SOCIOLOGIA
AMBIENTAL: FORMAÇÃO, DILEMAS E PERSPECTIVAS[1]
Gustavo F. da Costa Lima[2]
Fátima Portilho[3]
A história dos esforços humanos para subjugar a natureza é também
a história da subjugação do homem pelo homem.
Max Horkheimer.
INTRODUÇÃO
Já faz três décadas que o que chamamos usualmente de “problemas ambientais” surgiram como importante preocupação na sociedade, embora circunscrita a alguns grupos. Antes disso, por volta de meados do século passado, já era possível identificar esta preocupação, porém principalmente circunscrita ao campo das ciências físicas e naturais. O próprio surgimento da Ecologia enquanto ciência, termo cunhado nos fins dos anos 60 do século XIX (1869) pelo biólogo alemão Ernst Haeckel, exemplifica a existência desta preocupação com o ambiente natural. Entretanto, a Ecologia, definida por Odum (1988) como “uma parte da biologia que trata do estudo das relações dos organismos, ou grupos de organismos, uns com os outros e com todos os demais fatores que compreendem o seu meio”, surge vinculada à Ciência Moderna e presa exclusivamente às Ciências Biológicas.
Apesar de surgir em um contexto de inquietação e denúncia dos cientistas naturais com os desequilíbrios ambientais, a ecologia nasce dentro de uma perspectiva explicativa e corretiva, sendo reduzida à “ciência das leis que regulam o equilíbrio da natureza”. Nasce, portanto desconectada dos aspectos socio-econômicos e culturais que produzem os “desequilíbrios ambientais” que pretende estudar e explicar. Nasce num contexto de industrialismo e fé no progresso, na ciência e na técnica. Nasce fragmentada, dentro do modelo cartesiano que divide as ciências e separa o homem da sociedade e a sociedade da natureza. Por certo, sabia-se que era da ação social do homem que vinham os desequilíbrios ambientais; mas não articulava-se a nova ciência a um “tipo de homem”, a um “tipo de sociedade” ou a um “tipo de desenvolvimento”. Restringiam-se a cuidar dos desacertos, uma vez que o desenvolvimento estava impondo seus custos (Mello e Souza, 2000).
As ciências sociais, por sua vez, transpunham para a sociedade o mesmo paradigma dominante de fé no progresso e na racionalidade humana. Tanto cientistas naturais quanto sociais ergueram suas teorias sobre duas premissas básicas: o modelo newtoniano e o dualismo cartesiano (Comissão Gulbenkian,1996[4]). Embora contemporâneos de Haeckel, os cientistas sociais de meados do século XIX permaneciam indiferentes aos problemas relativos à degradação do meio ambiente físico.
Essa iniciativa de introduzir o debate e a dimensão ambientais no interior da sociologia surgiu como uma resposta à intensificação dos impactos socioambientais negativos decorrentes da expansão econômica ou à reação social deflagrada por essas evidências de degradação. Chama atenção, no entanto, o fato dessa abordagem ambiental ter se desenvolvido tardiamente na sociologia, bem depois do tratamento pioneiro da biologia, ecologia, geografia, demografia, antropologia, ecologia humana e da economia, entre outras disciplinas. Coloca-se, portanto, a seguinte interrogação: porque a sociologia se posicionou tão tardiamente com relação à questão ambiental? São diversas as possíveis explicações para este fato, uma das questões que se pretende analisar ao longo deste trabalho.
Outros dilemas surgem junto com esta nova área das Ciências Sociais: de que ponto de vista devemos considerá-la? Trata-se de nova área de especialização dentro da Sociologia Geral, ou de um novo paradigma que a redirecionará por completo? Como vencer os novos desafios da interdisciplinariedade? Quais seus limites teóricos e metodológicos? Tendo em mente estes dilemas, pretendemos resgatar um histórico do surgimento e institucionalização de uma nova disciplina, analisando particularmente o debate ocorrido a partir de fins da década de 70 no meio acadêmico norte-americano. Vale ressaltar que o presente artigo tem caráter introdutório e objetivo de sistematizar e revisar parte da produção existente sobre o processo de institucionalização do campo, facilitando o acesso ao tema àqueles que se iniciam no campo em questão. Ressalte-se , ainda, que o presente ensaio se fundamenta, sobretudo, na produção de autores norte-americanos por tratar-se do contexto principal onde esse debate surgiu, embora já tenha sido expandido para outros contextos como o europeu e mesmo o brasileiro. Para tanto, utilizamos basicamente aqueles autores norte-americanos que já há algumas décadas se debruçam sobre o debate teórico, metodológico e de institucionalização da Sociologia Ambiental enquanto subdisciplina da Sociologia Geral. Estamos cientes da ampla produção teórica e empírica, de autores brasileiros e europeus, relacionada aos temas gerais da sociologia ambiental mas optamos por uma análise da experiência norte-americana pelo caráter pioneiro do surgimento e institucionalização da disciplina naquele contexto, assim como pelo debate e problematização que acompanha esse processo particular revelando, no conjunto, um quadro oportuno para o estudo da trajetória de constituição de um novo campo de saber com todos os seus conflitos, limites e possibilidades.
2. SOCIOLOGIA AMBIENTAL: SURGIMENTO E
INSTITUCIONALIZAÇÃO
A sociologia ambiental, enquanto iniciativa científica e acadêmica, surge a reboque dos movimentos de contestação à depredação dos recursos naturais e da constatação científica das conseqüências ambientais destrutivas resultantes dos processos de crescimento econômico, associados ao uso de tecnologias ambientalmente predatórias (urbanização caótica, crescimento demográfico exponencial, aprofundamento de desigualdades sociais e de estilos de vida, produção e consumo característicos do desenvolvimento industrial).
O nascimento do movimento ambientalista na década de 70 pegou os sociólogos “de surpresa”, com escassa produção teórica ou tradição de pesquisa empírica que os guiassem em direção ao entendimento da relação entre sociedade e natureza. Os pioneiros da sociologia clássica (Emile Durkheim, Karl Marx e Max Weber) tinham abordado a questão de modo implícito e tangencial e apenas raramente surgiam trabalhos isolados na área de sociologia rural, sem, no entanto, criar uma acumulação de conhecimentos que permitisse a criação de um campo teórico (PARDO,1998; REDCLIFT & WOODGATE,1994). Analisando os limites da teoria social clássica em relação aos temas ambientais, Giddens concorda que
não se chegou a prever que o desenvolvimento das “forças de produção” teria um potencial destrutivo de larga escala em relação ao meio ambiente material. Preocupações ecológicas nunca tiveram muito espaço nas tradições de pensamento incorporadas na sociologia, e não é surpreendente que os sociólogos hoje encontrem dificuldade em desenvolver uma avaliação sistemática delas. (GIDDENS,1991:17)
Hannigan (1997) propõe duas explicações para o fato dos sociólogos deixarem a questão ambiental como elemento marginal de suas explicações e teorias. Uma delas refere-se à compreensão dos sociólogos quanto às limitações do determinismo geográfico e biológico para explicar o desenvolvimento e a mudança social. Durante o século XIX, tornou-se hegemônica a tese de que as sociedades humanas eram determinadas pelas forças naturais. Acreditava-se que a influência do meio geográfico era mais forte nas sociedades “primitivas” e que essa influência declinava a medida que as sociedades se aproximavam da modernidade. Paralelamente, desenvolvia-se a explicação biológica para as mudanças sociais, através de conceitos popularizados pela teoria darwinista como os de “evolução”, “seleção natural” e “sobrevivência dos mais aptos”. A oposição à corrente geográfica e biológica enfatizava o processo cultural como influência chave em todos os aspectos da sociedade humana. A compreensão das limitações dos determinismos geográfico e biológico e as críticas que a eles foram dirigidas provocaram uma certa aversão, entre os sociólogos, à considerações e explicações que utilizassem dados biológicos/ambientais para compreender as mudanças sociais.
A segunda explicação refere-se ao próprio pensamento dos sociólogos que, em meados do século XX, enfatizavam a literatura sociológica da modernização ressaltando os benefícios da inovação tecnológica e do desenvolvimento econômico dentro da literatura sociológica da modernização, hegemônica durante duas décadas, de 1955 a 1975. A maioria dos sociólogos da modernidade ignorava o ambiente natural ou o via somente como algo a ser dominado. É claro que haviam críticos ao paradigma pró-desenvolvimento, como os sociólogos marxistas; mas, assim como viam a religião, eles tendiam a ver a natureza também como um desvio das necessidades de lutas de classe. Mesmo quando os problemas ambientais eram evidentes, eles tendiam a focalizar mais a questão das relações de poder.
Da mesma forma, Giuliani (1998) lembra que a sociologia nasceu com a marca de um pensamento que tornou a sociedade independente da natureza e que esta concepção foi uma conquista da modernidade, já que a grande revolução no pensamento moderno consistiu na eliminação de qualquer influência de forças externas sobre a sociedade (tanto as “leis de Deus” quanto as “leis da natureza”). E complementa: “com a sociologia os homens se tornavam, finalmente, responsáveis por seus atos e eram livres para construir sua sociedade, conservando, ao mesmo tempo, o antigo sentimento de serem os dominadores da natureza”(p.153).
Buttel (1992) assinala o relacionamento ambíguo da sociologia, em sua fase de construção, com as ciências naturais. Se, de um lado, o pensamento sociológico foi influenciado por conceitos trazidos da biologia e por uma postura científica e metodológica das ciências naturais, por outro lado, a própria necessidade de legitimação das ciências sociais exigiu uma reação contra o simplismo das explicações oriundas dos determinismos biológico e geográfico, conforme mencionado anteriormente.
Cuin & Gresle (1996) reconhecem que a sociologia em seus primórdios, sobretudo em seu viés positivista, usou de conceitos e modelos inspirados na biologia. Adverte, entretanto, que essa corrente positivista e organicista da sociologia já sofria, desde então, a reação da filosofia e das ciências sociais alemães, desde Dilthey a Weber, que defendiam a singularidade do objeto e método das ciências humanas e a necessidade de distingui-las das ciências naturais.
Lepenies (1996) também aborda o processo de construção das ciências sociais, enfatizando a dicotomia, surgida em meados do século XIX, no modo de produção do conhecimento: de um lado a ciência (baseada na razão fria da Ilustração) e de outro, os textos literários (com ênfase na cultura dos sentimentos da Contra-Ilustração). A Sociologia, ainda em construção, vivia um grande dilema, pois hesitava entre o cientificismo das ciências naturais e a hermenêutica, aproximando-se da Literatura e da História. Ao surgir como disciplina autônoma, a sociologia anuncia sua pretensão de saber científico, enfrentando, ao mesmo tempo, as suspeitas das disciplinas já estabelecidas e a concorrência da literatura. Para o autor, a sociologia acaba ocupando uma situação precária, espécie de “terceira cultura”, entre as ciências naturais e as humanidades.
Diante do desafio colocado pela emergência e reconhecimento social dos problemas ambientais, os primeiros sociólogos a se debruçar sobre essa realidade se depararam com os limites de uma disciplina que, em seu processo de formação, tendeu a negligenciar a consideração da dimensão biofísica da realidade e seu potencial como fator explicativo dos processos sociais. Conseqüentemente, apresentava em seu arsenal teórico pouca produção, especificamente orientada para a compreensão dos fenômenos socioambientais. Pode-se compreender que, para os sociólogos clássicos, o problema ambiental não se colocava como questão, dada a abundância de recursos naturais na época e a insignificância relativa dos impactos ambientais destrutivos. Foram esses limites que levaram à necessidade de criar um novo campo de saber que desse conta dos novos problemas. A sociologia ambiental foi, assim, definida como o estudo da interação entre a sociedade e o meio ambiente, envolvendo tanto os efeitos das sociedades sobre o ambiente quanto os efeitos do ambiente sobre as sociedades (CATTON & DUNLAP,1978). Buttel (1992) acredita que a sociologia ambiental já nasceu enfrentando uma posição cética da parte da maioria dos sociólogos bem conceituados, a exemplo da reação aos estudos de sociobiologia.
O resgate histórico da disciplina exige uma diferenciação de duas trajetórias: uma político-institucional e outra teórico-metodológica que, embora se toquem em alguns momentos, não guardam uma correspondência simétrica entre si.
2.1. TRAJETÓRIA POLÍTICO-INSTITUCIONAL
Nos Estados Unidos, caso pioneiro de institucionalização da sociologia
ambiental, sua trajetória político-institucional se inicia na década de 70
quando a disciplina surge em resposta à apreensão social com o agravamento dos
problemas ambientais vivenciados naquela sociedade. A preocupação inicial se
concentrou sobre os impactos sociais da poluição ambiental que, gradualmente,
vai ganhando novos contornos com a crise energética deflagrada a partir de
1973, com a alta dos preços do petróleo imposta pelo mundo árabe. Essa crise
energética coincide com o lançamento, pelo Clube de Roma, do polêmico relatório
“Os limites do crescimento”, elaborado por um grupo de cientistas do Massachusetts Institute of Technology
(M.I.T.), que alerta para a possibilidade de esgotamento de recursos naturais e
de uma catástrofe ambiental planetária, caso se mantivessem constantes as
expectativas de crescimento econômico (HERCULANO, 1992). O alerta do Clube de
Roma abre intensos debates sobre a questão da escassez e do modelo de
crescimento vigente, criando um clima favorável para o desenvolvimento da
sociologia ambiental no final da década de 70. Nesse sentido, cresceram
bastante no período as iniciativas de pesquisas sobre os movimentos sociais
voltados para a degradação ambiental, atitudes e comportamentos ambientais,
energia e recursos naturais, escassez versus
modelos alternativos de crescimento econômico, atuação do Estado no tocante aos
desafios ambientais e sobre a questão populacional, entre outras temáticas. Por
outro lado, a seção de sociologia ambiental da American Sociological Association (ASA) cresceu de 290 membros em
1976 para 321 em 1979, atraindo pesquisadores de diversas áreas de interesse
como: ambiente doméstico e construído, avaliação de impacto ambiental e
acidentes naturais, energia e recursos naturais. Em meados da década de 70
todas as três associações nacionais de sociologia nos EUA (Rural Sociological Association e Society for the Study of Social Problems, além da ASA) começaram a
estabelecer setores relacionados à sociologia ambiental e surgiram tópicos
sobre o tema em vários periódicos da área. Registram-se, igualmente, numerosos
cursos de sociologia ambiental e alguns poucos programas de pós-graduação que passaram a oferecer a oportunidade
de especialização no campo (DUNLAP,1997).
Segundo Dunlap (1997), a advertência sobre os limites naturais, apesar de bastante divulgada e discutida, não foi devidamente assimilada pela consciência e cultura norte-americanas, orientadas pelo mito da prosperidade e do crescimento infinito. Nesse sentido, a era Reagan representou a rejeição explícita da idéia de limites e prometeu a volta da afluência e do sonho americano, interrompido pelos fantasmas da escassez. Toda a administração Reagan, portanto, se pautou numa tendência liberalizante de redução das regulações estatais – inclusive de controle energético e de recursos naturais - com conseqüente ampliação da esfera do mercado e retrocesso nas iniciativas de proteção ambiental. É natural que essa reação se refletisse sobre a sociologia ambiental, que sofre um declínio na década de 80, como comprovam evidências apresentadas por Dunlap, demonstrando que, após 3 anos de crescimento, a seção de sociologia ambiental da ASA teve uma redução para menos de 300 membros em 1980, chegando a 274 em 1983. As duas obras mais usadas como textos introdutórios da disciplina (SCHNAIBERG,1980; BUTTEL & HUMPHREY, 1982) saíram de publicação sem serem substituídas por outras. Poucos artigos novos foram escritos sobre os temas nucleares da sociologia ambiental e nenhum deles foi publicado nos principais periódicos de sociologia. As disciplinas e cursos de pós-graduação, igualmente, sofreram uma redução no número de estudantes e dificuldades de continuidade.
Alguns fatos, contudo, contrabalançam os efeitos da era Reagan sobre a questão e a sociologia ambientais. Destacam-se, nesse sentido, os acidentes envolvendo usinas nucleares e contaminações tóxicas de grandes proporções como os casos de Three-Mile Island (1979), Love Canal, Bophal, India (1984) e Chernobyl, na ex-União Soviética (1986). Esses acidentes de grandes dimensões estimularam o debate público e científico sobre os impactos sociais dos acidentes tecnológicos, o papel do risco nas sociedades avançadas e a questão da cidadania e da qualidade de vida frente as novas ameaças à saúde e à vida humana (Dunlap,1997). A década de 80, portanto, se encerra com uma revitalização do interesse público pela questão ambiental e um correspondente fortalecimento do campo da sociologia ambiental, que cresce ao longo da década seguinte. A gravidade dos acidentes ambientais do fim da década de 80 tem grande repercussão social, invadindo as instâncias governamentais, científicas e midiáticas com reportagens grandiosas nos veículos de grande circulação de informação e poder de formação de opinião. A impressão dominante era de que a qualidade ambiental estava declinando e que as intervenções de proteção e controle ambientais eram insuficientes e desproporcionais à magnitude dos problemas vividos. De fato, o que o público pressentia era a emergência de mudanças ambientais globais, que representavam diferenças qualitativas na natureza dos problemas ambientais. Constatava-se, em primeiro lugar uma mudança na escala dos problemas que passavam de um nível local para um nível global; mudava igualmente a freqüência na ocorrência de problemas e acidentes ambientais; a própria natureza dos problemas se tornava de mais difícil compreensão e previsão; aumentava a gravidade dos efeitos dos problemas para a saúde humana e de outras espécies, ganhando, em certos casos, caráter de irreversibilidade. Com isso, ressalta-se a evidência de que a relação sociedade - meio ambiente tem um duplo sentido, isto é, de que a sociedade é responsável pela degradação ambiental e que o ambiente agredido causa impactos negativos sobre a vida individual e social. As mudanças ambientais globais acentuam o fato de que os ecossistemas não servem apenas como estoque de recursos e depósito de resíduos mas também como espaço para viver e de que essas três funções estão crescentemente em conflito (DUNLAP,1993).
O crescimento da atenção social, despertada nos fins da década de 80 em torno das questões ambientais, reflete-se favoravelmente na institucionalização da sociologia ambiental, que tem elevado o número de membros em sua seção da ASA na virada da década, atingindo um pico de 400 membros em 1993. O volume de textos publicados e o crescente interesse de estudantes nos cursos voltados à disciplina também confirmam a expansão do campo. Outro sintoma significativo, é o aumento da atenção internacional, com destaque para uma produção de literatura na área por parte de grupos canadenses, europeus e japoneses e a formação de associações de sociologia ambiental em vários desses países, inclusive com o lançamento de um grupo de trabalho sobre ambiente e sociedade em 1990, na Associação Internacional de Sociologia – ISA (DUNLAP,1997).
2.2. TRAJETÓRIA
TEÓRICO-METODOLÓGICA
A trajetória teórico-metodológica da sociologia ambiental pode ser sintetizada em três momentos distintos:
a) o momento de formação, a partir da combinação e contribuição de outras sociologias específicas;
b) a fase de constituição de um núcleo teórico próprio, de perfil mais consensual;
c) um momento de diversificação e maior incorporação do corpo teórico da sociologia geral.
Com relação ao período de formação, Buttel (1996) destaca a importância da contribuição pioneira da sociologia rural e outras sociologias especiais que tentam, tanto cobrir a lacuna teórica da tradição clássica com relação às questões ambientais, quanto criar um locus institucional para o desenvolvimento da nova disciplina. Segundo esse autor, a sociologia ambiental, em grande medida, não surgiu como uma disciplina nova, mas sim dentro de outras disciplinas pré-existentes como um amálgama que integrava, em ordem de importância, a sociologia rural, a sociologia de comunidades, a sociologia do desenvolvimento, a teoria dos movimentos sociais e a ecologia humana. Para Buttel, a sociologia rural, pela natureza de seu objeto, estava mais preparada que outras especialidades para assumir uma visão de realidade social com dimensão biofísica. A receptividade da sociologia rural com a noção de vida social materialmente enraizada é ilustrada pelo reconhecimento pioneiro que prestou à sociologia ambiental.
Com relação à lacuna teórica, Buttel (op. cit.,1996) considera que a tendência da sociologia clássica foi criar teorias que, implicitamente, assumem que as sociedades e grupos humanos são independentes ou isolados dos processos biofísicos. Buttel acredita que a sociologia, em sua busca de liberar o pensamento social dos reducionismos, preconceitos e explicações extra-sociais, exagerou ao promover a separação entre o processo social e o mundo natural.
Catton e Dunlap (1994) são ainda mais enfáticos em sua crítica à resistência e descaso da sociologia com relação às questões ambientais. Para explicar esse processo, analisam o contexto sociocultural de formação da sociologia, assim como algumas tradições e perspectivas peculiares ao campo.
Com relação ao contexto de formação, argumentam que a sociologia foi profundamente influenciada por uma cultura ocidental antropocêntrica que tendia a separar humanidade e natureza como existências distintas. Essa visão de mundo foi historicamente acentuada por processos convergentes de desenvolvimento técnico-científico e acumulação de riquezas, propiciada pela expansão colonial, que resultaram na revolução industrial, no fortalecimento da idéia de progresso e no processo de ocidentalização do resto do mundo. Segundo estes autores, as mudanças produzidas pela industrialização e pela urbanização, simultaneamente ao afastamento da agricultura e do mundo rural, reforçaram a noção de que as sociedades modernas se tornavam crescentemente independentes do ambiente físico; de que o meio físico era uma fonte inexaurível de recursos naturais e de que a sociedade poderia manipular e controlar o ambiente para a satisfação de suas necessidades, formando uma concepção otimista de progresso contínuo, com alto grau de confiança no capital tecnológico disponível.
No tocante às tradições sociológicas, fazem referência à ênfase Durkheimiana na objetividade dos fatos sociais, que reduzia a explicação sociológica da realidade a causas exclusivamente sociais e, assim, rejeitava os demais fatores de explicação psicológicos, biológicos e geográficos.
Fazem também referência à herança Weberiana elaborada por Mead, Cooley e outros autores que enfatiza a importância da definição social da situação em que ocorrem as ações sociais - pelos atores sociais que dela participam - para a explicação das próprias ações. Ou seja, as características físicas de uma situação (meio ambiente) só se tornariam relevantes se fossem percebidas e definidas como relevantes pelos atores envolvidos na interação, caso contrário podiam ser ignoradas. Haguette (1987) ilustra com clareza os fatos acima, em sua análise das teorias da ação, quando afirma que “o meio circundante de qualquer pessoa consiste unicamente dos objetos que essa pessoa reconhece. Para se compreender as ações das pessoas é necessário a identificação de seu mundo de objetos” (p.58). E complementa: “a realidade existe somente na experiência humana e ela só aparece sob a forma como os seres humanos vêem este mundo, ou seja, são os aspectos objetivos e subjetivos observáveis que compõem a realidade concreta” (p.58). Embora as citadas tradições sejam compreensíveis no contexto de afirmação científica da sociologia, o resultado é que o uso do termo “meio ambiente” na sociologia tem um sentido completamente diferente do usado em outras disciplinas ou no discurso público. Isto é, refere-se a fatores sociais e culturais exteriores ao objeto sob observação (CATTON & DUNLAP, 1994). Assim, raramente se menciona, nessa tradição, que as interações e processos sociais possam variar de acordo com o ambiente físico onde eles ocorrem ou que as construções sociais interagem ou afetam o ambiente físico (GRAMBLING & FREUDENBURG,1996).
A fase seguinte, de constituição de um núcleo teórico, se unifica em torno da produção de Catton, Dunlap e Schnaiberg, os sociólogos ambientais norte-americanos que mais se destacam na produção teórica após os anos 70. Esses autores, apesar das diferenças de suas perspectivas de análise, enfatizam o caráter realista-materialista da crise ambiental com críticas explícitas às tendências das sociedades capitalistas industriais modernas.
Catton e Dunlap desenvolvem vários trabalhos em parceria e têm em comum a já mencionada reserva com a tradição clássica da sociologia, que julgam antropocêntrica e anti-ecológica, e propõem um outro paradigma ecológico que deveria substituir a tendência antropocêntrica da sociologia em sentido amplo. Apesar de sua inclinação realista/materialista, ressaltam a importância causal da cultura e das visões de mundo na gênese da crise ambiental. Um dos pontos centrais de sua análise se concentra em torno da distinção entre o Paradigma do Excepcionalismo Humano (PEH) e o Novo Paradigma Ecológico (NPE). Nessa distinção entre PEH x NPE repousaria toda a contradição e possibilidade de enfrentamento da atual crise ambiental. Segundo estes autores, o PEH se estrutura a partir de algumas suposições básicas derivadas da visão de mundo ocidental dominante que, resumidamente, se expressa como a excepcionalidade[5] da espécie humana, derivada de sua herança cultural, que compreende linguagem, organização social e potencial tecnológico. Essas características distintivas da espécie humana dar-lhe-iam, segundo a teoria, capacidades para criar soluções para todos os seus problemas e uma autonomia que a isentaria de qualquer tipo de restrição ou limite natural que porventura ameaçasse seu destino de progresso contínuo. Entendem esses autores que a sociologia convencional está fundamentada nesse paradigma antropocêntrico e intrinsecamente anti-ecológico, não tendo, portanto, condições de compreender e se confrontar com os atuais problemas socioambientais. A solução proposta pelos autores é a substituição do PEH pelo NPE que, por sua vez, se define com base nas seguintes premissas:
a) embora os homens tenham características excepcionais, permanecem sendo uma entre as espécies existentes que são interdependentes do ecossistema global;
b) as relações humanas não são influenciadas apenas por fatores sociais e culturais, mas também por complexos laços de causa, efeito e feedback na trama da natureza de forma que suas ações intencionais produzem muitas conseqüências involuntárias;
c) o mundo é finito, existindo limites potenciais físicos e biológicos que limitam o crescimento econômico e outros fenômenos sociais;
d) embora a inventividade humana pareça se estender, os limites da capacidade de carga do planeta e as leis ecológicas não podem ser desrespeitados impunemente (BUTTEL,1996; DUNLAP & CATTON,1994).
Catton e Dunlap acreditam ainda que as diversas perspectivas teóricas da sociologia – funcionalismo, marxismo, interacionismo, etnometodologia etc. - tendem a exagerar suas diferenças mútuas. Para eles, são de fato variações dentro de um paradigma maior que é o PEH, caracterizado pelo antropocentrismo.
Além disso, denunciam a insustentabilidade das sociedades modernas, por se apoiarem em um modelo de produção/consumo/descarte que dilapida os recursos naturais num ritmo muito mais rápido que sua capacidade de regeneração e que, portanto, conduz a uma vulnerabilidade crescente e a situações limite, caso mudanças profundas não sejam implementadas. Acreditam, entretanto, que a própria crise favorece uma mudança de paradigma tanto na sociedade quanto na sociologia e que o avanço do NPE permitirá melhorias e reformas socioambientais (BUTTEL,1996).
Schnaiberg (apud Buttel,1992 e 1996), por sua vez, centra sua análise na economia política do meio ambiente e é tributário das abordagens neomarxistas e neoweberianas. Desenvolve duas noções principais para compreender a origem e a dinâmica da crise socioambiental: a rotina da produção e a dialética entre sociedade e meio ambiente.
A noção de rotina da produção (treadmill of production) entende que o sistema capitalista industrial tem uma lógica inerente de promover o crescimento econômico e a acumulação privada, estimulados pela competição constante entre os atores econômicos. Essa expansão do capital é complementada pela ação do Estado que busca garantir sua sobrevivência econômica, fiscal e política, apoiando a acumulação privada via subsídios, investimentos infra-estruturais e programas sociais. Nesse processo, a intensividade da acumulação estimula a automação do trabalho produzindo desemprego e precarização das condições sociais. Para legitimar a crise social gerada pela acumulação, o Estado intervém distribuindo subsídios com objetivo de custear programas sociais e criar novos empregos. Assim, esses subsídios realimentarão o consumo, a produção, a competitividade, a automação, a lucratividade das empresas, os impostos e o desemprego, num ciclo vicioso que resulta em degradação social e ambiental, já que a rotina produtiva implica em maior consumo de recursos naturais e energéticos, maior poluição e maior produção de resíduos.
Já a noção da dialética entre a sociedade e o meio ambiente, busca explicar a dinâmica político-social da expansão econômica das sociedades industriais avançadas. Schnaiberg (op. cit.) argumenta que a contradição entre o crescimento econômico e a degradação ambiental pode resultar em três possibilidades de síntese: a síntese econômica, a síntese da escassez planejada e a síntese ecológica. Essas três sínteses correspondem a posições ou cenários políticos de direita, de centro e de esquerda. Na síntese econômica resolve-se a contradição entre economia e ecologia através da maximização do crescimento econômico, a despeito de suas conseqüências predatórias. Essa orientação, no entanto, pela degradação que produz, termina levando à síntese da escassez planejada, um modelo de organização do Estado que visa controlar a atividade social e econômica como forma de enfrentar a urgência dos problemas ambientais. Ocorre que para administrar a degradação ambiental e a escassez de recursos são necessários mecanismos regulatórios que controlem a poluição industrial e o consumo de recursos escassos. Esses mecanismos, por sua vez, produzem elevação dos custos de produção industrial e o aumento das taxas de impostos sobre o uso dos recursos escassos e, portanto, afetam os preços que são repassados aos consumidores, onerando o custo de vida e o orçamento das classes mais pobres. Essa redução do poder aquisitivo da população, tende a reduzir o consumo e o ritmo do crescimento econômico com efeitos sobre a oferta de empregos e sobre as condições de sobrevivência, sobretudo das classes mais baixas. Daí, a recessão e o desemprego passariam a exercer uma pressão social no sentido do retorno à síntese econômica e, por extensão, a maiores níveis de degradação ambiental. A análise sugere que a síntese ecológica, que corresponde à sociedade sustentável, depende para sua efetivação da distribuição de renda e da redução dos níveis de desigualdade social. Ou seja, as alternativas à crise socioambiental vão depender da estrutura econômica da sociedade – mais ou menos igualitária - e da composição de forças políticas que podem tender a soluções mais elitistas ou democráticas. Essas conclusões de Schnaiberg se identificam com as análises de Sachs (1986) sobre o ecodesenvolvimento, quando alerta para a insustentabilidade da modernização conservadora que, ao conjugar crescimento com desigualdade, gera inevitáveis prejuízos sociais, políticos e ambientais. A análise de Schnaiberg também tem correspondência com os trabalhos de Cahn (1995) e Morrison (1995), quando discutem as opções futuras à sociedade industrial e apontam para três possibilidades básicas, a saber: a) a manutenção e intensificação do modelo atual de crescimento (o ecocapitalismo); b) o leviatã ambiental (ou o ecoautoritarismo) e c) a sociedade sustentável (ou democracia ecológica).
O terceiro momento na trajetória teórica da sociologia ambiental, que se pronuncia mais nitidamente na virada da década de 80/90, caracteriza-se por uma maior diversidade teórica que contrasta com o tom mais consensual da década passada e por uma maior incorporação da teoria sociológica clássica.
Destacam-se, em primeiro lugar, as influências advindas de mudanças na sociologia mais ampla, no sentido de uma guinada cultural que reduz a ênfase nas explicações materialistas e estruturais em favor de perspectivas culturalistas, subjetivistas e micro-sociológicas. Para tanto, contribuíram a desagregação do bloco soviético e do socialismo real e o avanço das ideologias neoconservadoras. Ao mesmo tempo, a expansão, na academia, de estudos culturais, construtivistas, feministas, pós-modernistas e semióticos também “contaminou” a sociologia. Essa virada cultural contribuiu igualmente para um aumento na receptividade da questão ambiental como fenômeno social significativo. Registre-se, a partir dessa década, as contribuições de sociólogos de destaque dentro do campo, que passam a enfatizar a importância da questão ambiental no contexto das sociedades avançadas, como é o caso de Beck (1992), Giddens (1991 e 1997), Touraine (1994), Castells (1999), Santos (1995) e Perrow (1984), entre outros.
Entre as novas leituras da questão socioambiental figura a perspectiva do construtivismo social que questiona a existência de uma crise ambiental objetiva, trazida por um crescimento desenfreado da população, super-produção, perigo das novas tecnologias etc. Ao invés disso, esta abordagem enfatiza os processos sociais, políticos e culturais onde as condições ambientais são definidas como sendo aceitáveis ou não. Neste sentido, um “problema ambiental” é socialmente construído e o processo de construção é considerado como mais importante do que a tarefa de avaliar se as reivindicações são verdadeiramente válidas ou não. A análise construtivista se preocupa com o “como” as pessoas atribuem significado ao seu mundo. A poluição não se transforma em um problema social até que os ativistas ambientais ou os cientistas especializados sejam capazes de convencer as pessoas a mostrar preocupação sobre as condições existentes (HANNIGAN, 1997). Mas, pergunta-se: e se milhares de pessoas não souberem que estão sendo contaminadas por radiação nuclear, a poluição por radiação não seria, mesmo assim, um problema social? O próprio Hannigan admite que o construtivismo corre o risco de negar a existência de sérios problemas da vida real, mas busca centrar suas análises na percepção e nas práticas dos diferentes atores sociais na construção dos problemas ambientais.
Buttel (1996) analisa as críticas à abordagem construtivista que apontam para a ausência de reconhecimento dos limites naturais “per se” e terminam se enquadrando numa concepção de inspiração antropocêntrica.
3. PROBLEMATIZANDO A SOCIOLOGIA AMBIENTAL
Este item pretende discutir alguns dilemas que se
colocam no desenvolvimento da sociologia ambiental enquanto disciplina
científica. São problemas teóricos,
epistemológicos, políticos, institucionais e de diálogo com a própria
realidade social mais ampla. Esses dilemas se interpõem tanto na constituição
interna da disciplina, em sua relação com a sociologia geral e com as demais
disciplinas das ciências sociais, quanto com o universo científico e com as
transformações da sociedade contemporânea. Trata-se, enfim, de problematizar o
significado, o alcance e os limites da sociologia ambiental, como novo campo de
construção de conhecimento. * checar o dito com
as mudanças introduzidas no texto
3.1. SOCIOLOGIA AMBIENTAL E
INTERDISCIPLINARIDADE
Figura, em primeiro lugar, uma análise da relação entre a sociologia ambiental, a sociologia mais ampla e as demais disciplinas, de seus conflitos, complementariedades e potencialidades de contribuição mútua. Há que se considerar, nesse sentido, a estrutura disciplinar interna às ciências sociais, dicotomizada em ciências nomotéticas e ideográficas e a estrutura cartesiana das ciências em geral, divididas em ciências naturais, sociais, humanas e exatas. Esta fragmentação - parte da própria história da ciência - diferencia a ciência da filosofia, estabelecendo uma fratura no conhecimento que dá lugar a duas culturas: uma ligada às ciências naturais baseada no saber objetivo, no empirismo e na lógica newtoniana-cartesiana e outra relacionada à filosofia e às ciências humanas, apoiada na subjetividade e na especulação. Para Lepenies (1996), às ciências sociais coube o papel de uma terceira cultura, intermediária entre as duas polaridades mencionadas mas que, em sua busca de afirmação e de status científico, tendeu a se aproximar das ciências naturais - reconhecidas como hegemônicas - e a rejeitar as ditas ciências especulativas (COMISSÃO GULBENKIAN, 1996).
A sociologia, conforme mencionado anteriormente, tem historicamente uma relação ambivalente com as ciências naturais e, mais especificamente, com a biologia, que se caracteriza por um movimento pendular de aproximação e rejeição. A aproximação se relaciona ao empréstimo de certos conceitos, - como os de evolução, morfologia, organismo, estrutura, darwinismo social, solidariedade orgânica, fato patológico - analogias e métodos da biologia, como forma de angariar reconhecimento científico nos primórdios de sua formação como ciência. O movimento de rejeição das explicações biológicas, por sua vez, está ligado, por um lado, ao esforço de definição de seu objeto particular de pesquisa e, por outro lado, às tentativas dos sociólogos pioneiros em resistir aos reducionismos e preconceitos perpetrados por analogias e explicações monocausais de fundo biológico para os mais diversos problemas sociais no apogeu da era positivista. São exemplares das duas atitudes, respectivamente, as regras do método sociológico de Durkheim e as polêmicas entre Marx e Malthus sobre a contradição entre o crescimento da população e os meios de subsistência.
Buttel (1992) argumenta que essa ambivalência da relação entre a sociologia e a biologia está fundamentada na dualidade inerente da existência humana, que é simultaneamente natureza e cultura. Ou seja, é uma espécie entre outras na biosfera e é também um ser criador de ambientes sociais singulares.
É notório que, a tendência a separar sociologia e biologia que, historicamente, levou a sociologia a subestimar as dimensões ambientais e biológicas da realidade, persiste até hoje como um dogma sociológico que dificulta o diálogo entre essas disciplinas e um entendimento mais abrangente dos problemas socioambientais.
Há, por outro lado, que se considerar a contextualização histórica das idéias e práticas sociais que, quando deslocadas arbitrariamente de seu contexto podem ser mal interpretadas ganhando conotações negativas. Esclareço: conforme mencionamos acima, a questão ambiental para os sociólogos clássicos não se colocava como problema, por outro lado, os excessos das ideologias deterministas de origem biológica, teológica e geográfica à época, representavam problemas sociais relevantes, desde que justificavam teorias e políticas com conteúdos racistas, etnocêntristas e colonialistas.
Esta ressalva, entretanto, embora coloque as idéias e fatos em seu lugar, não pretende negar os excessos da sociologia na rejeição aos argumentos biológicos e seus efeitos adversos sobre a análise sociológica dos problemas socioambientais na contemporaneidade.
Lepenies (1996), ao analisar a disputa que contrapõe a sociologia e a literatura no século XIX pelo reconhecimento como forma dominante de explicação da vida social, e pela afirmação como condição de saber objetivo, testemunha o conflito entre as culturas empírica e especulativa e o esforço da sociologia em perseguir o modelo das ciências naturais e em evitar a identificação com a filosofia e as humanidades.
Calhoun (1992), argumentando na mesma direção, ressalta que o excesso de preocupação da sociologia em se afirmar como ciência, seu esforço em fornecer um modelo de explicação da vida social e sua busca para definir seu particular objeto de pesquisa, trouxe consequências como a citada ambivalência em relação às ciências naturais e uma excessiva e perniciosa fragmentação disciplinar, tanto no interior da disciplina, quanto entre as diversas ciências sociais. Para esse autor, essa divisão disciplinar é prejudicial em vários sentidos porque:
a) impede uma investigação
multidimensional de importantes problemas sociais;
b) desestimula ou inibe a
incorporação de aspectos históricos e culturais à teoria e pesquisa
sociológica;
c) reforça a tendência à
superespecialização, reduzindo visões de maior amplitude social;
d) fragiliza a utilidade da
ciência social como subsídio no debate das grandes questões públicas.
Estendendo esse debate à questão da interdisciplinariedade, Calhoun não apenas julga inevitável alguma divisão disciplinar do trabalho, como vê nessa divisão certos aspectos positivos, entre os quais o pluralismo de olhares entre as disciplinas sociais e a diversidade interna a cada uma das disciplinas. Entende, no entanto, que a impermeabilidade e rigidez dessas fronteiras, tanto empobrece o conteúdo disciplinar, favorecendo o monismo intradisciplinar, quanto desestimula a formação de trabalhos interdisciplinares, essenciais ao desenvolvimento da vida intelectual. O autor conclui sua reflexão afirmando que a divisão do trabalho disciplinar pode ser entendida como um pressuposto de interdependência e unidade do trabalho científico ou como uma fragmentação esquizofrênica que não conhece o momento da síntese.
A Comissão Gulbenkian (1996), a respeito da divisão de trabalho científico, afirma a necessidade de manter a estrutura disciplinar por considerá-la uma construção benigna que organiza as mentes e canaliza a energia investigativa. Propõe, entretanto, que se amplie os atuais limites disciplinares através de uma reavaliação dos consensos definidos sobre essas fronteiras. Parece-nos que, apesar de reconhecer a importância da divisão disciplinar do trabalho científico, como método que prepara o pesquisador para uma compreensão mais ampla da realidade, a complexificação dos processos sociais, nas sociedades contemporâneas, exige o desenvolvimento de estudos, pesquisas e práticas de natureza interdisciplinar. Ou seja, a formação disciplinar é importante, mas não para permanecer disciplinar. A disciplinariedade seria, neste sentido, uma plataforma para o salto transdisciplinar que visa a ampliação dos limites da consciência, a criação de linguagens pluralistas e de novas redes de conhecimento. Ilustra bem essa necessidade a emergência dos problemas socioambientais, que conjugam em sua constituição dimensões sociais, econômicas, políticas, culturais, ecológicas, geográficas, biogeoquímicas e ético-filosóficas sendo, por sua própria natureza, objeto de investigação interdisciplinar.
Outra observação quanto à relação entre a estrutura disciplinar das ciências sociais e a sociologia ambiental, diz respeito à posição assumida pela geografia na formação dessa estrutura e às conseqüências desse processo para as noções de espaço e de meio ambiente. Ainda segundo a Comissão Gulbenkian (1996), a geografia foi a única disciplina social que antes de 1945 tinha um caráter generalista quanto a seu objeto de estudo. Este fato, por um lado, expressou um pioneirismo, e por outro, revelou-se problemático a partir do momento - virada do século - em que o estudo da realidade social tendeu a assumir uma tendência analítica, que cada vez mais compartimentava as disciplinas e seus objetos de estudo. A partir daí, a geografia tornou-se anacrônica e passou a ocupar um lugar secundário no âmbito das ciências sociais, como disciplina auxiliar da história; fazendo com que a dimensão espacial fosse subordinada à dimensão temporal, e reforçando a tendência de negligenciar o ambiente físico no interior das ciências sociais. Para a Comissão Gulbenkian, responder ao questionamento sobre a divisão disciplinar de trabalho é um dos desafios para as ciências sociais contemporâneas.
Um segundo desafio está em como responder ao questionamento político e epistemológico dirigido às ciências sociais a partir da década de 70. O questionamento político interroga o conhecimento "pretensamente universal" das ciências sociais, produzido por grupos de cientistas orientados por uma visão de mundo ocidental, antropocêntrica, burguesa, etnocêntrica e masculina. Ou seja, que trata como universal e “supostamente neutro” um conhecimento construído e apoiado em determinadas interpretações valorativas e interessadas da realidade, condicionadas pelo fato da maioria dos cientistas sociais serem de classe média superior, brancos, do sexo masculino e provenientes do chamado mundo desenvolvido (europeus ou norte-americanos).
Esse questionamento político se associa à questão epistemológica, que duvida das lógicas teóricas, conceituais, da seleção dos objetos de pesquisa e de como essas ferramentas básicas da prática científica foram forjadas nos padrões culturais ocidentais clássicos, que tendeu, historicamente, a priorizar o estudo dos problemas relativos às maiorias e ao “status quo” relegando a um plano secundário o estudo das minorias, das diferenças, dos comportamentos desviantes e de outras lógicas não-convencionais.
A síntese e o desafio que se levanta sobre a questão é o de saber se os cientistas sociais serão capazes de promover um universalismo pluralista que integre toda a diversidade de vozes, visões e posições existentes e manifestas no cenário contemporâneo mundial.
O terceiro desafio que se coloca diz respeito a um questionamento sobre a validade e a realidade das duas culturas acima mencionadas que, historicamente, dividem o universo da ciência em ciências naturais e ciências humanas, sendo as primeiras caracterizadas como ciências objetivas, verificáveis, empíricas e legítimas, enquanto as demais concebidas como saberes subjetivos, filosóficos e especulativos. Esse desafio tem sido provocado por dois desenvolvimentos de grande relevância que, nas últimas décadas, trouxeram consigo a crise e a renovação paradigmática das ciências. São eles os estudo da complexidade nas ciências naturais, que se refletem nas demais ciências, e os estudos culturais nas ciências humanas.
O aporte e a novidade dos estudos da complexidade está em demonstrar os limites da concepção newtoniana de ciência, sua parcialidade e incapacidade de explicar os fenômenos cada vez mais complexos, suscitados pela pesquisa científica. Ou seja, a lógica newtoniana, baseada numa concepção de realidade ordenada, linear, previsível e determinista tem utilidade para explicar os sistemas estáveis que compõem uma parte da realidade, mas não os processos inversos marcados pelo caos, desequilíbrio, contradição e incerteza. Esses desdobramentos impactam profundamente as ciências naturais, até então fundadas numa lógica muito mais exata e controlável que é obrigada a reformular. Afeta também as ciências sociais que construíram parte significativa de seu legado se espelhando no modelo newtoniano e em sua aplicação ao estudo dos fatos sociais. Assim, as inovações despertadas pelas ciências naturais sinalizam no sentido de um deslocamento da prioridade explicativa da simplificação para a complexidade; da linearidade para a contradição; dos métodos quantitativos para modelos interpretativos. Levam igualmente a reduzir a distinção e a distância entre as ciências naturais e sociais.
Esse processo de reavaliação do modelo newtoniano se reflete sobre a dicotomia cartesiana - que funda as distinções entre corpo e mente, natureza e cultura – que compõe, com o modelo de Newton, a base fundamental da ciência clássica. Assim, a concepção de natureza tende também a ser reformulada, transformando o conceito mecânico, estável, passivo e previsível numa outra idéia onde a natureza é vista como um sistema complexo, instável, ativo e criativo. O choque paradigmático descrito produz reordenamentos relevantes nas ciências naturais, sociais e em sua interação, abrindo brechas decisivas para a assimilação da questão ambiental nas ciências sociais (idem, 1996).
O desenvolvimento dos estudos culturais é o segundo elemento a desafiar a noção de duas culturas, sedimentada no ambiente epistemológico. Dessa vez, a iniciativa se origina no campo humanista e associa temas como:
a) a importância dos estudos
sobre diferenças (sexuais, raciais, classes etc.);
b) a importância de estudos
referenciados na esfera local;
d)
a
crítica ao desenvolvimento tecnológico.
A questão da ênfase nas diferenças, já analisada anteriormente com relação ao questionamento do universalismo do conhecimento, é agora aplicada ao problema da distinção entre as duas culturas. Nesse sentido, os estudos culturais reagem à distinção hierárquica entre ciência e filosofia, mostrando como a ciência, do alto de sua racionalidade e modernidade, tem sistemática e historicamente rejeitado a investigação de problemas relativos às minorias, às diferenças, ao mundo não ocidental e às concepções não antropocêntricas. Defende, conseqüentemente, um espaço para a incorporação e institucionalização desses temas na nova agenda científica e social.
A questão da esfera local emerge como uma resposta à crescente centralização e universalização dos problemas e políticas que se tornam cada vez mais inacessíveis ao cidadão comum, e da constatação de que o melhor acesso ao global está na redescoberta e participação na vida local. Mesmo porque a lógica mais impessoal e estática das macrorealidades foge ao controle dos indivíduos e sugere aos dominados que não adianta reivindicar pois as grandes estruturas estão fora de seu alcance. Uma abordagem realista dos problemas ambientais não pode dispensar a consideração da esfera local, onde se originam todos os problemas ambientais, mesmo que alguns deles produzam em seu desenvolvimento consequências globais. É nessa dimensão que as populações sofrem os impactos da degradação ambiental e, embora possam contar com apoio internacional para resolver seus problemas, é no nível local que as respostas devem ser implementadas.
O terceiro ponto levantado pelos estudos culturais é justamente o questionamento das mudanças produzidas pelo crescente desenvolvimento tecnológico. Esse questionamento, que vai da reserva à rejeição das novas tecnologias, se traduz numa variedade de movimentos ecológicos, numa crescente politização da questão ambiental e do debate sobre os novos riscos tecnológicos que procura desmistificar a pretensa neutralidade da ciência e da técnica e confrontá-las com as demandas éticas e políticas a elas dirigidas no contexto da sociedade contemporânea. Nesse sentido, a emergência da questão ambiental e sua legitimação como problema social prioritário na agenda contemporânea marcou um processo decisivo para a intensificação do debate sobre a geração de tecnologia, seus impactos sobre o mundo natural e social e as concepções éticas que orientam seu desenvolvimento e finalidades.
De uma forma geral, essa virada culturalista nas ciências sociais, que se expressa como um ceticismo pós-moderno, de rejeição às macroteorias e aos discursos totalizantes, também atinge a sociologia e, por extensão, a sociologia ambiental, conforme assinalamos no capítulo anterior. Desloca-se, portanto, a ênfase das teorias centradas na estrutura social para privilegiar perspectivas microssociológicas e subjetivas.
Enfim, o balanço do debate sobre a validade da divisão do universo científico em duas culturas sinaliza não ainda para uma reaproximação integradora, mas para um avanço nas possibilidades de diálogo e de flexibilização das fronteiras históricas. Para a Comissão Gulbenkian (1996), essa distinção entre ciência e filosofia, verdade e virtude é um falso debate. A busca do saber é uma empresa singular, que reúne elementos complementares de um só universo. Verdade e virtude, nesse sentido, mais que realidades excludentes, constituem faces de um mesmo processo. Entende que as ciências sociais têm um papel decisivo na sociedade contemporânea, marcada por processos de crises crescentes de desintegração social que certamente demandarão uma melhor compreensão e uma valorização das relações e dos processos sociais.
A relação macro-micro no contexto das sociedades da alta modernidade é outro ponto de reflexão importante no desenvolvimento da sociologia ambiental que merece ser explorado. Referimo-nos às relações de interdependência e interpenetração entre a sociedade e o indivíduo, a estrutura e a ação social, as escalas global e local dos fenômenos socioambientais e aos processos de centralização e descentralização da gestão política, econômica e social.
Naturalmente, a velocidade e a extensão das mudanças sociais engendradas pelo desenvolvimento tecnológico e pelas tendências da globalização, têm contribuído para transformar as noções de tempo e espaço, afetando sensivelmente as relações sociais e as relações entre a sociedade e o meio ambiente.
Dickens (1992) usa categorias analíticas da teoria social de Giddens (1991) para demonstrar que o aumento do distanciamento tempo-espaço nas sociedades avançadas, tem conduzido a uma crescente alienação e desenraizamento dos indivíduos e da sociedade com relação à natureza. Nesse sentido chama atenção para o paradoxo de que quanto mais a natureza é socializada, no sentido de uma crescente integração entre sociedade e natureza, mais as pessoas perdem a conexão real com os processos da natureza e com as circunstâncias em torno de sua manipulação.
Giddens em sua teoria demonstra como nas sociedades tradicionais as noções de tempo-espaço eram coincidentes, o “quando” era conectado ao “onde”, as relações sociais eram predominantemente presenciais, pessoais, diretas e do tipo face a face. Nas sociedades modernas, ao contrário, dá-se gradativamente, a separação entre tempo e espaço que implica num “deslocamento das relações sociais dos contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço” (GIDDENS, 1991:29). O autor explicita o processo:
Nas sociedades pré-modernas, espaço e tempo coincidem amplamente na medida em que as dimensões espaciais da vida social são, para a maioria da população e para quase todos os efeitos, dominadas pela presença – por atividades localizadas. O advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo fomentando relações entre ausentes, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles. (GIDDENS, 1991:27)
Virilio chega a conclusões semelhantes, ao analisar as sociedades contemporâneas:
Todas as sociedades antigas viviam em tempos locais. Toda a história da humanidade se fez em tempos locais. [...] Nós somos a primeira geração a viver um tempo mundial. O live, o tempo real, é um tempo mundial. [...] Existe assim uma desqualificação do tempo local mas também do espaço local, em proveito do tempo mundial e de um não-lugar. [...] Existe nesse fato uma verdadeira revolução filosófica e que diz respeito ao fim do hic et nunc, ao fim do aqui e agora. [...] Portanto, a derrota dos fatos é a derrota do hic et nunc, do aqui e agora concreto, que se refere ao estar junto concretamente, sem intervalo de espaço e tempo. (VIRILIO,1998:130-131)
Segundo Giddens esse distanciamento espaço-temporal das interações sociais é produzido pela expansão das atividades e relações econômicas e sociais. Assim, os processos de industrialização, monetarização e mercantilização das relações sociais associado ao desenvolvimento científico-tecnológico, tanto criam condições para a realização de transações entre agentes separados no tempo e no espaço, como tendem a substituir os saberes locais e tradicionais por novos sistemas abstratos de conhecimento dirigidos por especialistas. A intransparência e a incerteza produzidas pelas novas situações tendem a afetar tanto a segurança ontológica quanto a identidade dos indivíduos e a ameaçar a manutenção da ordem social. Ou seja, as mudanças sociais, ao nível macro, ao transformar as noções de tempo e espaço e a qualidade das interações sociais se refletem no nível micro de onde voltam a influenciar as estruturas sociais, através da ação social dos indivíduos. Tais processos são potencializados na alta modernidade pela internacionalização econômica, tecnológica (da informação, comunicação e transportes), cultural e dos problemas ambientais condicionados pela globalização.
Essa mesma dialética entre macro e microrealidades sociais pode, segundo Dickens (1992), ser aplicada à análise dos problemas ambientais. Para ele as relações sociais não existem no vazio, elas são construídas em articulação com as transformações da natureza. Sendo assim, utiliza a teoria de Giddens para mostrar como o processo de distanciamento espaço-temporal, gerado pela expansão do capitalismo na modernidade avançada, produz uma crescente alienação e desenraizamento dos indivíduos com relação à natureza. Demonstra como o crescimento das cidades, dos mercados, e a internacionalização das relações econômicas, ao alterar os fluxos dos insumos e das mercadorias, criou um distanciamento espaço-temporal entre os produtores, os consumidores e a natureza. O consumidor tem acesso às mercadorias através da publicidade e das prateleiras dos supermercados mas não vê nem compreende com clareza de onde provem as matérias-primas, como são manipuladas e o que é feito de seus resíduos. A noção de processo é perdida. Essa perda de contato com a natureza e de compreensão de sua transformação produtiva resulta em crises de confiança dos indivíduos em relação ao seu meio social e natural. Ilustra esse fato os medos crescentes dos indivíduos com os riscos potenciais advindos dos processos de produção modernos sobre sua saúde, sobrevivência e bem-estar. Incluem-se nessa situação receios sobre a contaminação dos alimentos, da água, dos medicamentos e outros produtos químicos. Assim, tanto a distância das fontes produtoras quanto o desconhecimento dos processos produtivos roubam do consumidor a possibilidade de avaliação autônoma sobre a qualidade e o risco daquilo que consome. A substituição do saber tradicional por sistemas abstratos de saber, aliados à suspeita de que esse saber é manipulado por interesses econômicos, resultam num afastamento, alienação e perda de confiança nas relações modernizadas. Diante do fato, resta aos indivíduos tentar restaurar seu sentido de enraizamento social e natural, questionando, buscando compreender e influenciar os sistemas abstratos de conhecimento no sentido de definições mais confiáveis, transparentes e favoráveis à sua própria vida. Entretanto, o sucesso dessa operação de resistência se reveste de complexidade e dependerá da capacidade dos indivíduos e grupos de se apropriarem minimamente dos saberes pós-tradicionais e de promover o debate público sobre o tema, assim como os meios de influenciar as decisões das políticas científicas e tecnológicas no sentido dos interesses comunitários.
Outra idéia embutida na teoria da estruturação e relacionada à questão macro-micro é a relação de crescente interdependência entre as realidades global e local. As décadas recentes, devido à expansão de processos de urbanização e de globalização econômica e cultural, têm evidenciado a ocorrência e despertado a consciência para problemas que aproximam e interrelacionam as esferas global e local. São realidades que se expressam em escalas globais, nacionais, regionais e locais e articulam problemas relativos ao emprego e ao desemprego, à preservação e à degradação ambiental, à produção e ao consumo, à exportação e à importação, à dominação e à resistência política, à diferença e à identidade cultural, à igualdade e à desigualdade, aos direitos e deveres dos cidadãos que se entrecruzam e interinfluenciam no espaço planetário.
Diversos analistas têm constatado e investigado essa tendência das sociedades avançadas, que os processos de globalização tornaram possível (GIDDENS,1991 e 1999; IANNI, 1994; VIOLA,1996; CONCA & DABELO,1998, entre outros).
Giddens (1991), por exemplo, pondera que:
a globalização pode assim ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa. (p. 69)
A outra dicotomia importante que relaciona a sociologia, a sociologia ambiental e a dualidade micro-macro é a que trata da centralização-descentralização das formas de gestão econômica e política. A centralização representou, historicamente, um dos princípios norteadores do desenvolvimento do capital e das empresas, por um lado, e do Estado e da administração pública, por outro lado. As mudanças relacionadas ao esgotamento do modelo fordista de produção, ao estado burocrático centralizado e à intensa urbanização de décadas recentes, sobretudo nos países periféricos, estimularam processos de reestruturação econômica do capitalismo, de desenvolvimento científico-tecnológico - com incremento da globalização - e favoreceram as propostas de gerência descentralizada.
Castells (1999) analisa como, nas sociedades informacionais, o capital e as empresas tendem, cada vez mais, a se organizarem segundo modelos que conjugam: flexibilidade, competitividade, inovação, horizontalidade, organização em rede, descentralização, tecnologias informáticas e formas precárias de trabalho.
Do ponto de vista político, fica evidente que a crescente urbanização transferiu e concentrou grande parte dos problemas sociais e ambientais para o nível local, enquanto as estruturas político-administrativas continuaram centralizadas, dificultando, dramaticamente, o encaminhamento da crise social. Multiplicaram-se, nesse sentido, os problemas de educação, saúde, degradação ambiental, abastecimento, saneamento, habitacionais e exclusão social, entre outros (DOWBOR,1995; FERREIRA,1995). De fato, a descentralização das políticas públicas e ambientais tem sido alvo de grande interesse teórico e prático por parte de formuladores e gestores de política, cientistas sociais, urbanistas, ambientalistas e movimentos sociais relacionado à questão urbana (FERREIRA,1998; BURSTYN,1993; CAHN,1995; MORRISON,1995; PAEHLKE,1989; DOWBOR, 1995).
Ferreira (1998) discute como a urbanização, acentuada nos países do terceiro mundo, é mais decorrente da pobreza e da concentração de renda, do que de formas sadias de desenvolvimento econômico. Seus efeitos mais visíveis têm sido a ampliação das carências sociais, a degradação ambiental e a precarização de setores infraestruturais como saneamento, habitação e transportes. Constata, assim, um nítido descompasso entre o aumento dos problemas - seja devido ao crescimento desordenado, seja pela transferência de responsabilidades da esfera federal à local - e a reduzida capacidade orçamentária e de organização social para enfrentar as novas situações. Antevê, portanto, a necessidade de aprofundar os processos de descentralização política e de participação social, no sentido de transformação dos atuais sistemas políticos representativos em modelos participativos e sustentáveis de gestão política. Adverte, entretanto, que o fortalecimento da participação social exige mudanças de mentalidade capazes de combater os vícios de uma cultura política tradicional, clientelista e conservadora. Mostra, também, a dificuldade de pensar em modelos sustentáveis de gestão em contextos de acentuada desigualdade social. Trata-se, enfim, de sistemas de gestão político-social para além de suas bases de organização partidárias e sindicais, incorporando crescentemente o princípio comunitário e a prática participativa nas decisões que orientam a vida cotidiana da coletividade.
3.2. NOVA ESPECIALIDADE OU MUDANÇA
PARADIGMÁTICA?
O dilema seguinte refere-se ao debate provocado pela sociologia ambiental que contrapunha duas concepções alternativas para a nova disciplina. Se organizar como uma nova especialização no interior da sociologia mais ampla ou, se colocar como uma proposta de mudança paradigmática para a sociologia como um todo, de acordo com a formulação de Catton e Dunlap de um “Novo Paradigma Ecológico” (NPE), em substituição ao Paradigma do Excepcionalismo Humano (PEH), descritos anteriormente.
Buttel (1978, 1992 e 1996) é o principal crítico do que nomeia as “pretensões paradigmáticas de Catton e Dunlap”. Inicia sua argumentação considerando a constatação de que, passado quase duas décadas da primeira proposição do NPE, a mudança paradigmática não concretizou-se. De fato, a sociologia, enquanto disciplina, resistiu às propostas de mudar seu objeto e métodos de análise. Buttel procura apontar, assim, os possíveis motivos para o fato, concentrando seus argumentos sobre algumas fragilidades teóricas do núcleo da teoria de Catton e Dunlap, centrada na distinção entre o PEH e o NPE. Analisando esta distinção, Buttel tenta demonstrar que:
a)
as
premissas reunidas no PEH e no NPE foram formuladas num nível muito genérico e
abstrato. Esse fato tanto dificultou a aplicação empírica da teoria, quanto
permitiu que qualquer teórico pudesse ser enquadrado como exemplo de um ou
outro paradigma;
b)
a
abrangência das premissas tornava difícil transformá-las em afirmações teóricas
precisas e em hipóteses passíveis de verificação;
c)
ambos
os paradigmas – o PEH e o NPE – não apresentam um conjunto coerente de
pressupostos capaz de explicar os processos de mudança social;
d)
Catton
e Dunlap exageraram ao sugerir que toda diversidade teórica da sociologia
poderia ser reduzida ao antropocentrismo do PEH. Defendiam que as grandes
clivagens teóricas da sociologia se concentravam em torno de visões
antropocêntricas ou ecocêntricas, desprezando as distinções que separam as
perspectivas marxistas, funcionalistas e compreensivistas, para mencionar as
mais genéricas;
e)
a
sociologia geral é uma disciplina muito diversificada internamente para que
possa ser transformada, consensualmente, por uma proposta teórica ainda
incipiente e de abrangência limitada.
Dunlap (1997), em artigos posteriores às críticas de Buttel, admite que sua esperança na mudança paradigmática foi excessiva e que sua iniciativa tinha, em grande medida, um apelo provocativo. Afirma que, com a formulação da distinção entre o PEH e o NPE, não pretendia estabelecer suposições testáveis, mas definir dois conjuntos de suposições representativos de duas grandes visões de mundo. Com relação à sua afirmação de que toda teoria sociológica se reduziria a variações em torno do paradigma antropocêntrico, pondera que não pretendia que sua proposta paradigmática substituísse a teoria sociológica, mas que estimulasse a formulação de novas teorias abertas à consideração dos problemas ambientais.
Buttel (1996), por sua vez, conclui sua análise sobre esse debate reconhecendo a importância da contribuição de Catton e Dunlap para a construção do novo campo, mas negando a possibilidade dessa contribuição se constituir como um novo paradigma válido para toda a sociologia. Acredita, entretanto, que a sociologia ambiental já conquistou reconhecimento e espaço como nova área de especialização e tem perspectivas favoráveis para o futuro se souber evitar o isolamento, conviver e compartilhar do debate com a sociologia e as demais disciplinas correlatas.
Na opinião de Hannigan (1997), a distinção entre o PEH e NPE, proposta por Catton e Dunlap, falhou por não gerar muita agitação fora desta nova área de especialização, como por exemplo, na psicologia, na ciência política e na educação ambiental. Ao mesmo tempo, para este autor, os sociólogos podem, ao incorporar a temática ambiental, trazer uma contribuição positiva para o debate do tema, e também se enriquecer com ele, mesmo que isso não signifique transformar a disciplina como um todo. Para esse autor, o campo ainda tem carência de um trabalho seminal que poderia levar a sociologia ambiental para dentro do debate mais amplo no campo da sociologia. Um exemplo é a teoria da Sociedade do Risco de Beck que, sendo sociólogo das instituições, tem teorizado sobre o tema dos riscos ambientais e tecnológicos, porém mais a partir de uma perspectiva da macro-sociologia das mudanças sociais do que de um paradigma rotulado especificamente de sociologia ambiental. Apesar disso, os argumentos de Beck têm sido largamente noticiados e têm provocado discussões consideráveis tanto dentro, quanto além dos limites da sociologia ambiental.
Giuliani (1998), analisando o mesmo problema, argumenta que o elemento unificador da sociologia ambiental não é tanto a adesão a um paradigma teórico mas a adesão a valores de uma nova cultura ambientalista, a uma busca de solução para os problemas socioambientais reais e de uma melhor relação entre a sociedade e natureza. Para ele, a importância atribuída aos fatores ambientais pode contribuir para superar as resistências da sociologia em assimilar os problemas ambientais.
Concordamos com Buttel sobre a inviabilidade da proposta de mudança paradigmática na sociologia como um todo, por diversos motivos. Há que se considerar, como frisamos acima, que a sociologia como disciplina cobre um leque tão diverso quanto vasto de temas, entre as quais alguns têm relação direta e forte com a questão ambiental, alguns têm uma relação indireta e outros uma relação quase imperceptível. Por outro lado, a despeito da tendência antropocêntrica, característica de grande parte da teoria sociológica, seria no mínimo um despropósito negar toda sua acumulação de conhecimento. O mais sensato, portanto, e que já vem sendo feito, seria selecionar nesse vasto acervo teórico aquelas contribuições que ampliam a compreensão da relação sociedade-ambiente e outras passíveis de adaptação à uma abordagem sociológica da questão ambiental. Além disso, uma proposta de mudança paradigmática que rejeita boa parte da teoria social deveria dispor de um arsenal teórico alternativo abrangente, de alta elaboração e consistência, o que não corresponde à produção da jovem sociologia ambiental. Contudo, dispensar a proposta de mudança paradigmática não significa abdicar da compreensão e do debate sobre a dependência ecossistêmica das sociedades humanas e a interdependência e caráter dialético da relação entre sociedade e ambiente.
Avaliar e compreender o processo de construção de um novo campo de conhecimento suscita múltiplas questões das quais abordamos as mais visíveis. Certamente não pretendemos esgotar o tema nem propor respostas definitivas, mas discutir possíveis caminhos de desenvolvimento e fortalecimento da sociologia ambiental, enquanto “ecossistema” teórico, epistemológico, empírico e político que contribua para a conscientização de uma nova ordem de relações e problemas sociais e para a construção de respostas capazes de promover a qualidade da vida dos indivíduos e a sustentabilidade dos sistemas sociais.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A avaliação do estado da arte da sociologia ambiental, especialmente na experiência norte-americana, nos revela que a nova disciplina, por um lado, já tem conquistas relevantes a apresentar, mas por outro lado, ainda muito para desenvolver.
Do lado das conquistas é inegável o avanço do processo de institucionalização de um novo campo de pesquisas, ensino e debate sobre a temática ambiental em perspectiva sociológica.
Grambling & Freudenburg (1996), avaliando o desempenho da sociologia ambiental nas décadas de 70 e 80, mencionam três pontos de desenvolvimento onde a disciplina foi bem sucedida. São eles:
a) a superação de parte da resistência ao trato de variáveis ambientais em análises sociológicas “respeitáveis”;
b) o impulso para que os sociólogos percebessem que os limites físicos e de recursos são reais e reais em conseqüências socialmente significantes, e não apenas como assunto que pode ser ignorado segundo nossa consciência;
c) uma ajuda para que os sociólogos e demais pessoas percebessem que existem conexões reais e inevitáveis entre a atividade humana, sobretudo atividade econômica, e a degradação ambiental.
Além disso, a disciplina já dispõe de alguns modelos teóricos férteis, adequações interessantes da teoria social para análises ambientais e significativa produção de pesquisa empírica.
Por outro lado, olhando para as potencialidades a desenvolver, deparamo-nos com múltiplas questões, entre as quais se destaca o crescente reconhecimento de que a questão ambiental é, em última instância, condicionada pela organização social. Ou seja, embora a crise ambiental tenha uma inegável base biofísica, além de dimensões tecnológicas e demográficas, esses fatores são influenciados e orientados pelos modelos políticos, econômicos e sociais que definem a ordem e a desordem social contemporânea (DUNLAP, 1997; SCHNAIBERG, 1980; BECK, 1992; GIDDENS, 1997). Sendo correta essa premissa, o aporte da sociologia ambiental se reveste de decisiva importância na compreensão e busca de respostas para os atuais problemas socioambientais. De acordo com essa compreensão deduz-se o papel fundamental da sociologia ambiental no subsídio às políticas públicas, em sentido amplo, que envolve a questão ambiental articulada a variáveis sociais, econômicas, políticas, tecnológicas, demográficas e culturais interconexas.
Cabe também à sociologia ambiental, embora não exclusivamente, a tarefa de divulgação e conscientização pública e política sobre a dimensão ambiental de inúmeros problemas sociais que não são concebidos como tal. Exemplos desse fato, são os diversos problemas relativos à saúde pública, aos padrões de produção e consumo, ao saneamento, à degradação urbana, ao abastecimento de água, aos acidentes de trabalho e de trânsito e à geração de riscos tecnológicos entre tantos outros que não são diretamente percebidos como produtos da crise ambiental. Esses problemas são geralmente tratados de forma fragmentada, quando poderiam ser politicamente abordados como componentes de uma demanda ambiental mais ampla, que se expressa como uma reivindicação pela ampliação da cidadania e pela melhoria da qualidade de vida coletiva.
Em direção semelhante, se colocam as iniciativas de associação de cientistas e pesquisadores envolvidos com a temática ambiental para a promoção de intercâmbio científico e de canais de diálogo com o movimento ambientalista organizado – em suas múltiplas tendências – e com a sociedade civil em geral.
No que se refere à atividade de produção teórica e de pesquisa, há pistas interessantes a explorar. Tem-se, por exemplo, a possibilidade de articular a questão ambiental com temas sociológicos da atualidade como é o caso das análises da sociedade pós-industrial, do deslocamento do emprego para o setor de serviços, das modificações nos padrões de consumo de recursos naturais, dos novos sistemas de produção industrial, da questão energética, da escassez de recursos, do desenvolvimento sustentável, da urbanização desordenada, da questão demográfica, agrícola, biotecnológica, da engenharia genética, dos transportes, da sociologia da família como núcleo primário de consumo e educação, do complexo de produção/consumo, entre outras possibilidades (BUTTEL,1987).
Parece-nos também de fundamental importância municiar a disciplina com as ferramentas teóricas e metodológicas – aí incluídas as possibilidades de adaptação da teoria social e da metodologia existente – necessárias à abordagem de um objeto de estudo redimensionado com a integração de novos conceitos e novas variáveis de pesquisa.
Uma última lembrança que segue o sentido de nossas observações sobre a questão da interdisciplinariedade, sugere que o destino da busca de compreensão da realidade aponta para a expansão da consciência, a partir de uma base disciplinar consistente. Isto é, embora a sociologia ambiental tenha se institucionalizado a partir de uma especialização compartimentalizada, isto não significa que tenha que se restringir a essas fronteiras. Ao contrário, precisa do crescimento simultâneo de raízes e galhos que afirmem e aprofundem sua identidade, aceitando o desafio da diversidade e do diálogo com os demais pontos de vista, especializações e disciplinas existentes.
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[1] Artigo publicado originalmente na Revista Teoria & Sociedade, dos Departamentos de Ciência Política e de Sociologia e Antropologia da UFMG. Belo Horizonte, n.7, junho/2001, pp.241-276.
[2] Professor do Departamento de Sociologia da UFPB, Mestre pela UnB e doutorando em Ciências Sociais pela UNICAMP, na área “Ambiente, Tecnologia e Sociedade”.
[3] Mestre em Ecologia Social pela UFRJ/EICOS, doutoranda em Ciências Sociais pela UNICAMP, na área “Ambiente, Tecnologia e Sociedade”.
[4] Tendo como coordenador o Prof. Immanuel Wallerstein, a Comissão Gulbenkian foi criada em julho de 1993 com o objetivo de refletir sobre o estado atual das Ciências Sociais e suas perspectivas de futuro, abordando particularmente o dilema da estrutura disciplinar e as relações entre suas disciplinas constituintes e entre estas e as humanidades e ciências naturais.
[5] O conceito de excepcionalismo - que se refere ao caráter excepcional da espécie humana -, usado inicialmente por Catton & Dunlap para caracterizar o paradigma antropocêntrico da sociologia, evoluiu para a idéia de isenção/ “isencionalismo” (em inglês exemptionalism) para expressar a idéia de que a espécie humana está isenta de determinações naturais ou que independe da realidade biofísica.