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UFF acende debate sobre desospitalização com projeto pioneiro na saúde pública

A unidade de cuidados intermediários promove um uso mais adequado dos recursos e qualifica a experiência hospitalar.

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Superlotação de leitos. Falta de medicação e de profissionais. Ineficiência de tratamentos. Uso inadequado dos recursos. Muitos são os problemas estruturais de grande parte dos hospitais do país. Buscando fazer frente a essa realidade e em diálogo com as necessidades da população, com expectativa de vida cada vez mais elevada, projeto de extensão pioneiro da UFF inaugurará em 2019 um serviço de assistência para melhorar as condições de cuidado dos pacientes do sistema público de saúde. Coordenado pelo professor do Instituto de Saúde Coletiva da UFF, Túlio Batista Franco, em parceria com a Agência Sanitária e Social da Emilia-Romagna, na Itália, e o apoio da Secretaria Municipal de Saúde de Niterói, o projeto prevê a transformação de uma ala não utilizada do hospital municipal Carlos Tortelly em uma “unidade de cuidados intermediários”.

Segundo a diretora da Escola de Enfermagem da UFF, Ana Abrahão, que integra o grupo dentro da universidade responsável pelo projeto, essa unidade seria “um serviço de cuidado ‘localizado’ entre a Atenção Básica e os hospitais. Ou seja, um ponto de apoio às atividades desenvolvidas na Atenção Básica, na qual não se faz necessária a assistência hospitalar ou paliativa, ordenando um novo fluxo de ações preventivas no interior das redes de atenção à saúde”.

Pensamos em cuidar não só do corpo, mas das relações sociais, da subjetividade”, Túlio Franco.

O serviço, pioneiro no sistema de saúde público da cidade, é direcionado a pessoas em condições crônicas que agudizaram os sintomas e não têm possibilidade de serem assistidas em domicílio, a exemplo dos hipertensos, e/ou aquelas que tiveram alta hospitalar mas não têm autonomia, como quem sofreu um acidente vascular cerebral e está com algum comprometimento motor. Dessa forma, explica o professor Túlio Franco, “evita-se uma internação desnecessária nos hospitais comuns, que atualmente não têm condições adequadas para o tratamento e acompanhamento de pacientes com esse perfil”.

Diferentemente dos hospitais tradicionais, a unidade fará uso basicamente de tecnologias leves, voltadas para a reabilitação, com baixo custo e alta eficácia, e sem qualquer procedimento invasivo. Além disso, a equipe será formada por fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e enfermeiros, estes últimos responsáveis pela gestão do cuidado. Segundo o coordenador Túlio, o projeto se apoia em um modelo de saúde que enxerga as pessoas em sua totalidade e que prevê a formação permanente de profissionais para trabalhar na unidade: “pensamos em cuidar não só do corpo, mas das relações sociais, da subjetividade”. Para Ana Abrahão, “isso implica pensar formas de cuidado que não estejam centradas em uma prática segmentar, fracionada e ‘coisificante’ do outro, em que o corpo é repartido em frações cada vez menores, facilitando o conhecimento e, ao mesmo tempo, esquecendo o sujeito”.

Um exemplo de humanização do atendimento consiste no acompanhamento do paciente por parte do médico de família, com quem ele já possui um vínculo anterior nas Unidades Básicas de Saúde, os chamados “postos de saúde”. A assistência por parte desse profissional tem como consequência, inclusive, o fortalecimento da Atenção Básica, considerada a "porta de entrada" dos usuários nos sistemas de saúde, responsável pelos cuidados essenciais da população, sob a gerência do Ministério da Saúde. Dessa forma, a experiência hospitalar passa a ser direcionada mais adequadamente aos pacientes com quadros de saúde agudos, que necessitam ocupar os leitos.

O acompanhamento do paciente por parte do médico de família e o uso predominante de tecnologias leves nas unidades, conferindo acolhimento e humanização ao processo e tornando as práticas de cuidado mediadas sobretudo por relações pessoais, são alguns dos principais diferenciais do projeto em relação a iniciativas similares. A primeira proposta de implantação de uma unidade em moldes semelhantes data de 1950, na Inglaterra, mas muitas outras foram desenvolvidas mundo afora desde então, seguindo uma tendência de desospitalização para melhoria dos cuidados e redução de custos. Países como Inglaterra, Noruega, Itália e Espanha, ao longo destes últimos anos, de acordo com Ana Abrahão, “vêm desenvolvendo um debate interessante sobre formas de organizar e oferecer serviços em saúde que deem uma resposta ao quadro epidemiológico crescente de doenças crônicas não transmissíveis, associadas ao envelhecimento da população”.

Agora temos mais uma oportunidade de experimentar uma forma singular de oferta de cuidado, integrada com a Atenção Básica, e apostando na autonomia do sujeito e sua família”, Ana Abrahão.

Trata-se de uma tentativa de remodelar o atual modelo de atenção à saúde, vigente não só no país, mas em grande parte da cultura ocidental, centrado no hospital e no saber médico. Tais iniciativas têm comprovado a eficácia na redução de reinternações, além de promover um uso mais adequado dos recursos e qualificar a experiência hospitalar, que passa a ser reservada somente a quem precisa de cuidados intensivos e da ocupação de leitos. Além disso, segundo Ana Abrahão, “atua-se preventivamente no cuidado aos usuários antes que se tornem agudos, e também nos cuidados a egressos da internação hospitalar, para que obtenham ganhos de autonomia no retorno ao domicílio”.

Outra conquista do projeto, uma vez efetivado, é a de promover uma reconfiguração dos hospitais de pequeno porte, com até 50 leitos. Com baixa resolutividade e uma média de ocupação em torno de 30%, tais unidades de saúde são marcadas por muitos gastos e pouco aproveitamento. De acordo com o professor Túlio Franco, “a experiência de Niterói, com a ocupação de uma ala vazia do hospital Carlos Tortelly, transformando-a em ‘unidade de cuidado intermediário’, irá propor uma solução para um quadro que o Ministério da Saúde tenta resolver desde 2004”. Uma vez em ação, o projeto, sob a coordenação da UFF, promete transformar o panorama local de cuidado no sistema de saúde público.

De acordo com Ana Abrahão, a efetivação do projeto segue uma tendência histórica da cidade na valorização do Sistema Único de Saúde: “os serviços de saúde em Niterói têm sido vanguarda na Reforma Sanitária Brasileira. E todas essas iniciativas se deram numa parceria entre a UFF e a Secretaria Municipal de Saúde, conferindo densidade política e experiência prática na construção das atuais políticas de saúde no Brasil. Agora temos mais uma oportunidade de experimentar uma forma singular de oferta de cuidado, integrada com a Atenção Básica, e apostando na autonomia do sujeito e sua família”, conclui.

Mas, afinal, o que é a Atenção Básica?
Ver: Política Nacional de Atenção Básica

Fique por dentro da discussão sobre desospitalização no sistema de saúde público do Brasil
Ver: Caderno de Atenção Domiciliar

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