Outras Lógicas na Educação
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QUANDO TUDO COMEÇA

Regene Brito Westphal
Mestre em Educação/Universidade Federal Fuminense; Doutora em Saúde Mental pela universidade Federal do Rio de Janeiro; Professora de Sociologia da Educação na Universidade Castelo Branco. Endereço eletrônico: regebw@terra.com.br

Quando tudo começa? Tudo começa com a possibilidade de qualquer criança que chega ao mundo ter acesso a um processo saudável de intermediação com as pessoas e com o meio no qual deverá se integrar e construir sua identidade social.
O mundo para a criança é como uma moldura vazia em que cores e formas, de diferentes matizes, definirão gradativamente a paisagem que a acolherá, ou a rejeitará. Nesse processo, o equilíbrio entre cores e formas pode ser decisivo para suas escolhas existenciais, para o seu devir. Nenhuma proposta metodológica, e são tantas, pode garantir bons resultados sem ingredientes fundamentais que farão toda a diferença nessa intermediação e garantirão esse equilíbrio. Ingredientes como proteção, acolhimento, disponibilidade, valorização e acima de tudo, sinceridade quanto às possibilidades e limitações da condição humana no mundo contemporâneo. Quando Tudo Começa é um filme que mostra os esforços de uma escola na busca desse equilíbrio.

Quando Tudo Começa é o título em português de um filme francês que, em 1999, contribuiu , e continua contribuindo, com aqueles que se interessam ou dedicam parte de sua vida à educação. Especialmente a educação de crianças. Seu título original Ça commence aujurd’hui (Isso começa hoje) parece sugerir o mesmo sentido dado à tradução adaptada: o início da possibilidade de se construir um mundo melhor, ou pior. Seu conteúdo retrata de forma sensível o cotidiano de uma escola pública de Educação Infantil, situada no norte da França. Um cotidiano que revela a realidade de crianças que iniciam seu processo de socialização em meio a tensões entre famílias socialmente vulneráveis, benefícios estatais insuficientes e a escola de um diretor que, por sua origem e história, conhece bem os efeitos dessas tensões e tenta amenizar seus impactos junto aos pequeninos.

Embora ambientado na França, o filme revela em sua trama questões também presentes na vida cotidiana de muitas crianças brasileiras. Pais desempregados, deprimidos, drogados negligenciam seus filhos. As conseqüências dessa negligência, muitas vezes involuntária, resvalam na escola que começa ampliar seus limites de intervenção na tentativa de suprir, nem sempre com sucesso, as demandas de seus pequenos alunos. O desemprego e a depressão dos pais, a fome, as necessidades especiais nem sempre atendidas, a violência doméstica e a baixa autoestima aparecem no filme, e também na realidade de muitos, como resultados de uma ordem mundial econômica e socialmente perversa.

O filme surpreende pela abordagem de questões que, embora em diferentes níveis, são hoje universais.

Didaticamente o filme tem sido de grande valia para estudantes de pedagogia e serviço social na medida em que retrata de forma clara e incisiva como os impactos da dinâmica política, econômica e social de uma sociedade, pode influenciar a prática cotidiana de profissionais que lidam com a educação e a proteção da criança. Isto porque aborda, de forma exemplar, algumas questões contemporâneas já analisadas por teóricos como Bauman e Castel.

Jovens pais desempregados e apáticos diante das limitações que o mercado os impõem exemplificam a desafiliação de um contingente populacional que Castel classifica como supranumerários, ou seja, indivíduos colocados em situação de flutuação na estrutura social, excluídos do processo produtivo. Os pais personagens do filme elucidam a geração de inúteis para o mundo que a perversidade da ordem econômica capitalista vem gradativamente aumentando. (1998, p.23)

Ao analisar as transformações históricas que envolvem a “questão social”, Castel mostra como o liberalismo gera um processo de exclusão que atinge cada vez mais indivíduos demandantes de benefícios sociais. Demandas sociais que cada vez menos podem ser supridas em função do déficit crônico de um Estado que não garante mais o bem-estar social dos supranumerários. Não consegue mais cumprir seu papel intermediador / protetor das relações entre capital e trabalho.
Diferente do Estado brasileiro, o Estado de bem-estar social na França chegou a ser uma realidade. No entanto, o filme, através dessa fatia da realidade francesa, retrata a crise que nos últimos trinta anos os países do Primeiro Mundo vêm enfrentando. O Estado de bem-estar social já não é capaz de manter o equilíbrio entre a arrecadação tributária e os custos dos benefícios sociais, que se fazem necessários a um número cada vez maior de demandantes. Em uma das cenas o diálogo entre o diretor da escola e o prefeito socialista caracteriza essa mudança de prioridade em relação à aplicação dos recursos públicos. Seu eleitor, o diretor cobra os compromissos de campanha para os avanços sociais de sua cidade e recebe como resposta um rol de limitações econômicas e políticas para viabilizar o prometido. Realidade não muito diferente do que vivemos no Brasil.

Segundo Bauman,os dispositivos da previdência do Estado de bem-estar social originalmente se configurava como uma rede de segurança para os temporariamente inaptos. Funcionava como um seguro coletivo que garantia ao cidadão o direito de se reerguer dos impactos temporários sofridos na corrida do capital pelo lucro. Hoje, a situação não é mais transitória para a maioria dos desempregados e ser beneficiário desses dispositivos se tornou um estigma dos incapazes e imprevidentes. ( 1998, p.50-52)

A “questão social” se deslocou da sociedade para o indivíduo. Cresceu o número de famílias “incapazes” de cumprir sua função social de prover e proteger seus rebentos e os demais atores sociais co-responsáveis nessa função, como por exemplo a escola, na maioria das vezes se sente sobrecarregada e mal preparada para atender as demandas infantis que se apresentam em seu dia a dia.

O filme é um excelente instrumento de sensibilização para os que lidam com crianças, na França ou no Brasil, porque explicita as contradições do mundo contemporâneo. Contradições que atingem a todos, mas atingem principalmente as crianças. A todas, independente do país ou grupo social a que pertencem. Mas especialmente as crianças das classes populares, aquelas que precisam não só de escola pública, mas dependem também de benefícios sociais mínimos para suprir à incapacidade produtiva de seus pais. Essas chegam à escola já “carimbadas” com o estigma dos incapazes e imprevidentes e nem sempre encontram, como no filme, um diretor e um corpo docente que compreendem a importância de sua contribuição no equilíbrio entre as cores e formas que garantirão uma paisagem acolhedora para a moldura vazia de cada criança sob seus cuidados. Escolas, diretores e professores devem sempre lembrar a importância do acolhimento, da proteção, da valorização e da alegria na construção dessa paisagem. Como a cena final do filme em que rostos infantis expressam a felicidade com a festa colorida que ajudaram a produzir.

Em qualquer lugar do planeta tudo começa com a possibilidade de cada vez mais crianças, construírem uma identidade social positiva, lúcida, e potente para reverter as desigualdades postas na realidade concreta.

BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
CASTEl , Robert . As metamorfoses da questão social. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
DEMO, Pedro. Educação pelo avesso - assistência como direito e como problema. São Paulo: Cortez editora, 2000.
PAIXÃO, Lea Pinheiro. “Quando tudo começa” in A escola vai ao cinema. Belo Horizonte: Autêntica, 2003
SINGER , Paul. “Poder, política e educação”. Conferência de abertura da XVIII Reunião da ANPED, Caxambu, outubro de 1995.

Ficha Técnica do Filme: Ça commence aujourd’hui
Origem: França
Direção: Bertand Tavernier
Roteiro: Dominique Sampiero, Tyffani Tavernier e Bertrand Tavernier
Produção: A . Sarde e F. Bourboulon
Drama. 1h57m.