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Pesquisa da UFF destaca impacto do trabalho doméstico na economia nacional

A importância do trabalho doméstico para o bem-estar da sociedade e a invisibilidade atribuída a esses afazeres levaram a professora da Faculdade de Economia da UFF, Hildete Pereira de Melo, a liderar em 2005 uma pesquisa que buscou mensurar o valor dessas atividades realizadas no interior dos lares e que ao longo da história se tornou uma responsabilidade majoritariamente feminina. Outro objetivo do trabalho foi aproximar homens e mulheres e fazê-los debater a dupla jornada feminina e o significado do trabalho caseiro não remunerado não só na vida das mulheres como de toda a sociedade.

Atualmente, mesmo com as mulheres cada vez mais inseridas no mercado de trabalho, elas ainda são as responsáveis por cuidar das crianças, dos idosos e executar a maioria dos afazeres do lar. Em 2016, segundo a Agência de Notícias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a média de horas dedicadas no Brasil ao trabalho doméstico era de 16,7 horas por semana, com grande discrepância entre homens e mulheres: 11,1 horas em média para homens e 20,9 horas em média para mulheres.

Relembrando o início de pesquisa, a professora explica que mensurar os afazeres domésticos significaria acrescentar R$ 235,4 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2005, por exemplo. “Tendo em vista a estimativa de que o número de horas ocupadas pelo sexo feminino em afazeres domésticos é em média o dobro das ocupadas pelo masculino e que o número de mulheres nessa função é em média 2,2 vezes maior, o valor gerado pelos afazeres domésticos por parte delas é, em média, de 82%. Se utilizarmos como referência o ano de 2006, teríamos R$ 213 bilhões, o que equivale ao PIB do Estado do Rio de Janeiro, segundo maior do Brasil”.

Participante ativa do movimento feminista desde os anos 1976, Hildete estima que, em 10 anos, essas atividades geraram o equivalente a um PIB brasileiro, em torno de R$ 5 trilhões ou 10% a cada ano. O dado mais recente, de 2015, estima que as tarefas domésticas representaram o equivalente a 11,3% do PIB daquele ano. O número não é comparável com outros países, pois não há uma metodologia com padrão internacional para o cálculo.

A pesquisa sobre valoração dos afazeres domésticos iniciou-se na Faculdade de Economia em 2005, reunindo Hildete e os professores Cláudio Monteiro Considera e Alberto Di Sabbato. Juntos assinaram artigos e capítulo de livro sobre a temática, que foram publicados em 2006, 2007, 2013 e 2016. Atualmente, o trabalho é desenvolvido pelas docentes Lucilene Morandi e Ruth Helena Dweck, também da Faculdade de Economia.

Para Alberto, as questões referentes ao trabalho feminino, nas cidades e no campo, evidenciam de forma concreta a chamada dupla jornada de trabalho das mulheres. “Com o estudo, meu olhar ficou mais sensível a esta forma de discriminação da mulher na sociedade, que é dissimulada pela crença equivocada de que afazeres domésticos são atributos exclusivamente femininos”, ressalta o economista.

De acordo com a pesquisadora Lucilene Morandi, as mulheres, por terem que assumir as responsabilidades domésticas e pelos cuidados das famílias, além do trabalho não remunerado, e ao mesmo tempo tendo que assumir funções correspondentes ao seu cargo no mercado de trabalho, acabam cumprindo dupla jornada diária. “E não apenas isso! A responsabilidade e o papel feminino no seio familiar as obrigam a se ausentarem do ambiente profissional, por exemplo, no período pós-parto. A sociedade em geral encara esse afastamento como um fator que reduz o nosso espaço no dia a dia profissional, colocando-nos como menos eficientes e incapazes de competir e assumir postos de responsabilidade”, explica.

Ainda segundo Lucilene, o julgamento social é generalizado. “A sociedade não tem clara a ideia de que o custo da reprodução da vida é maior para o sexo feminino, porque somos nós que engravidamos e amamentamos. Além disso, as funções relativas aos cuidados com a família são fundamentais para a sobrevivência e bem-estar de toda a sociedade. Nesse sentido, se a mulher não o realizar, alguém deverá obrigatoriamente fazê-lo”, constata.

A pesquisadora enfatiza que, em geral, o trabalho não remunerado é considerado menor, sem importância. Como é a mulher que se dedica a ele - seja por decisão, imposição social ou falta de alternativa -, ela é julgada no mercado de trabalho como inferior. "Esse julgamento é o que predomina, refletindo no fato de que elas têm em média remuneração menor que a dos homens, mesmo assumindo cargos semelhantes e tendo a mesma formação", aponta.

Atualmente, o Núcleo de Estudos de Gênero e Economia, do qual as docentes Lucilene e Ruth Helena fazem parte, investiga o melhor uso do tempo e analisa como ele deveria ser gasto em trabalho não remunerado realizado no núcleo familiar, seguindo a mesma metodologia desenvolvida no início da pesquisa pela professora Hildete, que também integra o grupo. São utilizados dados de pesquisa disponíveis pelo próprio IBGE que, apesar de não serem suficientes, trazem algumas informações com as quais é possível estimar o tempo gasto pelas mulheres em atividades de cuidados ou de trabalho não remunerado no lar, tendo como referência o custo médio da hora do trabalhador doméstico.

Ao longo de sua trajetória acadêmica, Hildete reconhece a importância de outras mulheres que a apoiaram. “Como mulher branca de classe média, criei três filhos com o auxílio de uma empregada doméstica que trabalhou comigo por 44 anos. Ela, Graça, foi uma das figuras femininas que escolhi para dedicar o livro “Mulheres no poder, histórias, ideias e indicadores”, lançado em março deste ano, em parceria com a doutoranda de Ciências Políticas da UFF, Débora Thomé”, destaca.

A pesquisadora explica que a obra originou-se da união entre suas vivências no ativismo feminista, entre os anos 1976 e 1980, e as novas experiências vividas por Débora, nos dias de hoje. “Essas memórias foram reunidas num projeto acadêmico que apresenta informações fundamentais sobre o tema e que até o momento foram pouco sistematizadas. O texto discute onde se encontram as brechas de gênero que mantêm as mulheres longe das esferas de poder. Acredito que essa discussão seja um passo fundamental para construir a igualdade entre os sexos e raças”, conclui.

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