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A pesada porta de ferro trancou-se num estrondo assustador, estabelecendo um completo hiato entre o mundo externo e o cubículo mal iluminado. Agora era irreversível: fora rompida toda a ligação entre os dois universos. Ali dentro a vida estabelecia o seu próprio ritmo.
Entre as paredes sólidas, o rapaz se recompôs rapidamente da violência com que fora atirado ao fundo da cela. Seu primeiro impulso foi gritar até que o pulmão se esvaziasse. Mas os berros se perdiam em meio ao silencio mórbido. Aos poucos foi perdendo a força e os urros foram cessando.
Encolhido num canto, não se importou em disputar espaço com a solidão atrevida, que se derramava pelo lugar sombrio. Quis dormir, mas foi em vão. Cerrava os olhos com força, mas o sono não vinha. Virou e revirou-se no chão gelado; sem sucesso não adiantava, faltavam-lhe os sonhos.
Vagarosamente, correu os olhos pela cela a procura de algo que o entretivesse. Percebeu duas teias de aranha na esquina com o teto, descobriu uma rachadura que praticamente dividia a parede ao meio, constatou manchas de sujeira e sangue espalhadas pelo chão. Bem mais rápido do que supunha, porém, os mistérios ao seu redor foram se tornando escassos, até desaparecerem por completo.
Por falta de algo melhor para fazer, lembrou-se do momento de sua prisão. Feito um filme, as cenas passavam-lhe diante dos olhos. E como dispunha de todo o tempo do mundo, ruminou aquelas imagens pelos mais variados ângulos. De frente para trás, de trás para frente, em ordem linear, desordenadamente. Àquela altura já não era mais capaz de distinguir o que era real do que era imaginação.
Sentiu ódio ao recordar a humilhação a que fora submetido - o chute no peito, a cusparada na cara, as gargalhadas de deboche – e ia sentindo um ímpeto de cólera a correr-lhe nas veias. O rosto enrubesceu, os dentes se cerravam, os olhos ardiam em chamas. E ele jurou para si mesmo que o dia em que escapasse dali – e escaparia! - se vingaria de um por um. Deliciou-se ao antecipar em pensamento os rituais de crueldade que utilizaria na vingança. Pensou nas formas mais cruéis e impiedosas que pôde. A imaginação era fértil e rolava solta. Não precisava ter pressa em decidir-se por uma delas. O tempo, naquele inferno a que se reduzira, praticamente mantinha-se estático.
Os dias foram passando. Os anos foram passando. O corpo do rapaz definhava por falta de exercícios e higiene. A luz do sol chegava com hora marcada e nunca parecia plena. Já não ouvia a voz humana. As únicas vozes que ouvia era a sinfonia imaginária de risos dos agentes penitenciários e o grito ensurdecedor de sua consciência clamando por vingança.
Por falta de ocupações melhores e mais dignas, passava os segundos de sua vida a eleger vitimas para o ódio crescente que lhe tomava a alma. Traçou um a um os infelizes desfechos a que seriam todas submetidas no dia em que escapasse. Esse dia não tardaria em chegar.
........................................................................................................Continua...
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