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Ciberlegenda Número 2, 1999 |
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LÉVY, Pierre. Cibercultura (trad. Carlos Irineu da Costa). São Paulo: Editora 34, 1999, 264p. |
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“Não há um
livro de papel de verdade para abrir, apenas uma sucessão de duas imagens
controlada por um dispositivo interativo (...) na página à esquerda há a
imagem de uma bela maçã vermelha em trompe d’oeil (...) a maçã
encontra-se cortada na página seguinte, sendo progressivamente consumida à
medida que a ‘leitura’ continua (...) A cada vez que as páginas são
viradas, ouve-se claramente o som de uma mandíbula que se fecha sobre um
pedaço de maçã (...). Comer a maçã surge como uma metáfora para ‘ler
um livro’” (Relato de Lévy sobre Beyond Pages,
de Masaki Fujihata, em Cibercultura,
p. 77)
O desenvolvimento das tecnologias digitais e a profusão das redes
interativas, quer queira ou não, colocam a humanidade diante de um caminho
sem volta: já não somos como antes. As práticas, atitudes, modos de
pensamento e valores estão, cada vez mais, sendo condicionados pelo novo
espaço de comunicação que surge da interconexão mundial dos
computadores: o ciberespaço.
Esse é ponto de partida de Pierre Lévy para estudar as implicações
culturais engendradas pelas novas tecnologias de comunicação e informação.
Cibercultura, lançado em 1999 no
Brasil, é resultado de relatório encomendado pelo Conselho Europeu, dentro
do projeto “Novas tecnologias: cooperação cultural e comunicação”.
Cibercultura? Mas, o que é isso? “Não é a cultura dos fanáticos
da Internet, é uma transformação profunda da noção mesma de cultura”
– apressa-se em explicar Lévy, em entrevista à @rchipress (1). Como tal,
reflete a “universalidade sem totalidade”, algo novo se comparado aos
tempos da oralidade primária e da escrita. É universal porque promove a
interconexão generalizada, mas comporta a diversidade de sentidos,
dissolvendo a totalidade. Em outras palavras: a interconexão mundial de
computadores forma a grande rede, mas cada nó dela é fonte de
heterogeneidade e diversidade de assuntos, abordagens e discussões, em
permanente renovação. Que não espere o leitor encontrar
alentado debate sobre pedofilia, cibersexo ou estímulo ao terrorismo na
Internet. Esses assuntos não ocupam mais do que poucas linhas, concentradas
justamente na parte em que o autor, abordando a diversidade de pontos de
vista sobre o ciberespaço, atribui à mídia o papel de alimentar o
sensacionalismo às custas da Net. Como nas obras anteriores, o professor
da Universidade de Paris 8 é transparente nas idéias e se descreve como
otimista. Assim, após apresentar, sucintamente, o ciberespaço sob o olhar
da mídia, dos comerciantes (que o reduzem à idéia de mercado) e do Estado
(voltado para o controle dos fluxos e a defesa da cultura e das indústrias
nacionais), Lévy apresenta o seu ponto de vista, a favor do “bem público”,
defendendo a promoção no ciberespaço de práticas de inteligência
coletiva. É preciso “explorar as
potencialidades deste espaço no plano econômico, político, cultural e
humano”, defende o filósofo do ciberespaço. Nessa difícil tarefa do
convencimento – mais do que solução, a cibercultura é um problema a
resolver, diz –, Lévy usa um dos seus melhores trunfos: escreve para não
especialistas. Seu texto flui de maneira organizada, por entre conceitos
como virtual, multimídia e interatividade, tabelas que sintetizam o conteúdo
e depoimentos sobre a experiência pessoal de navegação no ciberespaço. As
idéias estão dispostas em três blocos. No primeiro deles, Lévy apresenta
os pressupostos que orientam o estudo e os conceitos técnicos que sustentam
a cibercultura, como é o caso da digitalização e das redes interativas.
“Nem a salvação nem a perdição residem na técnica”, afirma,
mostrando que as tecnologias não determinam, mas condicionam as mudanças
à medida que criam as condições para que elas ocorram. Além disso,
aborda o movimento social que deu origem ao ciberespaço – nascido do
desejo de jovens ávidos por experimentar novas formas de comunicação e só
depois resgatado pelos interesses da indústria
-, e as grandes tendências de evolução técnicas no que se refere
a interfaces e a tratamento, memória e transmissão da informações. Uma
vez preparado o terreno, o autor dedica-se, na segunda parte, às implicações
culturais do desenvolvimento do ciberespaço. O retrato contempla
essencialmente três temas: as artes, o saber e a cidadania. A educação é
a que recebe maior atenção. Lévy descreve mutações nas formas de
ensinar e aprender. O futuro papel do professor não será mais o de difusor
de saberes, diz, mas o de “animador da inteligência coletiva” dos
estudantes, estimulando-os a trocar seus conhecimentos. Com
o advento do ciberespaço, o compartilhamento de memória permite aumentar o
potencial da inteligência coletiva. O saber, agora codificado em bases de
dados acessíveis on-line, é um fluxo caótico. Daí, segundo ele, a
necessidade de repensar a função da escola e dos sistemas de aprendizagem
e avaliação. Nesse sentido, critica o fato de o diploma ser o único método
de reconhecimento da aprendizagem e aprova a integração de sistemas de
educação “presencial” e à distância. Por fim, propõe um método
informatizado de gerenciamento global de competências, que inclui tanto os
conhecimentos especializados e teóricos, quanto os saberes básicos e práticos. Passada
a bonança, a tempestade. Na última parte, intitulada “Problemas”, Lévy
busca responder a denúncias contra o ciberespaço. Rebate a crítica da
substituição, segundo a qual o real substitui o virtual; a telepresença,
o deslocamento físico. Para ele, os modos de relação, conhecimento e
aprendizagem da cibercultura não paralisam nem substituem os já
existentes, mas antes os ampliam, transformando-nos e tornando-os mais
complexos. Quanto
às denúncias, concentra seu fogo em quatro questões: a exclusão e o
aumento das desigualdades, a cibercultura como sinônimo de caos, a ameaça
das culturas e de diversidade de línguas (em miúdos, o domínio do inglês)
e a pressuposta ruptura dos valores fundadores da modernidade européia. No
caso da exclusão, admite que as tecnologias produzem excluídos, mas aposta
no aumento das conexões, com a queda de preços nos serviços, e alerta:
mais do que garantir o acesso é preciso assegurar as condições de
participação no ciberespaço. Às
críticas quanto ao domínio da
língua inglesa, responde que é uma questão de iniciativa, pois qualquer
um pode colocar no ar mensagens em chinês, grego, alemão. O
autor acredita que a cibercultura seja a herdeira legítima da filosofia das
Luzes e difunde valores como fraternidade, igualdade e liberdade. “A rede
é antes de tudo um instrumento de comunicação entre indivíduos, um lugar
virtual no qual as comunidades ajudam
seus membros a aprender o que querem saber”. Diante da profusão do
fluxo informacional e do caos emergente que isso venha a causar, ele acena
que a rede tem a sua própria forma de controle: a opinião pública e as
instituições que dela fazem parte. Ao
que parece, ao colocar as questões, Lévy pretende cutucar aqueles de quem
ouve críticas. Para conhecer a Web, navegue nela; esse é o melhor meio,
melhor do que muitos livros, insiste. Em nenhum momento, transparece estar
dialogando com alguém diretamente, mas na entrevista à @rchipress ataca os
desafetos: as críticas à cibercultura traduzem a ignorância e o desejo de
manutenção de poder, “...porque há poderes e monopólios que estão
ameaçados. Muitos intelectuais são diretores de coleção nas editoras,
professores que animam as revistas e aí, com a rede, há todo um movimento
de comunicação que escapa às redes tradicionais”. Desde
o início, o autor explicita a sua intenção de deixar de fora as questões
econômicas e industriais, concentrando-se nas implicações culturais. Mas,
ele próprio, não consegue se desvencilhar da teia de coalizões sociais,
políticas e econômicas em que a técnica se insere e enaltece a “dialética
das utopias e dos negócios”, numa referência à relação da
cibercultura com a globalização econômica. Sem dúvida, questões tão
complexas como essas mereceriam tratamento mais aprofundado. Segundo Lévy,
o próprio ambiente, instável, dificulta a formulação de grandes
respostas. De qualquer forma, ele consegue dar o seu recado: é preciso
navegar neste mundo de transformações radicais. Notas: (1) Ver http://archipress/org/levy/entretien.htm
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