Centro de Pesquisas da UFF voltado para o meio ambiente será implantado em MaricáA Universidade Federal Fluminense fechou parceria com o município de Maricá através da Companhia de Desenvolvimento de Maricá (CODEMAR) para a implementação de uma série de projetos na área do saneamento básico. As iniciativas envolvem a instalação do Centro de Pesquisas em Saneamento e Estudos Oceanográficos (AEQUOR), a despoluição da Lagoa de Maricá (LAGOA VIVAS), o Programa de Cursos de Aperfeiçoamento dos Servidores Públicos (PATEC), a balneabilidade das praias internas do ecossistema lagunar e o controle da qualidade de água dos poços artesianos da cidade. O projeto está em fase inicial de diagnóstico dos córregos contaminados e tem previsão de conclusão em três anos. O AEQUOR pretende desenvolver e aprimorar sistemas que possibilitem atingir ambientes de difícil acesso e baixa renda em Maricá - Estefan Monteiro De acordo com o coordenador geral do projeto e professor do Instituto de Geociências da UFF, Estefan Monteiro da Fonseca, o acordo firmado tem o objetivo principal de executar pesquisas aplicadas nas diversas vertentes de demanda da localidade. “A região sofre com dificuldades de saneamento e falta de água e o convênio visa auxiliar na gestão do problema. O município vem investindo em seu crescimento, atraindo assim mais moradores, o que pode sobrecarregar a infraestrutura e o meio ambiente. Considerando essa realidade, daremos suporte para estabelecer estratégias de amortecimento desses efeitos. A primeira área de dedicação do projeto foi o saneamento básico”. A equipe do projeto multidisciplinar é formada, até o momento, pelos docentes: Miriam Crapez (Coordenadora Técnica), Nuno Leal (Coordenador Técnico), Marcelo Pompermeyer (Coordenador de Área), Jessica Delgado (Coordenadora de Área), Leonardo Lima (Coordenador de Área), Fabiana Pompermeyer (Coordenadora de Área), Khauê Vieira (Coordenador de Área) dos departamentos de Biologia Marinha, Geologia e Geofísica. A implantação do Centro de Pesquisas em Saneamento e Estudos Oceanográficos (AEQUOR), de acordo com o professor, é um importante primeiro passo para o desenvolvimento de técnicas de remediação de ambientes poluídos. “O AEQUOR surge à partir de uma série de projetos na área ambiental de gestão de saneamento desenvolvidos pelos departamentos de Geologia e Geofísica da UFF. A partir dos métodos elaborados, os pesquisadores entenderam a necessidade de aplicá-los além dos muros da instituição”, pontua. “As técnicas utilizadas estão sendo trazidas de fora do país através de cursos e palestras com especialistas internacionais. Já está prevista a visita do professor Klaus Fricke, especialista em resíduos da Universidade de Braunschweig da Alemanha. Também serão palestrantes os pesquisadores Christine Gaylarde, da Universidade de Oklahoma (E.U.A) e Teruo Higa, da EMRO Japão”, Estefan informa. O coordenador aponta que o saneamento no Brasil segue a premissa de países de primeiro mundo que, certamente, têm mais recursos para investir. “O AEQUOR pretende desenvolver e aprimorar sistemas que possibilitem atingir ambientes de difícil acesso e baixa renda em Maricá. Além disso, a construção do projeto seguirá todos os princípios do “Green Building” (Arquitetura Verde). O Centro de Pesquisa contará com seis laboratórios, que serão compostos de containers em palafitas e instalados em uma área ao lado da lagoa. Não haverá supressão vegetal para sua instalação. O tratamento de água será feito através de energia solar e tecnologia própria. Nossa filosofia é criar técnicas de baixo custo”, expõe. Nosso foco é a produção e aplicação de conhecimento científico e tecnológico na construção e execução de políticas públicas em favor da população - Antonio Claudio Lucas da Nóbrega Já na fase da despoluição da Lagoa de Maricá (LAGOAS VIVAS), Estefan explica que será empregada a técnica japonesa dos Micro-organismos Efetivos. “Um grupo de oitenta e seis micro-organismos que serão introduzidos na Lagoa se encarregará da limpeza do lodo acumulado nos canais. O mau cheiro resultante do descarte de esgoto deve sumir em, no máximo, dois meses a partir da aplicação do método. Esse recurso é utilizado no mundo desde 1986 e atualmente a EMBASA (Empresa Baiana de Água e Saneamento) está usando o mesmo método de depuração da água. A técnica é licenciada pela ANVISA e IBAMA”. Em um terceiro momento, o Programa de Cursos de Aperfeiçoamento dos Servidores Públicos (PATEC) será implantado, a fim de oferecer aulas de aperfeiçoamento para os funcionários e professores municipais de Maricá. “Primeiro será feito um levantamento das necessidades dos participantes e, a partir disso, produziremos cursos de especialização. No momento, está em andamento a elaboração do material sobre Gestão Ambiental. Avançaremos com a mobilização da sociedade, promovendo oficinas de conscientização com os moradores sobre a importância do saneamento, impactos sobre a saúde local e importância para o meio ambiente”, relata o coordenador. Em paralelo, a equipe do AEQUOR atuará nas praias internas na Lagoa, avaliando a qualidade de água, para registrar a melhoria do ambiente e no controle da qualidade dos poços artesianos. “A finalidade é avaliar a água fornecida ao público através de poços artesianos e das praias lagunares, com o intuito de rastrear uma possível fonte de enfermidades no município”, pontua Estefan. O grupo de pesquisadores pretende interagir com outros centros de pesquisas brasileiros da área. “Nesse momento crítico para todos, as instituições acadêmicas devem se aliar para compartilhar conhecimentos e colaborar na melhora da qualidade de vida das pessoas”, enfatiza o coordenador geral do projeto. O reitor Antonio Claudio Lucas da Nóbrega reforça que a cooperação institucional da UFF com os municípios está se fortalecendo. “Nosso foco é a produção e aplicação de conhecimento científico e tecnológico na construção e execução de políticas públicas em favor da população. Durante esse processo, articulamos também formação de pessoal qualificado em graduação e pós-graduação nas diferentes áreas do conhecimento, gerando empregabilidade para as pessoas e sustentabilidade para os projetos. É a universidade pública intensificando seu papel de transformação social e econômica com preservação ambiental”, finaliza.
Renda Básica de Cidadania: pesquisadores da UFF participam da ampliação de projeto social pioneiro em MaricáSancionada em janeiro de 2004, a Lei 10.835 procurou mudar o cenário de desigualdades sociais no Brasil ao instituir um programa garantindo benefício monetário anual para brasileiros residentes e estrangeiros residentes há, no mínimo, cinco anos no país. No entanto, a iniciativa ainda não foi aplicada em nenhum município, com exceção de Maricá, cidade do estado do Rio de Janeiro, onde o Programa Renda Básica de Cidadania (RBC), projeto operacionalizado pela Secretaria de Economia Solidária do município, oferece apoio econômico para as famílias maricaenses. A renda é concedida na forma de uma moeda social (denominada mumbuca, em homenagem ao principal rio que abastece a cidade), de uso local e administrada por um banco comunitário. Diferentemente dos outros programas de distribuição de renda no Brasil, como o Bolsa Família, os benefícios do RBC são oferecidos através dessa moeda social, a Mumbuca (com paridade de 1 para 1 com o real), de forma que os gastos deverão ser feitos no próprio município - dinamizando, assim, sua economia. Até o momento, já há mais de 2 mil unidades comerciais cadastradas para receber pagamentos com a moeda social Mumbuca. Além disso, o programa é concedido de forma incondicional: de acordo com o professor Fábio Waltenberg, “para ter direito ao benefício (R$130 por pessoa), basta constar do Cadastro Único do Governo Federal, que inclui famílias com renda até 3 salários mínimos mensais e residir em Maricá há pelo menos três anos”. Pensada primeiramente no século XVI pelo filósofo Thomas More, a Renda Básica de Cidadania é um sistema de proteção social que procura beneficiar monetariamente os cidadãos a fim de atender às despesas mínimas com alimentação, educação e saúde. De acordo com o estudo sobre mobilidade social realizado em junho de 2018 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma família brasileira demora nove gerações para deixar a faixa dos 10% mais pobres e alcançar a renda média do país. Tal quadro reflete o cenário de disparidades sociais em que tanto o Brasil como outras nações do mundo estão inseridas em contexto histórico. Países como Quênia e Finlândia utilizaram projetos-piloto do Programa de Renda Básica, mas a única experiência que se pode considerar como comparável à de Maricá em alguns aspectos é a do estado do Alasca (EUA). No Alasca, entretanto, embora toda a população residente seja beneficiária, o pagamento não é mensal e sim anual, o valor não é predeterminado e os benefícios não são pagos na forma de moeda social como em Maricá. Tendo como foco a ampliação do programa, o Jain Family Institute (JFI), instituto de pesquisas privado de Nova York, financiará estudos para a avaliação do Renda Básica de Cidadania. “O benefício alcança 26 mil pessoas e será expandido para 52 mil em 2020, com, inclusive, intenção de expandir o programa a toda a população do município”, afirma Fábio Waltenberg, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e diretor científico da Rede Brasileira de Renda Básica. O pesquisador será coordenador de uma equipe brasileira que irá analisar o RBC, visto que a avaliação se enquadra nas atividades do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFF e do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento (Cede). “Enquanto demandas, temos a contratação de empresas especializadas para a realização de surveys (pesquisas de mercado quantitativas) e entrevistas com beneficiários do programa, não beneficiários e também com figuras públicas da cidade de Maricá”, ressalta o coordenador. Além disso, a equipe também pretende aderir a um serviço de monitoramento sistemático das menções à política de RBC. A etapa de elaboração do projeto está sendo realizada na UFF, em parceria com o JFI. Reuniões entre a equipe do instituto e docentes da universidade foram realizadas com uma posterior visita à Secretaria de Economia Solidária de Maricá e ao Banco Mumbuca, contando também com quatro alunos da UFF, que estão envolvidos no projeto desde a etapa preparatória. Com a coleta de dados programada para dezembro, “conforme se ampliem as fontes de financiamento, pretendemos incluir mais professores e alunos da universidade. Trabalhos de conclusão de curso e pesquisas sobre os mais variados temas poderão ser realizadas com os dados e informações que serão levantados ao longo dos 12 meses da pesquisa”, constata Fábio. “É difícil prever o impacto de todos os fenômenos previstos sobre consumo pessoal, qualidade de vida, emprego, renda, demanda e produção. Daí a necessidade de investigá-los de perto”, Fábio Waltenberg De acordo com a doutoranda em Economia na UFF Roberta Mendes e Costa, pesquisadores de Economia Social Aplicada estão acostumados a trabalhar com dados secundários - informações levantadas por outras pessoas ou instituições, como, por exemplo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Participar de um estudo no qual iremos levantar dados primários é uma experiência muito enriquecedora, pois possibilita trabalhar em todas as etapas de uma pesquisa aplicada: desde a elaboração do questionário, passando pela coleta dos dados, até a análise dos resultados”, constata. “A pesquisa, no geral, tem por objetivo entender os efeitos que o programa RBC tem sobre diferentes aspectos da vida dos beneficiários, como o bem-estar, padrão de consumo, oferta de trabalho, percepções sobre políticas públicas e engajamento político”, sintetiza Roberta. O estudo também tenciona compreender as etapas de desenvolvimento e implementação do programa RBC, motivo pelo qual serão conduzidas entrevistas com os principais atores envolvidos nesse processo. Por ainda estar em fase de implementação, a análise da ampliação da iniciativa se mostra uma etapa imprescindível para o sucesso do processo, sendo possível observar seus resultados iniciais em níveis individuais e coletivos. Acredita-se que os beneficiários ganharão com a segurança econômica proporcionada pela renda garantida, planejando melhor seus gastos e investimentos. “O aumento da renda domiciliar regular poderia também estimular as famílias a contratarem no mercado certos serviços de cuidados, como os de creches, asilos, babás, cuidadores de idosos e de portadores de deficiência, liberando mais profissionais da área a participarem do mercado de trabalho”, destaca Fábio. Todavia, segundo o pesquisador, existem temores acerca da implementação do projeto. O mais comum se baseia na redução da jornada de trabalho que alguns profissionais poderiam aderir — ou até mesmo se demitirem — devido à concessão do benefício de forma incondicional e sem contrapartidas. “Também há certo temor sobre a inflação, visto que, no agregado, haverá mais dinheiro em circulação nas mãos dos maricaenses. Se isto ocorresse, e se a inflação atingisse produtos da cesta de consumo dos mais pobres, as pessoas teriam rendas nominais mais elevadas, mas seu poder de compra não aumentaria na mesma medida, correndo risco de cair”, alerta. De acordo com Fábio, a participação da UFF posiciona a universidade como um importante centro de pesquisa, além de gerar possibilidades futuras de parcerias em estudos com outras instituições. Mesmo com algumas incertezas, o Programa Renda Básica de Cidadania é uma iniciativa pioneira frente a outros programas similares distribuídos ao redor do mundo, o que possibilita oportunidades únicas de pesquisa que irão contribuir para a literatura de Renda Básica. “É difícil prever o impacto de todos os fenômenos previstos sobre consumo pessoal, qualidade de vida, emprego, renda, demanda e produção. Daí a necessidade de investigá-los de perto”, finaliza.  
Eduff lança nova edição de “Gente das Areias"Clássico da Antropologia Social, a obra “Gente das Areias: História, meio ambiente e sociedade no litoral brasileiro” ganha uma segunda edição, revista e ampliada, pela Eduff. Nesta obra, os antropólogos Marco Mello e Arno Vogel se unem para destrinchar os efeitos de uma grande matança de peixes em um vilarejo de pescadores na cidade de Maricá, no Rio de Janeiro. Na “luta do tostão contra o milhão”, como chamam os moradores, o drama social é contado a partir de um olhar sensível, que destrincha o que era, efetivamente, a vida “nas aldeias”. Assim, colocam em evidência o que nos passa despercebido durante o cotidiano, colocando o leitor como observador das diferentes paisagens que compõem a realidade dessas pessoas. Alinhando dados estatísticos a experiências empíricas, os pesquisadores concluem sua análise respondendo à seguinte questão: qual o papel do etnógrafo, quando a cultura e a economia das comunidades pesqueiras entram em conflito com os interesses do “progresso” e da especulação imobiliária? O texto que acompanha a orelha do livro é de Leopoldo José Bartolomé, professor emérito da Universidad Nacional de Misiones, na Argentina.   Como comprar