbolos
nacionais,
como
hino e
bandeira, e a
manter
vínculos a
lugares,
datas comemorativas,
histórias e a
tradições específicas,
por
exemplo.
Na
comunidade
virtual, o
indivíduo escolhe, elege
qual
comunidade
quer
fazer
parte, sendo a
principal motivação o
seu
interesse
particular
em
um
ou
mais
assuntos
em
que percebe uma
identificação e
encontra
pessoas
com
quem possa
compartilhar
idéias e
promover
discussões públicas, uma
vez
que a
interação
mútua3,
relação
recíproca
que ocorre
entre as
pessoas mediadas
pelo
computador, é
fundamental
para o
estabelecimento e
consolidação de
comunidades
virtuais (PRIMO,
1998). Nesse
aspecto, torna-se
importante
esclarecer
que é o
interesse
em
comum partilhado
que transmite à
comunidade o
sentimento de pertencimento.
No
interior de
tais
comunidades devem
existir
elementos
como
solidariedade,
emoção,
conflito,
imaginação e
memória
coletiva,
união,
identificação,
comunhão,
interesses
comuns,
interação. Do
mesmo
modo,
para
haver
um
convívio
pacífico,
também
são adotadas
regras de
conduta denominadas Netiqueta, havendo
punição
para os
que desobedecerem aos
valores do
grupo.
Para
que o
sentimento de
comunhão se propague, é
necessário
que haja compartilhamento de
saberes, de
conhecimento, de
opiniões
que podem
até
mesmo
ser
divergente, uma
vez
que no
interior da
comunidade, os participantes podem e devem
ter
opiniões contraditórias e conflitantes,
que é uma
forma
saudável de
verificar o
grau de
tolerância
entre
seus
membros.
Além disso, a
existência de
idéias conflitantes pode
resultar na
elaboração de
novos
saberes, construídos a
partir de
debates e
discussões.
Um
outro
fator
que diferencia as
comunidades
virtuais das
comunidades tradicionais é a
ausência de
um
território, de uma
localização
geográfica. A
existência de uma
base
territorial
fixa
não é
mais
necessária,
embora o
ciberespaço apresente-se
como
um
espaço
público
fundamental
para a
existência de
comunidades
virtuais. “A
comunidade
virtual possui, deste
modo, uma
base no
ciberespaço,
um
senso de
lugar,
um locus
virtual.
Este
espaço pode
ser
abstrato,
mas é ‘limitado’, seja
ele
um
canal de IRC [Internet
Relay
Chat],
um
tópico de
interesse, uma
determinada
lista de
discussão
ou
mesmo
um
determinado MUD [Multi-User Dungeon]4.
São
fronteiras simbólicas,
não concretas.” (RECUERO, 2001).
Mais uma
vez fica
evidente
que a
aproximação das
pessoas no
ambiente
virtual se dá
por
meio da
existência de
traços identitários
comuns,
pelo
interesse
em
determinados
assuntos,
tanto
que o participante escolhe
qual
grupo
quer se
inserir, podendo
ainda
fazer
parte de quantas
comunidades
desejar.
Nesse
sentido, Lemos (2002a) define as agregações
eletrônicas de
tipo
comunitária
ou,
simplesmente, as
chamadas
comunidades
virtuais
como aquelas
onde existe,
por
parte de
seus
membros, o
sentimento
expresso de uma
afinidade
subjetiva delimitada
por
um
território simbólico,
cujo compartilhamento de
emoções e
troca de
experiências
pessoais
são
fundamentais
para a
coesão do
grupo.
Outro
aspecto
relevante
para a
formação de
comunidades
virtuais é a
permanência
temporal,
para
que os
integrantes se sintam
realmente
parte de
um
agrupamento de
tipo
comunitário (LEMOS, 2002a),
ou seja, possam
criar
um
laço
social
permanente e
contínuo,
porque,
em
caso
contrário, a
cada
encontro se partiria do
zero, de
um
momento
inicial de
apresentação.
Isso
não significa,
porém,
que as
comunidades
virtuais
depois de iniciadas
não aceitem
novos
membros,
mas
que os participantes devem
manter
entre
si
vínculos
sociais.
Algumas
comunidades
virtuais costumam
promover
encontros e
eventos
fora do
ambiente
virtual
como uma
maneira de
reforçar o
contato face-a-face, uma
forma das
pessoas se conhecerem
pessoalmente,
que,
em
última
instância, complementaria a
relação
social mantida no
ciberespaço.
A
globalização e o
enfraquecimento das
identidades culturais
A
busca de
novas
características identitárias na
sociedade
em
rede, a
partir da
formação de
comunidades
virtuais, reflete
diretamente os
efeitos da
globalização,
que
implica
um
movimento
de
distanciamento
da
idéia
sociológica
clássica
da “sociedade”
como
um
sistema
bem delimitado,
passando a
vigorar uma
perspectiva
baseada
na
forma
como
a
vida
social
está
ordenada
ao
longo
do
tempo
e do
espaço
(GIDDENS, 1991a),
que
desencadeia
um
processo de
enfraquecimento
e
fragmentação
das
identidades,
particularmente da
identidade
nacional (HALL,
2001).
Assim,
o
fenômeno da
globalização
“[ ... ] é
melhor
compreendido
como
expressando
aspectos
fundamentais
do
distanciamento
entre
tempo
e
espaço.
A
globalização
diz
respeito
à
interseção
entre
presença e
ausência,
ao
entrelaçamento
de
eventos
e
relações
sociais
‘`a
distância’
com
contextualidades
locais.”
(GIDDENS, 2002b, p.27).
Além
disso, Giddens (1991a) faz
questão de
ressaltar
que
a
globalização
não
é
um
fenômeno
recente,
uma
vez
que
a modernidade é
inerentemente
globalizante.
Na
visão de
Hall (2001), uma das
características
principais da
globalização
sobre as
identidades
nacionais é a “compressão
espaço-tempo”,
isto é, a
aceleração dos
processos
globais
que
nos faz
sentir o
mundo
menor e as
distâncias
mais curtas,
quando
eventos ocorridos
em
um
lugar
específico têm
um
impacto
imediato
sobre
pessoas e
lugares situados a uma
grande
distância.
Quanto
mais a
vida
social se
torna mediada
pelo
mercado
global de
estilos,
lugares e
imagens, pelas
viagens
internacionais, pelas
imagens da
mídia e
pelos
sistemas de
comunicação
globalmente interligados,
mais as
identidades se tornam desvinculadas
– desalojadas – de
tempos,
lugares,
histórias e
tradições
específicos e parecem “flutuar
livremente”. Somos confrontados
por uma
gama de
diferentes
identidades,
dentre as
quais parece
possível
fazer uma
escolha. (HALL,
2001, p. 75).
Processo
que se intensifica
pela possibilidade de
conexão mundial
via
redes de
computadores,
que tornam
mais estreitas
fronteiras espaço-temporais,
pois as
ações
são realizadas
em
tempo
real num
espaço
sem
fronteiras, num
ciberespaço de
natureza
global. Nesse
cenário
tão
agitado e confuso,
certamente a
pessoa é
capaz de
fazer uma
escolha,
optar
por uma
determinada
identidade,
por
um
determinado
papel
diante de
tantos
outros
que cabe a
ela
desempenhar,
mas
isso a
cada
novo
instante da
sua
vida
cotidiana.
A
ausência de
fronteiras e a
quantidade de
serviços e
produtos ofertados de todas as
partes e
que
são consumidos, assimilados e
apropriados
por
diferentes
culturas provocam o
enfraquecimento das
formas
nacionais de
identidades culturais,
que é
um
efeito
geral dos
processos
globais.
Segundo
Hall (2001), fica
evidente
um
afrouxamento de
fortes
identificações
com a
cultura
nacional e, ao
mesmo
tempo,
que
são reforçados
outros
laços e lealdades culturais
diferentes do
nível do Estado-nação.
Assim, as
identidades “globais”
começam a
deslocar e
até a
apagar as
identidades
nacionais.
Além disso, partindo-se da
concepção de Anderson (1989), compreendemos
o
conceito de
nação
definido
como “comunidade
política imaginada – e imaginada
como implicitamente limitada e
soberana.
Ela é imaginada
porque
nem
mesmo os
membros das
menores
nações
jamais conhecerão a
maioria de
seus
compatriotas,
nem os encontrarão,
nem
sequer ouvirão
falar deles,
embora na
mente de
cada
um esteja
viva a
imagem de
sua
comunhão.” (ANDERSON, 1989, p. 14).
Para Anderson
(1989), todas as
comunidades
maiores
que
as primitivas
aldeias
de
contato
face-a-face
ou
até
mesmo
estas
sempre
foram imaginadas. O
autor
argumenta
que
a
nação é imaginada
como
comunidade
porque, ao
ignorar a desigualdade e
exploração
que prevalecem no
interior de todas
elas, a
nação é
sempre concebida
como
um
companheirismo
profundo e
horizontal.
Ainda
sobre
a
questão da
identidade,
Bourdieu afirma
que
“as
lutas a
respeito da
identidade
étnica
ou
regional,
quer
dizer, a
respeito de
propriedades (estigmas
ou
emblemas)
ligadas à
origem
através do
lugar de
origem e dos
sinais duradoiros
que
lhes
são correlativos,
como o
sotaque,
são
um
caso
particular das
lutas das classificações,
lutas
pelo
monopólio de
fazer
ver e
fazer
crer, de
dar a
conhecer e de
fazer
reconhecer, de
impor a
definição
legítima das
divisões do
mundo
social e,
por
este
meio, de
fazer e
desfazer os
grupos.” (1998, p. 113). Dessa
forma, podemos
entender a
identidade
como
algo formado, ao
longo do
tempo,
por
meio de
processos
inconscientes e
não
como
algo
que
nos acompanha
desde o nascimento. Existe,
então,
sempre
algo “imaginado”
ou fantasiado
sobre
sua
unidade (HALL,
2001).
De
fato, os
conceitos de
identidade cultural e de
nação funcionam
como
recursos
que visam
manter o
controle e
reprimir as
diferenças
sociais, culturais,
educacionais, econômicas e
políticas de uma
população. Há uma
tentativa de
padronização e
homogeneização de
um
povo, disseminando uma
idéia de
união e de
coesão
que
ignora
qualquer
forma de
diferença
e,
que,
portanto,
não
representa o
cotidiano das
pessoas
que
vivem
sob
o
mesmo
território.
Reconhecendo
que
a
identidade
é uma
construção,
que
está
constantemente
sendo elaborada,
Hall
(2001) sugere
que
deveríamos
falar de
identificação.
Para
este
autor,
“a
identidade
surge
não
tanto
da
plenitude
da
identidade
que
já
está
dentro
de
nós
como
indivíduos,
mas
de uma
falta
de
inteireza
que
é ‘preenchida’ a
partir de
nosso
exterior,
pelas
formas
através
das
quais
nós
imaginamos
ser
vistos
por
outros.”
(HALL,
2001, p. 39).
Esse
movimento
que
se realiza ao
longo
dos
tempos
também
se faz
presente no
processo de
constituição
de
comunidades
virtuais,
quando
o
indivíduo
busca
se
aproximar de
pessoas
que
tenham
interesses
semelhantes
independentemente
do
tempo,
do
espaço
e da
localização
geográfica,
então,
ocorre
um “desencaixe”
(GIDDENS, 1991a, 2002b).
Apropriamo-nos da
noção
de
desencaixe
de Giddens (2002b, p. 221),
que
é o descolamento das
relações
sociais
dos
contextos
locais
e
sua
recombinação
através
de
distâncias
indeterminadas do
espaço/tempo,
para
apresentá-la
como
um
fator
que
impulsiona a
formação
de
comunidades
virtuais.
O
indivíduo,
ao se
inserir
em
comunidades
virtuais,
busca
na
realidade
traços
de
identificação
e
não
uma
identidade
única.
Assim,
um
mesmo
indivíduo
pode
fazer
parte
de diversificadas
comunidades,
dependendo do
seu
grau
de
interesse,
adotando uma “pluralização”
de
identidades,
quando
a hibridização cultural acontece na
prática.
Essa
necessidade
de se
adequar a
contextos
diversificados de
interação
é
que
faz o
indivíduo,
ao
sair de
um
encontro
e
entrar
em
outro,
ajustar a “apresentação
do
eu”
em
relação
ao
que
lhe
for demandado
em
cada
momento
determinado
(GIDDENS, 2002b).
Para
Hall
(2001), o hibridismo
também
vai
estar
presente à
medida
que
o
impacto da
globalização
resulte na
produção de
novas
identificações
“globais”
e
novas
identificações
“locais”,
de
forma
simultânea.
Além
disso,
não
podemos
ignorar
que
essa
necessidade
de
identificação
é uma
forma de
suprir
ou
de
substituir a
perda
de
um “sentido
em
si”
do
indivíduo,
também
chamada
de “deslocamento
ou
descentração do
sujeito”,
que
acontece de
forma
dupla.
Uma
vez
que
o
sujeito perde a
referência
com
relação
a
paisagens
culturais de
classe,
gênero,
sexualidade,
etnia,
raça e
nacionalidades,
que,
no
passado,
forneciam sólidas
localizações
enquanto
indivíduos
sociais,
também
acabam sofrendo alterações nas
identidades
pessoais,
abalando a
idéia
que
temos de
nós
próprios
como
sujeitos
integrados, constituindo uma
crise
de
identidade
para o
indivíduo
(HALL,
2001).
É nesse
contexto
de
perda
de
referência
total
com
o
mundo
e
com
as
pessoas
que
o cercam
que
o
indivíduo
busca,
incessantemente,
integrar-se aos
seus
semelhantes,
a
pessoas
com
as
quais
realmente
encontre
identificação.
Considerações
finais
A
partir das
idéias expostas, constatamos
que o envolvimento
crescente das
tecnologias de
informação no
meio
social tem provocado alterações
consideráveis
em
diversos
aspectos
que compõe a
base
material da
sociedade
em
âmbito mundial,
entre as
quais destaca-se a estruturação de
um
novo
tipo de
organização
social, sustentado
em
redes computacionais, e
que dá
origem à
sociedade
em
rede.
A
formação de
comunidades
virtuais na
rede configura-se numa
estratégia
para o
homem
que se relaciona no
ciberespaço de se
fazer
reconhecer
como
diferente
diante dos
outros
indivíduos, sendo à
busca de
mecanismos de
identificação uma
prática
constante na
história da
humanidade.
A
característica diferencial dessa
nova possibilidade de
estabelecer relacionamentos
sociais no
ciberespaço está na
forma de se
adquirir
traços de
identificação,
pois o
próprio
indivíduo escolhe o
grupo
que pretende
fazer
parte de
acordo
com
seu
interesse
particular, tendo a
chance de
participar de quantas
comunidades
desejar. Na
verdade
isso
só é
possível
graças a uma
mudança
profunda na
compreensão do
conceito de
identidade,
que deixou de
ser
visto
como
algo
fixo,
mas
em
constante
elaboração.
Além disso,
com o
advento do
período da
alta modernidade
ou modernidade
tardia, os
indivíduos passaram a
desempenhar uma
série de papéis,
conseqüentemente, apresentando uma
multiplicidade de
identidades
que caracteriza a
chamada hibridização cultural.
Ao
contrário das
características das
identidades
nacionais,
que eram impostas
pelo Estado-nação
como
permanentes,
hoje, o
próprio
indivíduo seleciona
suas
marcas identitárias a
partir do
que se é e do
que se
quer
ser,
com o
auxílio de
redes mundiais
como a
Internet
que ultrapassa os
limites
físicos do
cotidiano, seja na
residência
ou no
trabalho, gerando
redes de
afinidades consolidadas
por
meio de
comunidades
virtuais.
A
formação
de
comunidades
virtuais
é
resultado
tanto
do
impacto das
novas
tecnologias
de
comunicação
na
estrutura
da
sociedade, a
partir da
consolidação de
uma cibercultura,
quanto
do
processo de
fragmentação
das
identidades
culturais,
que
é
reflexo
direto do
efeito da
globalização
como
característica
inerente à modernidade.
Por
outro
lado, a
globalização
por
si
só implica
um
movimento de
distanciamento da
idéia sociológica
clássica da
sociedade
como
um
sistema
bem delimitado,
em
que
todos os
indivíduos compartilham
um
sentimento de
comunidade.
Noção
que perde
força
pela
sua
própria
fragilidade,
pois sabemos
que o
conceito de
comunidade,
assim
como o de
nação,
são
construções imaginadas.
Torna-se
ainda
importante
esclarecer
que o
ambiente
virtual é
visto
como
um
espelho da
sociedade,
que
apenas reflete as
práticas
sociais e,
portanto,
não é
melhor e
nem
pior. Nesse
sentido, acreditamos
que a
Internet,
assim
como as
demais
técnicas e
tecnologias,
não
muda as
atitudes e
comportamentos
sociais, na
verdade, as
pessoas se apropriam das
tecnologias
disponíveis na
rede.
O
uso de
qualquer
tecnologia está
associado
diretamente
com a
capacidade e
competência do
internauta,
para
poder se
beneficiar
ou
não.
Com
isso, afastamos
qualquer
visão de
endeusamento da
tecnologia
que
sozinha
não promove nenhuma
comunidade, nesse
caso, a
Internet potencializa o
contato
social,
mas depende do
interesse e da
iniciativa das
pessoas o
estabelecimento de
relações
sociais.
Partindo-se do pressuposto
que
mudanças
em
aspectos
íntimos
da
vida
pessoal
estão intrinsecamente
ligadas
ao
estabelecimento
de
conexões
sociais
de
grande
amplitude,
afirmamos
que
a
constituição
de
comunidades
virtuais
representa uma
busca
de
identidades
no
ciberespaço
naturalmente
globalizado.
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Virtual
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Disponível
em: <http://www.rheingold.com/vc/book/>.
Acesso em: 05 jul. 2003.
_____________
Notas
1Tradução
livre
da autora do
texto
original:
“Virtual
communities
are
social
aggregations that emerge from the Net when enough people carry on those
public discussions long enough, with sufficient human feeling, to form
webs of personal relationships in cyberspace.” (RHEINGOLD,
S.l., 1998).
2Em
1989, o
pesquisador Tim Berners-Lee, do
Centro
Europeu de
Pesquisas
Nucleares, criou a Web
que se transformou
em
um dos
serviços
mais usados na
Internet. O
objetivo do
pesquisador
era
criar
um
sistema
interno
baseado
em
hipertexto,
que disponibilizasse
informações
sobre as
pesquisas realizadas no
centro de
forma organizada e
prática.
3Primo
(1998) define
dois
níveis de
interação
em
ambientes
virtuais: a
mútua,
que é
fundamental
para a
constituição de
comunidades
virtuais,
pois é a
relação construída
entre
pessoas; e a
interação
reativa
que é pré-determinada,
como o hiperlink
que é
reativo,
só
leva a
um
lugar, a
um
site
específico,
interação homem-máquina.
4Os
MUDs
são
jogos
em
rede
em
que se criam
mundos
imaginários, a
partir de
sistemas
onde os
internautas podem
adotar
livremente
formas identitárias (LEMOS, 2002b).
******
Cynthia Harumy Watanabe Corrêa é
jornalista
e
especialista
em
Cultura
e Midiologia das
Sociedades
Contemporâneas
pela
Universidade
Federal
do
Pará,
atualmente
é
mestranda
do
Programa
de
Pós-Graduação
em
Comunicação
e
Informação
da
Universidade
Federal
do
Rio
Grande
do
Sul/UFRGS.
.
|