Ciberlegenda Número 4, 2001
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A INTERNET QUE NOS PROTEGE |
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Luana Negrelly Saraiva (negrelly@yahoo.com) e
Adilson Cabral (acabral@ax.apc.org
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RESUMO A partir de uma análise das relações interpessoais nos canais de chat, pretende-se mostrar a Internet como um espaço de proteção da mesma sociedade repressora que a criou, abrindo portas para o desenvolvimento e o resgate dos valores humanos. ABSTRACT Analyzing
the interpersonal relations in the chat rooms, we intend to show Internet
as a space of protection from the same repressive society that built it,
opening doors to the development and the rescue of the human values. PALAVRAS-CHAVE Internet
– sociedade - cibercultura INTRODUÇÃO
As relações
interpessoais através da Internet vêm se tornando cada vez mais
complexas e frutos de conexões que refletem aspectos sócio-culturais de
uma nova realidade que podemos caracterizar como mundo virtual, em
contraposição, ou mesmo como prolongamento, de um possível e já
familiar mundo real. Ao perceber a Internet como um novo e determinante
meio de comunicação que está mudando as formas de relacionamento entre
pessoas e grupos, pretendemos investigar nesse artigo até que ponto as
relações interpessoais poderão mudar após o surgimento da Internet,
pois várias pessoas em todo o mundo já estão online e muitos internautas passam a trocar momentos de sua vida
social ‘real’ pela ‘virtual’. O
objetivo desta pesquisa é estudar alguns aspectos comportamentais da
natureza do homem inserido na sociedade, as mudanças repressivas que a
sociedade exerce sobre ele e como ele se comporta diante de um ambiente
(Internet) criado pela mesma sociedade que o transformou e moldou para
servi-la, oferecendo como paliativo a humanização da tecnologia através
da extensão das redes de comunicação para a vida social, capazes de
resgatar os valores humanos anteriormente ignorados. Procura-se
mostrar, portanto, que mesmo sendo produto de uma sociedade que desprotege
por ignorar e reprimir a natureza do homem, a Internet propicia um novo
espaço capaz de trazer de volta a supremacia dos valores do homem,
exaltando e intensificando emoções e sentimentos como os vividos ‘no
mundo real’. Esta
abordagem não só está baseada em experiências próprias, mas também
em depoimentos relevantes, sem a pretensão de uma amostragem
significativa, adquiridos através de pesquisas enviadas por email
a internautas sobre suas relações com esse novo mundo virtual, e em
colaborações de jornalistas especializados como Carlos
Alberto Teixeira, o C@T do Caderno
Informática Etc, do jornal O Globo, e Roberto
Cassano, da Revista Internet.br, além de referências bibliográficas
de autores como Pierre Lévy, Alexander
Lowen, Erich Fromm e revistas especializadas sobre o tema. Neste
trabalho não são enfocados aspectos políticos, econômicos, religiosos
ou jurídicos. Analisa-se somente as mudanças de comportamento e de
relacionamentos interpessoais do homem contemporâneo e sua interação
com a Internet. As qualidades da Internet como meio de comunicação soa
vistas aqui como um possível resgate da essência dos valores do homem,
baseada numa das mais importantes características da Internet que é a
liberdade, permitindo que o usuário defina seus próprios limites como
fuga da pressão que a sociedade exerce sobre a vida e o tempo de cada
indivíduo. A SOCIEDADE QUE DESPROTEGE O
homem vive numa sociedade repleta de novas regras que lhe são
‘cobradas’ todos os dias e em todos os lugares. Essas regras vêm de
todos os lados, pois dizem respeito ao comportamento interpessoal, à estética
que enfatiza a criação da “embalagem” do próprio indivíduo como
chamariz para a atenção dos seus semelhantes, de filosofias de vida para
encontrar uma estrutura fundamentada para a defesa dos seus hábitos,
costumes e opiniões pessoais. Numa sociedade violenta e insegura, o homem
aparece perdido, sem saber onde encontrar um lugar que seja capaz de
entretê-lo e que, portanto preencha os buracos causados por essa
avalanche diária de stress
psico-social. Começa
então um processo de uma ‘nova’ identidade do homem, quando ainda
criança, para que este seja recebido pela sociedade. Durante o processo
de aceitação dessas mudanças, o indivíduo termina, inconscientemente,
reprimindo sua essência, seus desejos e seus instintos naturais e assim
transformando-se num homem “padronizado” e “fabricado”. Diante
dessa resistência à sua própria natureza, é possível dizer que os
diversos problemas psicológicos e desvios comportamentais do homem adulto
se originam a partir do momento em que ele entra em contato com o mundo,
interagindo com ele. Toda essa repressão causada pela família,
representante da sociedade na vida da criança, desencadeará futuros
problemas de identidade individual. Freud acreditava que “a civilização
é produto da frustração dos instintos e, portanto, a causa de
enfermidades mentais”. (1) 1.1
- O primeiro contato com a sociedade
O convívio social do indivíduo e seu contato com a sociedade ocorrem
quando ele começa a freqüentar o meio educacional, a escola. Nesta etapa
de crescimento intelectual e social do homem, o ambiente escolar e seu
componente pedagógico se encarregam de oferecer um leque de informações
padronizadas pela sociedade, apresentando-as como o caminho a ser
percorrido para alcançar o sucesso, a felicidade e a realização
profissional. Erich Fromm afirma que “o
homem moderno é alienado de si mesmo, de seus semelhantes e da natureza.
(...) Transformou-se num artigo, experimenta suas forças de vida como
investimento que lhe deva produzir o máximo lucro alcançável sob as
condições de mercado existentes”. A
partir da definição da opção profissional, o homem admite uma função
uniformizada da identidade, aceitando novamente os padrões impostos que
estará ‘condenado’ a seguir pelo resto da sua vida. Essa nova
identidade pode ser considerada conseqüência do medo de aceitar a si
mesmo, muitas vezes diluídos no indivíduo ou violentados ao decorrer da
sua vida. Portanto, é possível dizer que é uma nova identidade. Lowen
afirma que o problema real do homem moderno “é
o medo de ser si mesmo, o medo de que sua verdadeira natureza (self) seja
impura, inadequada, inaceitável. Este medo força-o a ocultar seus
sentimentos e sensações genuínas, mascarar a expressão dos mesmos,
aceitar o papel que lhe foi exigido”. Conseqüentemente,
o homem inserido na sociedade, além de confuso com relação a si mesmo,
está fadado à frustração, ao tédio e ao desenvolvimento de neuroses. 1.2
- O homem moderno na sociedade capitalista
Na sociedade capitalista ocorre uma redefinição do sentido de ‘satisfação
plena do indivíduo’, quando este assume que sua felicidade será conseqüência
do seu sucesso profissional, do ganho de poder no trabalho e de poder de
consumo. Ou seja, sua valorização passa a ficar diretamente ligada ao
TER e POSSUIR. Diante
da pressão exercida no homem pela cultura do ‘fazer’ em troca da
satisfação e realização pessoal, o indivíduo nega e se aliena dos
seus próprios valores humanos. O medo de assumir que pode sofrer, faz com
que ele se sinta um indivíduo diferente, incapaz de competir por sua
realização pessoal ‘material’ e, portanto, sofrer um “corte” do
rebanho ao qual pertence. O
fato de o homem pertencer a uma cultura capitalista faz com que ele aceite
que a avaliação do seu valor como ser humano seja dado por sua
capacidade de produzir, e que esta se transforme em sinônimo de
autenticidade da sua personalidade individual no grupo. Esse comportamento
leva o homem ao medo de não pertencer, ao medo de fracassar como indivíduo
(ou como máquina?), ao medo da perda da sua identidade (que na verdade não
passa de uma identidade social), ao medo da rejeição do grupo, ao medo
de ‘ser humano’. Não
consciente do medo da vida, o homem se cansa da rotina de trabalho, cai no
tédio, e se sente só. Essa solidão não é conseqüência do abandono
do seu grupo e sim, causa da negação dos seus valores humanos, pelo
vazio que carrega no seu interior ao “sentir e viver”. Na realidade, o
tédio passa a ser uma constante da sociedade capitalista já que foi
criado por ela, e o indivíduo passa a ser um consumidor compulsivo em
busca de novidades sempre.
1.3
- Um vazio que pode ser preenchido O
homem quer possuir para se sentir livre, mas não é consciente da sua ausência
de liberdade quando não pode romper seus vínculos com o que possui,
fazendo com que o indivíduo se sinta capaz, útil, e identificado com seu
grupo, porém alimentando a solidão que carrega em si ao ignorar seus
valores naturais. Diante
desse sentimento que o aterra diariamente, o homem se vê diante de um
desafio íntimo que pode ser o começo do preenchimento dessa lacuna
interna e do encontro de sua verdadeira identidade individual natural. O
desafio citado refere-se à coragem de SER a partir do autoconhecimento e
da auto-aceitação. O homem neurótico, que é o homem moderno da
sociedade capitalista, luta contra a sua saúde emocional ao evitar
conhecer-se intimamente por temer o sofrimento e o fracasso. Confrontar o
seu caráter significa se conhecer, deixar acontecer ou fazer sem
‘intuito de’. É a realização de desejos sem pressa, sem pressão,
sem razão, para a sua satisfação imediata ou momentânea. O homem não
permite ter essa liberdade e se resguarda com uma culpa que não é capaz
de superar e nem de entender. Ele possui duas atitudes existenciais, o TER
e o SER. O ‘ter’ está calcado nas ações do homem ao incluir a
razão, que representa o seu lado ‘egóico’. Essa atitude é a que
domina o homem diariamente porque faz parte da estrutura do seu ser. O
‘ser’ envolve atitudes realizadas através das sensações do indivíduo,
sem um objetivo a ser atingido, nascendo naturalmente do seu interior,
sendo até inconscientemente realizado. Ao contrário do que deveria
acontecer, o homem ‘se esquece’ e se valoriza pelo o que é capaz de
produzir. A
solução do dilema ‘ser e viver’ do homem pode estar no aprender a
entregar-se às emoções, a aceitá-las e respeitá-las como parte da sua
individualidade. É a permissão do homem de ser realmente quem ele é,
reconhecer sua essência, apresentá-la aos seus semelhantes e desfrutar
dela plenamente. 1.4
- Uma solução moderna na ponta dos dedos Diante
de uma sociedade que se renova a cada segundo, graças a seu
desenvolvimento tecnológico, e diante da atração do homem pelas máquinas,
a Internet vem despertar um grande interesse. Sendo um produto da
sociedade, a Internet poderia ser também um obstáculo para o
desenvolvimento emocional do homem, mas é através dela que o próprio
indivíduo encontra uma porta para o auto-conhecimento graças às novas
características que seu ambiente proporciona aos seus usuários. A
sociedade criou um mundo novo dentro de um computador repleto de novidades
em todos os campos, que torna acessível a comunicação globalizada e que
também traz ao homem a possibilidade de estabelecer novos tipos de
relacionamento interpessoal, devido a sua capacidade de desenvolver formas
‘virtuais, porém reais’. A
fugacidade da rede é um dos seus maiores atrativos, pois a interação é
imediata e de validade ínfima, facilitando, portanto, a escolha das
companhias e a duração das relações que se criam ou mantém. Outra
característica a ser mencionada é que, estando em casa, onde a Internet
pode ser acessada normalmente e os usuários se sentem mais seguros, mais
concentrados e mais à vontade para falar com os demais sobre si mesmos,
redefinindo seu tempo e disposição, usando a Internet como meio de
definição personalizada para as novas formas de relacionamento
interpessoal. Mostramos em seguida que, essas características prometem a
mudança de comportamento social do homem e da sua visão de tempo e de
mundo, sendo abordadas para esclarecer as mudanças nos relacionamentos
humanos, que atualmente não satisfazem totalmente as necessidades do
homem inserido na sociedade contemporânea. A INTERNET COMO ESPAÇO DE PROTEÇÃO
Através da própria natureza humana, movida por sua curiosidade no
desconhecido, a Internet vem crescendo e conquistando mais espaço no
mundo virtual, oferecendo diferentes formas de comunicação, exploradas
ao mesmo tempo por pessoas que buscam novas formas de interação pessoal
que prometam alguma satisfação emocional e, portanto, individual. A
Internet, como um meio inovador de comunicação, surge para romper
barreiras preconceituosas, delimitadoras do desenvolvimento emocional do
indivíduo, que, ao mesmo tempo, percebe a necessidade de sentir sem medo
as emoções da vida, exaltando sua própria natureza e se permitindo
conhecer e desfrutar sua existência na sua totalidade, sem temer a rejeição
causada pelos obstáculos que a própria sociedade criou para sua aceitação.
2.1
- Relação entre tempo real e tempo virtual
A comunicação virtual desenvolveu uma nova relação do tempo a partir
dos recursos presentes na cibercultura, passando a atribuir novos
comportamentos em relação à época em que se desconhecia a Internet. A
cibercultura, segundo Pierre Lévy, define a cultura que se formou a
partir do surgimento do mundo virtual e que desenvolveu por si só, novos
conceitos ideológicos, comportamentais, sociais, artísticos e econômicos,
estimulados pela troca constante de informações variadas e
compartilhadas por pessoas de todo o mundo, sem a existência da
territorialidade do mundo real. O
tempo real é o que está acontecendo na vida real através da interação
do homem com seus semelhantes, mas é também um tempo restrito, já que a
organização da sociedade o condiciona para que tenha começo, meio e
fim. O tempo real é determinado pelo próprio homem, que se transformou
num escravo da própria criação. Em outras palavras, o tempo real
acontece num imediato pré-estabelecido pela sociedade. O
tempo virtual, ao contrário do tempo real da vida real, pode ser definido
pelo internauta, e a Internet passa a ser um mundo que permite ser
explorado em sua totalidade, sem limites nem obstáculos da vida real,
oferecendo assim, uma realidade virtual capaz de representar um mundo que
não dorme. Através desse poder de escolha, dentre muitos outros que serão
abordados posteriormente, o usuário se sente mais livre para conhecer e
participar de um novo mundo. 2.1.1
- O tempo virtual nos relacionamentos interpessoais na Internet
Conhecer pessoas pela Internet já é mais que um fato nos dias de hoje,
virou hábito e hobby entre
muitos jovens e adultos. Através de programas como o ICQ (em inglês I
Seek You, e que em português quer dizer ‘Eu te procuro’) ou o Yahoo
Pager criados exclusivamente para unir pessoas de todo o mundo através
de chats -
conversas desenvolvidas a partir do teclado, em tempo real, também
através de sites ou servidores próprios - são elaboradas todas as
facilidades para criar um ambiente descontraído e propício para conhecer
pessoas através de bancos de dados com informações pessoais dos usuários. O
diferencial da Internet para o usuário é o fato dela acontecer em tempo
virtual. Ou seja, o tempo virtual é um tempo não linear que dá ao usuário
a total liberdade para reestruturar a definição de tempo na sua vida. Ao
estabelecer relacionamentos interpessoais pela Internet e pelos programas
de chat, cria-se também a
personalização do tempo do usuário para marcar encontros ou visitar
salas de bate-papo. O tempo virtual contempla e expande o tempo real e o
homem passa a ser responsável pela redefinição de seus horários. O
tempo real da vida real é um tempo linear que cria no indivíduo uma
dependência sufocante, causada pela inexistência da intervenção do
homem, de acordo com suas necessidades individuais. As variáveis de tempo
do mundo virtual dependem única e exclusivamente da disponibilidade do
usuário, ou seja, ele redefine seu tempo de acordo com o seu desejo de
realizar as mesmas coisas que, na vida real, estão rodeadas de pré-requisitos
inibidores da expressão de sua verdadeira identidade e valores para os
demais. Os
serviços de conversas online da
Internet estão, a cada segundo, se transformando na arena mais disputada
- porém nunca esgotável - para encontros entre pessoas de todo o mundo.
O limite do homem em determinar oportunidades para promover situações
que facilitem apresentações na vida real depende de fatores materiais,
como o espaço físico, o tempo, a distância, e fatores humanos, como a
disponibilidade das pessoas que ele deseja estar em contato. 2.1.2
- A fugacidade Outra
característica das relações interpessoais no tempo e no mundo virtual
é a possibilidade de propiciar relacionamentos ‘fugazes’. Num
ambiente de chat, as amizades podem durar minutos, horas, dias ou anos. Tudo
depende da disponibilidade e interesse dos usuários. A troca de informações
pessoais, de revelações individuais, da identificação com o outro
através das afinidades que são descobertas entre os dois usuários, se
desenvolve de acordo com a necessidade de cada internauta decidir o
momento de intensificar a relação. Mas a intensificação dos
relacionamentos interpessoais virtuais fica sujeita ao timing
pessoal de cada internauta que determina o tipo de informação
enviada, criando ou rompendo barreiras para sedimentar a relação. 2.1.3
- Velocidade e imediatismo A
velocidade e o imediatismo da Internet são características que
determinam cada vez mais os comportamentos dos usuários. Há uma emergência
na comunicação virtual que intensifica os contatos e agiliza o intercâmbio
de informações entre os usuários. O imediatismo da Internet cria um
ambiente que desenvolve no homem uma nova lógica que fomenta o raciocínio
ágil. A nova lógica do mundo virtual exige do homem uma imposição
individual, estabelecendo limites para o excesso de informação,
desenvolvendo o autodidatismo, rompendo fronteiras e preconceitos.
Compreende o processo da interação globalizada, e rompe com a
propriedade da informação. Além disso, exclui qualquer obstáculo que
impossibilite o acesso imediato às informações e alimentam o
desenvolvimento da inteligência humana. O
autodidatismo se desenvolve através do uso freqüente da Internet, já
que ela providencia constantemente tutoriais que ensinam o usuário a
navegar sem se perder. Após o uso freqüente da rede, alguns tutoriais básicos
passam a pertencer à lógica do internauta, facilitando o uso de todos os
recursos da Internet. Através
dessa nova lógica, o homem adquire uma flexibilidade maior de compreensão
da interatividade globalizada das informações que, ao entrar no mundo
virtual, pertencerão a todos que as acessam. 2.2
- Perfis de internautas e o auto-conhecimento
Na
busca por uma liberdade maior de expressão que facilite a comunicação
com outras pessoas identificadas com suas características e seus valores
individuais, as pessoas encontram nos programas de chat
disponíveis na Internet uma variedade de escolhas e meios para
estabelecer contatos com pessoas de todo o mundo. Segundo a psicóloga Ana
Maria Nicolaci: “Quem
é assediado porque é muito bonito, numa sociedade que cultua a beleza,
pode aprender que os outros apreciam suas opiniões, seu humor, sua
inteligência. Quem é rico e, na Rede, não vai pode atrair os outros
simplesmente porque sua casa tem piscina, seu carro é importado, ou
qualquer razão análoga, terá a oportunidade de testar o quanto atraem
seus hobbies, seus interesses por esportes ou sua sensibilidade.” Através
das telas dos programas de bate-papo e do espaço livre para escrever, o
internauta sente que suas emoções podem ser expressadas e sentidas com a
mesma ou maior intensidade que são sentidas na vida real. Uma
característica comum em todos os internautas é o anonimato. O uso de
‘apelidos’ ou nicks são um convite quase irrecusável para a explosão da
criatividade e da imaginação do indivíduo, fazendo-o se sentir mais á
vontade para o desenvolvimento de personagens ou para a criação de
identidades diferentes a sua. Alguns internautas buscam o isolamento, o
afastamento da vida real e das pessoas reais, e criam uma abertura maior
com ele mesmo e com quem ele se comunica. Essa abertura se dá devido ao
tempo que ele dispõe e estabelece como o ideal para expor suas idéias
num determinado momento do seu dia. O
tímido é facilmente encontrado em programas de chat
e é, muitas vezes, o que mais conversa através de seu teclado. Para ele,
a tela do computador tem uma característica primordial na sua vida
social. Atrás de uma máquina não há olho-no-olho, e os programas de
bate-papo passaram a ser a válvula de escape para essas pessoas, que
acabam desenvolvendo os mesmos relacionamentos que tinham na sua vida
social virtual ou na vida real. Entretanto,
a Internet que une pessoas e faz casais em todo mundo, também cria obstáculos
que são próprios dos relacionamentos virtuais. A distância física é
um obstáculo muitas vezes difícil de suportar, que termina causando
tristes finais nos relacionamentos. A saudade leva o casal a freqüentar,
cada vez mais, os programas de chat.
Outro
problema nas relações virtuais é o mal entendimento do que se escreve.
O usuário é forçado a criar formas diferentes de expressão, de acordo
com o assunto que está sendo abordado, já que não é possível perceber
o estado anímico da pessoa naquele momento. Para isso, os casais criam
formas personalizadas de expressão de sentimentos e emoções que podem
facilitar a comunicação via teclado. No
mundo virtual é possível destacar vários outros tipos de internautas,
todos eles em busca da realização de um desejo: os pesquisadores, os que
buscam realizar fantasias sexuais através de imagens ou através do voyeurismo,
os que simplesmente precisam da Internet e dos programas de bate-papo
para manter contato com familiares, namorados(as), pessoas distantes, os
que buscam um ombro amigo nas horas de solidão, entre muitos outros. Através
da expressão de sentimentos e emoções, da troca de experiências, da
reflexão diante de uma pergunta pessoal que o indivíduo tem a
oportunidade de se expressar, de mostrar o que ele realmente é, se ele
realmente se dispõe a isso. Como conseqüência, o homem termina
desenvolvendo um valioso processo de auto-conhecimento. Nesta etapa, o
indivíduo passa a atribuir valores a sua identidade que serão
respeitados pelos outros indivíduos. A Internet devolve ao indivíduo a
segurança da aceitação da sua individualidade a partir do
auto-conhecimento, além da sensação de proteção que ela oferece, ao
desenvolver um espaço propício e sempre disponível para a liberdade de
expressão dos internautas. 2.3
- A auto-suficiência através da Internet
Diante do crescimento dos vários serviços que a Internet oferece como
cursos online de idiomas, de pós-graduação e mestrado, acesso a
bibliotecas do mundo todo, entrevistas com profissionais de todas as áreas
e meios de contato essas pessoas, e informações sobre instituições e
universidades de todo o mundo, desenvolve-se junto a cada serviço criado
uma relação homem-máquina, onde o indivíduo passa a encontrar soluções
imediatas para suas necessidades existenciais. Diante
destas e das outras necessidades existenciais do homem, a Internet
desenvolveu uma estrutura de serviços para a satisfação de tais
necessidades. No que diz respeito ao consumo de produtos e idéias, o
internauta tem acesso a mercados, livrarias, lojas de roupa, lojas de música,
restaurantes, serviços médicos, bancários, etc. Na área da informação,
qualquer tipo de fonte informativa pode ser encontrada à disposição do
internauta com a constante atualização das informações. Todos
esses serviços têm em comum uma característica que conquista novos
internautas a cada minuto. A ausência de stress,
das filas, da burocracia exagerada, do tumulto, do limite dos horários e
dos engarrafamentos do mundo real, que fazem com que o indivíduo se
entregue às facilidades e ao conforto de poder satisfazer suas
necessidades através do mundo virtual, sem ter que abdicar de outros
compromissos e de algumas horas de lazer. Conseqüentemente, a vida do
homem contemporâneo passa a ser poupada psicologicamente e fisicamente do
caos urbano da sociedade, possibilitando um maior rendimento e
aproveitamento do tempo como um todo. 2.4
- A Internet como proteção Diante
das características que a Internet possui como meio inovador de comunicação
globalizada e interativa, cria-se uma sensação de proteção, de abrigo
e de segurança no usuário, em função de sua estrutura similar a do
mundo real. Com o resultado do desenvolvimento de um ambiente similar ao
da vida real, temos um ambiente muito mais interessante do que o do mundo
real, porque oferece a segurança do anonimato, oferece um novo conceito
de tempo real/virtual, explora a escrita como forma de expressão da
intimidade individual, e cria novas formas de relacionamento. Conseqüentemente,
foram resgatadas antigas necessidades de comunicação, servindo
atualmente como artifício para preencher os vazios que a sociedade
repressora e dominadora criou, colaborando, portanto, com o
desenvolvimento da civilização real e virtual, e as necessidades de cada
ser humano. Na
Internet, a ordem é oferecer ao homem todas as possibilidades e acessos
possíveis para que ele se sinta completamente à vontade para se
expressar naturalmente, de se auto-descobrir e de ser ele mesmo. CONCLUSÃO O
homem está aprendendo a lidar com o que não é material. A cultura do
virtual tornou-se um convite para o indivíduo superar o medo de acreditar
em algo não palpável, que fosse capaz de prover todas as ferramentas
necessárias para a produção intensificada das mesmas emoções sentidas
por ele na vida real. O receio e a curiosidade pelo 'novo' criam sensações
antagônicas que fazem com que o mundo virtual se torne único, que sua
cultura seja única, e que as sensações sentidas através de uma fria
tela de computador se tornem mais especiais. O homem pertencente à
sociedade contemporânea está passando por uma fase de desenvolvimento
pessoal, que é o reconhecimento do seu 'ser'. Entretanto, para toda e
qualquer mudança numa sociedade capaz de mudar o 'óbvio' da vida do
homem regido pela mesma, deve existir um tempo de adaptação e aceitação
individual para que cada um possa tirar do 'novo' o que há de melhor
nele. A
distância entre o real e o virtual está se tornando mínima e o homem já
admite o seu real envolvimento com o mundo virtual. O difícil é
compreender que o mundo intangível e virtual está sendo protetor dos
temores reais do homem, e que este pretende criar um espaço seguro para
que cada cidadão virtual possa ter a liberdade de expressão necessária
para resgatar o valor real do ser humano. O
interesse pelo conhecimento desse novo mundo e o envolvimento com ele
tornou-se sinônimo de liberdade e sonho, e a fuga perfeita para os que
sofrem com a pressão de terem que ser o que não são e serem obrigados a
fazer parte de uma sociedade repressora.
O
mais importante é que o homem está criando um novo referencial desde a
criação da Internet, e com esse novo referencial ele estará pronto para
entender realmente as novidades que o mundo virtual tem para oferecer, e
poderá encarar de outra maneira seus conflitos internos e as dores da
alma, em busca de uma solução. Cada
indivíduo 'navegante' desse mundo virtual determina a função da
Internet em sua vida, mas todos encontram nela a fuga das pressões psicológicas,
físicas e emocionais da sociedade que desprotege. O mais fascinante é
sensação de ter encontrado um hipnotizante e sedutor caminho que leva
cada ser humano a abrir seu coração e sua alma para o mundo e saber que
os seus valores são a sua verdadeira identidade. NOTAS
1
- FREUD, Sigmund, In FROMM, Erich. Psicanálise
da Sociedade Contemporânea, São
Paulo, 1983, pág 84. 2
– FROMM, Erich. A arte de amar. Belo horizonte, Ed. Itatiaia. S.d. 3
– LOWEN, Alexander. Medo da vida: caminhos da realização pessoal pela vitória sobre o
medo. São Paulo, Summus, 1986. 4
- NICOLACI-DA-COSTA, Ana Maria. Na
malha da rede: os impactos íntimos da Internet. Rio de Janeiro. 1998.
pág. 223 BIBLIOGRAFIA
CASSANO,
Roberto. Viciados em Internet – Cuidado: navegar é muito bom, mas não
deixe que seu lazer vire dependência. Internet.br.
Rio de Janeiro, nº 35, p. 44 a 46, abr. 1999. FROMM,
Erich. A arte de amar. Belo
horizonte, Ed. Itatiaia. S.d.
A revolução da esperança:
por uma tecnologia humanizada. São Paulo: Ed. Zahar, 1981.
Psicanálise da sociedade
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São Paulo, Ed. 34, 1999. LOWEN,
Alexander. Medo da vida: caminhos da realização pessoal pela vitória sobre o
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Rio de Janeiro, nº 37, p. 38 a 40, jun. 1999. NICOLACI
DA COSTA, Ana Maria. Na malha da rede: os impactos íntimos da Internet. Rio de Janeiro,
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AUTORES. Relacionamentos entre iguais. Internet.br.
Rio de Janeiro, nº 37, p. 42 a 44, jun. 1999.
Nunca é tarde para navegar. Internet.br.
Rio de Janeiro, nº 38, p. 70 a 71, jul. 1999.
Trair e clicar (ou vice-versa). Internet.br.
Rio de Janeiro, nº 38, p. 66 a 67, jul. 1999. Luana Negrelly Saraiva é graduada em Comunicação,
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