POR UMA EDUCAÇÃO FÍSICA REFLEXIVA QUE APROFUNDE A CONSCIENTIZAÇÃO DOS ALUNOS

Waldyr Lins de Castro
Professor da UFF


Resumo: A nossa sociedade é constituída de classes com interesses diferenciados e os conseqüentes conflitos decorrentes desse antagonismo. Entretanto, no que concerne a manutenção do sistema, é fundamental que a homogeneidade seja mantida. Os professores de Educação Física em suas aulas, consciente ou inconscientemente têm agido colaborando com a manutenção do sistema. O estudo preconiza a reflexão sobre os métodos, técnicas e procedimentos alienantes presentes nas aulas de Educação Física. Apregoa também a necessidade do diálogo e da valorização dos indivíduos como agentes do processo e a compreensão da disciplina segundo o momento histórico que vivemos.

Palavras-chaves: Educação Física Escolar, Reflexão, Conscientização

 

Perspectivas em Educação Física Escolar, Especial: 26-34, 1996.

 

INTRODUÇÃO

      A nossa sociedade e constituída de classes com interesses diferenciados e os conseqüentes conflitos decorrentes desse antagonismo. Entretanto, no que concerne a manutenção do sistema é fundamental que a homogeneidade seja mantida. O poder instituído tem como tarefa fazer crer que as diferenças são apenas as diversidades inerentes às condições de vida de cada indivíduo. Com essa justificativa os "fatos injustos" podem ser atribuídos aos homens maus, ou que funcionam inadequadamente (Chaui, 1990).

O ocultação e a dissimulação do real se utilizam de um corpo sistemático de conhecimento que tem como objetivo nos indicar "o caminho certo", nos dizer o que pensar e como agir. O discurso ideológico procura se fazer coincidir com o real, eliminar as diferenças e contradições existentes na sociedade, levar todos a se identificarem com uma imagem universalizada ditada pelos valores da classe dominante. A ideologia trabalha portanto, no campo do imaginário, no sentido de criar explicações que mascarem o real, procurando impedir a percepção da historicidade, a compreensão do político, do social que não cessam de instituir-se a cada momento (Chaui, 1990).

A Educação Física através do tempo tem sido utilizada como meio de manipulação para manutenção da ordem e do "status quo". Não foram poucos aqueles que viram na Educação Física e Desporto um eficaz instrumento de manipulação e dela vêm se servindo para atender seus objetivos (Castro, 1993).

A grande maioria dos professores que atua no dia a dia das escolas podem vir exercendo suas atividades sem ter consciência do que esta por trás das políticas que permeiam suas práticas (Moreira, 1991). Entretanto, os governantes e os mentores das políticas, sobretudo durante os governos de exceção, têm tido políticas bem definidas para a Educação Física e Desporto.

Durante o Estado Novo a Educação Física foi utilizada como meio para desenvolver o patriotismo e o civismo. O que se traduzia em doutrinar os indivíduos de acordo com a ideologia oficial e produzir cidadãos leais ao Estado. Outro importante objetivo era a melhoria da raça. Esses objetivos refletiam a influência da Alemanha nazista daquela época (Faria Júnior, 1984).

Platão assim nos escreve: "as crianças devem ser enviadas ao mestre de ginástica para que sendo seus corpos mais fortes obedeçam melhor... e não se tornem fatalmente covardes quer em guerra quer em outras ações, pela fraqueza de seu corpo" (Manacorda, 1989). A intenção de Platão explicita a importância da obediência que é sinal de aceitação sem questionamento, que não tem lugar quando o objetivo da educação é a formação do cidadão crítico que tenha capacidade de reflexão. A ordem e a disciplina têm acompanhado a Educação Física. 

A influência da Educação Física Militar e gerida por militares tem certamente contribuído na enfatização desses objetivos. A primeira escola de Educação Física criada no Brasil foi a do Exército em 1933 e o regulamento da escola militar francesa de Joinville-le-Pont foi a bíblia da Educação Física Brasileira por mais de duas décadas (Oliveira, 1983). Ainda hoje, podemos encontrar traços da influência militar na Educação Física Brasileira. A Educação Física nos meios militares tem como principal objetivo disciplinar os indivíduos, soldados não são educados para discutir ordens e sim treinados para cumpri-las. Essa concepção de Educação Física pode ser adequada para o objetivo dos quartéis mas não para formar cidadãos capazes de refletir.

Durante a ditadura militar iniciada em 1964 o desporto universitário foi amplamente incentivado com o objetivo de afastar os alunos das atividades políticas. Os jogos estudantis e universitários Brasileiros em nenhuma outra época receberam tanto incentivo. A professora Maria Lenk, então diretora da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro nos relata que o objetivo do governo era acabar com os focos revolucionários que subsistiam nos diretórios acadêmicos e que o desporto e a Educação Física eram um dos meios para alcançar esse fim. Nessa época os militares fechavam os diretórios mas mantinham abertas as associações atléticas. A professora menciona também que quem esta ligado ao esporte raramente se interessa por política . Enquanto os diretórios eram locais que se constituíam em focos de resistência a ditadura as associações atléticas eram redutos que serviam para afastar os alunos das atividades políticas que ameaçavam o sistema (Castellani, 1988).

 

A EDUCAÇÃO FÍSICA REFLEXIVA

 

No ano de 1979, como reação a ditadura militar que se iniciou em 1964, e que nesse momento dava sinais de esgotamento, surgiu um movimento de denúncia e reação aos valores da Educação Física daquele período. Alguns autores passaram a clamar por uma Educação Física transformadora da realidade que deixasse de perpetuar os valores da classe dominante. 

Esses autores consideram que a Educação Física deva se preocupar sobretudo com a conscientização dos seus alunos. Esse movimento entendia que o aluno não deveria ser mais considerado como um compartimento vazio onde o professor deposita o conhecimento que considera importante. Ele é um indivíduo que tem percepção e interesses próprios apoiados numa série de conhecimentos anteriormente adquiridos, sua conscientização passa, portanto, pela sua participação no processo. Consciência é um estágio que para ser alcançado requer participação e reflexão. Conseqüentemente o ensino que se preocupa com a formação de pessoas conscientes tem que problematizar as situações e valorizar o diálogo.

A maioria das pessoas na nossa sociedade recebe uma educação autoritária, sem direito a questionamentos, explicações ou qualquer forma de participação. Nesse sistema o educador ordena sem explicar, exige obediência e pune arbitrariamente a transgressão da ordem por ele estabelecida.

Quando executamos ordens sem saber o motivo mas apenas porque temos medo da punição, obviamente não temos consciência do que fazemos nem chance em adquiri-la. E o caso da mãe que diz para o filho - desce dai se não você vai apanhar. Essa mãe não explica para o filho o motivo da ameaça, ele sabe apenas que deve descer ou será punido. Esse é um exemplo de ação educacional autoritária bastante comum em nossa sociedade. Esse tipo de ato não só acentua a inconsciência de uma pessoa como também a adestra para que seja obediente e não questione.

A Educação Brasileira é reflexo de uma cultura autoritária baseada na competência. Quem tem o conhecimento detém o poder, ao professor cabe falar e dizer o que pensa , "o que sabe", ao aluno  apenas acatar, passivamente, sem contestar ou mesmo sugerir. O aluno é entendido, segundo a concepção do compartimento vazio cujo ao professor cabe preencher com as informações que possui. A participação do aluno no processo de ensino aprendizagem não é considerada.

O educador autoritário não aceita contestação e justamente por isso tem pouca chance de refletir e evoluir. Ele é "o dono da verdade " ou pelo menos do poder. A prática autoritária sufoca o poder de reflexão tanto do educando quanto do educador, processo que perpetua esse tipo de prática educacional.

O objetivo da educação é transformar a realidade objetiva na qual os homens estão reduzidos a coisas. Somos seres inconclusos e possuímos, por essa razão, um ímpeto de criar. O homem deve ser portanto, o sujeito de sua própria educação e não um objeto dela. Uma educação baseada no diálogo que permita ao aluno refletir, deve ser estimulada. É preciso, todavia, que o diálogo seja verdadeiro, sem que  haja uma superposição de poder. O diálogo que comunica é aquele que cria uma relação de empatia baseado na fé no homem.  A educação não deve, por tanto, ser uma mera substituição de mitos mas sim uma problematizadora da realidade mistificada (Freire, 1983).  O educador comprometido com a reflexão, precisa saber que somente é capaz de entender a si próprio, como um ser em relação com a realidade em que vive e atua com outros homens tão condicionados quanto ele. E que essa realidade é dialeticamente permanente e mutável (Freire, 1983).

 Vivemos numa sociedade de classes que se utiliza de um discurso ideológico para alienar as pessoas e manter o poder da classe dominante. A ideologia separa o sujeito do objeto na construção de uma pretensa objetividade. Portanto, ao utilizarmos o discurso crítico, no processo de desmonte da ideologia, devemos ficar atentos para não objetivá-lo. O sujeito e o objeto devem ir se construindo um pelo outro no próprio processo (Chaui, 1990). A quebra da alienação só é possível com a reflexão que tem como um de seus instrumentos de ação o diálogo. A imposição de valores quer seja pela alienação ideológica quer seja pela pretensa contra-ideologização transformam os sujei­tos em objetos.

A Educação Física tem se caracterizado pela valorização da ordem e a perpetuação de práticas alienadas, se o objetivo é a reflexão e o desenvolvimento da consciência precisamos valorizar o diálogo e os questionamentos.

 

ENSINANDO O POR QUE  

 

Temos vivido a Educação Física do fazer sem saber porque, nem para que. O professor demonstra gestos que tem que ser imitados. Os alunos correm durante vinte minutos durante todas as aulas de um semestre letivo e não sabem qual o objetivo dessa corrida, o mesmo acontece quando executam um aquecimento, ou aprendem um gesto desportivo. Criamos alunos dependentes e alimentamos a alienação. Os alunos saem das escolas sem saber organizar seus programas de exercícios físicos ou um torneio de futebol.

A Educação Física paternalista que realizamos além de não dar meios para que os alunos se conscientizem não lhes permite autonomia em termos de atividade física. Educando alunos que não entendem o que fazem, e porque o fazem de uma determinada maneira, estaremos criando alunos dependentes, o que é incompatível com  uma educação reflexiva.

Entendo que a Educação que tem como objetivo a autonomia do aluno, também colaborará para a sua possível conscientização. Todavia, é importante lembrar que  aluno que tem mais conhecimento tem aumentado seu grau de independência mas não necessariamente o de consciência. Embora a explicação do porque seja um grande passo, provavelmente, o mais importante seja a utilização do diálogo e do questionamento no processo de transmissão desse conhecimento.

 

O USO DO UNIFORME 

 

Muitos professores são taxativos: sem uniforme os alunos não podem participar das aulas. São exigidos, por vezes, detalhes mínimos tais como meias totalmente brancas, sem tolerância para uma lista por mais tênue que seja.

O uso do uniforme na escola, é em si, um assunto controvertido. Tenho constantemente escutado que essa seria uma maneira de reduzir as diferenças de poder aquisitivo que se evidencia quando cada aluno pode vir para a escola vestido da forma que quer. Alega-se que se todos vestirem e calçarem o mesmo modelo e as mesmas cores ninguém poderá variar de vestimenta a cada aula constrangendo os que não podem fazê-lo. Por outro lado, também devemos considerar que a obrigatoriedade do uso de uniforme, fere a individualidade dos alunos.

Entendo que haveria uma certa concordância entre os professores de Educação Física de que existem calçados e roupas mais adequados a prática da atividade. Seria todavia, necessário  padronizarmos as cores ? Pensarmos um tipo de vestimenta que facilite os movimentos, que reduza o risco de acidentes, que tenha fins higiênicos parecem ser argumentos práticos de fácil compreensão. Mas qual seriam outros motivos que justificariam a padronização das cores e modelos além da eliminação da individualidade.

Se considerarmos a questão da obrigatoriedade do uso do uniforme nas escolas públicas brasileiras, antes de mais nada se faz necessário considerar o poder aquisitivo dos alunos. Não podemos exigir uniforme de quem não tem condições de comprá-lo. Podemos, nesse caso, sugerir o desejável, não com o objetivo de uniformizar mas com o intuito de tornar a prática das aulas, agradável, confortável, segura e higiênica.

 

O INÍCIO DA AULA E SUA ORGANIZAÇÃO.

 

A influência militar que tem por objetivo adestrar para o cumprimento de ordens, ainda hoje, esta presente nas aulas de Educação Física.  Moreira (1991) observou professores que perfilam seus alunos no inicio da aula e que ministram ordem unida.

Quando se pensa numa Educação Física que facilite a reflexão, provavelmente, a melhor forma seja sentar-se com os alunos numa disposição em forma de circunferência. Essa maneira de iniciar a aula poderá significar o prelúdio de um ambiente de diálogo e reflexão, não sendo todavia uma garantia de que isso ocorrerá. A disposição física dos alunos poderá ser propicia à participação dos alunos, entretanto, a conclusão do processo dependerá do passo seguinte que o estabelecimento do diálogo.

 

AQUECIMENTO 

 

Parece, esta se tornando cada vez mais raro uma aula de Educação Física que se constitua exclusiva­mente de ginástica do tipo calistênica. No entanto, também é bastante raro observarmos uma aula de Educação Física que não seja iniciada por uma sessão de exercícios formais, tipo calistênico, corridas e flexionamentos e alongamentos. Um misto de aquecimento e preparação física.

Acredito que o uso do aquecimento de maneira formal como parte integrante de quase toda aula de Educação Física, seja em função da necessidade que o professor tem de comandar.

A explicação de que o aquecimento organizado e sistemático seja uma necessidade fisiológica, não parece proceder. Observei professores comandarem o aquecimento para corrida com o objetivo de desenvolver a capacidade aeróbia,  com flexionamentos e alongamentos e sessões de ginástica com corrida. Assisti aulas de natação em dia de muito calor em que o aquecimento era constituído de corridas, flexões abdominais, flexões de braço e polichinelos. Exercícios esses que eram solicitados em grande quantidade e intensidade. Embora esses casos reflitam um desconhecimento patente dos objetivos de um aquecimento, pode também ser um indício de que essa é uma parte da aula que o professor comanda.

Um outro fator interessante é que, de um modo geral, o aquecimento independe da  atividade física, sendo o mesmo em todas as aulas,  mesmo assim é o professor que comanda, o tempo todo. É óbvio que nesses casos os alunos sabem exatamente o que devem fazer mas mesmo assim parece que o professor tem necessidade de dizer o que deve ser feito, dirigindo a atividade.

A hipótese do uso do aquecimento como forma de controle esta sendo aqui apontada para que possamos examinar o grau de autoritarismo na prática da Educação Física. Entretanto, a discussão de para que serve o aquecimento, como pode ser feito, a iniciativa do professor de levar o aluno a conhecer as reações do seu organismo, de saber o que lhe convém como aquecimento, contribuirão para sua autonomia e poderão ser elementos empregados na sua conscientização.

 

FUNDAMENTOS

 

O ensino dos fundamentos é muitas vezes requerido com base num modelo de gesto que ignora a individualidade. Ignora-se as qualidades físicas do aluno, seu biótipo, sua personalidade, o professor demonstra a técnica sem se aperceber que aquele é o seu movimento baseado nas suas características. O ensino por modelo tem implícito que todas as pessoas são iguais. As pessoas têm aptidões e habilidades próprias que dependem de características individuais, fato obvio que não pode ser ignorado pelo ensino. A problematização, a descoberta por experimentação possibilitariam a cada aluno a melhor adaptação dos gestos as características individuais. Esse método poderia ser acompanhado de questionamentos e discussões que seriam um importante instrumento de conscientização.

 

AS REGRAS DO DESPORTO

 

Ouvi algumas vezes professores de Educação Física enfatizando a importância das regras dos desportos como objeto da educação. Segundo esses professores se os alunos aprendessem a respeitar as regras do desporto eles aprenderiam a respeitar as regras da sociedade. Essa característica do desporto tem sido apontada como um importante instrumento da Educação Física, capaz de realizar uma transferência desejável de aprendizagem.

Na verdade, não consigo conceber um desporto que não tenha regras, também entendo que possa haver uma transferência das regras aprendidas com a prática do desporto, para as existentes na sociedade. No caso do desporto são as regras que permitem o seu desenrolar. Os participantes de uma partida de Futebol de Salão à exceção dos goleiros não podem pegar a bola com as mãos e quando alguém infringe essa regra seu time é penalizado. Se não fosse essa regra ou o jogo teria outras características ou seria inviabilizado pelos próprios participantes. A vida em sociedade também tem algumas regras que são semelhantes as regras do jogo, não podemos andar de carro na contra mão, agredir pessoas ou destruir o patrimônio público. As leis são as regras que têm como objetivo estabelecer a ordem social coibindo os atos indesejáveis. Em ambos os casos são as regras que possibilitam a convivência das pessoas, portanto, é importante que os participantes tanto de uma atividade desportiva quanto de um grupo social tenham regras. Entretanto, cabe lembrar que as regras na sua maioria são criadas pela classe dominante e conseqüentemente em beneficio próprio. Portanto, cabe ao professor educar os alunos para que sejam capazes de entender a maneira como a sociedade e suas leis são  construídas, ressaltando a necessidade de refletir sobre ambas e trabalhar no sentido das mudanças quando julgarem necessário. Quando jogam sozinhos sem a interferência de professores ou árbitros os alunos têm, por vezes, um comportamento bastante desejável que é o de modificar a regra padrão quando identificam haver necessidade. Observei que as crianças que jogavam, Futebol de Salão, numa determinada quadra, davam a saída, no círculo central, passando a bola para trás, e não para frente, como preconiza a regra. Ao indagar porque o faziam daquela forma, me disseram que como o circulo central era pequeno (proporcional ao tamanho da quadra) o passe para frente era quase sempre interceptado pelo adversário, por isso decidiram alterar a regra. Um outro exemplo, ocorreu no tempo em que eu dava aulas de Judô para crianças. Promovia um jogo que consistia em levar uma faixa de Judô, que eu transformava, com vários nós em algo semelhante a uma bola, até a linha de fundo do campo do adversário. Era válido que todos tentassem tirar a faixa da mão de quem a tinha. O problema era que todos os alunos se amontoavam uns em cima dos outros, o jogo perdia o dinamismo e se tornava perigoso. Apesar do problema os alunos solicitavam  o jogo mas as reclamações eram constantes. Um dia discuti o problema com os alunos e eles propuseram uma solução. Só um participante de cada time poderia se envolver na disputa os outros teriam que aguardar procurando se posicionar na expectativa do resultado. A solução dada pelos alunos realmente tornou o jogo mais dinâmico, mais agradável e menos perigoso.

 

APITAR O JOGO ! 

 

A experiência me diz que quando os alunos jogam sem um juiz que apite o jogo, eles próprios são capazes de fazer a arbitragem de maneira informal. E mesmo havendo um outro desentendimento eles são passíveis de solução. Os professores de Educação Física, de um modo geral, consideram importante que os jogos sejam arbitrados, tanto e que quando por algum motivo, eles mesmo não apitam, solicitam ou indicam um aluno para cumprir a tarefa. O jogo arbitrado parece fomentar a necessidade da burla, o que não acontece na ausência de um arbitro. Quando há um árbitro decidindo o que é certo ou errado, quem tem ou não razão, os participantes, parecem  se sentir desobrigados pelo andamento da partida. Quando não há árbitro os participantes movidos pela necessidade de jogar estabelecem as regras de procedimento que permitem o desenrolar da atividade.

O que poderia ser chamado de auto-arbitragem parece ser uma sadia forma de participação, nesse caso o papel do professor seria a de um facilitador das situações de conflitos de difícil solução.

A autogestão dos alunos durante um jogo é extremamente positiva, em termos educacionais que considere a formação de um aluno reflexivo.

 

GRAU E AVALIAÇÃO 

 

Quando olhamos o céu, pela manha antes de sair de casa, para saber se há possibilidade de chover, estamos fazendo uma avaliação. E ela será tanto mais precisa quanto for o conhecimento que tenha­mos de determinados fatores que podem ser indícios ou não de chuva. Se o tempo esta escuro, de que direção vem o vento, se há urubus sobrevoando, etc. Quando conversamos com outras pessoas avaliamos o tempo todo o que escutamos e o que vamos dizer. A aula em que a participação seja facilitada, propiciará inúmeros elementos para avaliação, do aluno, do professor, dos métodos de ensino. O mais importante desse processo de avaliação e que nele estarão envolvidos todos que dele participam.  A avaliação inerente ao processo de diálogo e reflexão, não exclui entretanto, as avaliações formais objetivas que o professor considerar conveniente.

Um outro problema que merece ser considerado e a confusão existente entre avaliação e grau. Avaliar e procurar conhecer melhor, o aluno, saber o quanto ele aprendeu, e entender a si próprio enquanto professor e a eficiência dos métodos de ensino empregados. O grau deveria ser um numero ou uma letra correspondente a avaliação do que o aluno aprendeu. Entretanto, essa correspondência nem sempre ocorre, comumente, graus são atribuídos ao que é possível se mensurar objetivamente. Freqüentemente essa opção está em desacordo com os próprios objetivos do professor. O resultado dos testes, sob a forma objetiva tem tido, na realidade, o único objetivo de controlar os alunos e induzi-los a ter os comportamentos que a escola e o professor consideram adequados. Além de estabelecer uma  competição compulsória, da qual todos os alunos são obrigados a participar, sob a ameaça de que se não obtiverem a nota mínima serão reprovados.

Se para o professor o conteúdo do ensino é o que importa, para o aluno o objetivo é obter o grau.   O grau desvaloriza o conteúdo do que se ensina na escola, inculca a  obediência, além de criar uma ambiente ameaçador que dificulta a aprendizagem.

A justificativa para a existência do grau, e que há um determinado conhecimento que o aluno precisa aprender para que possa entender a etapa seguinte. A Educação Física nas suas várias séries não tem pré-requisitos estabelecidos. Por que então atribuir graus aos alunos ?

Através do diálogo e os questionamentos  facilitado pelo professor, a avaliação que se faz naturalmente, na interação entre as pessoas, tem o poder  de despertar a reflexão. A avaliação formal poderá acrescentar novos elementos que contribuirão para que o professor tenha mais conhecimentos sobre a sua prática. O grau, no entanto, parece perfeitamente prescindível, principalmente, se o principal objetivo da educação for a formação de alunos reflexivos.      

 

CONCLUSÃO

 

Práticas autoritárias, alienadas e alienantes vêm sendo perpetuadas nas aulas de Educação Física. Se queremos formar alunos reflexivos e conscientes temos que examinar a nossa pratica, refletir sobre cada um dos nossos objetivos e substituir as ordens sem explicação pelo diálogo e pelo questionamento.

 

REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS

 

Castellani Filho, Lino. Educação física no Brasil: a história que não se conta. s.ed. Campinas: Papirus, 1988. 225 p.

Castro, Waldyr Lins de. Educação física e democracia. Atas do Primeiro Congresso de Educação Física dos Países de Língua Portuguesa. UERJ, 1989.

Chaui, Marilena. Cultura e democracia. 5.ed. São Paulo:  Cortez, 1990. 309 p.

Faria Junior, Alfredo Gomes de.

Freire, Paulo. Educação e mudança. 10 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. 79 p.

Manacorda, Mário Alighiero. História da educação: da antigüidade aos nossos dias .s. ed. São Paulo: Cortez, 1989. 382 p.

Moreira, Wagner Wey. Educação física escolar: uma abordagem fenomenológica. s.ed. Campinas: Unicamp, 1991. 200 p.

Oliveira, Vitor Marinho de. O que e educação física. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1984. 113 p.