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Programa Educação Patrimonial em Oriximiná: saberes locais em destaque

Alunos da rede municipal de Oriximiná – Foto: Juka Tavares

Em seu oitavo ano de existência, o programa de extensão Educação Patrimonial em Oriximiná celebra um feito: a criação do primeiro curso de pós-graduação lato sensu em Etnoeducação da UFF. O programa é vinculado ao Departamento de Artes e Estudos Culturais (IHS/Puro), no Campus de Rio das Ostras, e ao Departamento de Psicologia (ICHF), em Niterói. As principais ações ocorrem na Unidade Avançada José Veríssimo (UAJV), no Pará, e nas comunidades locais. A etnoeducação é um campo de estudos que tem inspiração na etnografia e pensa as relações de ensino-aprendizagem pelo protagonismo e autonomia dos atores sociais, articulando memória e identidade, patrimônio cultural, comunicação e educação, com valorização dos saberes tradicionais. As aulas da pós são realizadas à distância e o primeiro módulo começa no final deste mês. Haverá dois encontros presenciais na UAJV, um no início e outro no fim do semestre letivo.

“A pós-graduação foi uma demanda que os educadores de Oriximiná nos fizeram desde 2014 e, ao longo de 2015, concebemos um curso fortemente extensionista. A proposta e o planejamento das disciplinas são realizados de forma compartilhada na equipe. O material de apoio, ‘Cadernos de Estudos em Etnoeducação’, foi preparado a muitas mãos, entre docentes, bolsistas e estudantes”, explicou Adriana Russi, coordenadora do programa. “Ainda neste semestre enviaremos a campo 20 estudantes da UFF de diferentes cursos, como psicologia, antropologia, comunicação, produção cultural, serviço social, entre outros, para um importante trabalho de visitas de campo. Os alunos extensionistas acompanharão o trabalho dos cursistas, que são educadores e profissionais da cultura na região”.

A professora Adriana divide a coordenação com o professor Johnny Alvarez, do curso de Psicologia em Niterói. O grupo conta com diversas instituições parceiras, como a Associação dos Povos Indígenas do Mapuera, a Associação indígena Katxuyana, Tunayana e Kahyana, a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Município de Oriximiná, a escola Missão São Pedro (São Pedro da Aldeia/RJ), a Prefeitura Municipal de Oriximiná e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), com a qual mantém um acordo de cooperação técnica.

Programa faz pesquisa, ensino e extensão em estreita parceria local

O curso de pós-graduação em Etnoeducação é apenas uma das ações que o programa extensionista desenvolve atualmente. Sua atuação se constitui em projetos de pesquisa e intervenção nas escolas e nos grupos locais, com o acompanhamento de professores, etnoeducadores, alunos e membros comunitários em escolas de regiões quilombolas, indígenas e urbanas de Oriximiná, sob uma perspectiva extensionista construída pelos próprios envolvidos.

“A concepção dos temas dos projetos de cada escola, quem vai participar, como cada um fará sua parte, enfim, todos os aspectos que envolvem os projetos em etnoedcuação são decididos de forma coletiva”, acrescentou a coordenadora. Ela destaca que o principal benefício desse contato é aprender com eles a partir da noção de comunidade e da valorização dos saberes que em geral não são reconhecidos pela academia. “Para o povo indígena katxuyana da aldeia Santidade – que foi meu campo de pesquisa do doutorado – é importante enaltecer o que é ser katxuyana, em particular para a geração mais velha. Para isso, eles aproveitaram a oportunidade de participar do nosso programa da UFF e, a cada ano, rapazes e moças da comunidade escolhem diferentes temas para desenvolver seus projetos, focando, por exemplo, em pintura corporal, caça e pesca, construção de canoas ou artesanato”, explicou.

A distância em linha reta entre Oriximiná e Rio das Ostras é de 2754 km. Embora a distância seja grande, a coordenadora afirma que o grupo não abre mão dos encontros presenciais nas mais diferentes comunidades que constituem o município que fica no oeste do estado do Pará – ribeirinhos, população rural de terra firme, quilombolas, indígenas e do centro urbano do quarto maior município brasileiro em extensão territorial, o segundo do estado. Na UFF, a equipe se encontra semanalmente; as viagens a Oriximiná ocorrem de três a quatro vezes ao ano, seja para discutir as propostas daquele ano, para o trabalho de campo ou para as avaliações e construção das propostas dos anos seguintes.

Expedição em Oriximiná deu origem às ações do programa

A origem do trabalho em 2008 se deu a partir de uma investigação sobre patrimônio e educação realizada em Oriximiná por Adriana Russi e três alunos do curso de Produção Cultural. “Na ocasião, fizemos um workshop voltado a educadores, lideranças comunitárias, artistas, artesãos e outros profissionais da área da cultura. Em diálogo com os participantes, fomos surpreendidos com a notícia de que o município, em 2004, havia sido contemplado pelo Ministério do Turismo para uma ação sobre Educação Patrimonial, por meio de um projeto da Universidade Federal de Santa Maria, mas que havia sido abruptamente interrompido com a morte de sua coordenadora. Diante disso, percebemos a pertinência de nossa proposta de extensão e, a partir dali, fomos construindo o projeto de forma compartilhada entre a UFF e a comunidade”, recordou Adriana.

Em 2009 os estudantes foram organizados em equipes para visitarem as comunidades, com observação da produção artesanal. Entre 2010 e 2011, o grupo fez o Inventário do Artesanato Tradicional. “Todo o aspecto metodológico da pesquisa do artesanato de viés antropológico está descrito na publicação impressa que resultou desta pesquisa. Também fizemos um documentário mostrando como foi este trabalho de campo”. A partir de 2012, o programa se voltou para o aprofundamento das questões da educação e do patrimônio, mediante o trabalho com seis escolas em projetos pilotos. De 2013 a 2015, estudantes e docentes, novamente em equipes de campo, foram às escolas acompanhar o desenvolvimento desses projetos. Nos últimos anos, o trabalho tem foco nos processos de valorização dos saberes locais nas escolas.

Um breve relato das experiências nas comunidades participantes do programa Educação Patrimonial está nos Cadernos de Cultura e Educação para o Patrimônio. “A seleção dos temas apresentados resulta de uma escolha sobre aspectos que consideramos relevantes para o trabalho com o patrimônio cultural no cotidiano escolar”, ressaltou Adriana. A publicação impressa e digital, que já conta com quatro volumes, é distribuída nas escolas de Oriximiná e estará disponível para download gratuito no site www.patrimoniocultural.uff.br.

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