Ciberlegenda  

Número 3, 2000

O hipertexto eletrônico como base para reconfigurar a atividade jornalística

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  Angèle Murad

 amurad@vitoria.es.gov.br

Resumo:

Trabalho exploratório objetiva analisar como a ferramenta do hipertexto cria as bases para reconfigurar a atividade jornalística, ao proporcionar novas práticas de leitura e escrita, com o favorecimento à intertextualidade e à nova relação entre autor-obra-leitor. As potencialidades e os questionamentos que advêm da aplicação do hipertexto eletrônico para o jornalismo, bem como experiências em curso na rede, revelam a urgência de se realizar pesquisas aplicadas para analisar as práticas.

Palavras-chave: jornalismo, hipertexto, Internet

 

O mundo da comunicação está em plena ebulição. Amparadas nas tecnologias digitais e na convergência multimídia, as transformações atingem tanto a estrutura e propriedade dos veículos, quanto a pesquisa, produção e difusão da informação. O objetivo deste trabalho é mostrar como a ferramenta do hipertexto eletrônico, empregada na produção dos conteúdos para a Internet, cria as bases para novas práticas de escrita e leitura de textos e quais as possibilidades que se abrem para a atividade jornalística.

De antemão, parte-se da premissa de que a técnica é invenção humana inserida no mundo social, produto de relações políticas, econômicas e culturais e também agente transformador do homem, da cultura e da sociedade. Nesse sentido, a atividade jornalística na rede é resultado da criação de novas estruturas e da remodelação de configurações existentes. Comporta, pois, experiências que, ora isoladas, ora em conjunto, vêm delineando as transformações nesse campo de conhecimento.

O texto não tem a pretensão de avaliar a produção jornalística na rede, mas tão somente de elencar as possibilidades de explorar as potencialidades do hipertexto, como a pluralidade de vozes, a organização multilinear, a heterogeneidade e a reconfiguração da autoria. As referências a sites e a experiências na rede cumprem tão somente a função de exemplificar conceitos e categorias discutidas.

As idéias estão reunidas em blocos. Primeiro, busca-se definir a gênese da ferramenta “hipertexto” para a base informática. Em seguida, são apresentados os princípios que norteiam o emprego do hipertexto, relacionando-os a conceitos como interatividade e digitalização. Por fim, procura-se relacionar as possibilidades e questões referentes à aplicação dessa tecnologia para o jornalismo digital.

A idéia do hipertexto eletrônico foi enunciada por Vannevar Bush em 1945, com a publicação do artigo “As we may think”. No paper, o matemático e físico descrevia o funcionamento do Memex – MEMory IndDEX -, dispositivo imaginário capaz de automatizar a recuperação de dados e, assim, ajudar estudantes face à explosão de informações e à dificuldade em selecioná-las para uso em determinado momento.

Bush percebeu que o problema estava na indexação: as informações eram organizadas de forma hierárquica e classificadas apenas sob uma única rubrica, enquanto que a mente humana funcionava de maneira diferente, por meio de associações. Então, propôs uma indexação associativa paralelamente à indexação clássica, em que os textos mantinham ligações entre si, independentemente da classificação hierárquica.

A máquina imaginária de Bush abriu caminho para se configurar a textualidade virtual, com a concepção de blocos de textos unidos por links e dispostos em forma de rede. O termo “hipertexto” foi cunhado, nos anos 60, por Theodore Nelson, para exprimir a idéia de escrita/leitura não linear em um sistema de informática. Segundo ele, o hipertexto representa a “escrita não seqüencial – texto que ramifica e permite escolhas do leitor, melhor lido em uma tela interativa. Como concebido popularmente, esse é uma série de pedaços de textos conectados por links que oferece ao leitor diferentes caminhos” (1).

Na base informática, isso se traduz em um conjunto de nós (palavras, páginas, imagens, gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos) não ligados linearmente, mas com conexões de modo reticular. Assim, o termo designa, na área de informática, a forma do texto eletrônico, nova tecnologia de informação e ainda o modo de publicação, sendo empregado também em outros campos de conhecimento, nos quais possui significados distintos (2).

Do ponto de vista da tecnologia de informação, o hipertexto eletrônico funda-se em ambiente informático que, por um lado, favorece a interação amigável, com a representação icônica das estruturas de informação e dos comandos, a tela gráfica de alta resolução, os menus que orientam os usuários e o mouse, que permite uso de forma intuitiva. Por outro, revela os inconvenientes de uma superfície reduzida para acesso direto em um mesmo instante, como se fosse um pacote redobrado (3).

A aplicação do hipertexto eletrônico encontra-se associada às noções de rede, interatividade e digitalização, como se buscará mostrar a seguir. Para isso, adotar-se-á o seguinte percurso: apresentação dos princípios que regem a estrutura do hipertexto e definição das características do dispositivo eletrônico.

Segundo Lévy (4), a estrutura do hipertexto constitui-se a partir de seis princípios, que se encontram interligados:

a)      princípio da metamoforse: a composição, a extensão e a configuração da rede hipertextual estão em constante mudança. A dinâmica explica-se pela permanente abertura da rede ao exterior (princípio da exterioridade) e pela multiplicidade de conexões possíveis (princípio da heterogeneidade). A real forma, dimensão e estrutura da rede não são passíveis de serem apreendidas; 

b)      princípio da heterogeneidade: tanto os nós quanto as conexões entre eles são heterogêneos. Textos, sons, imagens compõem uma linguagem única, integrados pela digitalização, e podem compor uma mesma mensagem. A apreensão numérica da realidade permite que as conexões entre elementos heterogêneos (por exemplo, texto-imagem) se processem automaticamente e com um grau de precisão quase absoluto;

c)      princípio de multiplicidade e de encaixe das escalas: a organização do hipertexto é fractal, ou seja, qualquer nó ou conexão revela-se composto por toda uma rede. Tem-se a imagem de que cada hipertexto é um subhipertexto de um hipertexto maior;

d)      princípio de mobilidade dos centros: a rede hipertextual não tem um centro único, mas diversos centros móveis e temporários, em torno dos quais se organizam infinitos rizomas;

e)      princípio da exterioridade: não há unidade orgânica nem motor interno e a rede encontra-se aberta permanentemente ao exterior, o qual é responsável pelas suas configurações e reconfigurações constantes. Esse princípio caracteriza a permanente abertura da rede hipertextual ao exterior. Interior e exterior não são nitidamente determinados, estabelecendo-se, tópica e momentaneamente, fronteiras móveis, apenas com finalidades operacionais. No momento em que se aciona um link, o que então está no exterior de determinado hipertexto passa a integrá-lo; e

f)       princípio da topologia: a rede constitui-se o próprio espaço em que são traçados distintos percursos hipertextuais. É aí onde se multiplicam as conexões. Esse princípio designa que a rede hipertextual funciona na base da proximidade, à medida que os links aproximam espaços e temporalidades – é possível, por exemplo, lincar um texto do dia com  outro de arquivo, ou ainda informações produzidas em países distantes geograficamente.

Fundadas nesses princípios, delineiam-se as características que, imbricadas, reconfiguram a escrita e a leitura no ambiente informático por meio do emprego do hipertexto eletrônico. Antes de mais nada, é preciso ressaltar que não existe um hipertexto geral, mas níveis de hipertexto que se apresentam conforme a realização do que a ferramenta oferece como potencialidade.

A conexão em rede se traduz na multilinearidade, ou seja, nos múltiplos percursos possíveis de leitura linear construídos pelo leitor por meio do hipertexto.  À multilinearidade conjuga-se as noções de descentralização/recentralização e quebra de hierarquia. A rede não tem um núcleo central, mas centros provisórios. A partir de qualquer nó, é possível migrar para outros elos, por meio de conexões plurais. Cada leitor, ao estabelecer seu percurso, configura uma linearidade específica, provisória, de acordo com os seus interesses (5).

Na prática, isso significa que qualquer um, ao usar o hipertexto, conforme seu interesse, pode organizar o texto e transformar qualquer documento em centro transitório. Por isso, nenhum leitor é aprisionado por um tipo de organização particular de hierarquia, ainda que esta possa ser sugerida, em alguma escala, pelo autor.

Do ponto de vista de produção, o hipertexto eletrônico pode comportar uma estrutura axial e/ou em rede (6). Ao adotar a primeira, o autor propõe a estrutura linear do texto impresso como eixo primário de organização, sendo que os complementos irradiam do texto em forma de árvore. A adoção da segunda estrutura pressupõe uma organização dispersa e em centros múltiplos.

O hipertexto potencializa, assim, a leitura multiseqüencial e a construção de sentidos, noções já presentes no suporte impresso. É notório que qualquer texto só adquire sentido por meio da leitura. É ali onde são feitas as associações propostas ou não pelo autor, onde ocorre a interpretação e se produzem as suas significações (7).

Quanto à multiseqüencialidade, o livro contém no texto principal, por exemplo, os símbolos que remetem o leitor à nota de rodapé, onde há referência sobre o próprio texto ou de outros textos. A diferença é que no texto impresso as referências encontram-se distantes espacialmente do texto principal e entre si e, depois de lê-las, retorna-se ao texto principal. Mesmo os romances impressos hipertextuais, o leitor não abandona o texto principal, ainda que possa construir múltiplas linhas de história.

Com o hipertexto eletrônico, a possibilidade de se construir vários percursos de leitura muda não só a experiência de ler quanto a natureza do que se lê, com a multiplicidade de possibilidades de produção de sentidos.

            Assim, o hipertexto eletrônico favorece e fortalece a intertextualidade, isto é, a abertura do texto ao exterior, cujas fronteiras, como se viu, são temporárias e móveis. O conceito designa comumente o ato de conectar textos de sites distintos a partir de temáticas semelhantes, em comparação à intratextualidade (8). Mas se refere também à abertura do texto ao leitor, situado fora (ainda que provisoriamente) do hipertexto. Nesse sentido, Parente (9) relaciona a intertextualidade aos processos de leitura, ou seja, à rede de interconexões de sentidos. O grau em que se dá essa abertura denota os níveis do hipertexto eletrônico, que vão do mais simples, quando a contribuição do leitor se limita à seleção do percurso de leitura, aos mais complexos, em que o leitor pode adicionar mais texto e este ser compartilhado por outros leitores (10).

Daí advém outra característica potencial do hipertexto, que é a multivocalidade, isto é, a possibilidade de o texto não ser elaborado por apenas uma pessoa, colocando em xeque os papéis do autor e leitor. Na prática, isso pode significar a produção de uma obra coletiva e anônima.

            A intertextualidade encontra-se, então, associada ao conceito de interatividade, à capacidade de interação entre obra, leitor e autor. Segundo Primo & Cassol (11), a interatividade deve ser avaliada não mais do ponto de vista dos pólos (emissor e receptor), mas da relação que mantêm entre si.

O conceito de interatividade abriga desde o mais nível elementar, que é o reativo, em que a escolha do leitor se faz a partir de um leque de opções dadas pelo autor. À medida que se torna mais complexo, o hipertexto eletrônico vai dissolvendo as fronteiras entre leitor e escritor, que ocupam o mesmo ambiente: trata-se da interação mútua. Nesse nível, “a separação entre autor e leitor será apenas uma contingência, nunca absoluta, e reversível a qualquer momento” (12). os pólos emissor e receptor são intercambiáveis e dialogam entre si, denotando a bidirecionalidade do processo. 

            O conceito de intertextualidade associa-se ainda à característica de não fechamento do hipertexto eletrônico. A permanente abertura do texto ao exterior frustra a expectativa de um fim, que advém da narrativa tradicional. No hipertexto eletrônico, as múltiplas conexões permitidas ameaçam o fechamento habitual, pois encorajam o leitor a começar a ler um texto novo sem ter concluído o anterior. O não fechamento está embutido na própria constituição do hipertexto eletrônico, que se apresenta em constante mutação e expansão. Na prática da leitura, essa característica se revela nas incertezas do leitor quanto ao fim do texto, à quantidade do que foi lido e do que ainda resta a ler. 

A metáfora do labirinto ajuda a entender como se dá a experiência de leitura no hipertexto eletrônico (13). O labirinto revela-se, para os gregos, como uma peça de arquitetura que representa o máximo grau de complexidade para a mente humana. O problema para o visitante não é achar a saída, mas seguir sem se perder, experimentando todas os caminhos possíveis. Enfim, mais do que encontrar a saída, o importante é conhecer o labirinto como um todo. Revela-se, pois, convite a uma expedição exploratória, sem mapa.

Além disso, o navegador, que carece de uma visão geral do labirinto, é chamado a decidir a cada bifurcação e precisa ser inteligente para não ficar dando voltas infinitas. Multiplicidade de possibilidades de experiências de tempo e espaço simultâneas, obrigatoriedade em decidir localmente e desconhecimento da totalidade caracterizam a leitura com o hipertexto eletrônico.

 

O hipertexto eletrônico e o jornalismo

O próximo passo é, retomando as características e princípios que norteiam o hipertexto eletrônico, mostrar as implicações para o jornalismo digital. O princípio da metamoforse traduz-se na possibilidade de se atualizar e acrescentar informações a qualquer momento, tornando a cobertura jornalística mais ágil.

Frente ao desafio de se ter um jornalismo em tempo real e às dificuldades técnicas de operacionalizá-lo – incluindo aí não só as limitações dos programas de edição em HTML, como o próprio modelo tradicional de produção jornalística, pautado em horários rígidos de fechamento de edições -, a maioria dos jornais e também algumas revistas digitais adota uma opção intermediária: os serviços de últimas notícias (14). Em geral, são resumos dos acontecimentos mais recentes difundidos pela equipe de redação ou pelas agências de notícias, que compõem um link do site, disponível logo na página inicial. Registra-se também iniciativas de atualizações diárias da manchete e chamadas de primeira página.

O grande desafio para o leitor de uma publicação digital é conviver com a angústia de não ter o domínio da rede, de desconhecer a sua extensão e o mapa de suas reconfigurações. Nesse sentido, mostra-se louvável a iniciativa do site da Folha de São Paulo ( http://www.uol.com.br/fsp/  que computa o horário da última inserção de informações no canto superior da página inicial, buscando promover atualização em tempo real.

Além de inclusão de informações, a rede hipertextual encoraja também mudanças constantes no layout da página, que precisam ser promovidas sem que ameacem as relações de referência do leitor para com o veículo. Alguns elementos devem ser mantidos para permitir essa identificação.

O princípio da heterogeneidade representa, para o jornalismo digital, o uso de recursos como textos, fotos, imagens, mapas e áudio, integrados na mesma mensagem. O texto nem sempre é a melhor maneira de comunicar; o uso de imagens ou áudio pode tornar a informação mais credível ou impactante. E ainda indica a conexão de informações com temporalidades e espacialidades distintas (15).

No que se refere às temporalidades, uma prática comum tem sido o de disponibilizar os arquivos das edições passadas, mediante serviços de busca ou de links com as datas de publicação. O acesso aos arquivos, dependendo do veículo, pode ser ou não tarifado (16).  Outra aplicação, restrita a alguns assuntos e jornais, tem sido o de remeter o leitor, por meio de links ou do mecanismo de busca, a informações ou matérias de arquivo, para melhor contextualizar a notícia (17).

            A heterogeneidade descende diretamente das tecnologias digitais, que permitem guardar a memória dos veículos, uma vez que as informações são processadas automaticamente, com um grau de precisão quase absoluto, muito rapidamente e em grande escala quantitativa. Registra-se, nesse sentido, a iniciativa de jornais de digitalizar conteúdos editoriais anteriores à era eletrônica, inclusive os muito antigos, e disponibilizá-los na rede. O jornal norte-americano Chicago Tribune, por exemplo, investe na montagem de um banco de dados que, dentro de três anos, deverá permitir o acesso a matérias publicadas desde 1849 (18).

Quanto à multiplicidade de experiências espaciais (princípio da topologia), constata-se que, diferentemente do jornal impresso, dotado de espaços limitados e homogêneos para a disposição das notícias, na publicação digital a rede hipertextual aproxima assuntos distintos e permite ir a outro por meio de um simples clique. Acrescenta-se a isso o fato de a Internet atrair leitores não mais pelo critério geográfico, mas por interesse temático.

As novas relações com o tempo e o espaço, engendradas pelo hipertexto eletrônico, refletem-se na interação entre as esferas do local e global. Mesmo no meio digital, o jornal continua sendo uma preciosa fonte para notícias locais. O que se abre é a possibilidade de conectar, em tempo real, a esfera local à global.

A heterogeneidade de conexões e nós permite melhor tratamento da informação em termos de visual e de contextualização, mas exige cuidados na exploração dos recursos. O grande desafio para os jornalistas consiste em enriquecer a informação e, ao mesmo tempo, garantir o acesso a ela. A exploração de recursos de áudio e vídeo ainda encontra limitações de ordem técnica, traduzindo-se muitas vezes na lentidão da conexão.

Soma-se ao tempo de descarga lento a legibilidade deficiente: segundo pesquisa do Instituto Nielsen, ler na Web é 25% mais difícil em comparação ao jornal, por causa da resolução da tela (19). É preciso, pois, ter o domínio completo do recurso técnico para bem explorá-lo, como serviço ao leitor, sugerindo-lhe um mínimo de orientação, por meio do menu, e também permitindo-lhe a expedição exploratória, se assim ele desejar. Os links devem, pois, representar relacionamentos coerentes para não confundir o leitor.

As informações podem ser buscadas de modo aleatório ou objetivo pelo leitor. Enquanto os “surfistas” se contentam em tornar o texto uma expedição exploratória, os “pesquisadores” estão à procura de determina informação e tem pressa em obtê-la. Diante de um mar de conexões, o importante é o leitor definir os objetivos para não fazer da metáfora do labirinto uma experiência angustiante e inútil.

O princípio da multiplicidade e de encaixe de escalas é representado, no jornalismo digital, pela conexão em rede das informações, de forma que de qualquer nó/matéria o leitor seja capaz de atingir outro ponto. O ideal é o que o leitor não precise dar mais de três cliques para obter a informação que deseja, segundo Bill Skeet, projetista norte-americano na área de novas mídias (20).

O site jornalístico deve garantir a navegabilidade, utilizando recursos que facilitem a navegação e a localização dos usuários dentro do site. A ferramenta mais usada tem sido a barra do menu, presente em todo o site, geralmente na parte superior ou lateral da página. Embora seja próprio do hipertexto eletrônico a estrutura em rede, a edição também pode beneficiar-se da estrutura axial, que lembre o produto impresso, auxiliando na navegação. Segundo McAdams (21), a metáfora do jornal ajuda o leitor a criar familiaridade com o produto digital. Talvez seja por isso que a maioria reproduz no meio digital as seções do produto impresso (22).

A estrutura em rede permite ao leitor do jornal digital saltar de um texto a outro, fazendo tanto a leitura linear clássica, quanto percursos individuais, conforme seus desejos e intuições. Desta forma, elege, ainda que momentaneamente, o centro do seu interesse (princípio de mobilidade dos centros). Essa mobilidade pode trazer um problema: o leitor pode conectar-se a todos os textos, experimentar todos os percursos, mas não ler a totalidade de nenhum deles.

Além da tarefa de orientar o usuário, o site jornalístico também precisa desempenhar o papel de atender aos distintos tipos de leitores, organizando as informações em níveis, do superficial ao profundo. Segundo Rich (23), cada matéria tem um microelemento, isto é, a essência da história, que deve ser linear e coerente. Os macroelementos são as informações contextuais e correlatas e devem ser organizados de forma a atender aos níveis diferentes de informação demandados pelo leitor.

Traduzindo, os microelementos representam a resposta às perguntas básicas – o que, quem, quando, onde, como, por quê – e a estrutura como um todo lembra a pirâmide invertida, técnica clássica de organizar a informação jornalística. Como muitos jornais digitais ainda estão atrelados ao modelo impresso,  acabam  por não explorar essa demanda de níveis diferenciados de interesses.

Duas boas referências quanto à aplicação desse conceito são os sites de O Globo ( http://www.oglobo.com.br ) e da Revista Encruzilhada (24) ( http://encruzilhada.cjb.net ), publicação digital nas áreas de mídia e cultura. A página inicial do Globo On apresenta títulos lincáveis que remetem às matérias que, por sua vez, trazem links para outras informações afins e mais detalhadas, incluindo, por exemplo, íntegra de leis e a cobertura anterior dispensada ao assunto. A proposta da Revista Encruzilhada segue linha semelhante: a cada edição, são abordados dois temas – um ligado à mídia e o outro à cultura -, com a apresentação dos seus principais aspectos e links para maior aprofundamento. 

A demanda por níveis distintos de interesses por parte do leitor é alimentada pelo princípio da exterioridade e da conexão em rede. A abertura permanente do texto ao exterior (que, como se viu, tem fronteiras móveis) contribui para o enriquecimento da informação jornalística. A intratextualidade (conexão de matérias e informações de mesma temática dentro do mesmo site) tem mais bem explorada pelas publicações digitais do que a intertextualidade (conexão de matérias e informações de mesma temática entre sites distintos).

Duas boas indicações de exploração de intertextualidade são o JB on line ( http://www.jornaldobrasil.com.br/ ) e Globo On ( http://www.oglobo.com.br ) (25). Os links, geralmente, remetem a sites cujos conteúdos relacionam-se à temática das editorias. Ainda que não seja uma prática estimulada pelos veículos, isso abre a possibilidade de, em alguns casos, o leitor interessado buscar mais facilmente as informações das fontes originais e confrontá-las às publicadas no jornal digital.

O princípio da exterioridade traz um desafio para o leitor, qual seja, o de conciliar a possibilidade de ter acesso a mais e mais informação com a angústia que essa overdose possa trazer, isto é, a sensação de que ainda falta muito a conhecer e não se sabe a dimensão real da rede intertextual. Por outro lado, o desconhecimento da totalidade e o não fechamento, característicos do hipertexto eletrônico, podem ser explorados para tornar a leitura um convite à exploração.

A abertura do texto ao exterior remete à questão dos níveis de interatividade praticados nas publicações digitais. Moraes (26) identifica a prática de três níveis. O nível 1 caracteriza-se pela possibilidade de se entrar em contato com jornalistas ou webmasters do site por meio de e-mails, para fazer reclamações, dar sugestões ou solicitar informações. O nível 2 contempla as experiências em que o leitor é chamado a opinar a partir de um leque de opções dadas. O nível 3 compreende as práticas em que o leitor é chamado a contribuir na construção da notícia, inserindo comentários ao texto publicado.

Os níveis 1 e 2 indicam a interação reativa e são amplamente praticados no jornalismo digital. Jornais e revistas disponibilizam para os leitores os e-mails de editores, colunistas e chefes de reportagem e/ou caixa eletrônica da redação.  Outra prática comum tem sido a de fazer consultas on line em que os leitores são chamados a opinar sobre assuntos polêmicos, que compõem a atual agenda jornalística, ou sobre a edição dos jornais (27). No que se refere ao leque de respostas oferecida, em alguns casos o leitor é chamado a decidir entre sim e não; em outros, a escolher uma das opções relacionadas no site.

Há também o serviço interativo comumente conhecido como fórum, em que o leitor, fazendo uso de um formulário, a partir de uma pergunta semiaberta escreve a sua opinião. Ao enviá-la, essa passa a ser disponibilizada no ar junto com as opiniões de outros leitores (28).

Já o nível 3, que representa a interação mútua, vem sendo, praticado sobretudo, por publicações digitais de universidades e centros de pesquisa em comunicação. Um exemplo é a proposta da Revista Encruzilhada ( http://encruzilhada.cjb.net ), projeto ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A publicação tem duas dimensões que são complementares: no website, a revista introduz os temas e uma lista de discussão, em que os leitores pode debater com todos os inscritos os assuntos de cada edição.

Outra experiência interessante é a do Planeta Virtus ( http://www.cac.ufpe.br/actvirt/planeta/ ), desenvolvida pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O projeto experimental da UFPE também parte de conteúdos temáticos. O leitor é chamado a dar a sua opinião sobre o assunto por meio do preenchimento de um formulário. Ao enviá-lo, sua opinião passa a compor imediatamente o rodapé da página.

A nova relação que o hipertexto eletrônico desenha entre autor e obra coloca em cheque a propriedade intelectual. O próprio ambiente telemático, marcado pela volatibilidade e fugacidade de conteúdos, torna frágil a aplicação das leis. Os debates sobre direitos autorais, como a apropriação de fotos e matérias, estão na agenda do dia e As indicações de netiqueta, ainda que positiva, mostram-se mecanismo frágil para dar conta de questões tão complexas como esta (29).

 

Estudos dos usos

            A prática da textualidade eletrônica, amparada em redes de alta velocidade e nas tecnologias digitais, explicita mudanças no mundo da comunicação e na atividade jornalística. A multiplicidade de experiências na rede e as interfaces com o jornalismo impresso torna difícil delinear os contornos e os caminhos do modelo de jornalismo digital.

As experiências na rede revelam que esse modelo é resultado da criação de novas estruturas e de remodelação de configurações existentes, tornando-se imperativo questionar os próprios conceitos e categorias que tradicionalmente caracterizam os veículos de massa e que não se aplicam à Internet (30).

Se, por um lado, o modelo de jornalismo digital encontra-se em construção, o que torna o campo instável e nebuloso quanto a cenários futuros, por outro, não podem ser subestimadas as práticas executadas na rede. Do final da década de 80 - quando provedores americanos começaram a oferecer serviços de notícia personalizados – até hoje, as experiências na rede multiplicam-se. Segundo Eric K. Meyer, consultor norte-americano em mídia, estima-se que o número de sites jornalísticos atinja a marca dos 5 mil em todo o mundo, com significativa participação dos periódicos brasileiros (31).

Urge-se, portanto, a realização de pesquisas aplicadas acerca dessas experiências, de forma a identificar os usos culturais na rede, pautados por níveis diferenciados de aplicação das potencialidades oferecidas pelo hipertexto eletrônico.  Afinal, o potencial da textualidade eletrônica se realiza nas conexões e nós da rede hipertextual, transformando-se e recriando-se a partir dos seus usos.

           

Notas

(1) Citação extraída de LANDOW, George P. Hypertext : the convergence of contemporary critical theory & technology. Disponível: http://landow.stg.brown.edu/nt/contents.html .

(2) O termo apresenta grande polissemia, sendo aplicado em diversos campos de conhecimento, dentre os quais, ciências da linguagem e da cognição, cibernética, história do livro e da escrita, teorias e sistemas de comunicação. A concepção de organizar informação por associação não é exclusiva da informática, estando já presente no enciclopedismo. Ainda que limitada, a ligação de blocos de textos verifica-se na escrita, com a nota de rodapé. Há, também, romances escritos de forma hipertextual, em que o leitor experimenta diversos percursos de leitura.

(3) LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência : o futuro do pensamento na era da informática.  Rio de Janeiro, Ed. 34, 1993, p. 36.

(4) Ibidem, p. 25-26.

(5) PALÁCIOS, Marcos. Hipertexto, fechamento e o uso do conceito de não-linearidade discursiva. Disponível: http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/palacios/hipertexto.html .  

(6) LANDOW, George P. Qué puede hacer el crítico? – la teoria crítica em la edad del hipertexto. Barcelona : Paidós, 1997, p. 41

(7) Sobre a virtualização do texto, ver LÉVY, Pierre. O que é virtual?  São Paulo : Ed. 34,  1996, capítulo 3 : A virtualização do texto, p. 35-49.

(8) O conceito de intratextualidade diz respeito à conexão de textos localizados em um mesmo site que guardem relação temática entre si.

(9) PARENTE, André. O hipertextual. Famecos [on line], Rio Grande do Sul, 1999. Disponível: http://ultra.pucrs.br/famecos/10-17.html .

(10) LANDOW, op. cit., nota 6, p. 26.

(11) PRIMO, Alex F. T., CASSOL, Márcio, B. F. Explorando o conceito de interatividade : definições e taxonomias. Espiral Interativa [on line]. Disponível: http://usr.psico.ufgrs.br/~aprimo/pb/espiralpb.htm .

(12) MACHADO, Arlindo. Hypermedia : the labyrinth as metaphor. Disponível: http://www.pucsp.br/~cos-puc/arlindo/hypermed.htm .

(13) ibidem.

(14) Exemplos desses serviços: Plantão, do Globo online ( www.oglobo.com.br ), Índice Geral de Notícias, da Revista Época ( www.epoca.com.br ). As referências feitas a esses e outros sites jornalísticos dizem respeito às observações feitas quando da redação deste texto, podendo não estarem mais disponíveis na rede em função de mudanças nas referidas páginas.

(15) A título de ilustração, ver a página 500 Anos, da Revista Época ( http://www.epoca.com.br ), que reúne os links para matérias que de alguma forma se relacionam ao tema, publicadas em várias edições.

(16) O JB on line ( http://www.jornaldobrasil.com.br/ ), por exemplo, disponibiliza gratuitamente os arquivos das últimas sete edições. Depois desse prazo, o serviço é pago.

(17) A área de esportes é um bom exemplo. A página do Globo On line ( http://www.oglobo.com.br  traz, por exemplo, a retrospectiva dos jogos anteriores, a programação dos próximos certames e a cobertura dos últimos eventos. Já o site do Estadão ( http://www.estado.com.br ) oferece pesquisa sobre o Campeonato Brasileiro de Futebol, abordando as goleadas, campanhas e confrontos dos times.

(18) O projeto do jornal americano é que o público tenha acesso ao banco de dados por meio das bibliotecas. Ver OUTING, Steve. Em defesa da digitalização de arquivos antigos. Mundo Digital [on line]. Disponível: http://www.uol.com.br/internet/colunas/parem/par271099.htm .

(19) Estudos para medir a legibilidade em sites apontam que são melhores lidos os textos on line com sentenças curtas e de estrutura gramatical simples. Os links embutidos, cercados por texto, revelaram-se estorvo para a leitura, uma vez que podem desviar a atenção do leitor. Os pesquisadores baseiam-se na constatação de que a maioria dos leitores é “scaners”, ou seja, vê a notícia como imagem. Sobre como escrever para a Net, ver RICH, Carole. Redação jornalística para a Web : um estudo para o Instituto Polynter de Estudos de Mídia. Tradução de José Antônio Meira da Rocha/Agência Experimental de Jornalismo da Unisinos.  [S.I. : s.n., 19--]. Sobre como se pensa por imagens, consultar DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes : emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo : Companhia de Letras, 1986.

(20) Citado por OUTING, Steve. Grupos editoriais levam a sério a questão dos lucros na net. Mundo Digital [on line]. Disponível: http://www.uol.com.br/internet/parem/par1811.htm .

(21) MCADAMS, Melinda. Inventing an Online Newspaper. Disponível: listerserver@guvm [listserver@guvm.georgetown, edu]. Julho, 1995.

(22) Apesar disso, há um grande esforço para dar um tratamento diferenciado à página inicial do produto digital. Mesmo assim, há aqueles que, fazendo referência à edição impressa, incluem as suas capas como imagem. O Hora do Povo on line ( http://www.horadopovo.com.br ) é um caso sui generis:: como página inicial, tem-se a capa do jornal impresso reproduzida como imagem. O leitor é capaz de ler os títulos, mas não as chamadas. Ao clicar sobre os links, tem o texto da chamada com indicação da página correspondente à edição impressa. Nas páginas com as matérias na íntegra, o site também reproduz a como ela foi editada na versão de papel. Exemplos como esse, longe de ajudar o leitor a se familiarizar com o produto digital, revelam a baixa exploração dos recursos hipertextuais.

(23) RICH,  op. cit., nota 19.

(24) A Revista Encruzilhada é resultado de projeto final do curso de Comunicação Social da UFMG, desenvolvido pelos alunos Bernardo Esteves e Carlos F. d'Andréa no segundo semestre de 1999, sob a orientação dos professores Elton Antunes e Regina Mota.

(25) O Jornal do Brasil on line traz, por exemplo, na seção de Economia uma lista de links relativos à editoria, com endereços de sites eletrônicos da Anistia Internacional, Organização Internacional do Trabalho (OIT), Banco Mundial, FBI, CIA, Intel, Organização das Nações Unidas, dentre outros. Outro bom exemplo notado é o Caderno de Viagens, em que uma matéria sobre turismo em Paris vem acompanhada de links para sites sobre a França (previsão do tempo, mapas, metrô, produção de vinho, moda, museus etc). A mesma prática tem sido a do Globo On: a seção de Esportes traz links para sites de clubes, federações e associações esportivas e páginas pessoais de desportistas; já da página de educação é possível migrar para sites de várias universidades brasileiras.

(26)MORAES, Maira. Produtos interativos para consumidores multimídia : discutindo a interatividade na era do bits. Bahia : [s.n.], 199-.

(27) No Globo On , por exemplo, os leitores opinam sobre a escolha da manchete, charges, fotos e matérias de primeira página, por meio das opções sim ou não. 

(28) A título de ilustração, ver o Fórum disponibilizado pela Revista IstoÉ ( http://ww.zaz.com.br/istoe/

(29) Sobre essa discussão, ver BOURDIER, Jean-Charles. La révolution des technologies de l’information. Texto disponível no CD Sociocibernética e Comunicação, organizado pelo prof. Dr. Delfim Soares, do Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação da Universidade Federal Fluminense.

(30) Sobre a necessidade de se desenvolver novos modelos teóricos para compreender a Internet, ver MORRIS, Merrill, OGAN, Christine. The Internet as mass medium [on line]. Disponível: http://www.usc.edu/detp/annenberg/vol1/issue4/morris.html .

(31) MEYER, Eric K. An unexpectedly wider web for the world’s newspapers. AJR News Link [on line], EUA, jun. 1999. Disponível: http://www.ajrd.newslink.org/emcol10.html .

 

REFERÊNCIAS BIBILIOGRÁFICAS

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                     (org).  Qué puede hacer el crítico? – la teoría crítica en la edad del hipertexto.  Barcelona : Paidós, 1997, p. 17 – 68.

                                                                                                                                                                 LÉVY, Pierre. O que é virtual? São Paulo : Ed. 34, 1996.


                     .   As tecnologias da inteligência : o futuro do pensamento na era da informática.  Rio de Janeiro : Ed. 34, 1993.

MACHADO, Arlindo. Hypermedia : the labyrinth as metaphor. Disponível: http://www.pucsp.br/~cos-puc/arlindo/hypermed.htm

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MCADAMS, Melinda. Inventing an Online Newspaper. Disponível: listerserver@guvm [listserver@guvm.georgetown, edu]. Julho, 1995.

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PALÁCIOS, Marcos. Hipertexto, fechamento e o uso do conceito de não-linearidade discursiva.  Disponível: http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/palacios/hipertexto.html .

PARENTE, André.  O hipertextual.  Famecos [on line], Rio Grande do Sul, 1999. Disponível: http://ultra.pucrs.br/famecos/10-17.html .

PRIMO, Alex F. T. , CASSOL, Márcio, B. F. Explorando o conceito de interatividade : definições e taxonomias. Espiral Interativa [on line]. Disponível: http://usr.psico.ufgrs.br/~aprimo/pb/espiralpb.htm

PRIMO, Alex F. T. Seria a multimídia de fato interativa? Espiral Interativa [on line]. Disponível: http://usr.psico.ufgrs.br/~aprimo/pb/espiralpb.htm

RICH, Carole. Redação jornalística para a Web : um estudo para o Instituto Polynter de Estudos de Mídia. Tradução de José Antônio Meira da Rocha/Agência Experimental de Jornalismo da Unisinos.  [S.I. : s.n., 19--].


 Angèle Murad é especialista em Políticas de Comunicação Organizacional, mestranda em Comunicação pela UFF, jornalista .

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