A Utilização do Jogo como Recurso Didático-Pedagógico no Ensino de Geografia: algumas reflexões a

partir dos estudos de Piaget

 

Neimar Ferreira Nobre1

 

Resumo

 

Este trabalho de monitoria é fruto de tarefas realizadas no Laboratório de Ensino de Geografia

da UFF e tem como meta discutir a importância e a utilização do JOGO como recurso didáticopedagógico

no ensino de Geografia. Procuramos fazer uma abordagem na qual esse recurso se

sobressaísse como um meio do ensino-aprendizagem e não como um fim ou algo a ser utilizado apenas

para entreter os alunos. Segundo Piaget (1975), através do jogo a criança constrói o conhecimento

sobre o mundo físico e social, desde o período sensório-motor até o operatório formal. O jogo pode ser

definido como “o conjunto de atividades às quais o organismo se entrega principalmente pelo prazer da

própria atividade” (Kami e Devries, sd, p. 29). Neste trabalho apresentaremos os três tipos de jogos

defendidos por Piaget - os jogos de exercício, os jogos simbólicos e os jogos de regras - e também

traremos das questões pertinentes a sua aplicabilidade no ensino de Geografia.

 

Introdução

 

Este trabalho tem como meta discutir a importância e a utilização do JOGO como um dos

recursos didático-pedagógicos a serem aplicados no ensino de Geografia. Procuramos fazer uma

abordagem na qual esse recurso se sobressaísse como um meio do ensino-aprendizagem e não como

um fim ou algo a ser utilizado apenas para entreter os alunos.

Para um melhor desenvolvimento do trabalho, utilizamos a metodologia sobre jogos aplicada

nos estudos de Piaget (1975) e de seus colaboradores, obtendo assim uma fundamentação teórica que

nos orientará na construção da importância e da utilização deste recurso. Com isso, esperamos

apresentar um trabalho que proporcione aos alunos um melhor aproveitamento das operações mentais

de acordo com os diferentes tipos de jogos e que, conseqüentemente, ajude o professor no seu papel de

mediador.

Segundo Piaget (1975), através do jogo as crianças constroem o conhecimento sobre o mundo

físico e social, desde o período sensório-motor até o período operatório formal. O jogo pode ser

definido como “o conjunto de atividades às quais o organismo se entrega principalmente pelo prazer da

própria atividade” (Kami e Devries, sd, p. 29).

O jogo pode se constituir como um bom recurso para o professor, pois através dele será possível

ampliar a ação e o objetivo do docente que, conseqüentemente, interagirá melhor com os seus alunos,

aproveitando as situações proporcionadas por essas atividades.

Na sala de aula o jogo proporciona um espaço de encontro, de inclusão e de trabalho, tornandose

um bom instrumento, já que cria um significado tanto para o aluno quanto para o professor.

Sendo assim, o jogo coopera com o desenvolvimento do aluno, pois trabalha sua capacidade de

imaginar, de planejar, de criar situações adversas, de atuar, de encontrar soluções, de construir, de

interagir, de criar regras, de aceitar normas e até de se auto-avaliar.

Por isso, o jogo se constitui como um bom recurso didático-pedagógico, e quando bem

aplicado, pode se tornar uma ferramenta a mais e muito útil no processo educacional.

 

A utilização do jogo na escola

 

A utilização do jogo na escola permitirá ao aluno uma forma de contato com a realidade lúdica,

permitindo uma possibilidade a mais para construir o conhecimento.

Através do jogo, é possível trabalhar o conhecimento de uma forma mais prazerosa, durante as

atividades os alunos se sentem bem devido ao domínio que exercem sobre as ações. Garantindo, com

isso, um outro tipo de motivação para o aprendizado. Pois, por meio do jogo a energia do aluno é

canalizada e liberada na atividade, orientando seu pensamento e proporcionando o desenvolvimento

cognitivo.

Dessa forma o jogo consegue atrair o aluno e ser, ao mesmo tempo, um fator de integração, pois

o convida a interagir consigo, com os seus colegas e com um mundo muito maior a sua volta. O aluno

cria laços e entra em contato cada vez mais profundo com a realidade. Porém, o jogo só despertará o

interesse e se tornará um fator integrador, se trabalhado de forma coerente ao momento cognitivo.

 

Os Tipos de Jogos e seus usos na Geografia

 

A partir da definição dada por Piaget são três os tipos de jogos: jogos de exercício, jogos

simbólicos e jogos de regras. Passemos, então, para um pequeno resumo de cada tipo de jogo e algumas

exemplificações de seu uso no ensino da Geografia.

Jogos de Exercício

Este tipo de jogo, apesar de ser caracterizado pela etapa que vai desde o nascimento até o

aparecimento da linguagem, pode ser utilizado durante toda a infância. Nesta categoria se encaixam os

jogos que devem ser de ação, com esquemas simples e adoção de uma prática repetitiva. Dessa

maneira, a repetição será utilizada para que o aluno encontre um mecanismo que lhe dê deleite em fazer

funcionar e exercitar uma estrutura já aprendida.

Este tipo de jogo pode ser utilizado para que o aluno possa interagir e conhecer melhor o espaço

da ação, do cotidiano. A proposta é de que os jogos sejam atividades de movimentos simples como

deslocamento e ordenamento, procurando observar questões como próximo/longe, dentro/fora e em

baixo/em cima. Dessa forma, podemos utilizar essas atividades com a finalidade de trabalhar posições

geográficas, noções preliminares de distância e tamanho (pré requisito para a noção de escala)..

Por exemplo, sobre as posições geográficas, depois de trabalhar os conceitos das rosas dos

ventos é possível criar atividades de exercícios que envolvam esse conceito, como um jogo de

handebol, uma caminhada orientada ou um jogo de orientação, onde os passos dados ou o caminho

percorrido pela bola sejam feitos com a orientação dos pontos cardeais; sobre a escala pode se colocar

o aluno de fronte a uma árvore, ou qualquer outro objeto bem grande, segurando uma régua e o fazendo

se aproximar ou se afastar, observando o que se pode ver dentro de uma determinada medida préestabelecida.

Através deste tipo de jogo é possível então, o desenvolvimento de atividades que explorem com

os alunos o domínio do espaço e as ações dentro deste espaço.

Jogos Simbólicos

Essa categoria de jogos trabalha com símbolos, os quais representam a assimilação do mundo

físico e social pelo aluno. Ou seja, o jogo possibilita a função de assimilação da realidade vivida e do

cotidiano. Sendo assim uma boa oportunidade para se trabalhar o espaço vivido, um espaço prático, no

qual as questões ao nível da ação e do comportamento podem ser amplamente discutidas e exploradas.

Os jogos simbólicos não são centrados em regras fixas, apresentam sempre uma certa

flexibilidade. Têm como característica desenvolver e trabalhar a imaginação por parte do aluno através

das representações que, no caso da Geografia podem ser as gráficas, cartográficas e artísticas, como:

construções de mapas, do desenho, do croqui, do teatro, do RPG, das histórias, entre outras.

Um exemplo desse tipo de jogo seria a construção de vários reinos “fantasia”, por parte dos

alunos. O professor pode solicitar que eles construam esse reino descrevendo algumas características

fisicas (elevações, rios, vegetação, fauna) e sociais e econômicas como grupos que ai vivem, principais

atividades econômicas, forma de governo. Depois de construído, pode-se requerer que os alunos juntem

todos os reinos e formem um mapa do “mundo fantasia” criado. A partir da construção do mapa, será

possível explorar com os alunos quais foram os elementos utilizados para a formação de suas

fronteiras, instigá-los a formar alianças, questionar a finalidade de uma aliança, estabelecer formas de

comércio e etc.

Então, através destes tipos de jogos de “faz-de-conta” possibilitamos ao aluno a realização de

atividades simuladas que os ajudam a expressar simbolicamente um espaço vivido, criando uma forma

de se relacionar com a realidade.

Jogos de Regras

Os jogos para poderem se encaixar nesta categoria devem ter como característica principal a

inclusão de regras fixas. Estas são importantes para que o aluno possa assimilar a necessidade do

cumprimento das mesmas e, por conseguinte, possa vivenciar, criar, discutir, aceitar e adotar as normas

da sociedade e da vida. Os alunos poderão encontrar as soluções para os problemas sugeridos e também

poderão desenvolver estratégias de ação para resolução dos mesmos, seguindo as regras estabelecidas.

O objetivo principal é desenvolver um raciocinio logico, afetivo e social. Mas, para que isso ocorra, é

necessário que nos jogos de regras “haja um objetivo claro a ser alcançado; que existam regras

dispondo sobre este objetivo; que existam intenções opostas dos competidores e que haja a

possibilidade de cada competidor levantar estratégias de ação” (Gonçalves, sd).

Os jogos de regras sociais trabalham as relações sociais, buscando no aluno o estabelecimento

de tomadas de decisões, a análise, a lida com as perdas e ganhos, a competitividade e a interação. Isso

tudo para que o aluno se torne apto a relacionar-se com o mundo e com as transformações que o

mesmo sofre constantemente.

Para exemplificar este tipo de classificação, é possível a criação de jogos do formato

“tabuleiro”, no qual os alunos são levados, num primeiro passo, a refletir sobre o dia a dia de sua vida e

a constatar a diversidade de pensamentos que podem envolver a solução de um problema. E, num

segundo passo, a comparar os diversos tipos de pensamento e analisar as características de cada um,

sendo então, orientados a criticar de maneira positiva ou negativa, se relacionando com a forma de

pensar de outras pessoas. A Geografia propicia a utilização de diversos tipos de jogos. Todo o interesse

que ocorre nos diferentes espaços seja nos bairros, cidades ou países do mundo, podem acarretar na

criação de jogos estratégicos, sejam eles de mercados ou geopolíticos.

 

Considerações Finais

 

Os jogos são instrumentos valiosos para o ensino, pois podem se constituir como ponto de

partida para a construção do conhecimento, possibilitando o aprendizado de conceitos e juízos. Os

jogos podem ser retirados do cotidiano, da experiência acumulada e de novas situações criadas e

construídas pelo próprio aluno. Dessa forma, o emprego de jogos na sala de aula possibilitará a criação

de um clima prazeroso de estudo, tanto para o aluno quanto para o professor.

A sua utilização na Geografia deve ser muita bem vista, pois pode ajudar a construir conteúdos

pertinentes a esses exercícios de conhecimento, tais com: compreender a relação entre o espaço e o

poder, coordenadas geográficas, ordenamento espacial, formação do território e territorialização,

relações econômicas e políticas, relação sociedade e natureza e formas de pensamentos contrastantes.

 

Bibliografia

 

GONÇALVES, Júlia Eugênia. Jogos: como e por que utilizá-los na escola. In.:

www.fundacaoaprender.org.br (acessado pela última vez em 16/07/2006)

PIAGET. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.

KAMI, Constance e DEVRIES, Rheta. A teoria de Piaget e a educação pré-escolar. Lisboa: Socicultura,

s/d

 

 

1 Professor de Geografia da rede de ensino público e privado e pesquisador associado ao Laboratório de Ensino de

Geografia (LEGEO) – UFF.