CARLOS MARIGHELLA, 06/06/2013

Da Aliança à ação

 

João Pedro Soares

 

Baiano, guerrilheiro e poeta erótico. Este era Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar brasileira. Em entrevista ao Cale-se, Mário Magalhães, autor da mais completa biografia sobre a principal liderança da luta armada, Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo, falou sobre a relação de Marighella e das organizações guerrilheiras com a imprensa e contou histórias inusitadas presentes no livro.

Natural de Salvador, Marighella ficou famoso na cidade por responder a uma prova de física em versos. O que não significava um baixo conhecimento da disciplina, tanto é que cursou Engenharia Civil na Escola Politécnica da Bahia até ingressar no PCB, em 1934, quando abandonou o curso. Fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN), maior organização guerrilheira durante a ditadura militar, e foi assassinado pelo Estado brasileiro em 1969.

Após nove anos de trabalho, Mário lançou finalmente a obra que lhe demandou tanto trabalho em pesquisas e entrevistas. O premiado jornalista, que já foi repórter especial e ombudsman da Folha de São Paulo, buscou, no livro, apresentar ao público o que havia em Marighella além do famoso guerrilheiro. O amigo de Jean-Paul Sartre, Joan Miro e Gláuber Rocha e companheiro de cela de Graciliano Ramos no Estado Novo foi uma fonte extensa de histórias sobre o passado brasileiro e funcionamento dos grupos guerrilheiros.

 

Cale-se: O que foi possível constatar sobre a relação de Carlos Marighella com jornalistas durante a luta armada?

Mário Magalhães: Marighella chegou a dirigir jornais do PCB. Por exemplo, em 1960, os comunistas tinham um jornal diário no Rio para apoiar a candidatura presidencial do general Henrique Lott contra a do Jânio Quadros, que acabou sendo vitoriosa. Foi um jornal que durou poucos meses, chamado “Hoje”. O diretor era o Marighella; o diretor chefe faleceu fazem poucos meses, Luiz Mario Gazzaneo; o tesoureiro, João Saldanha, aquele que depois viria a ser técnico da Seleção Brasileira; o colunista de futebol, Didi - como é que os comunistas conseguiram o Didi de colunista? João Saldanha; o colunista social: Milton Coelho da Graça, que viria a dirigir várias publicações no país, entre elas O Globo. O Armênio Guedes também trabalhava no comando do jornal. Aí houve uma reunião lá com o Marighella e o Prestes pra decidir como ia ser o novo jornal. Então o pessoal comentou: “vamos precisar de carros”. Ai o Marighella e Prestes responderam prontamente “não, vai ficar tudo bem, temos os carros”, aí o João Saldanha virou pro Gazzaneo e falou: “ih, tá muito estranho isso aqui, vai dar merda”. Semanas depois o Lott perdeu a eleição e acabou o dinheiro que eles recebiam, então o jornal quebrou. O Marighella sempre foi muito ligado à imprensa comunista. E o Partido Comunista tinha legiões de militantes jornalistas, grandes jornalistas, como Carlos Lacerda, comunista na juventude. O primeiro grande baque no grupo de jornalistas comunistas foi no racha entre 1956 e 57, com a revelação dos crimes do Stálin. Boa parte das redações de publicações comunistas no Rio não quis continuar no partido. Grandes jornalistas, vou citar Milton Rodrigues, Zanetti de Castro, Isaac Akcelrad, muita gente boa, Aydano Couto Ferraz e muitos outros. Mas mesmo assim o partido continuou forte e tinha uma imprensa muito importante. A primeira capa do semanário comunista, do fim dos anos 50 até o golpe, foi sobre Yuri Gagarin, primeiro homem a viajar no espaço. E a manchete é linda: “Vitória do socialismo: o homem já pode ver as estrelas de perto”. Quando eu vi na Biblioteca Nacional, falei “Essa página tem que entrar no livro”, e a pagina tá lá inteira, no segundo caderno de imagens, são três cadernos. Quando Marighella vai para a guerrilha, a verdade é que ele passa a achar secundário manter uma imprensa partidária. Do instante em que Marighella volta de Cuba, em novembro de 77, até ser morto em novembro de 79, o jornal que deu origem à ALN, “O Guerrilheiro”, em São Paulo teve somente uma edição, não mais do que isso. No fundo, ele achava que não era importante o funcionamento da imprensa partidária, ao contrario do militante que dirigia a ALN com ele, um grande jornalista, Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo. Tanto que depois que o Marighella morre, a primeira coisa que o Toledo faz é rearticular a imprensa partidária. Imprensa na qual tem uns poemas do Marighella inéditos até hoje, que estavam na imprensa partidária. Para vocês terem uma ideia, quando o embaixador americano é sequestrado, no dia 4 de setembro de 1969, quem redige o manifesto são dois jornalistas, Franklin Martins, da organização que a partir de então passou a se chamar MR-8 (ex-ministro, estava no lançamento do livro em São Paulo, me deu essa honra na semana passada) e o Joaquim Câmara Ferreira, que fez emendas. E havia mais um jornalista, que era o Fernando Gabeira na casa. Havia muitos jornalistas na luta armada. Mas a visão que o Marighella tinha de imprensa não era a visão que o Partido Comunista tinha da importância de ter um porta-voz estreito próprio. Embora o que o Marighella persiga até o fim da vida seja chegar aos ouvidos e olhos da população, por isso as invasões de rádio para leituras de manifestos e por isso várias outras iniciativas. E o livro trata disso, gente, como em 68 o Jornal do Brasil publica inteiro um documento do Marighella. Em 69, depois do AI-5 em 13 de dezembro de 1968 isso já é impossível. Tem um capítulo tratando de comunicação, imprensa e jornalismo no livro, chamado “Quem não se comunica se trumbica”, que era uma expressão do Abelardo Barbosa Chacrinha, o maior comunicador que o país já teve, e que era adorado pelo Marighella. Ele não tinha militância política, mas a censura, a repressão não simpatizava com ele, porque o “caos anárquico” do programa era um incentivo à rebeldia contra o governo de então.

 

Cale-se: Além das publicações partidárias, havia algum mecanismo a fim de manter contato com a imprensa?

Mário: A ALN dirigiu uma redação de jornal em São Paulo. Na redação da Folha da Tarde, em São Paulo, o diretor colaborava com a ALN; o chefe de reportagem, Frei Beto, era militante da ALN; o editor do caderno de variedades, Luiz Roberto Clauset, militante da ALN, a repórter do caderno de variedades, Rose Nogueira, militante da ALN. Vários outros colaboradores da ALN, e isso tá explicado em detalhes no livro. Por exemplo, a ALN não foi a primeira organização armada a tomar uma rádio e divulgar um manifesto, o problema é que alcançava a audiência normal da rádio e morria ali, porque ninguém mais podia publicar o manifesto. Quando eles invadem a Rádio Nacional de São Paulo, que era a rádio de maior audiência do estado, no programa policial matinal, o de maior audiência. O problema deles era como fazer para publicar um texto que a audiência da rádio tá ouvindo e fazê-lo chegar a mais pessoas. E ai eles comunicaram ao diretor de um jornal em São Paulo, que se chamava Hermínio Sachetta. Isso vem no capítulo “Quem não se comunica se trumbica”. Aí ele chega, publica e vai preso. O único cara que paga imediatamente com prisão e desemprego por cinco anos. A operação da rádio era contra a luta armada, então ele publicaria o manifesto para ajudar. É a ideia do Marighella, com base no manifesto que é publicado, “Ao povo brasileiro”, e acaba tendo repercussão. Ele não invadiu a rádio, nem gravou a mensagem, mas o texto era dele e dizia que o ministro dos transportes de então, o coronel Mario Andreazza, era ladrão, chamava de ladrão, gatuno. O Mario Andreazza vai para as páginas amarelas da então jovem revista Veja responder ao Marighella. Ele cria um círculo de notícia e discussão que foi muito bem sucedido da parte do Marighella. Aí eu questiono no livro, por que o Andreazza parecia tão ingênuo a ponto de ir à Veja repercutir o manifesto do Marighella, o qual já tinha morrido ali em São Paulo, e tal? Provavelmente era pra dar satisfação aos pares do próprio Frei Betto, envolvido em disputas internas, de que não era corrupto, né. A invasão da Rádio Nacional em São Paulo não foi nada perto do que foi no Rio de janeiro, à meia-noite e pouco, entrando um locutor ao vivo e lendo o manifesto do sequestro do Charles Elbrick. O sequestro não era só a ideia de libertar companheiros para salvar a vida deles. Era também furar a censura. E ganharam. O manifesto foi publicado em todos os jornais do Rio e o manifesto foi lido na rádio e na televisão. Ganharam!

Dentro da ALN tinha imprensa, em muitas redações era muito forte, muito influente na Editora Abril. Havia um jornalista ex-militante da ALN que estava começando. O Marighella já tinha sido morto, e ele conseguiu autorização do Câmara Ferreira para, ao invés de pegar armas no serviço militar, estagiar como jornalista na Editora Abril.  O nome dele é Juca Kfouri, entrevistado e personagem do livro. Já fez uma coluna linda sobre o Marighella e a memória dele de militante da ALN. Estava no estádio vendo Corinthians e Santos quando os alto-falantes anunciaram a morte do Marighella. Então, a luta armada tinha muitos pés dentro do jornalismo. Depois do AI-5, os espaços para divulgação das ideias da luta armada foram reduzindo muito.

 

Cale-se: Carlos Marighella vivenciou as duas maiores ditaduras brasileiras. Quais as diferenças do Marighella da resistência ao Estado Novo em relação ao da ditadura militar?

Mário: Marighella viveu o Estado Novo, no qual durante a maior parte do tempo o PCB apoiou Getúlio. Em julho de 1940, o comitê central inteiro do PCB tava preso. Marighella não era do comitê central ainda. Então eles apoiavam Getulio. O Partido Comunista racha e Marighella é mandado para São Paulo em 1937, porque o comando do PCB, então chefiado por um cara de apelido Bangu, de Mossoró, RN, resolveu apoiar José Américo de Almeida, grande escritor paraibano. Não havia ainda o Estado Novo, que entra em vigor por golpe em novembro e cancela eleições de 38. Se me derem a honra de ler o livro, vão ver que Marighella, chefiando parte minoritária do PCB que rachou em São Paulo tinha uma política de combater o flanco fascista do governo Getúlio. Eles combatem os integralistas e os pró-eixo nazifascista entro do governo. Ai quando vem a ditadura, ele diz “Estou de saco cheio de meios termos, composições e manifestos. A mesa de reuniões não reúne mais os revolucionários, o que reúne é a ação. Quem quiser ir pro pau vai”. É assim mesmo, ele escreve assim! Estavam discutindo na organização treinamento de luta pessoal, “Treinamento de luta pessoal? luta é dedo no olho, chute no saco e acabou”. Este é o Marighella guerrilheiro. Agora, o Marighella foi preso em 1936, quando ele passou três semanas na tortura. Tá dito no capítulo “Três semanas no inferno”. Ele estava organizando toda a imprensa, ele que levava os jornais e panfletos para imprimir, ele que distribuía, era uma coisa muito importante. Na época da guerrilha isso já é secundário, embora ele nunca tenha escrito tantos manifestos quanto na guerrilha. Eles imprimiam. O problema era como fazer chegar à população. A imprensa não publicava, uma parte porque tava censurada, outra parte porque apoiava não só a ditadura, mas seus órgãos de repressão mais pesados.

Em 66, já havia mais de uma ordem de prisão contra ele. Ele compôs e imprimiu livros de poesias na gráfica de um cunhado ali na zona portuária, um português casado com uma irmã dele, dona Tereza, a última dos 8 irmãos vivos. Ainda entrevistei, mas ela já faleceu. Ele distribuía livros de poesias, que o Jacob Groender, que não sabe como ele fazia, diz no “Combate das Trevas” que eram algo espetacular. Mas os poemas que dão o tom desse livro de 66 não são políticos, são eróticos. Isso era o Carlos Marighella.

O problema todo era como fazer chegar essa mensagem às massas. Vocês vão ver num capítulo chamado “É melhor ser alegre que ser triste”. Ele se trancava aqui no subúrbio, em Todos Os Santos. Não sei se algum de vocês aqui é do subúrbio aqui. Tem uma tradição no Rio hoje de achar que só tem um bairro no subúrbio, que se chama Méier. Agora o pessoal descobriu que tem o Engenho de Dentro por causa do Engenhão. Tem um monte de bairrozinho, como o Lins, e tem um ali que se chama Todos Os Santos, que é onde ele tinha o aparelho dele, seu último esconderijo, que literariamente me permite contar que quem tinha nascido na Bahia de todos os santos, tava em casa ali, né. O clipe dos Racionais tem um pouco desse áudio (a que ele se referia). É ele gravando mensagens para serem colocadas nos alto-falantes das praças do país. E o legal, pra Fortaleza, pro Doutor Silvio Mota, foi uma fita, entre um manifesto e outro, Martinho da Vila cantando. E aqui foi um desafio de descobrir. Acabei nem tendo que recorrer ao Ruy Castro, que mataria a charada, porque a internet resolveu. A gravação é muito ruim. Das quatro músicas, entre manifestos, que ele botava no toca-discos, as três mulheres que frequentavam lá me contaram de uma vitrolinha em que ele colocava o disco, só que era instrumental, muito mal gravado. Das quatro músicas reconheci três. Descobri que a quarta era de um disco instrumental do Milton Banana Trio de 68. Uma delas era o “Samba da Benção”. Apesar de instrumental, evocava a letra, “é melhor ser alegre que ser triste”. Pô, o cara é inimigo público número um, não podia sair de casa, e este era o espírito dele.

REALENGO, 7/4/2011
De que monstro falamos?

João Batista de Abreu

A chacina da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, se reveste de aspectos surpreendentes, seja pelo caráter inédito da ação violenta, seja pela morte de 12 jovens e adolescentes de camadas médias. Algo aparentemente sem razão que ameaça o que chamamos de índole pacífica da sociedade cristã brasileira.

O drama das famílias, o relato dos sobreviventes, a disposição do policial, o perfil do atirador, o comportamento introvertido, as denúncias de bullying, a carta deixada pelo jovem Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos, com detalhes sobre como gostaria de ser sepultado. Todos esses fatores compõem um caldo jornalístico capaz de consumir a atenção de qualquer leitor.

Mas o que tem essa tragédia de desconcertante aos olhos do poder público e da sociedade civil? O que agrava a sentimento de inconformismo e de injustiça social, além da sensação de impotência do Estado?

Como espelhos

Certamente, a ausência de um culpado vivo. Alguém que pudesse ser preso, ameaçado de linchamento, condenado e exposto à execração pública, como se fosse capaz de aplacar o profundo sofrimento das famílias. Para preencher esse vazio, jornais de viés sensacionalista cunharam a expressão "monstro de Realengo". Outros buscaram nas entrelinhas da carta deixada pelo jovem vestígios de terrorismo e estimularam, mesmo que indiretamente, um sentimento antimuçulmano, uma vez que nos últimos anos boa parte dos atos violentos, de natureza política, são atribuídos a grupos radicais islâmicos.

Tudo isso coroado pelas palavras apressadas do governador Sérgio Cabral – travestido de psiquiatra – que diagnosticou um quadro psicótico para o assassino. Como se o cenário brasileiro não mostrasse rotineiramente casos de "esquizofrenia política" a cada véspera de eleição.

Religião, medo, violência e ignorância são ingredientes indispensáveis a um caldo cultural que faz florescer preconceitos. Se não tiverem cuidado, os meios de comunicação podem cozinhar em fogo alto esse prato de preconceitos. Não é preciso conhecer muito de psicologia social para saber que pessoas execradas publicamente numa situação extrema podem com o tempo transformar-se em mártires e servir de espelho para atos semelhantes. Estado e meios de comunicação não constroem heróis, nem mártires, nem beatos, mas ajudam muito a globalizar suas personalidades.

Quinze minutos

E nada melhor para reforçar a idéia de martírio do que enterrar Wellington em plena Sexta-feira Santa, porque venceu o prazo legal de 15 dias para a reivindicação do corpo pela família. Menos mal que tenham realizado o sepultamento no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, e não no Cemitério de Santa Cruz, reservado aos indigentes.

A ressurreição midiática não acontecerá no terceiro dia, mas pode cristalizar-se na repetição de chacinas semelhantes, praticadas por jovens que também sofrem de desvios comportamentais e se sentiriam gratificados com os 15 minutos de glória previstos por Andy Warhol.

 

COMISSÃO DA VERDADE
Para que serve?

 

Por João Batista de Abreu em 18/1/2011

Professor, poeta, cronista e um dos maiores conhecedores da obra de Carlos Drummond de Andrade, o mineiro Affonso Romano de Sant’Anna tropeçou em pedras no meio do caminho ao condenar a criação da comissão da verdade, para investigar os crimes praticados em nome do Estado brasileiro durante o regime militar (ver aqui).

Independentemente da posição ideológica de cada cidadão brasileiro, as famílias têm o direito de localizar seus entes desaparecidos, assim como o Estado democrático tem o dever de colaborar para que seja recuperada a veracidade dos episódios da trama política, mesmo os mais escabrosos. Do contrário deixaremos insepulto um cadáver que mancha a tradição do país e, particularmente, das Forças Armadas brasileiras e de membros do Ministério Público, que fingiam ignorar as denúncias apresentadas pelos réus e advogados de defesa durante audiências na Justiça militar.

O livro Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira, em que Frei Betto narra os suplícios do frei dominicano Fernando de Brito, ex-preso político, traz um depoimento importante sobre a relação entre os torturadores e o Estado:

"A tortura no regime militar brasileiro é sistêmica; suas diretrizes foram definidas pelo Conselho de Segurança Nacional. Portanto não deriva de abusos. Os agentes do DOI-CODI usam codinomes, trajes civis e são impedidos de corte militar dos cabelos. Atuam em grupos de três a cinco, e seus endereços são preservados".

História preservada

Quase todos os países da América e da Europa Oriental que viveram sob ditaduras durante a Guerra Fria instauraram comissões para investigar os crimes de Estado. A vizinha Argentina – onde a repressão foi muito mais violenta do que no Brasil – tornou públicos documentos secretos e prendeu oficiais e ex-presidentes envolvidos em assassinatos e desaparecimentos. Uruguai, Chile e Peru seguiram o mesmo caminho e recuperaram a história dos tempos do arbítrio. Somente o Brasil insiste em varrer a sujeira para debaixo do tapete.

Se é verdade que um grupo de sete pessoas não tem poder bastante para levantar os nomes dos torturadores, que cometeram as maiores atrocidades em dependências militares como o DOI-CODI, em São Paulo, e o quartel da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro, então poderíamos questionar qualquer decisão da Justiça criminal, porque sete é o número de jurados que decidem a sorte dos acusados de crime de morte, nos julgamentos em primeira instância.

Por que não tornar público os nomes de empresários que financiaram a Operação – paramilitar – Bandeirantes (Oban), criada na ante-sala dos gabinetes oficiais? Por que não divulgar os nomes de donos de jornais que emprestavam veículos para operações antiguerrilha? A quem interessa manter os jovens brasileiros à margem dessa página obscura de nossa História?

O historiador francês Marc Bloch, herói da Resistência, cunhou um pensamento peculiar sobre a importância do conhecimento. Preso pela Gestapo em Lyon, à espera do fuzilamento, escreve uma carta ao filho de seis anos sobre o valor de se estudar História. Primeiro, ele questiona a idéia de que um conhecimento profundo evitaria a repetição dos erros do passado. Se assim fosse, não haveria nazismo. Para quem pensa que a História serve para combater as injustiças sociais, Bloch argumenta que, se assim fosse, não estaria ele prestes a ser fuzilado. Para que serve a História? Poderíamos dizer que serve para mostrar que em tempos de arbítrio, seja qual for o matiz da ditadura, os crimes de Estado não atingem apenas aqueles que se opõem ao regime, mas a toda uma geração que viveu sob o signo do medo.

 

 

 

Chacina de Acari vira arquivo morto

Vinte anos depois da morte de jovens inocentes no subúrbio carioca, o crime vai prescrever nos próximos dias por falta de provas. Ninguém foi condenado.

Em 2006, as estudantes de Jornalismo e hoje repórteres Maria Luiza Muniz e Renata Cunha publicaram primeira vez no Cale-se o texto abaixo:

 

O caso

Em 26 de julho de 1990, 11 jovens desapareceram na região de Magé, no Grande Rio. Passados 16 anos, nenhum deles foi encontrado e os parentes das vítimas sofrem com a sensação de descaso por parte das autoridades.

Uma semana antes do desaparecimento, segundo moradores, policiais militares teriam entrado na favela de Acari, durante uma festa julina, procurando por Luiz Carlos Vasconcelos de Deus (Lula), 32 anos, Wallace Oliveira do Nascimento, 17 anos, e Moisés Santos Cruz (Moi), 26 anos. À época, os três mantinham uma ‘sociedade forçada’ com estes policiais, já que eram obrigados a dividir o produto dos roubos e seqüestros que realizavam. Moi e outros dois jovens, Edson de Souza Costa, 17 anos, e Viviane da Silva, 13 anos, ficaram detidos em um cárcere improvisado na casa de Edméia da Silva Euzébio, moradora de Acari, que viria a ser uma das mais ativas Mães de Acari. O movimento dessas mães surgiu a partir do desaparecimento de seus filhos em um sítio Suruí, local escolhido pelos rapazes extorquidos para se refugiarem durante alguns dias na companhia de amigos e, supostamente, para esconder o produto dos roubos.

Entre os desaparecidos estavam ainda as namoradas de Lula, Rosana Souza Santos, 17 anos, e de Wallace, Cristiane Souza Leite, 17 anos. O filho de Edméia, Luiz Henrique Eusébio da Silva (Gunga), 17 anos, a namorada Viviane, Hudson de Oliveira Silva, 16 anos, Antonio Carlos da Silva, 17 anos, e Hédio Oliveira do Nascimento, 30 anos, se juntaram aos demais e foram até o sítio de dona Laudicena Oliveira do Nascimento, mãe deste último, e avó de Wallace.


O caso que começou com o seqüestro de 11 jovens do subúrbio do Rio de Janeiro mudou a rotina de 11 mães, que ficaram conhecidas como as Mães de Acari. Vera Lucia Flores Leite, hoje com 58 anos, é mãe de Cristiane e conta que a procura pela filha fez com que ela largasse o serviço para acompanhar as investigações juntos com os policiais. Vera, que na época morava próximo a Acari, na Fazenda Botafogo, diz que enfrentou desconfianças das pessoas que moravam na favela, quando lá chegou em busca da filha. “Notei que as pessoas se retraíram quando eu cheguei, eles achavam que por eu ser mulher se policial ia passar informações, mas eu estava ali à procura da Cristiane”, lembra a mãe, que soube da viagem que a filha havia feito em companhia dos amigos apenas quando foi comunicada acerca do desaparecimento. Vera Lucia conta o marido saiu de casa no final de 1990: “Meu ex-marido teve uma reação estranha, não tomou partido, nunca participou de nenhum movimento”, afirma Vera Lucia, que logo passou encontrar apoio nas outras Mães de Acari.

A causa

Marilene Lima e Souza, 54 anos, e Vera Lucia são duas das mães mais envolvidas com a causa atualmente. Marilene, que também deixou o trabalho para dedicar-se à procurar pela filha, após 16 anos, constata: “Eu me desqualifiquei para o mercado”. A mãe de Rosana Souza Santos, que hoje estaria com 35 anos, tem outros quatro filhos, mas reconhece que a busca pela filha desaparecida “adormeceu não só profissional, mas a mãe e a mulher”. Logo no início da entrevista, realizada pouco antes de uma manifestação em frente ao Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Marilene desabafou: “Eu tenho a certidão de nascimento, mas não tenho certidão de óbito da minha filha. As Mães de Acari são mães de filhos pobres, com dificuldade para criar seus filhos com dignidade e querem enterrá-los com dignidade”.

Márcia Pereira Leite, professora de sociologia da UERJ, considera que a decisão de tornar a dor pública representa um desejo de transformar o caso em uma causa. “Esta luta está muitas vezes relacionada ao ato de limpar a memória do próprio filho, fazer justiça e dar um sentido para que a morte dele não tenha sido em vão”, observa a pesquisadora, que ressalta ainda a importância da formação de uma rede de apoio mútuo e da troca de informações para que as mães conseguissem persistir.

Para Carlos Nobre, jornalista e autor do livro Mães de Acari: uma história de luta contra a impunidade, a ausência dos corpos favoreceu a reação das mães em busca de informações sobre o paradeiro de seus filhos: “houve um vácuo de corpos e isso despertou nas mães outro tipo de interesse, porque se houvesse corpos, elas iam enterrar e sepultar, iam se conformar porque já estavam acostumadas com uma ação de grupos paramilitares.”

Vera Lucia e Marilene, na década de 1990, conseguiram entrar em contato com movimentos de mães de vários lugares do mundo, chamando a atenção de organismos internacionais de defesa dos direitos humanos para o desaparecimento de suas filhas e dos outros seqüestrados. Marilene ressalta um aspecto positivo de carregar o “rótulo de Mãe de Acari”: “Hoje nós temos inserção Há uma grande família de mães de vítimas da violência”. No início, não eram recebidas nas delegacias e nem por autoridades. “Eles diziam que não iam receber mães chorando”, se queixa. Para Vera, o contato com a Anistia Internacional foi muito importante. “Hoje eu sei onde eu posso entrar. Eu entro, saio e as pessoas têm que me respeitar,” afirma.

A advogada responsável pelo caso Acari, Cristina Leonardo, diz que “as Mães de Acari foram precursoras no Brasil”. Seis anos após o desaparecimento dos 11 de Acari, a advogada organizou uma campanha com as Mães da Cinelância e de Acari. A campanha ganhou grande notoriedade ao ser envolvida na trama da novela Explode Coração, da autora Gloria Peres, exibida em horário nobre. “Como as Mães de Acari tinham mais experiência do que as que estavam ali na Candelária, eu coloquei elas como monitoras, como agentes multiplicadores”, explica a advogada, que foi assistente de acusação nas chacinas de Candelária e de Vigário Geral. As duas ocorreram em 1993 e deixaram um saldo de 29 mortos.

No início deste ano, em 15 janeiro, uma das Mães de Acari mais ativas à época, foi morta a tiros quando deixava um presídio, onde dava continuidade às suas investigações paralelas para descobrir o paradeiro de seu filho. Edméia, mãe de Luiz Henrique da Silva Euzébio, testemunhou a extorsão que estaria ligada ao desaparecimento de seu filho e dos amigos no sítio em Suruí. Vera Lucia conta que Edméia sofria várias ameaças. “Ela era uma líder na comunidade e recebia bilhetes para que calasse a boca”, relata Vera, para quem “a morte de Edméia derrubou o grupo”.

O coronel da Polícia Militar Walmir Alves Brum, que investigou o caso atuando na corregedoria da PM, acredita que “as mesma pessoas envolvidas na morte de Edméia estariam envolvidas na Chacina de Acari. O coronel afirma que recebeu informações sobre uma testemunha capaz de identificar os executores da Mães de Acari. A investigação está em curso no Ministério Público do Rio e Brum garante: “Só não vão chegar aos culpados se não quiserem, porque eu indiquei o mandante e os executores, mas não tenho atribuição para fazer esse tipo de investigação. Somente a Delegacia de Homicídios poderia fazer isso”.

No mesmo ano do assassinato da Mãe de Acari, Mário Luis de Andrade Ferreira (Mario Maluco) foi preso, julgado e absolvido por unanimidade. Brum afirma que ele próprio foi uma das testemunhas que inocentaram Mario Maluco. “Ele foi confundido. Só participaram policiais da morte de Edméia. Até havia um que não era policial, mas que tinha envolvimento com eles”, defende o coronel.

Quanto ao episódio da extorsão realizada por policiais, Brum afirma que, na época, esta foi devidamente esclarecida. “Mas por uma manobra que a gente não conhece bem, a promotora do caso, da auditoria militar, arquivou o procedimento. Isso é um fato que chamou atenção porque a motivação do crime foi a extorsão que acontecia dentro da favela.” O coronel acrescenta que “os policiais acharam que foram enganados pelos criminosos”.

 

 

Atrás das fronteiras do Morro do Estado
Malu Muniz*

Fonte: Jornal do Brasil, caderno Niterói - 28 de junho de 2007

(clique na imagem para ampliar)


Estive lá em 2007. Foi impressionante ver aquele amontoado de pessoas dividindo minúsculos espaços - uns ainda mais apertados e comedidos que outros. Entre as melhores coisas que vivi ao longo do breve contato com o jornalismo foi conhecer melhor as comunidades de Niterói, e atravessar 'fronteiras' (invisíveis) nunca ultrapassadas por - por receio e desconhecimento.

O primeiro produzido pelo último.

Quando possível, me auto-escalava para 'pautas sociais'. Em algumas oportunidades, percorri cantos alheios à Niterói que conhecia até então. Distante da cobertura policial, a qual essas áreas estão quase sempre relacionadas, procurava novas abordagens. E uma delas me deixou particularmente satisfeita.

(Enquanto escrevo este texto, mais uma viatura do Corpo de Bombeiros percorre ruas próximas. O barulho vem se aproximando. Indica pressa e urgência.)

Num domingo de 2007, numa visita 'exploratória' pelo Morro do Estado, durante meu esvaziado plantão de fim de semana, fui levada a conhecer algumas famílias. Aquelas pessoas há tempos buscavam permissão e ajuda para remover uma enorme árvore que ameaçava desabar e atingir as casas semeadas ao seu redor.

A árvore era enorme, cheia de galhos e raízes que se misturavam com as casas ali assentadas. Após conversar com alguns moradores fui me dando conta de que tratavam-se de famílias migrantes, nordestinas, que viviam no pé da enorme árvore, e formavam elas próprias uma mesma árvore genealógica.


Um era irmão do outro, que era primo daquele, que era sobrinho de alguém mais adiante, que era filho... E por aí seguia.


Enfim a pauta da árvore que ameaçava famílias não chegou a agradar tanto quanto a ideia de retratar a vida de uma comunidade de migrantes nordestinos em torno daquele enorme pé-de-não-sei-o-quê. A matéria por fim ocupou as páginas centrais do caderno de Niterói do JB.

Hoje, ao receber o e-mail abaixo reproduzido, e tendo ouvido no rádio a contabilização dos cadáveres desse lado de cá da Baía, me lembrei daquela enorme família - de seus galhos e ramificações. Bateu uma curiosidade de saber como estão. Será que a velha árvore continua de pé? Será que os moradores ainda dividem espaço com aquelas enormes raízes e galhos? Teria a árvore sido retirada para evitar tragédias futuras como as que vejo noticiarem no rádio e na TV? Como estão aqueles quase conterrâneos (sou filha de nordestino e não consigo deixar de me sentir um pouco pertencente àquelas bandas mais próximas do Equador)? Incomodada, vou amaciar minha curiosidade... Mas como seria bom 'pescar' das ondas do rádio - ou de algum outro veículo - alguma informação. Qualquer uma... Ou melhor, uma das boas! Tento me convencer de que notícia ruim chega rápido. Agora pouco ligou um amigo contando sobre a morte de distantes conhecidos naquele mesmo morro.


Torço para que a árvore genealógica que conheci há três anos não tenha perdido um galho sequer. E que outras sejam poupadas.


Amém.


Algo me diz que as dezenas de edifícios, que surgem nesta cidade como se da terra brotassem do dia pra noite no lugar de velhas casas, não contribuem para uma urbanização planejada e responsável. Mas é só uma intuição...

Morro do Estado enterra seus mortos


Os moradores do Morro do Estado enterraram nesta quarta-feira, 7, os corpos de três pessoas, vítimas das enchentes que assolaram a região do Grande Rio. Mas já se mobilizam, através da Associação de Moradores, para reivindicar obras de contenção de encostas e limpeza. O município de Niterói contabilizou o maior número de mortes, em decorrência das enchentes. Dezenas de pessoas continuam desaparecidas. O número de feridos edesabrigados não para de crescer. Ainda em Niterói, oito bombeiros ficaram feridos durante um resgate. O prefeito Jorge Roberto Silveira decretou luto de sete dias e estado de calamidade pública. As aulas nas escolas municipais estão suspensas por tempo indeterminado.

Posto de arrecadação de donativos

O Clube Canto do Rio, no Centro, está recebendo doações para as vítimas das chuvas. O clube fica na Rua Visconde de Rio Branco, 701, no centro de Niterói (próximo às Barcas). O telefone para contato é (21) 26208018. Serão bem vindos colchonetes, cobertores, alimentos não perecíveis, leite em pó, roupas de cama, vestuário e produtos de limpeza. A Prefeitura de Niterói divulgou que 12 escolas municipais estão preparadas para receber os desabrigados. São elas: Rachid (Santa Bárbara); ErnaniMoreira Franco (Fonseca); Antonio Vieira (Morro do Estado); João Brasil(Morro do Castro); Paulo Freire (Fonseca); Nilo Neves (Boa Vista), JoséAnchieta ( Morro do Céu) e Senador Vasconcelos Torres (Jacaré). Já a escola estadual Capistrano, também em Santa Bárbara, serve de Posto de Alimentação.


* A jornalista Malu Muniz, formada no IACS/ UFF, é uma das idealizadoras do site Calese como projeto de extensão da Universidade Federal Fluminense. Hoje é mestranda em Ciências Sociais.

 

Anistia x impunidade*

Silvio Tendler, cineasta

 

Ao ministro da Defesa, Exmo dr. Nelson Jobim,


Invado sua caixa de mensagem pedindo atenção para um tema que trata do futuro, não do passado. O senhor me conhece pessoalmente e lembra-se de que, quando fui secretário de Cultura de Brasília, em 1996, o senhor era ministro da Justiça e instituiu e deu no Festival de Cinema de Brasília um prêmio para o filme que melhor abordasse a questão dos direitos humanos. Era uma preocupação comum a nossa.

Por que me dirijo agora ao senhor? Um punhado de cidadãos – hoje somos mais de dez mil – assinamos um manifesto afirmando que os envolvidos em crimes de tortura em nome do Estado brasileiro devem ser julgados e punidos por seus atos, contrários aos mais elementares sentimentos da nacionalidade. Agimos em nome da intransigente defesa dos direitos humanos.

O senhor, ministro das Defesa, homem comprometido com a ordem democrática, eminente advogado constitucionalista, um dos redatores e subscritores da Constituição de 1988, hoje em ação concertada com os comandantes das Forças Armadas, condena a iniciativa de punir torturadores.

Este gesto, na prática, resulta em dar proteção a bandidos que desonraram a farda qe vestiam ao torturar, estuprar, roubar, enriquecer ilicitamente sempre agindo em nome das instituições que juraram defender. É incompreensível que o nosso futuro democrático seja posto em risco para acobertar crimes praticados por bandidos, o que reforça a sensação de impunidade.

O que está em juízo não é o julgamento das Forças Armadas, como afirmam os que as querem arrastar para o lodo moral em que mergulharam. Os chefes militares podem ficar tranqüilos porque seus antecessores não irão para a cadeia pelos crimes que cometeram.

O senhor deve estar se perguntando o porquê di meu empenho nesta causa. Vou lê contar. Despontei para a vida adulta sob a ditadura militar. Em 1964 tinha 14 anos e cresci sob o signo do medo. Sou de uma família de judeus liberais, meu pai advogado e minha mãe médica. Invoco as raízes judaicas porque meus pais eram muito marcados pelo Holocausto, pelos crimes nazistas cometidos contra a Humanidade. Tínhamos medo das soluções autoritárias.

Em 1969, um companheiro de cineclubismo sequestrou um avião para Cuba. Não tive nada a ver com isso. Meu crime foi ser amigo – sim, meu crime foi o de ser amigo de um seqüestrador. Quase fui preso. Escapei dessa situação pela coragem pessoal de minha mãe, que driblou os imbecis fardados que foram me prender e consegui fugir de casa nas barbas da turma do Ministério da Aeronáutica. Tive também a ajuda do coronel-aviador Afrânio Aguiar, que se empenhou até a medula para que eu não fosse preso e massacrado na Aeronáutica.

Em 1970 fui viver no Chile por livre e espontânea vontade. Em janeiro de 1971, do Chile, mandei uma carta para minha mãe. O gesto lhe custou prisão e maus-tratos. Na carta pedia a minha mãe que me enviasse livros e minha máquina de escrever. Militares do DOI-Codi arrombaram minha casa, à procura de uma metralhadora (assim entenderam o que seria “máquina de escrever”). Minha mãe foi levada para o quartel da PE na Barão de Mesquita,onde foi humilhada e um dos “patriotas” que a conduziu assumiu de forma permanente a guarda do relógio que entrou com ela na PE e não voltou para casa.

Amigos ocultos numa rede de gente decente ajudaram a tirar minha mãe daquela filial verde-oliva do inferno. Sim, ministro, havia muita gente decente nas Forças Armadas. O que leva chefes militares e o ministro da Defesa a se pronunciaram contra a apuração de crimes? Tortura, estupro, morte, muitas vezes seguidos de roubo, são atos políticos passíveis de anistia?

Os chefes militares pronunciam-se a favor do pagamento de reparações às vítimas do arbítrio como um ato indenizatório. No meu caso, ministro, posso lhe dizer que não há dinheiro que feche essa conta. Não pedi anistia nem indenização porque acho que não sou merecedor. A reparação que peço é a punição exemplar dos torturadores da minha mãe. O senhor há de concordar que não estou pedindo muito nem nada despropositado.

Justiça, peço apenas justiça.

Bom 2010 para o senhor.


* Texto transcrito da página de opinião de O Globo,
na edição de 8 de janeiro de 2010

 


20 anos depois

Fuga de alemães pela fronteira
da Hungria faz ruir muro de Berlim

                                           João Batista de Abreu



No dia 9 de novembro de 1989, os berlinenses tomaram as ruas para comemorar a eliminação física e simbólica daqueles imensos blocos de concreto que dividiam em duas, desde agosto de 1961, a antiga capital alemã. Herança da Guerra Fria que incendiou a disputa entre as duas maiores potências do pós-guerra – Estados Unidos e União Soviética – o Muro de Berlim marcou a separação de famílias, ideologias, amigos, conceitos, colegas de trabalho, relação com o capital, deixando uma ferida aberta na sociedade alemã.

Ainda hoje os principais meios de comunicação pouco divulgam os episódios que antecederam a derrubada do muro de Berlim, como a decisão das autoridades da Hungria, também integrante do Pacto de Varsóvia, de abrir as fronteiras com a Áustria em Sobron, no verão de 1989, para a passagem de cidadãos da Alemanha Oriental. Muitos abandonaram seus velhos carros a poucos metros da fronteira verde e, malas na mão e crianças no colo, se aventuraram pelos cinco quilômetros da zona de exclusão, sujeitos a tiros dos guardas da milícia dos trabalhadores, e ingressaram em território austríaco rumo à Alemanha Ocidental.

O presidente da Hungria, Miklos Nemeth, o ministro das Relações Exteriores, Gyula Horn, e os líderes soviéticos Mikhail Gorbatchov e Edward Schevarnadze desempenharam papel fundamental neste processo de abertura de fronteira que plantou a semente das negociações que fizeram florescer a queda do muro. Gorbatchov deixou claro a Erick Honecker, secretário-geral do Partido Socialista da RDA, que não mandaria tropas soviéticas para evitar a debandada de cidadãos alemães rumo ao Ocidente. Em março, o Parlamento húngaro aprovara a adesão à Convenção de Genebra para Refugiados, que condenava o uso de armas de fogo contra pessoas que tentassem ultrapassar a fronteira.

Outro episódio que entrou para História foi a ocupação da embaixada da República Federal da Alemanha (RFA) em Praga por 3 mil cidadãos da Alemanha Oriental, entre os quais 300 crianças. Com a ajuda de organismos humanitários, da Igreja Católica e do prefeito da capital tcheca, no dia 4 de outubro os refugiados conseguiram embarcar em trens que deixaram Praga pouco antes da meia-noite para chegar a Baviera, do lado ocidental, na manhã seguinte. À tarde, mal a equipe da Cruz Vermelha retirava os colchonetes do pátio, novo grupo de alemães invadiria a mesma embaixada para tentar empreitada semelhante, num processo de êxodo que parecia não ter mais fim. De janeiro a 9 de novembro de 1989, 130 mil alemães cruzaram a linha divisória que um dia o primeiro-ministro britânico, Winston Chrchill, batizara de “cortina de ferro”. A expressão passou a ocupar lugar de destaque nos jornais, emissoras de rádio e de TV do mundo ocidental, quando se tratava de tomar partido na Guerra Fria contra os países integrantes do Pacto de Varsóvia.

O curioso é que o episódio, até hoje desconhecido por boa parte da população brasileira, mereceu apenas um registro (nota coberta) no Jornal da Globo, em 1989. O locutor descreve, num texto curto, as imagens de alemães atravessando a pé a fronteira entre a Hungria e a Áustria, na região de Sopron. A impressão é de que aquilo poderia ser um rompante idealista de um guarda de fronteira, quando na realidade se tratava de uma decisão de Estado.

Os documentários de TV “O sonho de Budapeste” e “A embaixada em Praga”, ambos produzidos por Joseph Stader e exibidos tempos atrás pelo canal GNT de TV por assinatura, trazem relatos comoventes de pessoas que largaram praticamente tudo por uma chance de alcançar o lado austríaco. Vale lembrar que, impedidos de chegar ao lado ocidental, centenas de alemães costumavam atravessar a Tchecoslováquia no verão para passar as férias às margens do Lago Balatan, na Hungria. Era o pretexto de que precisavam para planejar fugas em massa. Estima-se que entre agosto e setembro de 1989, dois meses antes da queda do muro, havia 60 mil alemães orientais acampados na Hungria aguardando o momento de cruzar a fronteira.

Mas nem todos tiveram a mesma sorte. O documentário mostra que Werner Schultz morreu após levar um tiro de fuzil de um soldado da chamada milícia dos trabalhadores, ligada ao Partido Comunista, ao tentar atravessar a zona de exclusão com a mulher e o filho. A mãe e a criança conseguiram escapar.

A construção, com 155 quilômetros de concreto na cidade e arredores de Berlim, estendia-se sob a forma de cerca de arame farpado e 1 mil torres de controle ao longo dos 900 quilômetros de fronteira entre as duas Alemanhas tomadas como botim de guerra. Significava um divisor inflexível entre o mundo capitalista, representado pela República Federal da Alemanha (RFA), beneficiada pelo Plano Marshall, e o bloco comunista, personalizado pela República Democrática da Alemanha (RDA), integrante do Pacto de Varsóvia. A Guerra Fria e seu muro inspiraram livros, filmes, músicas e serviram de pano de fundo para uma luta surda entre os serviços de espionagem dos países que saíram vencedores da Segunda Guerra Mundial.

Duas décadas após a queda do muro e 19 anos depois da reunificação, a Alemanha enfrenta problemas sérios para conciliar as relações políticas, sociais e econômicas a que os trabalhadores alemães se acostumaram em 40 anos de coexistência nem sempre pacífica. Os investimentos maciços da Alemanha Ocidental na modernização do parque industrial do lado oriental e os esforços de reciclagem da mão-de-obra operária ainda não surtiram os efeitos desejados para garantir uma reunificação de fato. Mesmo sem o muro, os mundos do trabalho e das relações sociais continuam a impor barreiras.



Seminário na UFRJ
discute segurança cidadã

A Universidade Federal do Rio de Janeiro promove na segunda-feira, dia 9 de novembro, um seminário sobre direitos humanos e segurança cidadã, no Fórum de Ciência e Cultura, no campus da Praia Vermelha, Salão Moniz de Aragão, entre 9h30min e 17h30min, com entrada franca.

O seminário reúne os seguintes palestrantes: Michel Misse, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, Celia Passos, mestra em Direito e Sociologia pela UFF; Luiz Eduardo Soares, ex-secretário Nacional de Segurança e professor da UERJ; Lia Diskin, fundadora da Associação Palas Athena, e Evandro Vieira Ouriques, professor da Escola de Comunicação da UFRJ.

A atividade é organizada pelo Núcleo de Estudos Trandisciplinares de Comunicação e Consciência da ECO/UFRJ e tem como parceiros institucionais a Associação Palas Athena-SP, ANDI-Agência de Notícias dos Direitos da Infância, o Núcleo de Estudos do Futuro da PUC.SP, e o Centro de Informações das Nações Unidas no Rio de Janeiro.


Universidades lembram
30 anos da Lei de Anistia


A Universidade Federal Rio de Janeiro vai homenagear nesta quarta-feira, dia 30, os ex-alunos e ex-funcionários desaparecidos durante a ditadura militar. A solenidade será no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, no campus da Praia Vermelha, junto à Escola de Comunicação.

Na PUC-Rio, haverá palestras entre quarta-feira, dia 30, e sexta-feira, 2 de outubro, nos auditórios FB6 e FB8, no evento chamado “30 anos da Lei de Anistia: Justiça, Verdade, Memória e Reparação”.

As atividades fazem parte das comemorações do 30º aniversário da Lei de Anistia, assinada em 29 de setembro de 1979 pelo presidente da República, general João Batista Figueiredo, como parte do processo de redemocratização do país.

Mais informações:
http://www.nepp-dh.ufrj.br/eventos.php?id=a1
http://www.jur.puc-rio.br/index.html

 


Trinta Anos de Anistia e os
Operários Navais do Rio de Janeiro

Felipe Pontes


Trinta anos após a promulgação da Lei da Anistia pelo general João Batista Figueiredo – último a ocupar a presidência durante o regime militar – , operários da construção naval de Niterói e São Gonçalo ainda esperam a reparação econômica, mas a maioria dos que requereram já conseguiu a indenização. Um deles, o carpinteiro e serralheiro José Gonçalves, hoje com 82 anos, guarda na memória os dois meses em que passou na cadeia por sua militância política no Sindicato dos Operários Navais do Rio de Janeiro (SON-RJ), com sede em Niterói.

– Nós entramos em greve porque o Brasil todo entrou em greve contra a ditadura, mas o golpe foi concretizado. Dia 6 de abril nós voltamos ao trabalho no Lloyd Brasileiro, no Mocanguê Pequeno, onde eu era delegado geral do setor. Chegamos lá, a ilha estava cercada de fuzileiros navais. Recebemos ordens de ninguém mudar a roupa e manter-se em frente aos seus armários. Em cada armário tinha um fuzileiro, esperando que nós abríssemos para busca de material subversivo, recorda José Gonçalves.

Para quem acredita que o desrespeito aos direitos humanos se agravou somente após o Ato Institucional 5, em dezembro de 1968, José Gonçalves, diante das cadeiras vazias do auditório do SON-RJ, emociona-se ao contar o que o aconteceu a seguir, no mesmo 6 de abril de 1964: “Estávamos eu e os companheiros Vilela e Edmar, ambos hoje mortos. Nos puseram num paredão, de concreto, joelho, cabeça e queixo no muro e mão na cabeça, nós três, ai eu senti realmente que era meu fim, quando ouvimos a voz de comando. ‘Pelotão, sentido! Preparar armas!’”


Gonçalves: fuzilamento ficou na memória


A guerra psicológica continuou e José Gonçalves foi submetido a mais uma simulação de fuzilamento aquela mesma noite, antes de ser levado para o DOPS no Rio de Janeiro. Lá, não teve o mesmo tratamento de outro companheiro de cela, que retornou espancado da sessão de interrogatório. Na sua vez, após não delatar ninguém, – “como é que eu ia denunciar, como é que eu ia provar que alguém era comunista?” – recebeu como pena uma estadia de 14 dias no Centro de Armamento da Marinha (CAM), em uma sala que tinha “tudo de mármore, o chão de mármore, as prateleiras de mármore” e nenhum banheiro. Ao todo eram 16 detentos.

A frieza do mármore da sala cárcere tem semelhança com a frieza e a lentidão da Justiça. Depois de ir a Brasília duas vezes sem que, diante do juiz, o relator fosse capaz de encontrar o processo de José Gonçalves, o serralheiro obteve finalmente em julho o deferimento de sua reparação econômica mensal. Mesmo assim, ainda com erros, já que o retroativo foi calculado com 10 anos a menos. Ele continua ao aguardo da primeira parcela da indenização e arremata a entrevista com um pensamento: “Sempre tivemos um brasileiro no governo, mas nunca tivemos um governo brasileiro. Para mim, Lula é um traidor do movimento operário”.

Benedito Santos, 80 anos, presidente do Sindicato dos Operários Navais do Rio de Janeiro em 1963, se refugiou em um sítio em Itaboraí antes de ser encontrado e detido. “Pela nossa posição política, nós já sabíamos o que viria com o regime militar e resolvemos nos esconder num primeiro momento.” Membro do Partido Comunista desde o início da década de 1950, Benedito também ficou detido dois meses. Teve os direitos políticos cassados logo pelo Ato Institucional 1, em abril de 1964, mas dos entrevistados foi o único a ingressar seriamente na política após a anistia de 1979.

Benedito trocou o Partido Comunista pelo PDT de Leonel Brizola ao lado de Luiz Carlos Prestes, em 1982, e foi eleito vereador de São Gonçalo no mesmo ano. Na década de 90, chegou a ser vice-prefeito do município e presidente regional do PDT. Continua membro ativo do partido.


Benedito: ativo na política até hoje


Uma das histórias bem sucedidas de anistia política concedida a operários navais, o ex-líder sindical teve seu status de anistiado político reconhecido ainda na vigência da primeira lei e teve seu processo revisado à medida que novas regras vinham a ser implementadas. Recebe hoje reparação mensal equivalente ao salário de carpinteiro naval, como se estivesse na ativa, consideradas possíveis promoções.

O ex-caldeireiro Célio Ribeiro, 67 anos, não chegou a ser detido, mas teve logo apreendida sua caderneta de embarque, da Capitania dos Portos, o que o impossibilitou de trabalhar. Ficou desempregado até a restituição do documento. Quando a repressão amainou, voltou a ser caldeireiro por um par de anos, mas resolveu inscrever-se em um curso técnico de contabilidade, na Faculdade de Formação de Professores da UERJ, atual Faculdade de Educação da Baixada Fluminense. Formou-se depois no curso superior de Estudos Sociais. Lecionou por dois anos em escolas de São Gonçalo, antes de dedicar-se de vez à contabilidade, ocupação pela qual recebe uma aposentadoria do INSS.


Ribeiro: de caldeireiro a contador


Célio Ribeiro ainda aguarda que o seu processo entre em pauta em Brasília, momento no qual terá 48 horas para comparecer ao julgamento. Apesar da espera, considera que na gestão do novo presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, a diligência dos processos foi aprimorada e continua confiante no aguardo. Acredita ainda que, apesar dos pesares, a era PT trouxe benefícios ao trabalhador.

Apesar de representar uma conquista dos movimentos em defesa dos direitos humanos, a Lei de Anistia de 1979 não foi irrestrita como se pleiteava, já que continha em seu segundo parágrafo a ressalva: "Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal", cabendo nessa frase interpretações subjetivas. A lei acabou por isentar os torturadores, num movimento que perdura até hoje, apesar da inadmissão da autoanistia pela Corte Interamericana dos Direitos Humanos, na qual o Brasil é réu.

No período civil a lei, que beneficiava perseguidos políticos entre 1961 a 1985, teve sua abrangência ampliada para entre 1946 e 1988 e foi incorporada à Constituição de 1988, quando passou a dispor também sobre dispositivos indenizatórios.

Decretada como medida provisória e aprovada no Congresso Nacional um ano depois como emenda constitucional, a Lei 10.559/2002 veio substituir as anteriores. Possui cinco capítulos, além de especificar com detalhes a jurisdição do anistiado político, diferencia dois tipos não cumulativos de reparações econômicas de caráter indenizatório – o pago em parcela única, nunca excedente a 100 mil reais, e o pago mensalmente, aplicável a perseguidos políticos prejudicados em sua atividade laboral.

Foi criada, junto com a nova lei, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, com a atribuição de lidar com o grande volume de requerimentos recebidos. Desde sua criação, foram apreciados 46.097 processos, com 29.909 deferimentos.

 

Construção naval,
emergindo da crise

Após décadas de retração, a construção naval voltou a crescer e atingiu, em agosto de 2008, a marca de 40 mil postos de trabalho, mesmo patamar da década de 70. O Sindicato dos Operários Navais do Rio de Janeiro (SON-RJ) conta hoje com cerca de 500 associados. Mas há 45 anos, no início de 1964 – poucos meses antes do golpe militar –, mais de 20 mil carpinteiros, soldadores, caldeireiros, entre outras ocupações, engrossavam o quadro de sócios daquela instituição, o que a posicionava, ao lado de sindicatos como os dos ferroviários e siderúrgicos, no cerne do sindicalismo nacional.




Nos tempos em que as reformas de base eram assunto cotidiano, o presidente João Goulart reconhecia a importância política do Sindicato como ator nas negociações por direitos trabalhistas, reunindo-se com seus líderes em diversas ocasiões. Em 1963, quando a sustentação do governo Jango começava a deteriorar, o SON encabeçava um dos 172 movimentos grevistas daquele ano. Não é de surpreender que a ditadura tenha concentrado naquele sindicato um dos primeiros e mais violentos focos repressivos.
Os operários da construção naval de Niterói e São Gonçalo, onde se concentra desde aquela época a maior parte dos estaleiros no Estado do Rio, foram uns dos que mais sofreram com a repressão militar.


Equipamentos e espaços adaptados reduzem
barreiras de alunos portadores de deficiência

 

Camila Liporoni

 

Os brasileiros portadores de deficiência que frequentam a escola podem exigir da instituição a instalação de rampas de acesso, sanitários adaptados e equipamentos para o aprendizado. Esse direito está assegurado desde 2003 pela Portaria nº 3284, do Ministério da Educação.

De acordo com o censo do IBGE de 2000, dos 24,5 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, apenas 3,2 milhões freqüentaram algum tipo de escola. Este número cai para 700 mil quando se trata de portadores de deficiência entre 18 e 29 anos, idade média de ingresso no ensino superior.

Preocupada com a inserção de estudantes com necessidades especiais, a Pró-Reitoria de Assuntos Acadêmicos (PROAC) criou em 2006 o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão- Sensibiliza UFF. O projeto nasceu de uma idéia da médica Luiza Santos Moreira da Costa, professora do Instituto de Saúde da Comunidade. Diferente de núcleos essencialmente assistencialistas de outras universidades, Luiza Costa explica que o Sensibiliza nasceu com uma proposta mais ousada. “Pensamos não só em disponibilizar equipamentos e softwares aos alunos, mas também adotar uma política inclusiva sejam por meio de um suporte técnico e pedagógico de professores e funcionários que trabalham diretamente com esses estudantes”.

Em 2006, o Núcleo de Acessibilidade aos Deficientes da Universidade iniciou projetos de parceria com instituições como a Associação Fluminense de Amparo aos Cegos (AFAC), Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência (COMPEDE) de Niterói, Centro de Vida Independente (CVI), Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Audição (APADA) e Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (ANDEF). A proposta é promover a inclusão dos alunos com deficiência, como transtornos do desenvolvimento, dislexia e altas habilidades como a superdotação, por meio da redução de barreiras metodológicas, instrumentais, arquitetônicas e de comunicação.

No ano de 2007, a Secretaria de Educação Especial do MEC liberou uma verba de R$ 94 mil para aquisição de equipamentos e para mobiliar o espaço físico e, que será inaugurado no próximo dia 10 de junho, ás 15 horas, com a presença do reitor Roberto de Souza Salles, no Núcleo de Documentação (NDC), fundos, Campus Gragoatá, São Domingos, Niterói.

Com a verba do Projeto Incluir, a UFF comprou 3 laptops com adaptações especiais, 1 impressora em braile, 1 lupa eletrônica, 1 microfone de cabeça, cadeiras de roda, dentre outros, e contratou uma professora da linguagem de sinais (Libras). No caso da impressora, ela imprime em braille; nos computadores é
instalado programa ledor de tela. Em sala de aula ou na biblioteca a
pessoa cega usa um fone de ouvido; as pessoas com baixa visão podem
ampliar a fonte de textos para leitura, sem qualquer outra alteração; a
lupa eletrônica amplia e altera o contraste fundo das letras para
permitir leitura de material impresso; o microfone de cabeça permite que
pessoas com movimentos involuntários possam falar em público
ao microfone. Alunos com deficiência poderão usá-los, sendo preciso entrar em contato com o Núcleo Sensibiliza UFF e efetuar o cadastro.


Cristina Delau, Luíza Costa e Camila Alves

Em maio a aluna Camila Araújo Alves, do 2º período de Psicologia, recebeu o primeiro laptop adaptado comprado pelo Sensibiliza, pelas mãos da idealizadora do Projeto e também pela psicóloga e integrante do Sensibiliza, Cristina Delau. Mineira de Ponte Nova, município da Zona da Mata, Camila, de 19 anos, começou a reduzir a visão progressivamente até a perda total, aos 15 anos. No vestibular a estudante optou pela prova oral, realizada em Juiz de Fora, Minas Gerais. “O atendimento foi ótimo e não tive problema com os leitores. Quando eu entrei na UFF, pensei que seria bem pior, mas me surpreendi. Fiquei sabendo do Sensibiliza, que me dá apoio desde o início”. O laptop será utilizado durante todo o curso pela estudante devendo ser en tregue ao final da graduação.

As barreiras arquitetônicas representam um grande desafio aos estudantes com deficiência. O campus do Gragoatá, que abriga os cursos de Letras, Serviço Social, Educação, História, Ciências Sociais, Psicologia, Relações Internacionais, tem calçamento de paralelepípedo, o que dificulta a circulação de cadeirantes e deficientes visuais. O calçamento do campus da Praia Vermelha apresenta o mesmo problema. Já os prédios de Direito, Economia e do Instituto de Arte e Comunicação Social, com menos pavimentos, não possuem elevadores, o que prejudica o acesso aos alunos com cadeiras de rodas aos andares superiores.

Antes de assumir a Pró-reitoria de Pesquisa e Pós Graduação, o professor Antônio Cláudio Lucas da Nóbrega, tinha dificuldade de freqüentar as salas da PROPP, no terceiro andar da reitoria. Há 10 anos, o carro de Antonio Cláudio foi atingido por tiros numa tentativa de assalto, perto do Túnel Rebouças, e uma das balas acertou a medula, deixando-o paraplégico. Depois do episódio, o pesquisador do CNPq e professor de Farmacologia e Fisiologia conta que precisava voltar para o Instituto Biomédico, quando os dois velhos elevadores da reitoria não funcionavam.

Antônio Cláudio admite falhas na acessibilidade dos campi universitários: “O acesso é ruim, mas existe uma boa vontade das pessoas de facilitar o acesso. Isso é um ponto positivo. Lógico que não é o ideal, mas temos o direito à cidadania plena e não deveria haver barreiras ao acesso, independente de ajuda ou não. Depois do meu acidente o diretor do Biomédico mandou construir rampas para facilitar o acesso”. .

A professora Luiza Costa defende a realização de um levantamento sobre o número de portadores de deficiência na Universidade. “A gente só conhece os alunos que pedem apoio no vestibular e que são aprovados”. De acordo com o cadastro do Sensibiliza, 15 estudantes portadores de deficiência frequentam os campi da UFF em Niterói, mas os responsáveis pelo projeto suspeitam que haja muitos outros ainda não identificados.

Na próxima inscrição em disciplinas, que ocorrerá em agosto, o Sensibiliza pretende organizar um censo para contabilizar o número de estudantes portadores de deficiência matriculados nos cursos da Universidade. A psicóloga Cristina Carvalho Delau reconhece que o Sensibiliza UFF tem um longo caminho a percorrer. “Enquanto não se respeitar o princípio de igualdade de oportunidades e do reconhecimento do direito humano no desenvolvimento das potencialidades dos estudantes com altas habilidades, como a superdotação, assim como de todos os alunos que fogem à média geral, programas como o Sensibiliza continuarão sendo indispensáveis para conscientizar a comunidade acadêmica”, frisa Cristina Delau.

 

 

 

 

 
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